Estou flutuando, envolto por um vórtice repleto de imagens confusas que se estende além do alcance de minha visão. Escuto vozes vindas de todas as direções. Ao direcionar minha atenção para uma das imagens desfocadas que estão ao meu redor, vejo a mim mesmo sentado em frente a máquina digitando códigos. Em seguida, outra imagem adquire foco, nela estamos eu e Leon conversando na praia.

Outras imagens se tornam nítidas. Minha discussão com George e Félix na lanchonete; o primeiro teste da máquina; meu primeiro encontro com Leon em frente a minha casa; George me convidando para o seu projeto...

São imagens de meu passado.

Continuo reparando nas imagens enquanto viajo pelo vórtice em direção ao infinito. O início da faculdade; meu primeiro dia no emprego; minha formatura; o acidente com a eco-moto...

Não sei há quanto tempo estou aqui.

Ao longe avisto um ponto de luz e uma grande força me impulsiona em direção ao mesmo, as imagens vão passando mais rápido, ao ponto de não conseguir distinguir mais nenhuma delas.

Um último brilho... E mais nada.

Escuro.

Onde estou? Por que está tão escuro?

Estou deitado sobre uma superfície fria, que acredito ser o chão. Aos poucos minha visão vai se acostumando e começo a distinguir algumas partes do nosso galpão. Será que a máquina funcionou? Sento-me e aperto um dos botões do meu relógio de pulso para checar a hora e então me surpreendo.

São exatas quatro horas antes do horário em que utilizei a máquina.

Isso quer dizer que retornei apenas quatro horas? O que eu errei na programação desta máquina maldita? Na hora do nervosismo devo ter digitado algum comando errado. Bom, pelo menos o seu segundo teste foi um sucesso. Tentarei novamente.

Levanto-me, meu corpo está dolorido. Mas afinal o que houve com as luzes? Vou até ao lado da porta, onde existe um interruptor. Pressiono o mesmo, mas as luzes não acendem. Deve ter sido uma queda de energia, o que é estranho, pois não me lembro disto ter acontecido recentemente. Viro-me na direção da máquina.

Ela não está lá.

O quê?! Mas como? Onde está a máquina? Estou num galpão diferente? Coloco a mão no bolso da calça e retiro as chaves da porta. Elas não entram na fechadura. O que está acontecendo aqui?!

– Ei! – bato forte na porta repetida vezes – Tem alguém aí fora?

Nenhuma resposta.

– Droga!

Sento-me no chão recostado na porta, minhas mãos estão doloridas. Pego o celular e disco o primeiro número que vem a mente, o de George. Uma mensagem afirma que o número não existe. Num excesso de raiva, arremesso o celular contra a parede.

– O que eu vou fazer? O que eu vou fazer?

O que eu devo fazer?

–

Amanheceu.

Sou acordado por um facho de luz que atinge meu rosto através de um vidro quebrado de uma das janelas. Não sei quando exatamente peguei no sono. Continuo no chão, afinal, onde mais eu estaria? Agora com a luz matinal consigo ver que o galpão está completamente vazio, com exceção de vários montes de poeira acumulados nos cantos e teias de aranha que pendem do teto.

Olho na direção em que arremessei o celular na noite anterior e o vejo desfeito em pedaços no chão. Escuto uma pequena movimentação do lado de fora. Me levanto rapidamente e volto a bater na porta.

– Ei! Tem alguém aí? Estou preso aqui dentro! — nenhuma resposta – Por favor, me tira daqui!

Escuto um som de chave sendo introduzida na fechadura e a porta se abre com um grande rangido. Do lado de fora está uma mulher de estatura mediana, com o penteado formado por grandes tranças e com um grande número de chaves na mão.

– Quem é você? — perguntou

– Muito obrigado por abrir a porta.

– O que estava fazendo aí dentro? Aliás, como entrou aí?

– Você não acreditaria se eu te contasse.

– Sei... Enfim, meu nome é Jéssica e o seu é?

– Muito prazer senhorita Jéssica, eu sou Miguel. Miguel Croft.

– Pois bem, senhor Miguel, se já acabou sua estadia, gostaria que se retirasse do meu galpão, por favor.

– Este galpão é seu?

– Todos esses galpões são meus, eu administro o local.

– Entendi. Desculpe-me pela invasão. E mais uma vez, obrigado.

– Não há de quê. Você parece um pouco abatido, posso ajuda-lo em alguma coisa?

– Acredito que não – meu estômago emite um pequeno ronco – Na verdade... Saberia me dizer onde eu poderia comer alguma coisa? Pode ser qualquer coisa, estou faminto.

– Venha comigo, meu marido possui um bar aqui próximo.

Alguns minutos de caminhada e chegamos ao local. É um bar pequeno, mas é um ambiente agradável. A decoração do bar é formada por objetos antigos, com piso e bancos de madeira, além de dois ventiladores de teto. Não há televisão, apenas uma máquina de música, que admito nunca ter visto tal modelo antes, que está tocando uma música desconhecida para mim num volume bem baixo. Não há clientes, provavelmente é muito cedo para tomar uma cerveja.

– Querido, você está aí? – pergunta Jéssica ao ver que não tinha ninguém atrás do balcão.

– Já estou indo! – responde uma voz vinda dos fundos. Alguns segundos depois adentra um homem alto, de pele negra, com um sorriso no rosto. A primeira vista eu poderia jurar que se tratava de Félix. – Pensei que você estava nos galpões, Jéssica.

– Eu estava, mas tinha um pequeno “visitante” em um dos galpões. Esse rapaz aqui ao meu lado.

– Entendo. – ele direciona o olhar para mim – Prazer, meu nome é Samuel.

– Miguel. O prazer é meu.

– Ele está com fome, já tem algum aperitivo pronto?

– Ainda está cedo, então não tem nada pronto. Só daqui a uns 20 minutos, tudo bem?

– Não tem problema. Eu espero — ao reparar no balcão noto um jornal jogado sobre o mesmo – Este jornal é de hoje?

– É sim – responde Samuel – Fique a vontade para lê-lo.

– Obrigado, só quero checar uma coisa.

Pego o jornal e reorganizo um pouco as folhas. Olho a primeira página, mas ignoro todas as manchetes, apenas uma coisa me interessa: A data.

– Ei, você está bem? – pergunta Jéssica

– Qual o problema? – pergunta Samuel.

Estou suando frio, meu coração está acelerado, minhas mãos estão tremendo. Não consigo acreditar no que estou vendo.

“25 de Março de 2013”, esta é a data do jornal.

Eu viajei 24 anos.