Parallel

3 Capítulo III - Brincando Com Fogo


Notas iniciais
Pois é, fiquei tão empolgado que nem sequer tirei um descanso após escrever o segundo capítulo.
Para minha surpresa, esse capítulo ficou com quase o dobro de palavras do que o Capítulo I e isso é realmente estranho pois não senti que havia escrito tanto.
De qualquer forma, espero que gostem!
Revisão por: Fabio Roberto

Capítulo III — Brincando Com Fogo


O Distríto Baron fica localizado numa ilha ao leste da costa de Amaria, é possível chegar lá através de um túnel que passa por debaixo d'água. O local é conhecido como o maior clube de striptease do mundo, famoso principalmente por ter áreas dedicadas para cada classe social: de operários do governo á donos de grandes multinacionais, sempre há um lugar para homens lá. Além disso, o público feminino também atende ao local, já que também há shows masculinos, mesmo que em uma quantidade bem menor do que a quantidade de shows femininos. A segurança é altamente reforçada e por isso dificilmente há casos de violência então, pode-se dizer que é um local para ter todo tipo de diversão que deseja com o máximo de conforto e segurança. Ou pelo menos foi isso que Locke nos disse.
– Então. vocês já tiveram curiosidade ou vontade de entrar lá? — Ele nos perguntou na cara dura.
– Não. Nunca precisei desse tipo de coisa. — Respondi, fazendo pouco caso do local. Afinal não sou fã da ideia de pagar mulheres para fazer qualquer tipo de serviço sexual.
– Hmmm. Beleza então galã. Pena que nunca te vi com nenhuma garota fora das missões além da ruivinha que está no banco de trás. — Ele comentou, com sua atitude despreocupada de sempre. — Falando em ruivinha. E você? Já teve curiosidade em ir para a Baron? — Ele perguntou á Sarah.
– Não... — Ela respondeu, demonstrando estar nitidamente incomodada com o papo de Locke.
– Que peninha. Você seria uma ótima companhia para ir lá. Sabe, é muito divertido ir pro Distrito com uma garota mais nova. — Ele comentou, dando em cima de Sarah descaradamente. Como notei a ira de Sarah subindo cada vez mais, tive de me intrometer e parar o assunto inconveniente, mesmo achando-o hilário:
– Locke, não quero ser chato mas lembre-se do que a marechal disse. — Comentei. Ele logo deu uma suspirada e respondeu:
– Certo, irei parar de cantar a ruivinha então. Mas, a propósito, vocês estão saindo? Sabe, encontro, homem e mulher.
– NÃO! Definitivamente não!! — Sarah respondeu, exaltando a voz.
– Ei ei ei, relaxa Sarah. Não, não estamos. — Eu disse logo em seguida.
O silêncio tomou conta do carro até que Sarah comentou:
– Eu queria entender porque ela me mandou pra um lugar como o Distrito quando nem maior de idade ainda sou.
Como não sabia o motivo, fiquei calado. Mas Locke fez o favor de responder:
– Você não parece ter dezessete anos. Sabe, eu lhe daria uns dezenove anos se não conhecesse sua ficha. Sem contar que você tem perfil pra esse lugar.
– O que você quer dizer com isso?! — Sarah perguntou, nitidamente alterada. A partir desse momento não consegui mais segurar e cai na gargalhada por conta da situação.
– Para de rir seu idiota! Isso não é nem um pouco engraçado! — Ela disse, ainda exaltada e querendo visivelmente me bater. Quanto finalmente parei de rir, comentei:
– Essa missão promete ser, no mínimo, hilária!
Sarah parecia realmente brava comigo e com Locke. Ficamos todos em silêncio até chegarmos no Distrito. O lugar era, visualmente falando, incrível: Um castelo, cercado por planícies e cercado pelo mar também. Estacionamos o carro e fomos em direção á entrada, um dos seguranças nos abordou:
– Sir Locke, quem são esses dois com você?. — Ele perguntou.
– Eles são meus companheiros do trabalho, resolvi trazê-los aqui para um pouco de diversão. — Locke o respondeu.
O segurança olhou de baixo á cima para mim e para Sarah, deu uma leve risada e abriu o portão:
– Sejam bem-vindos ao Distrito Baron, divirtam-se!

A vista interna do local era algo no mínimo curiosa: Haviam muitas pessoas andando, vendo as atrações. Vários pôsteres anunciavam as atrações do dia para cada andar. Você também encontrava alguns dos funcionários e funcionárias do estabelecimento, que caminhavam pelos corredores olhando e sorrindo maliciosamente para as pessoas que passavam. Locke então explicou como o estabelecimento funciona:
– Esse castelo tem ao todo treze andares: Do primeiro ao décimo, funcionam as atrações do clube, no primeiro, fica o que chamamos de "pé sujo", são as atrações para a classe baixa. Dá para vocês notarem isso pela baixa qualidade dos funcionários aqui. A classe vai subindo á cada andar e, obviamente, no décimo, estão as melhores atrações com os melhores funcionários. Do décimo primeiro ao décimo segundo, funcionam o camarim e o dormitório caso os funcionários precisem descansar. E no décimo terceiro andar está a presidência: o escritório do dono do distrito e é para lá que vamos.
Seguimos então até um elevador e subimos até o décimo andar, onde o elevador parou e fez uma análise de segurança e identificação. E então subiu para o décimo terceiro andar. Saindo do elevador nos deparamos com um senhor, de costas, sentado em uma poltrona e na sua frente uma mulher vendada e completamente nua fazendo pole dance para ele. Sarah fechou seus olhos assim que notou, enquanto Locke olhava para a mulher, admirando sua performance e eu, apesar de estar um tanto tentado á observar uma mulher nua com um corpo escultural dançando na minha frente, não pude deixar de reparar que haviam pelo menos quatro seguranças e mais cinco mulheres no recinto.
– Senhor, temos visitas. — Uma delas disse. A mulher que estava dançando logo parou, tirou sua venda e foi para o canto da sala se vestir, enquanto o senhor na poltrona se levantou e olhou para nós.
– Então, vocês são da Sigma? — Ele perguntou.
– Sim senhor. — Respondi.
– Parabéns Locke, você conseguiu mesmo trazer reforços da Sigma para cá. Bom trabalho. — O homem então disse para Locke, sorrindo.
– Acho que esqueci de explicar á vocês que fui eu que informou á Sigma sobre o problema que a boate está tendo e foi por isso que fui enviado para cá. — Locke então explicou.
– Certo. Então você já sabe qual é o caso que estamos lidando. Poderia nos explicar? — Perguntei.
– Bom... Como eu expliquei a vocês no caminho, esse castelo possui treze andares e cada um deles tem suas próprias atrações. E cada atração tem seu próprio palco. Desde o último sábado, algo inesperado tem acontecido toda noite: Quando a casa está cheia e as apresentações estão rolando, labaredas de chamas surgiram em um palco do décimo andar. Todos, incluindo eu, acreditávamos ser parte do espetáculo até notarmos o quanto a dançarina estava aterrorizada e ao vê-la ser engolida e incinerada pelas chamas quando tentava fugir. Tentamos apagar o fogo com extintores mas não adiantou e quando o fogo finalmente desapareceu, não haviam marcas de queimadura no piso ou no telhado. Desde então isso tem ocorrido noite após noite e cada vez em um andar diferente. Isso tem afastado a clientela então, ontem eu entrei com um pedido na Sigma e, devido a minha insistência, ele foi atendido rapidamente. O motivo pelo qual fui enviado para cá e pelo qual a Marechal me disse aquelas doces palavras foi porque eu sou o responsável pelo pedido. — Ele explicou.
– E você tem alguma ideia de que criatura está causando esses incêndios?. — Perguntei. Ele então caminhou até o centro da sala e, de costas, respondeu:
– Considerando a natureza de só agir á noite e de ser uma criatura do fogo, eu creio que seja um Pesadelo ou um Corcel.
O homem então perguntou: — Vocês poderão resolver o nosso problema?

Locke, caminhando pela sala e se sentando na poltrona, respondeu: — Sim, mas precisamos de um plano. Sr. Edgar, se importaria se ficassem nessa sala somente os membros da equipe da Sigma, você e seus seguranças?. — Edgar então dispensou as mulheres que lá estavam presentes e dois dos homens. Sarah, na duvida, perguntou enquanto se sentava:
– Aqueles dois não são seguranças também?. — Edgar então se sentou dando uma risada.
– Não, aqueles dois fazem parte do meu harém. — Respondeu. Sarah ficou visivelmente sem graça com a resposta e decidiu por ficar quieta. Me sentei ao lado dela e começamos a reunião. Locke começou, explicando o seu plano:
– Como já expliquei, estamos lidando com uma criatura de fogo e que só aparece por volta das uma da madrugada. Isso significa que teremos de ficar aqui até esse horário para poder agir. Estão de acordo?
– Que opção temos? — Sarah respondeu. Eu apenas fiz um sinal com a cabeça concordando.
– Exatamente, nenhuma. Quanto ao plano. A melhor forma de deter uma criatura de fogo é obviamente usando a água e para isso usaremos os alarmes de incêndio do clube e, com a água deles, usaremos Artes d'água contra ele e, quando ele estiver enfraquecido, iremos "envia-lo". O que acham? — Ele continuou.
– Certo, é um excelente plano mas então precisaremos que a casa feche á noite para que ninguém se machuque. — Respondi, em seguida olhando para Edgar. Locke então deu outra leve risada e respondeu:
– Aparentemente, estamos lidando com uma criatura safadinha. Ela aparentemente só age quando estão rolando os shows já que no dia em que a polícia veio até aqui averiguar o caso não houve nenhum sinal de fogo. Ou seja, não há como evacuar o local mas Edgar já preparou um plano, não é mesmo? — Edgar então explicou:
– Nós iremos fazer uma festa interna somente com os funcionários. Teremos pessoas e shows o suficiente para que a criatura apareça e assim que ela aparecer os funcionários irão evacuar e só ficarão no local vocês e os seguranças. Daí pra frente o resto do trabalho é de vocês.
Ficamos em silêncio por algum tempo, e então Locke perguntou:
– Então, alguma sugestão ou objeção?
Sarah fez um sinal de não com a cabeça enquanto eu respondi:
– Não porém. O que faremos até o anoitecer?.
Locke então dirigiu-se ao elevador e, enquanto o aguardava respondeu:
– Simples. Divirtam-se! Vocês podem ir para qualquer cabine em qualquer andar, contratar qualquer atendente que vocês quiserem ou assistirem qualquer show que acharem interessante ou até mesmo ir para um dos quartos privados e tirar um cochilo ou qualquer outra coisa. É tudo por minha conta! — Ele disse com um tom de voz alto.
– Esses quartos são. Uhh... Seguros? — Sarah perguntou, com receio de ter alguma, digamos "marca" do que acontece nesses quartos.
– Relaxe, vocês poderão ficar em quartos privados do décimo primeiro andar, eles são exclusivos para os funcionários e eles só entram após o expediente. Os quartos são limpos e os lençóis trocados á cada seis horas por precaução. — Edgar respondeu.
– Ok, irei querer um quarto então. — Ela disse enquanto se dirigia um elevador.
– E você, Laurence? Quer ir até o décimo andar e desfrutar dos prazeres da vida? — Locke, olhando para mim com um sorriso malicioso perguntou. Me levantei e me dirigi ao elevador, que havia acabado de chegar.
– Não. Vou querer um quarto também. — Respondi. Locke então deu outra leve risada e perguntou:
– Querem uma suíte de casal? Há uma banheira, champanhe e várias outras coisas no décimo primeiro andar.
Sarah gritou para Locke:
– Cala a boca! E para com essas indiretas ridículas! Eu e Laurence não temos nada! NADA! N-A-D-A! Deu pra entender?! — Coloquei a mão na boca dela:
– Acalme-se Sarah, esse é o jeito dele. Respira fundo e se acalme. — Pedi. Ela tirou minha mão de sua boca agressivamente e fez cara de brava, olhando para o nada, calada. O elevador parou no décimo primeiro andar.
– Quartos 14 e 15 estão livres, sintam-se á vontade para usá-los. — Edgar disse, nos entregando as chaves. Saímos do elevador. Locke então disse:
– Meia-noite no primeiro andar, ok? — Sarah ficou quieta e eu o respondi:
– Certo. E Locke, não exagere no que for fazer. Lembre-se que isso é uma missão.
– Relaxa! Esse corpo de vinte e quatro anos pode aguentar muito esforço físico e vários dias acordados. Não serei derrubado tão facilmente. — Ele me respondeu com um sorriso confiante. Virei até o corredor e respondi:
– Certo, mas tenha juízo.

As portas do elevador se fecharam e o que havia para mim e Sarah era um enorme corredor com vários quartos. Caminhamos um pouco e chegamos aos quartos 14 e 15.
– Lhe acordo ás onze e meia. — Disse para Sarah que simplesmente abriu a porta e a fechou com força. Ela parece bem brava por conta das piadas de Locke isso pode ser um grande problema, decidi então que deveria conversar com ela após descansar. Abri a porta do meu quarto e acendi as luzes. Notei que o quarto era bem grande e aparentemente seguro. Havia uma cama com travesseiro e lençóis brancos aparentemente bem confortável porém mal posicionada levando em conta o resto do quarto, uma janela com cortina igualmente branca, paredes de cor creme e um banheiro com uma ducha. Optei então por tomar um banho antes de me deitar.
Durante o banho, ouvi barulhos estranhos que pareciam ser maquinas se movendo. Acreditei ser dos corredores e ignorei. Terminado o banho, vesti minhas roupas, exceto minha camisa pois gosto de dormir sem ela, coloquei meu dispositivo para despertar ás onze e abri a porta onde, para minha surpresa, Sarah estava dormindo em minha cama. Sentei-me ao lado dela e a cutuquei com o dedo. Ela assustada levantou-se e olhou para mim, ficamos nos encarando por tanto tempo que dava pra ouvir o vento. É como se ela estivesse processando a informação lentamente ou como se a ficha não tivesse caído. Até que:
– O QUE VOCÊ TA FAZENDO AQUI?! — Ela gritou, me jogando o travesseiro.
– Eu que lhe pergunto. Você está no meu quarto. — Respondi, jogando o travesseiro de volta.
– Não! Eu estava deitada e dormindo, não tem como eu ter vindo para o seu quarto! — Ela respondeu, o jogando de volta. Eu então segurei o travesseiro e apontei para a placa a porta, que estava com um 15 bem visível nela.
– Olhe ali então. — Sarah então notou que estava mesmo no meu quarto e, ao olhar pra cama, notou que nossas camas juntas estavam formando uma cama de casal.
– Mas. Como? — Ela questionou. Coloquei o travesseiro de volta na cama e me levantei, dando 3 toques na parede em frente á cama. O som saindo de lá era completamente oco. Em seguida, ergui o lençol da cama e respondi:
– Aqui está o motivo. Rodas, uma parede oca e um pequeno trilho. Sua cama foi movida até o meu quarto. Esse aqui provavelmente é o que chamam de "quarto surpresa".
– Então. Esses quartos não eram bem dormitórios para os funcionários. Isso com certeza foi obra do Locke! — Ela disse visivelmente revoltada e indo até a porta do quarto, tentando-a abrir em vão já que estava trancada, ela então gritou para mim: — Abra! Vou acabar com essa palhaçada agora.
Fui até a porta do quarto com a chave em mãos e a guardei em meu bolso. Apoiei minhas mãos nos ombros de Sarah, olhei em seus olhos e disse:
– Você precisa se acalmar. — Ela rapidamente tirou as minhas mãos de seus ombros e tentando pegar as chaves em meu bolso. Então me apoiei na porta do quarto e continuei:
– Você gosta de brincar mas não gosta que brinquem com você?. — Ela então tentou me imobilizar para pegar as chaves, mas desviei e a imprensei na porta com o braço, continuando:
– Sarah, escuta! Respira fundo, você precisa se acalmar. Somos uma equipe e devemos agir como tal! — Ela então me empurrou, foi para o meio do quarto e respondeu:
– Somos uma equipe onde temos um idiota que está agindo como uma criança retardada e inconveniente! E o pior disso tudo é que ele é mais velho que nós dois! Não podemos conviver com isso Laurence!!
Suspirei e a segurei pelo braço, jogando-a na cama e fazendo-a sentar. Apoiei meu pé em cima da cama.
– Enquanto você não relaxar e parar de falar idiotices, eu não vou deixar você sair. Você pode me bater, gritar, tentar me matar. Mas você não vai sair. — Disse com um tom de autoridade já que parece que conversando calmamente ela não escuta. Sarah olhou fixamente em meus olhos e os fechou, respirando fundo.
– Ta bom. — Ela disse, se deitando e se virando para a janela.
– Locke pode até ser inconveniente, brincalhão, idiota ou seja lá o que você acredita que ele seja. Mas ainda assim ele é nosso companheiro de equipe e um membro com ótimos resultados na Sigma, não deixe que as brincadeiras dele lhe afetem tanto afinal, na sua idade esses tipos de brincadeiras e até coisas mais pesadas são bem comuns entre colegas de classe, não é?
– Sim, mas ele tem vinte e quatro anos! — Ela respondeu, ainda com a voz alterada.
– E dai? vinte e quatro, trinta, dezessete, o que idade tem haver com a personalidade de alguém? Ser um adulto amargo que leva tudo á sério é algo horroroso Sarah, você perde seus sonhos, suas esperanças, seu sorriso. Tudo! Então que ele seja assim mesmo, é divertido apesar de chato e inconveniente de vez em quando. — Retruquei.
– Mesmo assim, eu não gosto. — Ela respondeu, agora com a voz mais calma.
– Isso não é motivo suficiente. Você não faz tudo o que todo mundo gosta, então por que deveriam todos fazer aquilo que você gosta? Entenda, brincadeiras existem que nem as que você estava fazendo comigo ontem mas eu não me importei afinal o que aconteceu ou deixou de acontecer na minha vida não importa, e o que é passado deve permanecer no passado. — Argumentei, com um tom de seriedade.
Sarah se mexeu para o meio da cama, juntou os travesseiros e deitou-se.
– Entendi. Até mais tarde então. — Ela disse, agora com uma voz calma, como se estivesse arrependida de ter agido tão impulsivamente. Decidi me calar e sentei no chão, apoiando-me na cama e deitando a cabeça nela já que a situação seria estranha demais caso eu decidisse deitar na mesma cama que Sarah agora. Fechei os olhos e alguns minutos depois, ouvi Sarah perguntar:
– Acordado ainda?
– Sim. — Respondi.
– "O que é passado deve permanecer no passado", isso significa que você não tem feridas e mágoas com relação ao passado? — Ela perguntou.
– Todos tem. — Respondi friamente.
– Eu perguntei se você não tem. — Ela retrucou.
– Todos tem. — Retruquei, agora com um tom mais sarcástico.
– Entendi. — Ela disse, ficando quieta em seguida. Alguns minutos se passaram e decidi perguntar:
– E você?
– Todos tem. — Ela respondeu, com o mesmo sarcasmo que dei.
– Certo.
Fechei novamente os olhos e caí no sono.

Algumas horas depois eu senti alguém cutucando minha cabeça. Ao abri-los, Sarah estava na minha frente, com cara de ansiosa e impaciente.
– Já são dez e cinquenta, vá se arrumar. — Ela disse. Levantei-me e peguei meu casaco no banheiro, liguei a torneira e lavei o rosto, secando com a toalha logo em seguida.
– Err.... Laurence. — Sarah disse, encostada na parede e com um ar sem graça.
– Diga. — Respondi, ainda secando o rosto e os cabelos.
– Desculpe. — Ela disse, mais sem graça ainda. Eu então fiquei em silêncio enquanto arrumava o cabelo e segui até o quarto, colocando a mão em seu ombro no caminho e respondendo:
– Relaxa, coisas assim acontecem. Apenas tenha mais calma e paciência daqui pra frente.
– Certo. — Ela respondeu. Vesti meu casaco e abri a porta do quarto, Locke estava encostado na parede de frente pro quarto.
– Finalmente hein... — Ele comentou. Sarah ficou ligeiramente alterada mas conseguiu controlar-se. Seguimos até o elevador e fomos para o primeiro andar.
– Foi ideia sua nos colocar juntos num mesmo quarto, não foi?. — Perguntei.
– Sim, pensei que seria saudável pra vocês. — Ele respondeu com seu tom despreocupado e sarcástico. Sarah então ficou novamente zangada, mas preferiu manter-se calada.
– Não faça isso novamente. Não somos dois animais selvagens que você os coloca dentro da mesma jaula e após algumas horas eles começam a acasalar. — Comentei com um tom de seriedade e a voz um pouco alterada. Locke deu sua risadinha de sempre e respondeu:
– Tudo bem então, se vocês preferem vestir essa máscara.
O elevador chegou ao primeiro andar, onde já estavam evacuando o local sob o pretexto de fazer reformas. Olhando para o clube vazio, chega a ser algo curioso e até que legal, lembrando de fato um enorme castelo. Edgar convocou todos os funcionários ao primeiro andar e, alguns minutos depois, cerca de duzentas pessoas estavam a frente de nós e de Edgar. Ele então começou á explicar:
– Como vocês já sabem, estranhos incêndios tem ocorrido frequentemente na casa e não conseguimos até hoje conter o fogo ou identificar a causa dele. Um fato sobre ele é que aparece apenas quando há uma quantidade considerável de pessoas na casa e shows estão ocorrendo e por isso pedi para que vocês permanecessem aqui. A grande atração da noite será uma festa interna entre os funcionários da casa e vocês tem permissão para fazerem o que bem entenderem aqui dentro hoje porém, quero que haja pelo menos três shows acontecendo em cada andar e, apesar de eu saber que a situação é complicada, irei dar á quem se oferecer o dobro de seu ganho mensal. Quem se oferece para o serviço, levante a mão.
Naquele momento, pelo menos cinquenta pessoas haviam levantado suas mãos. Locke foi para o lado de Edgar e ambos começaram á sussurrar, alguns minutos depois, Locke voltou para o nosso lado e Edgar começou a chamar os nomes daqueles que escolheu para o serviço.
– O que vocês estavam cochichando? — Sarah o perguntou.
– Eu estava sugerindo as melhores garotas que haviam se candidatado. — Ele respondeu. Sarah então colocou a mão sobre o rosto e comentou:
– Você não tem jeito mesmo.
– Esses são os nomes dos que irão se apresentar, os outros estão dispensados e caso o incêndio ocorra, os alarmes serão ativados e, ao ouvirem o alarme evacuem o Distrito. — Edgar disse, os funcionários então dispersaram entre os andares usando um elevador coletivo. Em seguida ele veio até nós e nos entregou brincos de comunicação, que são usados pelos seguranças para transmitirem informações entre si.
– Nós dispersaremos seguranças em cada show de cada andar e trancarei o décimo segundo e décimo terceiro andar para que não hajam show neles. Vocês devem escolher andares entre o primeiro e o décimo andar e aguardar até que a criatura apareça, vocês serão avisados pelos seguranças caso ele apareça em um andar onde vocês não estejam. Ele nos disse. Colocamos os dispositivos em nossas orelhas e então Locke nos trouxe um mapa do Distrito:
– Como não sabemos onde a criatura irá agir, temos de nos dispersar no Distrito também mas, não adiantará nada ficarmos andando de um ladro pro outro no castelo sem rumo, isso só irá nos deixar cansados e desgastados. Como já conheço melhor o local, eu tomei liberdade de decidir que ficaremos no terceiro, no sexto e no nono andar. Eu irei ficar no nono pois sei como ir do nono ao primeiro rapidamente, vocês terão de decidir entre si em qual andar ficarão. — Disse.
Apesar de Sarah estar mais calma agora, seria uma má ideia deixar ela e Locke cuidando disso sozinhos, mesmo que seja só por um minuto, isso é motivo o suficiente para que eu fique entre eles.
– Sarah, se importaria de ficar no terceiro andar? — Perguntei.
– Não mas por que? — Ela respondeu.
– Simples, você é uma garota e aqui tem acesso rápido aos elevadores então caso você precise subir até o décimo andar é só ir até um deles. — Respondi. Não seria uma boa ideia conta-la o verdadeiro motivo. Me virei e caminhei com Locke até o elevador.
– Isso é machismo, sabia? — Ela resmungou um tanto inconformada com o motivo que dei. As portas do elevador se abriram e, antes de entrar, virei á ela e respondi:
– Eu chamo isso de gentileza.
Entrei no elevador as portas se fecharam e antes do elevador subir, consegui ouvir Sarah dizer:
– Idiota!

Chegando no sexto andar, caminhei pelos corredores, onde a "diversão" já havia começado. Ao redor haviam pessoas dançando nos corredores, bebendo, umas batendo papo e outras até mesmo quase transando nos corredores. Resolvi então entrar em uma das cabines de shows e me acomodei em uma mesa, no fundo do salão para que não fosse percebido já que o clima de perversão em massa do local me deixava um tanto enjoado e me lembrava de Richard. A dançarina então começou a se apresentar fazendo pole dance. Os homens gritavam, e eu ouvia algumas garotas gritando também e outras olhando com uma expressão de desprezo ou, quem sabe, inveja. Fiquei observando a apresentação, na expectativa da criatura aparecer logo, pois cada vez mais aquele lugar me lembrava do desgraçado do Richard.
– Eeeii, menino! — Ouvi alguém me chamar e quando me dei conta havia uma mulher visivelmente bêbada ao meu lado.
– Você quer um pouco deee diversão? É raro eu encontrar garotos tão jovens e tão bonitos por aqui. — Ela dizia, se aproximando de mim e esfregando seus seios intencionalmente, ou não, em meu braço. Coloquei a mão em seu pescoço e a empurrei para trás, respondendo:
– Não tenho interesse em mulheres bêbadas. — Ela então respondeu, se esfregando novamente em mim:
– Eu não to bêbada não. Só um pouquinho... feliz.
A situação era bem desconfortável: Uma mulher relativamente bonita e bêbada se oferecendo pra mim e estou recusando por ela estar bêbada e por não ter interesse em prostitutas? Isso é um tanto constrangedor! Levantei da poltrona e fui até a entrada da cabine aguardando que algum dos seguranças chamassem. Passou um tempo e o show já havia acabado, comecei a me questionar se ele realmente só aparecia quando havia clientes e, se esse for o caso, então o intuito dele era realmente arruinar a reputação do clube?
– ELE ESTÁ AQUI! SEGUNDO ANDAR! — Um dos seguranças gritou no comunicador.
– Ativem os alarmes de incêndio!! — Locke ordenou, também via o comunicador.
Por sorte, o alarme de incêndio do sexto andar estava bem na minha frente, o apertei e corri em direção as escadas de emergência. A missão começava agora!

Notas finais
Bom, ficou bem grandinho mas espero que tenham gostado!
Se puderem e/ou quiserem, dêem reviews! É sempre bom ver o que as pessoas estão pensando da sua história!
Ainda essa semana postarei um novo capítulo!
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Capítulo IV - Salamandra & Leviatã