Notas iniciais
Chega a primavera...

Havia uma clareira que estava sempre lá...

Havia uma menina que de vez em quando estava lá...

Havia um leão que só estava lá por causa da menina...

Quando o sol atingiu seu pico no céu um de seus raios escapou por entre a copa das árvores, reluziu sob as folhas farfalhantes dos carvalhos, iluminou a clareira, tocou a pele clara da pequenina entre as flores e finalmente se embrenhou por entre os ramos dos arbustos penetrando no esconderijo de onde o leão espreitava em silêncio.

A luminosidade o cegou por um instante e fez com que perdesse a visão da jovem na clareira, mas isso não o perturbou, ela ainda estaria lá, ele sabia. Não sairia de lá até terminar de tecer sua coroa de flores.

Os pequenos dedinhos descobriam as flores por debaixo da neve.

Era quase primavera e ainda havia neve cobrindo o chão da clareira. Ela se agrupava mais densamente conforme se aproximava da pequenina. Em outros pontos estava quase toda derretida e já começava a ceder seu espaço para as flores.

O vento soprou fazendo dançar as folhas e junto com elas os cabelos castanhos da menina, que quase ao mesmo tempo iniciou um cantarolar suave. Ela ajeitou uma mecha acastanhada atrás da orelha e se acomodou melhor sobre o montinho de neve, sentando-se de lado para livrar os joelhos. A saia do vestido rosado cobria suas curtas pernas.

Os olhos claros se ergueram para os arbustos à sua frente e um sorriso infantil clareou seu semblante, ela não conseguia enxergar através dos ramos, mas sabia que de dentro daqueles arbustos olhos escuros lhe sorriam de volta.

As folhas chacoalharam quando o leão deixou seu abrigo, mas a pequena permaneceu imperturbável enquanto juntava as flores em círculo para formar a coroa, seus olhos sequer se ergueram de seu singelo trabalho.

Ele deixou pegadas na neve enquanto se aproximava, vencendo a pacata distância que o separava da menina. Comparado a ela, ele era um gigante. Suas patas eram maiores do que as mãos dela, suas orelhas maiores do que as orelhas dela e seu corpo mais alto que o corpo dela. Apenas seus olhos eram menores do que os dela. E que olhos grandes ela tinha... Pareciam dois pedaços do céu.

Diferente dele... Ele tinha a noite concentrada no olhar.

O leão empurrou o braço da pequena de leve com o focinho e ela tombou para o lado, rindo ao usar uma de suas mãos para se amparar.

— Quase pronto. — disse com paciência.

Ela terminou de tecer sua coroa e a ergueu na frente dos olhos para que pudesse admirar seu trabalho. Uma flor média uma flor pequena, assim fora montada a sequência que deu vida à guirlanda. As cores eram variadas, não seguiam nenhum padrão e na realidade não combinavam, mas o colorido não era importante.

A pequena fechou os olhos, mas o leão manteve os seus bem abertos para não perder o pequeno toque de mágica dado pela jovem, ele sempre adorava vê-la realizar seus truques, especialmente ao acaso para se distrair.

Ele ouviu os estalidos antes mesmo de ver surgir os pequenos cristais de gelo que brotavam das palmas fechadas dela, tomando pétala a pétala em todas as direções até que a coroa estava inteiramente congelada. As cores haviam desaparecido, dando espaço ao brilho gélido e transparente do inverno.

Ela voltou a abrir os olhos e sorriu ao ver o resultado de seu trabalho. Ergueu a coroa tão alto quanto seus braços conseguiram alcançar, mas nem mesmo assim atingiu o topo da cabeça do leão, que por sua vez abaixou o pescoço na direção da jovem para ajudá-la.

A pequena depositou a tiara congelada sobre as orelhas baixas do felino, e antes que ele pudesse voltar a se erguer, ela jogou os braços ao redor de seu pescoço. Suas mãozinhas se perderam dentro da espessa juba negra muito antes que ela tivesse qualquer chance de cobrir toda a extensão do pescoço.

— Feliz chegada da primavera, Viggo. — fez votos a pequena.

Viggo se sentou à frente dela, estendeu uma das patas dianteiras e com leveza a depositou nas costas da jovem em sua própria maneira de retribuir seu abraço e dizer-lhe “obrigado”.

Notas finais
Espero que tenham gostado do prólogo, embora tenha sido só uma pequenina introdução.
O próximo capítulo já será narrado pela própria protagonista da história, lembrando que ela tem apenas oito anos de idade e tudo é diferente em seu mundo. Talvez a narrativa de Luna não nos permita distinguir realidade de fantasia, mas essa é a verdadeira intenção desse conto.
Vejo vocês em breve o/

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