Parte alguma de uma história sem fim
4 O que for preciso - Parte 2
Notas iniciais
Ele tinha uma moto preta e, felizmente, um segundo capacete. Ela sentou atrás dele, tímida pelo o que deveria ser a primeira vez na vida. Os Guedes não eram uma família composta por pessoas tímidas, simplesmente porque não podiam se dar a esse luxo, e também porque se a ex-matriarca, vulgo a mãe deles, fosse tímida, eles teriam morrido de fome antes mesmo de aprenderem a se virar. Por que tímida, você pergunta. Porque lá estava ela pela estrada, abraçada a ele e sentindo o cheiro de amaciante da sua T-shirt. E gostando.
Ela estava se sentindo bem naquele lugar, abraçada àquela pessoa desconhecida, com aquele cheiro de roupa limpa e sol na pele, os raios aquecendo e o som. Era uma melodia, ela sentia. O vento que rugia por causa da velocidade, conseguindo fazer mais barulho que o próprio motor, os pássaros piando enquanto voavam acima deles e o seu coração, que tava batendo tão forte que parecia querer sair pra dar um rolé com os pássaros.
Ela ousou retirar os braços que estavam em torno dele, fazendo-o desacelerar, provavelmente se perguntando se estava acontecendo alguma coisa. Ela estendeu um braço à sua frente, fazendo que não, “não pare”, e ele voltou a ganhar velocidade. Enquanto sorria, Carmim lentamente levantava as mãos acima da cabeça. Solta, leve, rindo à toa. Coração entregue e olhos fechados. Sim!, “I’m fucking crazy, but I’m free”[1].
Quando estacionaram em frente ao Supermercado, ela parecia meio zonza.
– Ei, você tá bem? — Ele perguntou, divertido, já fora da moto e sem capacete.
– Hmmmmmm — Ela riu um pouco e tentou sair, mas claramente precisava de ajuda. Ele riu, porque ela parecia levemente embriagada e totalmente linda. Os olhos brilhavam e ela parecia corada.
– Alguém gostou do passeio. — Ele a segurou enquanto ela saía e tirava o capacete.
– Cara, isso foi libertador!
– Certo? Gosta um pouco mais de mim agora? — Ele deixou os capacetes ali mesmo pendurados no guidão , duvidando que alguém fosse parar só para levá-los.
– Não apele.
Ainda parecendo flutuar, ela partiu em direção ao mercado prendendo o cabelo no topo da cabeça como um nó. Rapidamente ela pensou se estava feio, e então balançou a cabeça em descrença. “Tá doida, garota? Desde quando você é desse tipo?”
Ele hesitou, sem saber se deveria ir atrás dela, esperá-la ou ir embora. Não é como se tivesse a manhã livre, mas também não é como se, por algum motivo, quisesse ir.
– Então você vai fazer compras ou…? — Ele a seguiu.
– Eu meio que trabalho aqui.
– Então você meio que faz alguma coisa! Olha só, quem diria.
– Ok, fui pega, mas isso é uma exceção. Além disso e de ser a filha do meio, estou na minha zona de conforto quando me encontro nos extremos.
Assim que ela passou pela entrada foi recebida com o cheiro de sempre: salgadinho e amaciante. Provavelmente Geraldo estava na sua mini saleta que ele ostentava com muito orgulho, já que não podia ser visto em nenhum dos caixas azarando as coitadas ou fingindo que exerce algum tipo de autoridade.
– Então você vai trabalhar?
– Não realmente. Vou resolver uma coisa, mas não precisa me esperar.
– Se não for demorar...
Ela revirou os olhos só por fingimento, a ideia dele esperá-la era inesperadamente boa.
– Tanto faz, faça o que quiser.
– Você é tão ingrata...
Ela se adiantou, ganhando distância e rindo. Passou por Carlos, que estava apreçando uns biscoitos que tinham acabado de chegar, ele acenou e ela retribuiu. Ela retribuiu para vários, na verdade, porque era estranhamente popular ali, mas só conversava mesmo com Diego, o cara do ChapaMix, e Carla na lanchonete adjacente e Gina que dividia o trabalho com ela na maioria das vezes e aproveitava para tagarelar da sua vida.
“Trabalhador ocupado, não interrompa!” Dizia a placa na porta do cara. Ela só bateu antes de entrar porque não queria ter que queimar os olhos com nenhuma visão dos infernos.
– Olá, querido gerente. — Sorriso radiante de bajulação.
– Srta. Guedes. — Sorriso de “não-encha-meu-saco”. — O que posso fazer pela senhorita hoje?
– Eu trabalho informalmente aqui, como o senhor já sabe. Eu quebro o galho e nem peço muito por isso. Nada de assinar carteira ou salário integral.
– Até porque a senhorita não trabalha em tempo integral aqui.
– O salário integral do turno. Ganho menos do que o valor da hora, isso quando não sou paga com mantimentos. Mas enfim, não estou aqui para reclamar disso, eu na verdade vim pedir um favor.
– E pra isso antes precisa salientar que é quase uma santa.
– Preciso salientar que favores são dados e favores são recebidos.
– O que quer, srta. Guedes?
– Eu precisarei trazer minha irmã comigo quando eu vier trabalhar. Ela está saindo da creche e não tem ninguém que posso ficar com ela.
– Quantos anos ela tem?
– 6, mas não dá trabalho algum — “quem dera” — fora de casa. E é claro que me responsabilizarei por qualquer coisa que aconteça.
– Exceto que as duas são menores de idade, e não importa o quê o empregador e o estabelecimento são sempre os culpados.
Ela não disse mais nada, só ficou olhando pra ele esperando que ele decidisse sobre.
– Tá, Guedes. Só não me faça arrepender disso.
Ela acenou em agradecimento e saiu. Onde estaria Rob? Ela foi até o fundo do mercado, onde ficava o açougue e os frios de um lado e a padaria de outro, olhando enquanto andava por aquele perímetro entre os corredores, até finalmente achá-lo no de higiene, sentado em um banquinho.
– Me faça entender porque um cara não ligaria para a garota no dia seguinte.
– Porque ele não está interessado? — Respondeu Robert
– Mas e se o sexo foi muito bom?
– E se não foi?
Gina arregalou os olhos, claramente se sentindo ofendida.
– Aaaaah, meu chapa, mas pode apostar que foi. Tem uma coisa que eu faço que é fodidamente bom, eu abro…-
– Gina! — C interrompeu, dividida entre o horror e o divertimento, enquanto se aproximava deles. Cada um estava em um banquinho de madeira e Gina devia estar apreçando absorventes, mas não.
– Garota, aí está você! Eu e seu namorado estávamos debatendo aqui o motivo de mesmo tendo bom sexo, o cara pula fora.
– Ele não é meu namorado.
– E na verdade tínhamos acabado de entrar nessa parte do sexo. De modo que eu preciso reformular os argumentos. — Rob complementa.
– Não acredito que vocês estão falando disso. — Disse C.
– Mas você não gostaria de saber porque eles são tão sacanas? A menos que nenhum tenha sido sacana com você, o que não me surpreenderia com os olhos que você tem. Jura que não passa delineador?
C revirou os tais olhos, nenhum realmente tinha sido sacana com ela, mas porque ela não tinha tido nenhum cara desse jeito na sua vida. Só que, é claro, Robert não precisava saber disso.
– Juro. — Respondeu à última pergunta.
– Inacreditável… — murmurou Gina, que nesse momento parecia estar em algum tipo de divagação. — Mas sim, Rob, por quê então, se o sexo é bom.
– Primeiro, não é como se eu pudesse falar por todos os caras existentes. Diferente do que vocês acham, não somos todos iguais. Alguns, talvez, ajam pelo mesmo padrão, o que é decepcionante.
– Decepcionante, concordo.
– Mas se ele achou que o sexo foi bom assim como você... — Rob parecia ainda duvidar da qualidade do sexo, o que deixou Gina amigavelmente P da vida. — ...então ele pode…
– O quê? Pode falar, sem medo, eu aguento.
– … pode achar que não vale à pena? Ele pode ser o tipo de cara que tem várias garotas à sua disposição, sexo pra ele não é difícil de achar, e você não é a única que dá o que ele quer e dá como ele quer.
C estava chocada, mas Gina só parecia reflexiva.
– Então como eu faço pra ser a única, para ter o diferencial?
– Se você tem que ser algo pra satisfazê-lo, então já não deveria valer a pena pra você. Ninguém deveria ter que se ajustar para prender alguém. Não é verdadeiro. Fora que nem tudo é sexo, ele não conseguiu se ligar emocionalmente à você...
– Ah, por favor, você tava indo tão bem, não venha dar uma de menininha logo agora.
Robert riu.
– É o que eu acho, você não?
Gina bufou, parecia ter voltado à estaca zero e estava menos animada do que o normal. Não exatamente triste, mas menos alegre que o de costume, o que já era alarmante.
– Eu deveria achar, certo? Mas já estou cansada desses otários.
E deveria estar mesmo, pensou C, considerando o números de casos, rolos e garotos de quem Gina falava.
– Então porque você não dá um tempo? — C perguntou.
– Porque sexo é tão bom!
– E você precisa se apegar a todos os caras?
C empurrou o ombro de Robert.
– Quer que ela seja como vocês? Que usam e vão embora?
Antes que pudesse responder, Gina falou como se C não tivesse ido em sua defesa.
– Porque, Rob, apesar de sexo ser ótimo, estar juntinho é melhor ainda.
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Depois de mais um pouco de conversa, deixaram Gina fazendo o trabalho dela e foram embora.
– Resolveu o que precisava? — Perguntou Rob andando ao seu lado no estacionamento.
– Sim, resolvi.
– Está tão quieta propositalmente?
– Estou só me perguntando se você é tão distante quanto pareceu.
– Quando? Quando eu disse que merecemos alguém que goste da gente pelo o que somos, sem que precisemos ser outra pessoa?
Ela não respondeu.
– E você é tão sensível? Você é mesmo cheia de surpresas.
– Devo ser.
– Eu só estava sendo imparcial, foi o que ela pediu.
– Então você não estava respondendo de acordo com sua própria experiência?
– Eu tenho um amigo que me acha incapaz de chegar em alguma garota, mas na verdade eu nunca precisei. Não tenho essa carinha bonita pra nada.
– Idiota.
– Não sou um bad boy, mas também não sou um good. Consegue lidar com isso?
– Por que eu precisaria lidar?
Eles já tinham chegado perto da moto, e ela parou com as mãos na cintura e de nariz em pé, como se seu desconforto não tivesse sido nada, como se aquele “Consegue lidar com isso?” não tivesse a atingido em cheio, mas atordoada por que, de fato, ela precisaria lidar?. Ele a olhou por um momento e sorriu, balançando a cabeça.
– Por nada, Cris, por nada. — Colocou o capacete e subiu na moto. — Para onde devo levar a princesa agora?
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