Notas iniciais
Eu sei que tem gente acompanhando, então o meu muito obrigada a vocês (:

Ela descobre que não terá o primeiro horário assim que chega na sala, e aproveita esse tempo para ler o texto de história para a próxima aula. Como não era intervalo, ela pensou que o campo estaria vazio, e de fato estava, a não ser por uma pessoa.

O garoto, amigo de Rob, provável namorado da leitora, o que tem olheiras abaixo do olhos. Ela o observa de longe e chega à conclusão de que ele é bonito, mas não de maneira óbvia. Seu nariz é um pouco torto, mas seus lábios são perfeitos e rosas. Apesar das olheiras, seus olhos são de um tom de chocolate derretido e guardam uma cadência, uma doçura… Ele provavelmente é esse tipo de garoto, doce. Seus cílios são enormes, e o cabelo preto e liso, um pouco abaixo do queixo.

C não sabe se deveria se aproximar ou sentar em outro lugar, nunca realmente conversou com ele, e o garoto parece fechado com seu caderno na mão. Mas ele não precisa conversar se não quiser, certo? Ela pode ficar sentada no montinho o mais distante possível dele.

– Oi. — Ela cumprimenta ao se aproximar.

Levou alguns segundos para ele focar nela, levando-a à sensação de que ele não a reconhecia.

– Ei. Cris-amiga-do-Rob, certo? — Ele sorriu fofamente.

– Sim, não posso dizer que o reconheço citando o seu nome, já que eu não sei. — Ela sentou de frente para ele.

– Oh, eu me chamo Carlos. Realmente, não lembro de termos sido devidamente apresentados. Todos nós. — Ele responde em nome de todo o grupo.

– É… — Ela sorri. — Eu realmente não quero incomodar. — Ela apontou para o caderno.

– Ah, são só algumas histórias, nada demais.

– Você é escritor?

– Não.

– Mas escreve histórias?

– Sim. — Ele riu. — Louco? Não. Mas age como louco? Sim.

Ela riu também.

– Aposto que só um pouco acima do teor de loucura que todos têm.

– De fato, nunca rasguei dinheiro.

– Ah, mas isso está além da loucura, se é possível. A situação tá nada boa.

Ele balança a cabeça pra cima e pra baixo e suspira pelo nariz.

– Nem me fale. Não sirvo mesas no Pontop porque gosto de cheirar a gordura. Mas, sabendo disso, pode dar uma passada lá que te servirei uma porção grátis de batata frita. É por isso que Ana e o pessoal só vão lá quando estou de serviço. — Ele dá um sorriso travesso.

– Ana é a sua namorada…

– O quê? Não. — Ele ri. — Parece?

– Na verdade, não sei. Eu conheci vocês ontem e você estava deitado no colo da leitora, que eu presumo que seja a Ana.

– Sim, é ela, mas é só minha amiga. — Ele fez uma careta.

– Contra a sua vontade?

Ele a olhou bem, enquanto arrancava algumas grama pensativamente. Provavelmente avaliando se poderia confiar nela para fazer algumas revelações.

– Minha vida é tão complicada que eu nem paro pra pensar nessas coisas, sinceramente. Eu vou em uma festa, então alguma menina dá em cima de mim e eu fico com ela. Se não fosse por isso eu nem teria esse tipo de relacionamento. — Ele ri.

– Ha! Então você é como o Rob, que consegue esse tipo de coisa fácil.

– Eu deveria me sentir ofendido? — Ele arqueou as sobrancelhas.

– Não quis soar áspera, apesar de querer sim. Mas você não tem culpa, então…

– Talvez eu tenha. Mas, como eu disse, eu não fico pensando sobre essas coisas. Quer dizer, se alguém está a fim do outro deve investir, certo? Independente se é homem ou mulher… estamos no século XXI, o século dos direitos “iguais”. — Ele fez as aspas no ar e revirou os olhos. — Não é bem assim porque não dá pra apagar 2000 anos de machismo, mas enfim, eu não ligo. Se uma garota está interessada em mim, porque ela não deveria dizer? Elas dizem e nós ficamos. Não fico esperando que elas venham até mim porque não quero fazer nenhum esforço. Eu só tô cansado, então não reparo em ninguém.

Eles ficam um pouco em silêncio e ela acompanha o trajeto de uma formiga enquanto pensa.

– Eu tenho a sensação de que estamos só sobrevivendo…

– Sim, estamos. — Ele disse com pesar. — E não acho que vale a pena.

Ela deita e eles ficam em silêncio. Cada um contemplando sobre a sua vida, refletindo no por quê de estarem assim, pensando se não dava pra mudar. Era o mesmo tipo de pensamento que sempre têm, quando as coisas estão muito difíceis e a ordem de todos os dias é sobreviver, os pensamentos se repetem, na busca de alguma brecha, algo que ainda não analisaram… mas não. Não dava pra sair daquela teia, não agora sem que as coisas melhorassem…

– Se eu vivo para sobreviver, para manter as coisas… — Ela procurou as palavras. — … para sustentar as coisas, para que elas não desabem. Não me arriscando, só tomando conta para que nada piore… Entende? — Ela desviou o olhar do céu para seu rosto e o viu assentir. — Então não vai melhorar. Vai só manter aquele padrão de estar sempre no limite. Eu não posso desandar, perder o foco, porque o que comerei naquele dia corresponde com o trabalho daquele dia. É um equilíbrio, um acômodo. Por exemplo, meu irmão trabalha e assim consegue colocar a comida na mesa de noite, mas se comemos aquela comida, já não temos para amanhã e assim regressamos, então no outro dia precisamos trabalhar de novo. Damos um passo a cada dia para compensar o passo para trás que demos a cada dia. Não saímos do lugar, então as coisas não vão melhorar… serão sempre as mesmas.

– Sim, você tem razão. Precisamos de algo mais. Algo que nos impulsione. Um empurrão que nos deixe vários passos a frente. Para estarmos na vantagem e ganharmos tempo.

Os dois sabiam que uma oportunidade daquelas ali era rara, quase impossível. O que levava a tendência daquele lugar a se tornar uma cidade fantasma, e ao mesmo tempo não tão fácil de acontecer. Raízes podiam se tornar prisões.

– Esse estilo de vida pelo menos — Ele retornou depois de um tempo — me tornou um homem de desejos simples. Posso achar tremendamente bom só estar aqui, olhando para o céu, embaixo de uma sombra, com uma brisa boa passando por mim e desfrutar da companhia de uma nova amiga.

Ela sorriu pra ele e estendeu a mão, a qual ele agarrou, piscando pra ela. Enquanto a primeira aula passava eles ficavam ali em um silêncio confortável.

No intervalo, C apareceu antes de Rob, o que teria sido estranho, se não fosse por Carlos. Aos poucos ela descobriu o nome dos outros enquanto ouvia a conversa deles. A de cabelo verde era Louisa e o menino loiro era Bernardo, mas todos o chamava de Ben. E não, eles não eram namorados. Ninguém ali era um casal, o que era estranho. Não porque não podia existir amizade entre homem e mulher, é claro que podia, mas porque eles pareciam tanto ser, que devia haver algum rolo. C sentia isso, e ela era muito boa em descobrir casais.

Ninguém tinha visto Rob, até que todos viram um menino parecido com ele, de olho roxo e lábio partido, adentrar no campo. Ele foi na direção deles e todos pararam o que estavam fazendo na expectativa de saber o que houve.

– Robert, o que aconteceu? — Essa foi Débora, fazendo a pergunta do momento.

– Nada…-

– Não me diga que foi uma porta, isso não foi uma porta. — Disse Ana, interrompendo-o.

– Poderia ser… — Ele deu um sorrisinho de lado que não chegou aos olhos.

Todos começaram a falar ao mesmo temo, especulando, combatendo teorias, menos C; e Rob, que olhou pra ela. Ela devolveu o olhar e estendeu a mão pra segurar a dele, ao mesmo tempo em que apoiava a bochecha na mão livre, sustentando seu olhar. Ela queria saber, é claro, mas ela não podia exigir de alguém uma atitude que ela não tinha.

Rob entrelaçou os dedos deles e acariciou a palma da mão dela com seu polegar. Ele queria sair dali para ficar a sós com Cris, mas ela era tão complicada… Parecia uma gata assustada, e ele não queria dar nenhum passo em falso e estragar tudo.

– Está tudo bem com você? — Ele lhe perguntou baixinho e ela assentiu.

Na verdade ela queria te contar tudo de ontem depois que ele a deixou em casa e de seu dia hoje, e ficar conversando com ele por horas e horas, e que ele risse e a fizesse rir. Ela não compreendia, não mesmo, como podia se sentir tão conectada a ele. Sim, algumas coisas só aconteciam, talvez até já estivessem previstas, ela não sabia, mas era tão estranho quando é você que está fazendo parte disso e não a amiga de uma vizinha que te parou pra contar a fofoca… O polegar dele fazia círculos na palma dela e todo o seu corpo sentia. Ela estava assustada.

– Gente, deixem que o Rob explique, porque só o Rob sabe. — Carlos falou mais alto.

Ela desentrelaçou os dedos quando todos voltaram a se concentrar nele.

– Como eu ia dizendo, não é nada demais. Houve um problema que eu precisei resolver… Agora, o que eu perdi?

Todos pareciam decidir se insistiam ou não. Eles eram um grupo que se apoiavam e que sabiam aceitar o outro pelo o que era, sem pressionar ou cobrar satisfação. Na maioria das vezes.

– Mas Rob…-

– Deb. — Ben chamou e quando ela o olhou, ele negou com a cabeça.

– Pelo menos o outro está pior que você? — Ela insistiu, mas ele não se pronunciou. — Foi por causa de mulher?

– Débora! — Louisa a repreendeu, olhando rapidamente para C.

– O quê? Eu quero saber, porque se foi eu vou dar uns sopapos nessa vadia.

Ana riu e Louisa revirou os olhos.

– Oh, minha salvadora! — Rob a puxou para um abraço e bagunçou o seu cabelo. — Como você está tão valente assim?

– Aulas de boxe por vídeo. — Entregou Louisa. — Eu vi, umas instruções e essa nanica acha que pode. — O pessoal riu

– Sou muito boa, se querem saber. Não me façam demonstrar. — Ela fez uma dancinha com os ombros e levantou uma sobrancelha.

– Ok, ok, deixa eu me afastar… — Brincou Rob e o assunto do seu olho já estava “esquecido”.

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Quando soube da festa, C não estava afim, mas a medida que a semana acabou e que ela viu menos Rob, ela decidiu ir, impulsivamente e em cima da hora enquanto assistia Tv com seus irmãos. Antes que desistisse ela subiu correndo as escadas e abriu o pobre guarda-roupa.

Uma vez, quando sua mãe estava em uma boa situação, ela havia saído com eles e comprado roupa nova, era a melhor roupa que Carmim tinha, mas ela não fazia ideia se ainda cabia, pois já havia passado um bom tempo. Era um vestido ombro vazado de corte reto e tecido leve, com estampa tribal de cores neutras, que ia até a metade da coxa, meio curto, de fato.

Estava um pouco folgado, porque ela havia emagrecido, sem dúvidas, mas nada muito estranho, ainda desenhava sua cintura. Ela passou um gloss que não sabia a validade e folgou o coque, deixando que algumas mechas se soltassem na frente. Seu all star preto de cano alto a acompanhou, mesmo sem saber se combinava. Quando desceu, Susana fez um alarde.

– Onde você vai assim?

– Ali, volto daqui a pouco, não precisa esperar.

– Se é daqui a pouco, então não tem problema esperar. — Rebateu Pedro quando se recuperou pela surpresa de ver a irmã dando importância à arrumação.

– Não precisa. — Ela insistiu já indo pra porta. Não tinha nenhuma bolsinha, então escondeu sua chave na casinha de correio e partiu para o ponto.

Pelo o que sabia, a casa das meninas era verde e ficava nos arredores da praça principal. Não foi difícil de achar, a casa estava decorada por fora com pisca-pisca branco, tinha pessoas ali fora fazendo todo tipo de coisas e havia música. Não muito alto, mas o suficiente para saber que era uma festa.

Tinha gente por todo o canto: na sala, que era o primeiro contato com a casa quando alguém entrava; havia um corredor — com pessoas se agarrando — ao lado de uma escada para o primeiro andar na parede paralela a da porta; uma bancada separava outro cômodo — com mais pessoas — á esquerda, e uma porta dava passagem a outro cômodo na direita. Ela preferiu arriscar ali e entrou na cozinha. Três garotas estavam sentadas ao lado da pia e havia uma rodinha de garotos de flerte com elas, um casal impedia a porta da geladeira… C abriu uma caixa de pizza que estava na mesa e pegou uma fatia de frango com catupiry, depois saiu por uma porta que dava nos fundos da casa. Ali fora era o local com menos gente, era um quintal com alguns entulhos em um canto, cordas de um muro a outro (mas sem roupas estendidas), e algumas cadeiras, que Carmim se sentiu mais que aliviada por pegar uma e sentar.

Terminando de comer, ela suspirou e jogou a cabeça para trás. O que estava fazendo ali? Que loucura! Poucos segundos e ela já se sentia sufocada com tanta gente. 10 minutos e ela iria embora.

– Ei!

C endireitou a cabeça para ver Louisa na sua frente.

– Ei! — Respondeu, surpresa.

– Aqui, toma. — L lhe entregou um copo descartável azul. C cheirou o que tinha dentro. — Não uso drogas ou bebo álcool.

– Que bom então que eu te trouxe um refri. — A garota sorriu e C deu um gole na bebida, fazendo careta. — Não é refri?

– É, mas mesmo assim. Não estou acostumada, e não acho legal o gás rasgando pela minha garganta.

Louisa arrastou uma cadeira para o seu lado.

– Chegou há muito tempo?

– Não, mas já estou satisfeita.

A anfitriã assentiu com a cabeça e bebeu um pouco da sua bebida.

– Pode deixar uma pessoa tonta mesmo… Você é bem diferente, não é?

– Não, na verdade. Só gosto de ficar na minha. — Ca respondeu, tomando mais um gole.

A outra assentiu de novo. As duas olhavam pra frente, observando as pessoas ali.

– Olha só aquele casal… Devem ter esquecido de que estão em público.

– É, mas um pouco e veremos partes indesejadas… Eu… — C hesitou, pensando se faria aquela jogada. — Eu pensei que você e Bernardo fosse um desses casais.

– Não, eu consigo ser mais discreta. Esse tipo de movimento — ela apontou para a garota que rebolava enquanto beijava o cara. — eu deixo para o quarto. — Ela riu. — Está tentando descobrir meus relacionamentos? — Louisa sorriu, meio brincando, olhando pra ela.

– Não sou de me intrometer nem nada, ou isso de amigo… não é o meu tipo de coisa. Só que agora eu me vejo tentando entendê-los e conhecê-los, porque… — C não continuou.

– Porque é importante para o Rob. Nós estamos na vida dele e você o quer na sua vida?

C deu de ombros e olhou pra ela, que imitou seu gesto e sorriu.

– É, tem uma grande, grande chance de ser isso.

– Eu às vezes fico com o Ben, menos agora do que antigamente. Mas ele é antes de tudo o meu amigo. Muito amigo mesmo, e eu o vejo assim. Sei lá, não é dele que eu gosto. — A última frase quase ficou perdida dentro do copo, dita rapidamente.

– Então porque você não está com ele, com o cara que você gosta?

– Não sei, porque ele é desligado. E eu não quero arriscar.

– E vale a pena?

– Por enquanto tá valendo. Eu sou louca por ele. — Ela deu um risinho fofo. — E somos próximos, estamos sempre juntos mesmo que de uma maneira não romântica. Por enquanto vale, Cris.

– O Carlos é mesmo maravilhoso, não é? — Cris disse, tentando esconder o sorriso.

– Sua esperta, cale a boa. — Louisa riu e bateu seu ombro no dela.

– Vocês parecem bem desencanados, e se você só chegasse nesse clima de festa e o beijasse?

– Acho que ele levaria numa boa e curtiríamos o momento. Pra ele seria só zoa, mas não pra mim, é por isso que não posso fazer. Eu já tenho meus 4 pneus arriados pelo cara, se eu ficar com ele… Eu não poderia me apegar.

– Isso é frustrante. Vocês podem tudo, mas não.

Elas ficaram ali por mais um tempo escutando música, até que Lou se levantou.

– Vem, vamos pegar alguma coisa pra comer.

Ca pegou mais uma fatia de pizza e Lou empurrou o casal da geladeira para pegar uma bebida. Elas ficaram conversando sobre nada ao redor da mesa, mais comendo do que outra coisa.

– Encontrei vocês! Isso aqui é um formigueiro ou o quê? — Perguntou Carlos indo na direção delas.

– Oh! — C exclamou, olhando para L, e no seu momento menos discreto de toda a vida ela se atrapalhou para sair dali rápido. — Tenho que… que achar alguém também!

Louisa revirou os olhos pela sua tentativa incriminadora de deixá-los a sós, mas Carlos nem percebeu e bebeu do copo que ela deixou pra trás.

– Quer dançar, gata? — Ele perguntou a ela com um sorriso de matar.

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C foi procurar por Rob, ele devia estar ali em algum lugar, e retornou à sala na entrada para passar pela bancada no outro lado. Ali o cômodo era mais amplo e mais escuro, o som partia dali e algumas pessoas dançavam no meio, por isso foi difícil chegar a ele. Rob estava sentado em um sofá posicionado em baixo de uma janela oval no canto. Ele a viu e acenou, mas quanto mais próximo chegava, mais difícil se tornava. Um garoto a chamou para dançar, mas ela se esquivou, negando. Uma galera estava sentada no chão ao redor da mesinha de centro perto dele, e quando ela já ia sentar no sofá ao seu lado, uma menina levantou de repente e esbarrou nela, fazendo-a tropeçar e cair desajeitadamente no sofá.

Rob a amparou, mas ainda assim ela caiu sentada em seu colo. Rapidamente ela recuou, se encostando no braço do sofá, e suas pernas ficaram por cima das coxas dele. O braço do sofá não era tão longe de onde ele estava, não mesmo, e a distância diminuiu mais ainda quando ele a beijou.

Notas finais
Que tal me contarem o que acharam?