Rob não sabia onde ela morava, mas também não pediu informações de imediato. Rodou um pouco, indo para lugares aleatórios: a praça principal, a antiga biblioteca que havia fechado com a crise, a igreja. Ele estava dando o que ela mais precisava, tempo. E ela sentiu uma vontade louca de beijar seu rosto todo, mas só o abraçou mais forte.

Quando ele voltou para as imediações próximas à escola, ela soube que era hora e o guiou até a sua casa. Dali em diante tudo passou muito rápido e seu lar, amargo lar, logo se tornou visível. Pequeno de comprimento, de uma cor amarelada desbotada que a fazia lembrar da música “casa amarela” de Carlito e Baduy — exceto que não era uma amada que havia ido, e sim a mãe deles, pela qual ela já não mais sofria -, a frente mal cuidada com uma cadeira de balanço abandonada na varanda…

Ele estacionou e ela respirou fundo antes de descer da moto.

– Obrigada! — Sorriu demonstrando que agradecia por muito mais que a carona e lhe entregou o capacete. Ele também tirou o seu.

– Não há de quê. — Ele abriu a boca como se fosse dizer mais alguma coisa, mas a fechou, e então voltou a falar: — Me dá seu número?

– Daria se tivesse.

– Daria, é? Bom saber que você já gosta de mim. Ninguém resisti a esse rostinho, eu avisei. — Ele deu um sorriso brincalhão. Aquele sorriso, aquela boca. Ela cedeu ao impulso de beijar sua bochecha e ele ficou sério.

Rob se inclinou em sua direção, a mão dele se instalando na base de sua coluna e a puxando levemente para ele. Ela sentiu a respiração quente em sua bochecha e fechou os olhos, entreabriu os lábios. Seu coração estava tão descontrolado… ela queria rir de nervoso, mas na verdade não.

– Carmiiiiiiiiiiiiiim! O Pedro está puto!

Foi como soar uma sirene em seu ouvido. A testa dos dois se encontraram, antes que ela pudesse virar-se.

– Susana! — Mil coisas passaram em sua cabeça para serem ditas logo em seguida: “Você é muito inconveniente!”; “seu tempo é perfeito para a minha infelicidade”; “ELE ESTAVA PRESTES A ME BEIJAR!”; “SUSAAAAAAAAAAAAAAANA!”; mas ela soltou: — Olha o que fala, se não quer que eu lave sua boca com sabão.

Ela ouviu Rob rir baixinho atrás de si. Susana pôs as mãos na cintura e revirou os olhos.

– Então, até. — Ela deu uma olhada rápida pra trás e foi até a sua irmã.

– Até… Carmim.

Antes que fechasse a porta, olhou pra ele e sorriu.

– Não é meu nome.

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Pedro estava puto. Ótimo, porque ela também. C mandou Susana subir para fazer o dever e a menina deve ter sentido o clima tenso porque foi sem reclamar. Pedro apareceu na porta da cozinha e parou ali encostado no batente.

– Então? — Ele disse.

Ela deu um risinho cínico e balançou a cabeça em incredulidade. “Então?”?

– Você que foi atrás de mim.

– Você que está se comportando feito uma idiota.

– Eu? Eu, Pedro? Qual é o seu problema? Se droga e então esquece o que passou?

– Foram algumas bebida… — Ele disse entredentes.

– Foi mesmo?

Ela tinha preparado um discurso por várias e várias vezes. Encenou aquele momento em sua cabeça desde o instante em que o viu jogado sobre seu amigo. Mas nada, nenhuma frase de efeito, nenhum monólogo cortante, apareceu no momento. A não ser suas lágrimas, que travou na garganta.

– Quem é você? — Ela perguntou, fraca.

– Não seja melodramática.

– Você não tem nem noção do que fez, não é? Você ao menos se arrepende, ao menos aprendeu alguma coisa? Eu estava sozinha com Susana, Pedro, tarde da noite, quando um estranho BATE NA MINHA PORTA COM MEU IRMÃO BÊBADO ESCORADO. Bêbado, eu disse? Eu nem sei o que era aquilo, porque o meu irmão nem estava consciente. Mil coisas passaram na minha cabeça, faltou isso — ela aproximou seu indicador do polegar para mostra o tamanho. — ISSO, pra você estar morto agora. Não só pela bebedeira, mas pela situação em que você se expôs. EU ESTOU SENDO MELODRAMÁTICA, SEU OTÁRIO? EU QUE ESTOU ME COMPORTANDO FEITO UMA IDIOTA?

– Carmim…-

– CALA A BOCA, Pedro. Seu covarde, seu fraco. Você ficou jogado no box do banheiro, eu te despi e você vomitava. Eu estava sozinha. Você me deixou sozinha, Pedro, sozinha… — Ela agora chorava descontroladamente. O que passou não tinha mais como ser concertado, mas ela queria que ele se arrependesse, que pedisse desculpas, ela queria que ele se importasse.

– Eu sinto muito. Eu sinto muito, Ca, eu sinto mesmo. — Seus olhos estavam cheios d’água e ele engoliu em seco. — Desculpa... Eu não aguento mais.

Ela se jogou no sofá, e passou as mãos nos olhos.

– E eu aguento? Todo santo dia eu me perguntou: “por que nós, por quê?”, mas você não me vê fazendo burradas, porque minha vida não é mais só minha, vocês dependem de mim, e eu e Susana dependemos de você.

Ele se sentou ao seu lado e a abraçou.

– A creche de Susana não aceitou nenhum acordo, você saiu mais cedo hoje então tive que levá-la comigo. O movimento no trabalho está fraco, a dispensa está quase vazia, tenho que procurar mais um emprego, tenho que me desdobrar mais. Eu tenho que fazer mais coisas quando já acho que estou no limite, já até mesmo ultrapassei. Vou mais pra onde, vou fazer mais o quê? O que eu deveria fazer? O pessoal saiu depois que acabou o turno pra tomar umas bebidas, eu mal tenho vida social, então eu fui. Perdi a conta do quanto botei pra dentro até que me deu vontade de pôr pra fora, mas continuei e fiquei anestesiado, desligado, eu saí de mim. Nada justifica, eu só não aguento mais. — Sua voz não tinha emoção e ela ficou com a cabeça no ombro do irmão por mais um tempo, chorando pelos dois.

– Eu também sinto muito, mas só tenho você, não posso deixar de confiar em você.

– Então não deixe, aquilo não vai mais acontecer.

Ela se endireitou e passou a mão pelos olhos, pelo nariz.

– Tá, Pedro, vamos levando.

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Na manhã seguinte, tudo se encaixou como devia para a nova rotina. Pedro as deixou no Supermercado e Susana queria ficar rodando pelos corredores, comendo os biscoitos. Levou duas horas para ela se acalmar e C perder a paciência.

– Por que não me ajuda, se está tão entediada? É bom que se acostume, porque será assim todos os dias a partir de agora.

– Que saco! Se eu vou trabalhar, tenho que negociar meu preço antes.

– Sua conquista é a minha paciência.

Carmim estava recolocando os biscoitos, cremes dentais, conservas que as pessoas deixavam para trás no carrinho, ou em seções aleatórias mais convenientes para suas pernas, e Susana vinha atrás dela, se arrastando e passando a mão pelas prateleiras.

– Se você derrubar essas coisas, vai ver só! — Dizia C.

– Ca! Quem era aquele cara que você estava beijando?

– Eu não estava beijando ninguém... — “...Graças a você.”

– Estava sim.

– Não, não estava.

– Mas eu vi.

– Não aconteceu, Susana, me deixe em paz.

Susana se cala um pouco, pulando de dois em dois quadrados no piso.

– Ele é bem bonito. Na verdade, ele é super gato. Marc diz que é o mais bonito da escola, e provavelmente da cidade, mas eu não acho. Quando eu digo isso, ele puxa a minha trança e aí eu dou um beliscão no seu braço e aí ele para. Quem você acha que é o mais bonito da cidade?

– Eu não conheço todos os homens da cidade.

– Eu acho que é aquele cara que você tava quase beijando. Ele é seu namorado?

– Não.

– Então ele pode ser o meu?

C ri, na verdade gargalha, irritando sua irmã caçula.

– Você acha que ele não me acharia gata?

– Eu acho que você não tem idade para ficar pensando nessas coisas, e quando tiver, eu acho que você deveria se preocupar se ele te acha inteligente, engraçada, legal, além de gata. Ser bonita não é tudo.

– Tá, tá…

Após o expediente, quando C leva Susana para escola, em uma viagem calma simplesmente porque ela conseguiu chocolate do mercado, é abordada na volta, em direção ao seu colégio. Ela consegue perceber que a mulher é nova, apesar da cor desbotada, das rugas de expressão. Não tão nova, também, mas na casa dos 40. É seca, seu cabelo tingido de loiro está preso em um rabo de cavalo seboso, usa um tomara que caia vermelho com uma calça legging marrom e uma bolsa de mão bege, o conjunto é mais ordinário que composto, e junto com ela a mulher traz um ar de mal pressentimento.

– Susana, certo?

– Não.

– Filha da Laura, certo? — “Não”, ela queria responder.

– Há muitas Lauras, senhora.

– Mas você sabe da qual estou falando, tem os olhos dela. Esses olhos... resolveram muitos problemas. Saiba disso, garota. Você tem os olhos dela.

– Se puder me dar licença. — Ela tentou contornar a mulher.

– Garota. Cadê Laura?

– Eu não sei.

A mulher mediu Carmim de cima a baixo.

– Talvez, talvez não saiba. Mas talvez devesse saber. Esse poderia ser o momento dela, da Laura. Algo me diz, garota. Ela estava esperando por isso.

– Eu realmente preciso ir. — Respondeu C, tentando não ficar confusa com o que a mulher falava. Estava drogada? Não fazia muito sentido, ou fazia e era além do que C podia entender. Ela só queria ir embora. Toda a bagagem de sua mãe tinha se dispersado a medida que a memória daquela cidade se esquecia dela. Foi assim que começou os “bons” tempos dos ruins.

A falsa loira a deixou passar por ela, mas não deixou de dizer enquanto via Carmim se afastar.

– É uma coisa boa, garota, é só não renegar suas origens. É capaz da Laura voltar, a Laura. É capaz dela voltar.

C fechou com força os olhos, tentando esquecer o que ouviu.

Notas finais
Quem aí ama a Susana? hahahaha