Paradoxo Alternativo
8 Capítulo 8
21 de Dezembro, madrugada entre Domingo e Segunda.
Não consigo dormir. Algo está me incomodando, mas o que será? Talvez o meu encontro com Fê que, mesmo tendo sido ótimo, acabou me trazendo lembranças desagradáveis?
Não, é outra coisa.
Olho para o relógio sobre a mesa de cabeceira. Ele está marcando 02h30min, exatas vinte e quatro horas desde que terminamos a máquina. Não me comunico com George e Félix desde a nossa discussão na lanchonete. Será que devo ligar para eles? Com certeza devem estar dormindo a essa hora.
Vinte e quatro horas.
Outra lembrança está se formando em minha mente. Meu encontro com Leon na praia. Como ele sabia onde eu estava? Como ele está sempre cruzando o meu caminho? E o mais importante... Como ele sabe da máquina?
Levanto da cama, vou até a escrivaninha e pego minha carteira e as chaves do carro. Minutos depois, estou dirigindo em direção ao galpão. Com as ruas vazias, chego ao mesmo rapidamente. Félix deu para cada um de nós uma cópia da chave que abre a porta dupla.
Ao abrir a porta, olho atentamente para dentro antes de entrar. Não vejo sinais de George e Félix em lugar nenhum. Vou até o interruptor e acendo as poucas lâmpadas, confirmando o que eu pensava. No local estamos apenas eu e a máquina.
Tranco a porta por dentro e me aproximo do computador. Sento-me na cadeira em sua frente e ligo-o. Mensagens codificadas surgem em sua tela e então eu me lembro. George não me ensinou como operar a máquina.
– Não deve ser tão difícil – penso.
Começo a digitar diversos comandos, a fim de tentar decodificar as mensagens da tela. Uma hora se passa e ainda não tive sucesso.
– Por que ele não projetou isso de uma forma mais clara?
Recosto minha cabeça na cadeira e olho para a máquina por alguns segundos. Volto minha atenção para o computador. Após mais meia hora de tentativas fracassadas, começo a pensar em desistir. Respiro fundo e levo a mão ao rosto, me segurando para não socar algo. Ao olhar para a parte de baixo de onde o computador se encontra, vejo uma gaveta. Abro-a e dentro encontra-se um grosso livro.
– “Aparato de Viagem Intertemporal Modelo Um – Manuel de Instruções” – é o que diz o título – Só pode ser brincadeira.
O livro contém diversas informações, desde a explicação da teoria utilizada no projeto, até meus esboços de cada peça. George talvez ficasse escrevendo este livro nos dias em que eu não estava aqui para ajuda-lo. Meus desenhos sendo incluídos depois. Após várias informações desnecessárias para o momento, chego à parte desejada.
De acordo com o manual, decodificar as mensagens não parece ser tão complicado, basta entender de números. Cada letra do alfabeto é representada por um número. A letra “A” é o número “1”; “B” é o “2”; e assim sucessivamente, até chegar ao “Z-26”. O livro continha uma tabela com as letras e seus respectivos números. Cada palavra deve ser escrita através de sequencias numéricas, tendo suas “letras” separadas por hifens. Sendo assim, caso eu queira escrever o meu nome, primeiro devo separar suas letras mentalmente e em seguida substituí-las por números. No caso, “M-I-G-U-E-L” se tornaria “13-9-7-21-5-12”.
O computador não reconhece acentuação e cedilha, nem quaisquer um dos outros caracteres especiais. Para diferenciar “letras” de “números”, basta colocar o “0” na frente. O número “1” seria “01” e o “15” seria o “015”. No caso, para escrever “1 minuto” eu utilizaria a sequencia “01 13-9-14-21-20-15”. Basicamente, quanto maior a frase no comando, mais complicada a sequencia numérica será.
Após algum tempo de leitura, coloco em prática o que acabei de aprender, sempre dando uma olhada no livro nos momentos em que ficava confuso. Decodifico todos os códigos de segurança e enfim consigo ligar a máquina. Sua forte luz ilumina novamente todo o local. Na tela do computador, surge uma linha horizontal na cor verde em frente a um fundo preto, onde deve ser escrito o novo comando. Acima dela, encontrasse uma sequencia numérica, que consigo traduzir como sendo “retroceder 2 minutos”. O último comando utilizado por George.
O nervosismo e a ansiedade começam a aparecer. Respiro fundo. Com minhas mãos suando começo a escrever a sequencia correspondente a palavra “retroceder”, copiando a sequencia que George usou, mas assim que escrevo os dois primeiros números, percebo que seria menos complicado utilizar sinônimos, no caso usar a palavra “voltar” ao invés de “retroceder”.
E assim escrevo a sequencia “22-15-12-20-1-18”. Mas e agora? Para quando quero retornar? Voltar quatro anos para impedir o acidente com a eco-moto? Sim! É isso.
“- Você não deve viajar no tempo!”.
Lembro-me da frase dita por Leon na praia. Um aviso, sem dúvida. Por que não devo viajar no tempo? Como ele sabe que eu desejo viajar no tempo? Agora me arrependo de não ter ficado lá para ouvir o que ele tinha a dizer.
24 horas.
E se eu usar a máquina para retornar para aquele momento na praia? Assim poderei escutar sua explicação. Espere... Vou utilizar a máquina para voltar no tempo e escutar uma advertência de não utilizar a máquina? Seria isso um paradoxo?
Não sei o que fazer. Mas já estou aqui, a máquina está ligada. Vou usá-la, com certeza. Mas então, para onde será? Vinte e quatro horas ou quatro anos? Vinte e quatro horas ou quatro anos? Vinte e quatro...
Uma grande pancada atinge a porta do galpão. Alguém está forçando a entrada com diversos socos. Quem será? Não pode ser Félix ou George, afinal eles possuem a chave. Será que alguém me seguiu até aqui? Se sim, o que essa pessoa quer? Não posso sair, pois aquela porta é a única entrada. Vire-me para o computador e começo a digitar uma sequencia numérica.
Vinte e quatro horas... Quatro anos... Vinte e Quatro horas... Quatro anos... Vinte e Quatro horas...
Droga! Minha mente está confusa. As pancadas na porta aumentam e continuam, parece que agora a pessoa está utilizando algum objeto. Aquela porta enferrujada não aguentará muito tempo.
Vinte e Quatro horas.
Meus dedos estão digitando rapidamente, intercalo minha atenção entre a tela do computador e a porta atrás de mim.
Quatro anos.
Terminado o comando, levanto-me rapidamente e me coloco em frente à máquina. Meus olhos já se acostumaram com a sua luz, mesmo assim fecho-os antes de me atirar em sua direção.
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