Helena sabe como é não ser a mais bonita.

Sabe o que é tentar com todas as forças e, ainda assim, estar apenas dentro da média. E, já que ela não pode ser a mais bonita, Helena decidiu nem tentar.

Helena sabe o que é não ser a mais feminina. E, já que ser a mais bonita falhou, ela decidiu que ser a mais feminina também é impossível e nem tentou.

Helena sabe, no entanto, como é ser a mais inteligente.

Helena não sabe como é ser a segunda. Desde que decidiu ser a número um, ela tem sido. Sem espaço para competição, sozinha no topo, a preferida, a mais invejada. Podem acusá-la de feia ou gorda, mas nunca de burra.

Helena nunca foi a número dois, não quando se trata de cérebro.

Helena sempre será a número um. Seu lugar está garantido por seu esforço e sua rotina rígida. Ninguém poderia ser melhor do que ela.

Então... por quê?

Por que não é o nome dela ali no topo?

Porque não são dela a glória e os elogios?

Helena sabe o que é não ser a mais bonita, então ela nem tenta.

Helena também sabe o que é não ser a mais feminina. Então ela nem tenta.

Mas Helena não sabe o que é não ser a mais inteligente. Helena não sabe o que é ser a número dois. E mais do que tudo, Helena não sabe viver sem ser a número um. Porque ela pode muito bem suportar os comentários cruéis dizendo que não adianta ser inteligente se ela é gorda e feia. Ela é inteligente, muito mais do que os idiotas que dizem isso, então não é importante.

Mas o que ela vai fazer se não for a número um? O que ela vai fazer se não é a melhor? Se não é a mais rígida e metódica?

Helena entende a frustração de ser a número dois. Ela se esforça ainda mais, até a exaustão.

Mas ela nunca mais vai ser a número um.

Porque ela é a número dois.

O número dois nunca sabe a glória de ser o número um.

Helena não quer ser a número dois, porque se não for para ser a melhor, então ela não será nada.

Mas Helena não tem nada além de seu cérebro. Ela não tem mais nada que queira ser. Ser a melhor é seu mundo.

É isso.

Só pode ser isso.

Se Helena não pode ser a número um na única coisa que importa, então nada mais importa.

Helena é metódica. Do primeiro fôlego pela manhã até o último, tudo segue uma sequência rígida e inalterável.

Helena se olha no espelho. Ela não é a mais bonita, nem a mais feminina, nem a mais inteligente. Diante do espelho, Helena é só uma garota qualquer, com um nome qualquer, em um banheiro qualquer.

Helena sorri. Ela não é nada. E nesse nada há um conforto. Então quando no último instante ela vê a si mesma caída no chão do banheiro, Helena sorri.

Helena não é nada. E só então Helena se deu conta de que não ser nada é a verdade mais libertadora do mundo.