Paredes de ar
13 Lâmina fria, sangue quente
Lâmina fria, sangue quente.
Rápido, raso, reto.
Era como pintar, ela pensava, pintar só com vermelho, vermelho vivo que brilhava sob a luz azul do notebook. Pingou, seus pulsos tremendo, respiração pesada; no peito havia uma pedra, pesada e dura, que a cada lufada de ar permanecia imóvel, densa.
Num instante, aquela dor não era dela; o sangue escorria e do outro canto do quarto se via: trêmula, magra, banhada de azul, os olhos perdidos, muito abertos, as faces chupadas e a pele amarela. Num instante, ela sentiu pavor: não era ela, como poderia ser? Contemplava a si mesma, uma pessoa que não era, uma estranha. E então tudo era ela de novo, a dor, o sangue, a pele amarela. Outra vez ela sentia e o pavor sumia. Ficava o vazio, o sangue. Depois, o arrependimento. Uma promessa quebrada, uma chaga aberta, um inferno que não terminava.
Agora o único jeans que tinha sobrado estava pintado de vermelho. Como poderia sair de casa com o jeans manchado? Não sairia, não sairia nunca mais. Ficaria trancada em seu quarto sob a luz azul, com a lâmina fria, encolhida em seu sangue quente, esperando que o pavor de si mesma a tirasse de lá ou a matasse de vez.
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