Notas iniciais
Esse está mais curto que o primeiro. Mas todos os capítulos serão na base de 1,200 á 2,000 palavras. Boa leitura!

Entramos na M.D Anderson á passos largos, às paredes de cores adversas me traziam lembranças incríveis, as crianças se despedindo de mim, após tempos de turbulência de tratamento e então depois do transplante iam saltitando para casa para uma nova vida. Pais aliviados e pessoas que ainda tinham esperança. Entramos no elevador e Klein apertou o botão do quarto andar me tirando de minhas recordações agridoces.

Às portas do elevador abriram-se e um suspiro escapou de meus lábios. Estava tudo da mesma maneira, podia ouvir algumas risadas cansadas vindo da ala infantil, hoje é dia dos palhaços. Mika estava parado na porta da sala azul — a sala de radioterapia — seu sorriso fácil preencheu o seu rosto assim que ele me viu, tive a ligeira impressão que seus braços se abriram enquanto ele caminhava na nossa direção pronto para um abraço, percebi quando seus olhos viram a figura pálida e emburrada ao meu lado e seus braços penderam ao lado do corpo, mas o sorriso continuava estampado para quem quisesse ver.

Ele estava usando um jaleco verde escuro, uma touca colorida tampava parte de seus cabelos loiros, seus olhos eram daquela cor especial de azul quase violeta. Cumprimentou Klein, como se fossem velhos amigos e o levou até a poltrona de quimio, a sala de tratamento dos adultos tinha ganhado paredes azuis claras e poltronas laranjas lindas. Mika fez todo o procedimento de aplicação da quimioterapia e veio até onde eu estava do lado de fora da sala, dessa vez não se conteve ao me abraçar bem apertado.

— Você é a nova enfermeira do Peter? — Mika perguntou afastando-se um pouco, nós dois sempre tivemos um bom relacionamento, amigos de cara. Deve ser porque nunca ficamos já que toda vez que Mika saía com uma mulher, sendo ela do hospital ou não, ele sempre estropiou com a amizade depois do encontro.

— Peter?! — Repeti o nome saboreando e entendendo que desde o começo eu não tinha perguntado o nome do “Senhor Klein”. — Ah...sim. O senhor Klein, sim ele é meu novo chefe! De onde você o conhece?

— Peter é um dos meus casos mais antigos, ele foi diagnosticado com uma espécie rara de leucemia, já tentamos praticamente de tudo, mas ele sempre tem uma recaída já tentamos o transplante de medula, mas o sistema dele parece ter ignorado isso. Precisávamos de um transplante com pelo menos noventa e sete por cento de compatibilidade contudo não encontramos nada. Porém o senhor Klein manda chuva não nos deixa desistir e hoje vamos começar uma quimio mais intensa.

— O que significa que vão haver reações ruins e Peter pode não aguentar tudo.

—Sim, mas Peter é forte você vai ver. Quer um café? — Ele perguntou sorrindo daquele jeito calmo para mudar o rumo da conversa e mesmo sem vontade eu aceitei.

— Chocolate quente se tiver, eu vou ver se ele precisa de mim. Eu duvido muito contudo estou sendo paga pra isso. — Digo sorrindo e caminhando para dentro da sala.

— Okay, eu levo pra você! — Fui sentar na poltrona de frente para Peter que estava de olhos fechados com o livro descansando no colo. Quando eu trabalhava na ala de oncologia infantil daqui, costumava imaginar a cor dos cabelos dos pacientes antes de começar o tratamento. Acho que Peter tinha cabelos castanhos claros.

— Você está me encarando! — Novamente meu rosto queima por ter sido pega viajando na batatinha. Murmurei um pedido de desculpas olhando para o livro que eu trouxe, tentando não corar feito uma idiota.— Tá tudo bem. É só não me contar Spoilers quando estiver irritada comigo.

O escutei dizer tentando parecer menos arrogante, mas só pareceu que estava sendo sarcástico e pude vê-lo revirando os olhos quase ri, Mika voltou com um copo enorme fumegante e um sorriso de comercial de Tv. — Seu chocolate quente, kitcat!

— Obrigada! — Sorri agradecida, dessa vez corando de verdade, ninguém me chamava assim fora de casa e dei um longo gole no chocolate deixando o líquido esquentar todo o meu corpo.

— E o meu, seu cretino? Também quero um chocolate! — Peter exigiu, como uma criança mal criada e Mika o encarou fazendo uma careta nenhum pouco aborrecida.

— Pra quê você quer chocolate, Klein? Para por tudo pra fora? Deixe Catarina desfrutar! — Ele disse irônico e eu quase ofereci meu chocolate quando os dois começaram a rir da minha cara de perplexidade e eu só tomei o chocolate por educação depois disso, porque perdi totalmente a vontade de beber aquilo. Mika pediu licença e saiu, Peter me olhou por um tempo enquanto eu fingia que não tinha me aborrecido com aquela cena idiota e então colocou os fones novamente e fechou os olhos.

Eu não deveria ter deixado Mika me chamar pelo apelido, acho que causei uma má impressão, odeio isso. Uma hora e meia depois estávamos indo embora, o rosto de Peter era agora semelhante a papel de tão branco,transpirava muito e suas mãos estavam trêmulas. Ele jogou suas coisas no banco do carro e se jogou da mesma forma, sei que ele deve estar enjoado e cansado só espero que Abernathy chegue em casa a tempo do que vem depois.

Assim que o carro estacionou Peter pulou para fora do carro, o vi correr tropegamente em direção a casa, peguei suas coisas correndo atrás dele e as largando sobre o sofá, o encontrei com a cabeça enfiada no vaso. — Você...não precisa ver isso! — Ele murmurou voltando a vomitar. "Sim, eu precisava ver! O contrato exigia isso!"

— Está tudo bem. — Disse para tentar acalmá-lo e comecei a preparar o ambiente para ele, ignorando o cheiro de mofo e a escuridão do quarto. Coloquei a banheira para encher com água quente, aumentei a temperatura do quarto e procurei por mais edredons. Quando voltei ao banheiro, Peter estava entrando na banheira, eu sei que deveria olhar para outro lugar, mas ele era tão magro que parecia que ia se quebrar a qualquer momento. Não parecia certo nem um pouco na verdade. Ele entrou na água e eu me sentei. Olhei ao redor menos pra ele, quando o silêncio ficou grande demais minha curiosidade venceu e a pergunta escapou pelos meus lábios. — Quando você descobriu que estava com essa leucemia?

— Com dezoito. — Foi a única pergunta que consegui fazer antes que ele implorasse para sair da água. — Merda! — Escutei sua voz sem qualquer nota de sarcasmo, só raiva e dor. Me aproximei e o ajudei a colocar a roupa, seus braços pareciam ter vida própria de tanto tremer parecia impossível de vesti-lo e quanto mais Peter ficava nervoso, os tremores se intensificavam.

— Esquece isso. — Digo o guiando até a cama, puxando as cobertas pesadas e ouvindo os palavrões dele, respiro fundo vendo a cara de espanto mesclado a surpresa de Peter ao me ver tirando meus casacos e ficando só de roupas íntimas. Todo mundo sabe que é a maneira mais rápida de gerar calor.

— Que merda..você… está..fazendo? — Não me atrevi a responder, apenas entrei debaixo das cobertas e o puxei pra perto de mim, reprimindo o choque do seu corpo magro e gelado e a facilidade espantosa com que eu consegui puxá-lo para mim. Por mais que Peter tenha ficado inicialmente desconfortável comigo, não conseguiu reprimir um suspiro de alívio quando o calor o envolveu.

— Durma um pouco. Não vai ser a primeira e nem a última vez que você vai deixar uma garota esperando você acordar. — Escutei uma risada fraca enquanto Peter se aconchegava mais em mim, os tremores pararam depois de alguns minutos e eu o vigiei enquanto ele dormia por mais dez minutos. Sai da cama o mais devagar possível para não acordá-lo enquanto voltava a me vestir. Não era a primeira vez que eu tinha feito aquilo, era necessário as vezes, mas, ia evitar a todo custo voltar a fazer aquilo. Hoje o dia estava cheio de más impressões.

A calmaria não durou muito tempo, talvez uma hora e meia apenas. Começou com Peter reclamando da claridade mesmo com o quarto na mais completa escuridão, depois os gritos começaram — mesmo o mínimo som inexistente parecia uma bateria de escola de samba aos ouvidos dele — tive que colocá-lo de volta na cama inúmeras vezes, seu corpo estava ensopado de suor.

— Deite-se! — Pedi,o cobrindo novamente Peter dobrou-se ao meio por causa das dores, já passava das quatro da tarde quando ele finalmente dormiu de verdade. Arrumei toda a bagunça sem fazer barulho nenhum e sai do quarto. Quase gritei ao dar de cara com Abernathy.

— Como ele está? — A pergunta curta carregava bastante preocupação, mais do que apenas empregado- patrão com toda a certeza.

— Dormindo graças a Deus. Vou fazer algo que ele coma! — Respondi arrumando meu cabelo que provavelmente estava totalmente rebelde.

— O senhor Klein não gosta de comer, faz muito tempo que comida sólida não entra nessa casa. — Ele disse com seu narigão em pé e eu quase pulei no pescoço dele, com tanta chatice.

— Não me admira que ele esteja tão magro, se nem você o obriga a comer alguma coisa. — Praticamente corri até a cozinha, não queria me aborrecer com isso, olhei pelos armários e o que encontrei não foi muito satisfatório. Encontrei: Biscoitos de água e sal, algumas latas de vegetais, carne enlatada na geladeira só água e refrigerante. — Só tem isso na geladeira? Você não come aqui?

— Não. O Senhor Klein prefere não fazer compras.

— Então eu vou ser demitida, porque eu vou fazer compras agora. Não faça barulho Abernathy, eu já vou regressar. — Disse colocando minha jaqueta e pegando a bolsa.

— Eu não faria isso se fosse você!

— Que bom que você não sou eu! — Murmurei saindo da mansão e indo para o mercado mais próximo.

…..

Fazer compras sempre foi tipo uma terapia. Porém não eram compras de roupas e acessórios como Cristina amava fazer. Nunca fui esse tipo de garota, nós não tínhamos muito dinheiro quando era pequena então, quando íamos fazer compras — eu e minha mãe — era o dia mais divertido de todos.

Eu não tinha pedido dinheiro á Abernathy — nem sabia se era pra ele que eu deveria pedir — mas eu não ia fazê-lo. Retirei dinheiro do caixa rápido e fui fazer compras. Voltei duas horas depois, bem tarde para os meus padrões. Abernathy me ajudou a guardar tudo em silêncio. — Ele acordou?

— Não sei, Senhorita Catarina. Não fui até lá! — Xinguei um palavrão internamente e corri degraus acima, abri a porta bem devagar e encontrei Peter deitado na horizontal, com a cabeça para fora da cama, seus olhos estavam abertos porém pareciam fora de foco.

— Senhor Klein, Está acordado? — Ele não respondeu, o ajeitei na cama, o cobri, chequei sua temperatura e fechei seus olhos. Ele era jovem, porém parecia muito mais velho do que eu. Desci a escada, fiz uma sopa de legumes bem rala só que com sabor e esperei que ele acordasse de verdade.

A sopa esfriou, as horas passaram porém, Peter não acordou. Não naquele dia!



Notas finais
Obrigada por ler Deixe sua critica ou elogio nos review, serão muito bem respondidos!