Paris is always a good idea
8 Affaire d'famille
Notas iniciais
Capítulo 8: Affaire d'famille
A manhã de sábado no Quartier Latin começou com um sobressalto que ecoou muito além das paredes grossas de gesso do edifício. Bella Swan e Alice Brandon estavam sentadas na pequena mesa da cozinha de Bella, dividindo uma garrafa de suco de laranja e tentando planejar os posts da semana, quando uma explosão de vozes em francês e inglês estremeceu o corredor do quarto andar.
Era uma briga horrível. Gritos abafados, portas batendo com violência e o som inconfundível de objetos sendo largados com força no chão chamaram a atenção do prédio todo. Bella e Alice paralisaram, com as xícaras no ar. A voz barítona de Edward, geralmente tão contida e melodiosa, reverberava em um tom de pura frustração, enquanto os agudos elegantes de Rosalie cortavam o ar como vidro.
— Meu Deus, eles vão se matar — Alice sussurrou, de olhos arregalados, inclinando a cabeça em direção à porta.
Não demorou muito para que o som de passos pesados se afastasse pelo corredor, seguido pelo estrondo da porta principal do prédio. Menos de dois minutos depois, a campainha do apartamento de Bella tocou de forma insistente, quase desesperada.
Bella correu para abrir. Rosalie estava parada na porta, com os olhos azuis marejados e o rímel levemente borrado, embora ainda parecesse uma pintura de moda trágica. Sem dizer uma palavra, a loira deu um passo à frente e desabou nos braços de Bella. A americana a conduziu para o sofá, trocando um olhar cúmplice e preocupado com Alice. Passaram a manhã inteira consolando Rosalie, oferecendo lenços, chá quente e o silêncio acolhedor que ela tanto precisava após a tempestade com o namorado.
Quando o choro finalmente cessou, Rosalie limpou o rosto com dignidade, erguendo o queixo.
— Eu preciso sair de Paris este fim de semana ou vou enlouquecer — Rose anunciou, olhando para as duas. — Minha família é dona de um vinhedo histórico e de um castelo impressionante em Champagne. Nós estamos justamente precisando de uma nova agência para negociar o marketing do nosso espumante exclusivo. Venham comigo. Nós unimos o útil ao agradável, bebemos o melhor champagne da França e fugimos desses homens.
Alice quase pulou do sofá de empolgação, e Bella, vendo uma oportunidade perfeita de colocar distância entre si e Edward, aceitou imediatamente.
Três horas depois, o carro de Rosalie cruzava os portões de ferro batido de uma propriedade que parecia saída de um conto de fadas aristocrático. O castelo da família Hale era cercado por colinas verdejantes cobertas de videiras carregadas, com torres de pedra clara que reluziam sob o sol da tarde.
O problema, contudo, começou assim que elas pisaram no grande salão de recepção e Bella foi apresentada à matriarca da família, Lilian Hale. Lilian era uma mulher de postura impecável, olhar cirúrgico e uma arrogância tipicamente tradicional que desarmou Bella de imediato. A partir dali, a estadia da americana transformou-se em uma sucessão de confusões hilárias.
Durante o sofisticado almoço de boas-vindas, Bella tentou elogiar a prataria antiga da família usando seu francês trôpego e acabou, por um terrível erro de pronúncia, sugerindo que a avó de Lilian parecia um "javali selvagem". O garfo de Lilian congelou no ar, enquanto Alice engasgava com o vinho ao lado. Mais tarde, ao caminhar pelos jardins históricos, Bella tropeçou em uma das mangueiras de irrigação tecnológica dos vinhedos e acabou ativando o sistema de aspersores de alta pressão, encharcando não apenas a si mesma, mas também o penteado perfeitamente laqueado de Lilian, que a olhou como se Bella fosse uma bárbara invasora.
Exausta, humilhada pelas gafes e com a cabeça girando após a degustação obrigatória de várias safras de espumante para o projeto da Platt, Bella recolheu-se para o seu aposento na ala leste do castelo logo após o jantar. O quarto estava na penumbra, iluminado apenas pelo luar. Sentindo o corpo pesado pelo cansaço e pelo álcool, ela jogou-se na imensa cama de casal com dossel, percebendo vagamente que já havia alguém dormindo ali sob os lençóis de linho, mas presumindo, em sua mente confusa, que era Alice que havia ido deitar mais cedo. Bella apenas se aconchegou sob as cobertas quentes, abraçou a silhueta ao seu lado e adormeceu pesadamente.
O verdadeiro choque veio com a luz da manhã de domingo.
Bella espreguiçou-se e abriu os olhos, deparando-se não com os cabelos curtos de Alice, mas com um par de olhos castanhos brilhantes, um sorriso caloroso e covinhas adoráveis. Era um rapaz alto, de traços incrivelmente bonitos, pele morena e uma energia puramente radiante.
— Bonjour! Você deve ser a amiga americana da Rose — ele disse, com um sotaque adorável e uma animação contagiante, estendendo a mão sob o lençol. — Sou Seth. Acabei de voltar do internato para o fim de semana e acho que confundiram os nossos quartos. Mas você abraça muito bem.
Bella sentou-se na cama em um salto, com o coração na boca, enquanto a porta do quarto se abria e Rosalie entrava segurando duas xícaras de café. Rose parou os olhos na cena, chocada, e depois levou a mão à testa.
— Mon Dieu, Bella! Você dormiu no quarto do meu irmão caçula? — Rosalie exclamou, antes de olhar feio para o rapaz. — Seth, saia já daí!
— Irmão caçula? — Bella gaguejou, o rosto queimando de vergonha enquanto Seth pegava sua camiseta no chão e saía rindo do quarto. — Espera, Rose... quantos anos o Seth tem?
— Ele faz dezoito no final do próximo mês. Só tem dezessete anos, Bella! É um bebê! — Rosalie respondeu, soltando uma gargalhada diante do desespero puro estampado no rosto da americana. Bella enterrou o rosto nas mãos, desejando que o chão do castelo de Champagne se abrisse e a engolisse de vez. Ela havia acidentalmente dormido na mesma cama que um menor de idade da aristocracia francesa.
Enquanto as garotas viviam o caos rural em Champagne, Paris era palco de um desfecho muito mais sombrio.
Edward Mansen passara o sábado trancado na cozinha da L'Aubergine, limpando as bancadas de inox com uma fúria cega. A briga daquela manhã com Rosalie havia sido o estopim de meses de ressentimento acumulado. Lilian Hale havia enviado um contrato de empréstimo e investimento internacional para a compra definitiva do ponto do restaurante, mas as condições nas entrelinhas eram claras: a família Hale passaria a ser dona de cinquenta e um por cento das decisões criativas de Edward.
O orgulho e a integridade do chef inglês falaram mais alto. Ele não estava disposto a se tornar um fantoche de luxo da elite parisiense, e muito menos a se sentir "comprado" pela namorada para que o relacionamento continuasse funcionando por conveniência social.
No final da tarde de domingo, Rosalie retornou de Champagne e foi direto ao restaurante. A atmosfera no salão vazio era gélida.
— Você assinou os papéis, Edward? — Rosalie perguntou, cruzando os braços, a voz destituída de qualquer calor. — Minha mãe precisa enviar a ordem de pagamento ao banco amanhã cedo para salvar o seu ponto.
Edward caminhou até ela, deixando a caneta sobre a mesa de madeira. Seus olhos cor de topázio estavam decididos, desprovidos daquela dúvida que o assombrara nas últimas semanas.
— Eu não vou assinar, Rosalie — ele respondeu, a voz britânica saindo firme, ecoando pelo salão silencioso. — Eu agradeço a intenção, mas eu não vou aceitar o dinheiro da sua família. Eu prefiro fechar as portas da L'Aubergine e recomeçar do zero, lavando pratos se for preciso, a me sentir um funcionário da sua mãe. Eu não sou uma propriedade que vocês podem adquirir para manter as aparências.
A recusa foi o golpe final. Rosalie sentiu o orgulho ferido e a frustração explodir.
— Propriedade? Nós estamos tentando salvar o seu sonho, Edward! Mas você é orgulhoso demais, egoísta demais para aceitar ajuda! — ela gritou, as lágrimas de raiva finalmente escapando. — Eu estou cansada de lutar por um homem que parece estar com a cabeça e o coração em outro lugar há semanas!
— Então não lute mais, Rose — Edward rebateu, a voz caindo para um tom baixo, exausto e definitivo. — Nós dois sabemos que isso acabou faz tempo. Esse relacionamento aberto, essa mentira... só serve para adiar o inevitável. Nós não nos amamos mais como antes.
A discussão feia arrastou-se por minutos dolorosos, lavando a alma de anos de convivência, até que o silêncio final se instalou entre os dois. Rosalie limpou as lágrimas, olhou para Edward com uma mistura de mágoa e aceitação resignada, e tirou a chave do apartamento do bolso, deixando-a sobre a mesa de madeira.
— Adeus, Edward. Boa sorte com o seu restaurante. E com a sua vida.
Ela girou nos calcanhares e saiu pela porta de vidro, deixando Edward sozinho na penumbra da L'Aubergine. O casal de ouro do prédio do Quartier Latin estava oficialmente terminado. E, em algum lugar na estrada de volta para Paris, Bella Swan ainda não fazia ideia de que o caminho para o coração do seu vizinho inglês estava, pela primeira vez, completamente livre.
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