Para sempre inverno

2 Lobos na janela - Luna


Notas iniciais
Luna sente medo dos lobos de olhos vermelhos e corre para o quarto de Viggo. O que são essas criaturas que a assustam tanto?

“É só abrir os olhos...”

Puxei o cobertor para cima até que cobrisse a minha cabeça por inteiro.

“É só abrir os olhos...”

Encolhi-me até sentir os joelhos em meu peito e fechei os olhos com força.

“Abra os olhos! Abra os olhos!”

Apertei o coelho contra mim e deitei a cabeça debaixo do travesseiro tentando abafar o barulho dos uivos e arranhões. Começava a ficar abafado debaixo da coberta e meu fôlego falhava a cada arfada. Eu queria abrir os olhos como Viggo me ensinou, mas eu já havia tentado e eles continuavam na janela.

Senti uma gota de suor correr pelas minhas costas e de repente as batidas pararam. Abri meus olhos e assim que empurrei as cobertas para baixo senti o ar gelado do meu quarto. Na verdade era um alívio, agora já não estava mais tão abafado.

O quarto estava escuro, a não ser pela luz azul do abajur que Rowan havia feito para mim usando galhos de árvores e recortes no formato de flocos de neve para decorar. Parecia uma árvore invernal e tinha um brilho tranquilizante. Graças a esse brilho eu conseguia enxergar a janela do meu quarto, mas só via a cortina florida feita por Nora para bloquear a claridade.

Tudo parecia mais calmo agora. Eu joguei as cobertas para o lado e agarrei o braço de pelúcia do coelho enquanto escorregava para fora da minha cama. Meus pés e a barra da minha camisola tocaram a neve que cobria o chão do meu quarto, mas não estava frio, pelo menos não para mim.

Eu caminhei devagarzinho na direção da janela, a cada passo tropeçava na barra da camisola grande demais para mim. Tomava tanto cuidado para não fazer barulho que demorei a perceber que arrastava o coelho no chão. Pobrezinho! Eu bati a neve dele com cuidado e o apertei contra o peito até chegar à janela. Segurei a pontinha da cortina florida e puxei para o lado lentamente, com medo de me deparar com os olhos vermelhos de novo. Conforme a cortina descobria a janela eu conseguia ver o céu com a lua alta e cheia iluminando a vista, depois vi as pedras na base do penhasco e o mar quebrando lá embaixo.

Meu coração disparou ao som dos uivos e quando voltei a olhar para as pedras lá estavam eles. Os lobos de olhos vermelhos que arranhavam a janela quase todas as noites. Soltei a ponta da cortina e ela voltou a se fechar. Será que me viram?

Apertei o coelho e deixei meu quarto descendo as escadas na torre onde eu dormia o mais rápido que consegui. A neve nas escadas me ajudava a não fazer barulho, mas eu precisei tomar cuidado para não escorregar. Passei a porta do quarto de Rowan bem de mansinho, se ele acorda por minha causa grita comigo. Continuei correndo até chegar ao quarto de Viggo.

A cama dele era uma completa bagunça, Nora vivia reclamando por causa disso, mas não adiantava, o lado felino de Viggo gostava de dormir naquele montinho que fazia com as cobertas e as almofadas, e eu também sempre achei muito confortável.

Viggo sentia muito frio. Em noites como aquela ele preferia dormir como leão, mas Nora havia proibido e reclamado dos pelos nas cobertas, então agora ele precisava cobrir o corpo inteiro até a cabeça para não sentir tanto frio. Eu caminhei até os pés da cama e entrei debaixo das cobertas emboladas. Fui engatinhando até encontrar Viggo e me acomodei perto dele. Apertei o coelho e fechei os olhos sabendo que conseguiria dormir agora.

— Oi menininha. — eu ouvi a voz dele sonolenta.

— Oi. — respondi um pouco envergonhada por ter acordado ele.

— Foram os lobos outra vez?

Apertei os olhos com força ao pensar nos lobos e movimentei a cabeça para cima e para baixo. Viggo me abraçou e ficou enrolando um dedo nos meus cachinhos. Viggo nunca se importou em ser acordado por causa dos meus medos, pois ele tinha seus próprios.

— Seus pés estão gelados. Está sem meias?

— Estou... Você vai contar pra Nora?

Eu sabia que Nora ficaria furiosa se soubesse que eu andei descalça e sem meias, ela diria que eu posso ficar resfriada, mas eu nunca fico resfriada, nunca na vida fiquei doente. Eu ouvi o riso de Viggo.

— Não, não vou.

Ele se remexeu um pouco desconfortável.

— O que você está segurando? — me perguntou.

— O coelho.

— Ainda não escolheu um nome pra ele?

— O nome dele é coelho.

— Então o seu nome é menininha.

— É assim que você me chama. — eu encolhi os ombros e ele voltou a rir.

O quarto ficou calmo novamente, eu coloquei o coelho de lado para não incomodar mais o Viggo. Achei que ele já tivesse pegado no sono, mas então o ouvi dizer:

— Vai me contar uma história para dormir?

Eu pensei um pouco antes de responder, já havia contado todas as histórias que conhecia, mas ele gostava quando eu inventava novas.

— Qual você quer?

— A que você gostar mais.

— Gosto da história de como nos conhecemos.

— Então me conte.

— Estava de noite e eu...

— Espera um instante. — ele me interrompeu. — Você não vai começar com “era uma vez”?

Ele tinha razão! Que terrível contadora de historias eu sou. Sempre que Nora me contava uma história ela começava com “era uma vez” e sempre terminava com “felizes para sempre”. Esse era o segredo das boas histórias, todo bom contador deveria saber. Eu apertei a barra da longa camisola que usava e comecei de novo.

— Era uma vez uma menina...

— Menininha. — ele me corrigiu.

— Certo. Era uma vez uma menininha que estava na floresta...

— Essa menininha tinha cabelos castanhos? — ele voltou a me interromper.

— Tinha.

— E essa menininha tinha olhos azuis?

— Seu bobo! Sou eu. A menininha sou eu!

— Você não tinha dito!

— Eu já ia dizer.

— Está bem, comece de novo. — ele pediu.

— Era uma vez uma menininha que estava na floresta. Ela tinha cabelos castanhos e olhos azuis.

— Como ela se chamava?

— Ela ainda não tinha nome.

— Podemos chamá-la de coelho? — ele me provocou.

— Não, porque nós já a chamamos de “menininha”.

— Certo. E o que ela estava fazendo na floresta?

— Ela estava fugindo dos lobos de olhos vermelhos, estava perdida. Quando escurecia ela ficava com mais medo porque não conseguia enxergar. Só conseguia ver alguma coisa quando as nuvens não cobriam a lua, então ela tentava assoprar as nuvens para longe.

“Uma noite as nuvens cobriram o céu inteirinho e deixaram tudo escuro, ela ficou tão assustada que começou a correr, mas não importava o quanto corria os lobos continuavam atrás dela. Ela viu um castelo e correu até ele. Dentro do castelo moravam um leão, um porco espinho e uma mãe.”

Eu parei de falar ao escutar a risada de Viggo. Ele segurou a própria barriga tentando parar de rir, mas não deu muito certo. Continuou a rir até começar a perder o fôlego e eu ainda não sabia o que havia dito de tão engraçado.

— O porco espinho é o Rowan? — ele me perguntou entre risos e só então eu entendi.

— É! Por causa do cabelo dele.

— Você está indo bem, menininha. Continue. — me pediu assim que parou de rir completamente.

— Os três moradores do castelo não sabiam o que fazer quando viram a menininha. O leão foi o primeiro a ouvir os uivos e correu para fora do castelo para pegar os lobos. O porco espinho foi logo atrás soltando raios pelas mãos. A mãe estava preocupada com a menininha e ficou um pouco para ter certeza de que ela estava bem, mas assim que viu que seus filhos precisavam de ajuda ela usou a sua incrível velocidade e correu para fora do castelo para ajudá-los.

“Juntos, os três espantaram os lobos e voltaram para cuidar da menininha. O porco espinho não queria que ela continuasse no castelo, pois os lobos poderiam voltar, mas a mãe disse que eles corriam esse risco de qualquer jeito e deixou a menininha ficar. Ela chamou a menininha de Luna. Então o leão veio conversar com a menininha...”

— Leões não falam. — cortou Viggo.

— Esse leão fala! Porque ele também é uma pessoa.

— E o que o leão disse?

— Ele perguntou de onde ela vinha e há quanto tempo estava na floresta, mas Luna não falava.

— Ela não sabia falar?

— Sabia. Ela só estava assustada. Então o leão buscou papéis e lápis e começou a fazer desenhos perto de Luna. A menininha se empolgou e começou a colorir também, ela descobriu que sua cor favorita era o azul escuro. O leão percebeu que ela respondia suas perguntas com desenhos e os dois começaram a conversar. Enquanto isso a mãe arrumava um quarto no castelo para Luna ficar e o porco espinho havia saído para ter certeza de que não tinha mais nenhum lobo por perto.

“Quando o quarto ficou pronto o leão levou a menininha até sua cama e lhe deu um beijinho de boa noite. Quando ele ia sair do quarto ela finalmente falou.”

— O que ela disse?

— Disse assim: Deixa a luz acesa? E o leão respondeu “Você não vai conseguir dormir se a luz ficar acesa!”. A menininha se encolheu inteira e perguntou “Mas e se eu ficar com medo?”.

— E o que o leão respondeu?

— O leão sorriu, ele disse: Ora, é só abrir os olhos.

Notas finais
O próximo capítulo talvez seja narrado em terceira pessoa, eu pretendo alternar entre primeira e terceira. Gostou? Deixe seus comentário e até a próxima o/
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.