Para Sempre - Sombras do Passado
7 O enigma do espelho
Notas iniciais
Dias depois
A chegada da filha do Prof. Arthur mexeu muito comigo. Isso não é grande coisa – ou pelo menos não deveria ser. Mas quando recordo o momento em que nossos olhares se cruzaram, o coração disparado antecipa um arrepio inevitável que percorre todo meu corpo com uma intensidade incrível. Não consigo tirá-la da cabeça. Me pergunto constantemente se, por alguma casualidade, Yasmin Parker me conhece de algum lugar.
Não sou uma pessoa negativa. Quero já deixar isso fora de cogitação. Mas, como qualquer ser humano comum, não consigo evitar ficar na defensiva quando pressinto perigo iminente, apesar de não saber explicar como, diabos, pressinto essas coisas. Isso é tão típico de mim que nem me surpreendo mais. Por essas e outras não discordo de Adrian quando ele diz que sou a garota mais cabeça-dura da face da terra.
Hoje faz uma semana que Yasmin Parker chegou ao internato. Embora pertençamos à mundos diferentes, ambas temos muito em comum. Ela é bastante tímida e reservada, assim como um dia eu fui. Também é bastante inteligente e possui uma beleza delicada. Noto seu entusiasmo nas aulas de inglês e concluo que ela adora essa matéria tanto quanto eu. Contudo, diferente de mim, ela não tem amigos. Se não me falha a memória, Yasmin não trocou uma palavra com ninguém desde que chegou ao colégio. Enquanto não suporto a ideia de ficar longe dos meus amigos, ela simplesmente evita passar perto deles. Quando alguém lhe dirige a palavra, ela simplesmente sorri e assente, e dificilmente ouço-a dizer “Oi” ou “Tudo bem”.
Isso não me incomoda, pois o jeito dela de ser me faz lembrar de como eu agia no passado. O que me incomoda mesmo é essa marcação que ela tem comigo. E já não sou só eu que pensa que essa garota tem algum problema. Minhas amigas também pensam o mesmo, e acho que metade do colégio também, senão todo ele. Não acredito que ela faça isso por maldade. Talvez – só talvez – Yasmin também pense que temos muito em comum e esteja tentando se aproximar de mim, e não saiba como fazê-lo.
Ou, na pior das hipóteses, Yasmin é lésbica e está apaixonada por mim.
Balanço a cabeça com escárnio e me levanto da cama decidida a tirar essa garota da cabeça de uma vez por todas. Afinal, tenho coisas mais importantes e mais sérias para me preocupar. Como por exemplo...
As marcas de sangue no meu espelho.
Como, diabos, isso veio parar aqui? Será que isso é mesmo sangue?
Me aproximo do espelho devagar, e ao mesmo tempo estendo a mão em direção ao vidro. A essa altura as manchas já deveriam estar secas, mas elas continuam úmidas, e posso sentir o odor intenso arder em minhas narinas.
O que, afinal de contas, está acontecendo aqui?
Enquanto minha mente passeia por todas as possibilidades, ouço o celular tocar no bolso da minha saia e dou um salto.
Por Deus, pare de pensar nessas bobagens por um minuto, digo a mim mesma. Agora você precisa ficar com os pés bem firmes no chão.
Volto a mim antes que eu entre em transe outra vez e pego o celular.
É Adrian. Obrigo-me a abrir um sorriso da melhor forma possível e atendo:
— Oi, meu amor. Tudo bem?
Ouço batidas na porta.
— Só um minutinho, querido...
Abro a porta e o que vejo à minha frente me arranca uma risada.
— Oi, linda – diz Adrian, com um sorriso provocante, o celular encostado à orelha esquerda. – Será que eu posso entrar?
— É claro que pode – respondo, ainda rindo. – Nem precisava perguntar.
Adrian me beija e entra em seguida. Sinto uma pontada de desespero me invadir enquanto ele se dirige à cama. Olho para o espelho parcialmente coberto pelo cobertor e torço mentalmente para que ele não o perceba, e que suas narinas não detectem o mau cheiro.
Abro um sorriso largo e vou até ele.
— Estava passando por perto e decidi fazer uma surpresa. – Ele olha ao redor, o que me faz engolir em seco. – Acreditaria se eu dissesse que estava morrendo de saudade de você?
— Jura?
— Juro. – A língua de Adrian umedece seus lábios sedutores. Não me provoque assim, peço mentalmente. – Não há um só dia em que eu não pense em você, meu amor. Não sou o mesmo sem você por perto. Você é a razão pela qual eu acredito no amor.
Meus lábios tremem de nervoso, o que acontece cada vez que escuto suas doces palavras que sempre me encantam.
Os dedos dele acariciam meu queixo, enquanto seus olhos azuis me observam com atenção, como se me estudasse.
— Que lindo, Adrian. Realmente me ama tanto assim?
— Ora, mas é claro que sim. Te amo tanto, meu amor, que mesmo que eu lhe falasse isso todos os dias, eu não seria capaz de decifrar o tamanho do amor que sinto por você. Foi com você que aprendi que quando um amor é realmente verdadeiro, não há palavras no mundo que possam traduzir.
Aperto-me contra ele e beijo-o sem pressa, esquecendo-me por um instante dos problemas que vem me afligindo nas últimas semanas. Apoio minhas mãos sobre o peito dele, aspirando seu delicioso perfume amadeirado, sentindo as batidas do seu coração, ouvindo seu gemido baixo enquanto meus lábios deslizam suavemente pelo seu pescoço.
— Você sempre arranja um jeito de me surpreender – murmuro.
— Mesmo?
— Mesmo. E isso é o que mais me atrai em você. Esse seu jeito de me amar. Amo o modo como você fala comigo. E com certeza amo o jeito que você me faz sorrir. Faz parecer que vivo num sonho. – Inclino-me e coloco minha testa sobre a dele, mordendo meu lábio inferior enquanto um rubor corre nas minhas bochechas. – Um sonho do qual não quero acordar nunca mais.
Nossos lábios se encontram e eu fecho os olhos involuntariamente, deixando-me envolver pelo beijo. Adrian me segura com firmeza, puxando-me para perto do seu corpo e aniquilando qualquer espaço que haja entre nós.
Mergulho os dedos em seus cabelos e continuo a beijá-lo, suave e delicadamente. Adrian experimenta tocar minha língua com a dele. Nossas bocas e línguas começam a brincar, numa dança lenta e erótica.
Então a porta se abre atrás de mim e eu recuo, assustada. Olho para trás e vejo Duda, segurando alguma coisa na mão.
— Foi mal, pombinhos. Não quis interromper a brincadeira de vocês. Mas é que...
— É que o quê? – Grito, furiosa. Desta vez o imbecil do meu primo foi longe demais. Não suporto que ninguém invada minha privacidade. – Com que direito você entra assim, no meu quarto? Sua mãe nunca te ensinou a bater na porta? Onde está sua educação? E o que, diabos, você quer?
Duda me encara com espanto. Acho que, na minha vida inteira, nunca fiquei tão furiosa com alguém.
— Se controla, priminha. Cuidado com o estresse.
— A Larissa tem razão – diz Adrian, dando um passo à frente. – Você não tem nenhum direito de entrar assim no quarto dela. Diz logo o que quer e saia.
— Relaxa, playboyzinho. O papo não é contigo.
— Como é que é?
— O que foi? Não está escutando bem? Eu disse que o assunto não tem nada a ver com você. Sacou ou quer que eu desenhe?
— Olha aqui...
— Chega, vocês dois! – Resolvo acabar com isso antes que acabem saindo no tapa. – Diz logo o que você quer e dá o fora.
— Primeiro, se quer que eu seja educado com você, sugiro que também faça o mesmo.
— Sujeitinho folgado – diz Adrian.
— Adrian, deixa que eu cuido disso.
Respiro fundo e ergo os olhos para Duda.
— Vai me dizer o que quer sim ou não?
— Já que você insiste...
Olho para o que parece ser um envelope em sua mão.
— O correio passou há alguns minutos. Chegou esta carta para você.
Ele levanta o envelope, rindo. Arranco-o das mãos dele, torcendo para que ele dê meia volta e se retire. Mas ele não o faz.
— Quer mais alguma coisa?
— Depois eu é que sou o mal educado. Estou esperando você me agradecer.
Solto um suspiro longo e sofrido. Estou a ponto de surtar, mas prefiro me agarrar à pouca paciência que ainda me resta.
— Obrigada. Satisfeito?
— Não, mas já está de bom tamanho.
— Você é insuportável!
— De quem é essa carta? – Adrian pergunta.
— Ih, priminha... – diz Duda. – Pelo visto seu namorado é bem ciumento.
— Eu só fiz uma pergunta, imbecil.
Duda avança contra ele, o dedo em riste.
— Veja lá como fala comigo, seu otário!
— Repete isso, se tiver coragem!
— Acha que eu tenho medo de um mané como você?
Duda o empurra com força contra a parede. Adrian arqueja, com os dentes à mostra, a raiva evidente em suas feições.
Não me faltava mais nada. Quando penso que as coisas não podem piorar, meu primo e meu namorado resolvem brigar como dois pirralhos encrenqueiros.
E, ainda por cima, no meu quarto e na minha presença.
Mas de jeito nenhum!
— Agora chega! Parem os dois! Fiquem quietos!
— Então manda esse zé mané parar de me encher o saco!
— E você não fica abusando da minha paciência...
— Chega! – Grito o mais alto que posso, feliz por meus pais não estarem em casa no momento. – Ou juro que tiro vocês daqui à marteladas.
Os dois, enfim, se aquietam e a paz volta a reinar no ambiente. Me concentro no envelope. Viro-o e percebo que não há remetente. Apenas duas letras grandes e negras: H e A.
— Que estranho. Não tem remetente. Quem será que me mandou isso?
— Vai ver é um admirador secreto – diz Duda.
— Cale a boca, se não quiser que eu te arrebente aqui dentro e agora mesmo.
Duda levanta as mãos com um gesto de desculpas. Tento respirar fundo e normalizar minha respiração, que está pesada e barulhenta. Olho outra vez para a parte frontal do envelope, cismada em descobrir o que essas duas letras significam. Talvez sejam as iniciais de algum nome. Mas não me lembro de ninguém cujo nome comece com estas letras. Honório, Hortênsia, Humberto... Anabela, Anacleto, Adélia...
Chega, digo baixinho. Vou abrir esta droga de uma vez!
Rasgo o envelope depressa, as mãos tensas de puro nervosismo, e puxo o papel. Levo minha mão à boca no mesmo instante. Dentro, encontro uma foto em preto-e-branco de um casarão de madeira e uma folha de caderno dobrada pela metade. Nela, há um esboço mal feito de uma caveira e uma frase escrita com caneta tinteiro:
Reze por misericórdia!
As letras são idênticas às que estão gravadas no espelho. E as iniciais H.A. certamente pertencem à pessoa que deixou aquela mensagem.
Mas como isso é possível?
— A menos que...
— Larissa.
Levanto rapidamente a cabeça, assustada. Adrian está parado de frente para o espelho.
— Por que seu espelho está coberto?
Adrian estende a mão para puxar o cobertor.
— Adrian, não!
Tarde demais. Ele puxa o cobertor e recua um passo, num suspiro engasgado. Respondo-lhe com um gesto idêntico.
Adrian e Duda se viram para mim ao mesmo tempo, encarando-me boquiabertos. Sinto-me encolher, ficando do tamanho de um hamster.
— Larissa?
— O que significa isso?
— Não sei – respondo rapidamente. – Juro que eu não sei!
— Como assim não sabe? – Ele olha outra vez para o espelho, estendendo a mão para o vidro. – Olhe só para isso...
— Não toca! Ainda não sei de onde isso veio.
— Olha... Agora você me surpreendeu, priminha. – Duda me dirige um olhar de escárnio. – Quem diria? Não imaginava que pudesse ser tão ousada assim. Mandou bem.
— Do que você está falando, garoto?
— Não se faça de sonsa, que comigo não cola. Aí está a prova de que você não é tão santa como dizem.
Bufo, cada vez mais odiosa. Por Deus, minha vontade é de cravar-lhe uma faca bem no meio do umbigo e subir abrindo sua carcaça bombada até o queixo.
— Não lhe dê ouvidos, Adrian. Você me conhece. Sabe que eu jamais faria isso.
— Eu sei disso, meu amor. É claro que eu não acho que tenha sido você.
Adrian me abraça, e eu finalmente consigo sentir um pouco de alívio. Me afundo no corpo dele, enquanto mais e mais perguntas rondam minha mente.
A principal delas é: o que mais me falta acontecer?
— Mas se não foi você – começa Duda –, então quem foi?
— Não sei ao certo. – Afasto-me de Adrian e apanho a folha de caderno que deixei cair no chão. – Mas algo me diz que foi a mesma pessoa que me mandou isto.
Mostro o desenho da caveira e a frase “Reze por misericórdia” para Adrian, ansiosa para saber o que ele pode pensar a respeito.
Ele mantém o olhar fixo e rígido no papel por alguns instantes. Vejo seus olhos lampejarem com o furor da raiva.
— Essa foi a gota d’água.
— Sabe de uma coisa? Você tem razão.
Adrian me encara, desentendido.
— Essa história já ultrapassou todos os limites. Não vou mais ficar parada, esperando o próximo aviso. Vou fazer o que já deveria ter feito há muito tempo. Ou melhor, nós vamos fazer.
— É melhor eu dar o fora daqui antes que eu acabe me envolvendo nessa bagunça toda – diz Duda, que sai em seguida.
Já não era sem tempo, penso. Não quero que ninguém fique sabendo do que pretendo fazer.
— Agora que estamos a sós, quero que me explique direitinho o que a senhorita está tramando.
Odeio quando ele fala assim. É quase certo que ele não vá concordar com a minha ideia.
Não seja otimista, Larissa. Ele não vai concordar com isso de maneira alguma. Mas você precisa agir. Precisa fazer alguma coisa. Precisa...
— Querida... – Adrian estala os dedos na minha cara. – Estou falando com você.
— Adrian, você precisa me escutar!
— Estou escutando.
— Primeiro... – Pego a foto do casarão de madeira e a coloco na mão dele. – Olhe bem para esta foto.
Adrian olha a foto com atenção. Em seu semblante rígido se forma uma expressão de horror e, segundo me parece, de ódio, como eu nunca vi antes.
Engulo em seco quando ele me encara.
— Reconhece este lugar?
— Reconheço. E daí?
— Me mandaram esta foto. Quem me enviou com certeza sabe o que aconteceu naquela casa dois anos atrás. Não sei como, mas sabe. Até onde eu me lembro, não houve testemunhas, além de você, eu e...
— Me diz onde, exatamente, você está querendo chegar.
— Escuta bem: as coisas que andam acontecendo comigo não são comuns. Aparentam ser, mas não são. Diga-me: quem, em seu juízo perfeito, entraria no meu quarto e marcaria meu espelho com sangue? Isso está muito além do possível. E esta carta é a prova disso. Veja. Eu não te contei, mas estes traços me são familiares. Sei que pode parecer loucura, mas acho que sei quem desenhou isso. Minha hipótese é de que tem alguma força maligna tentando me prejudicar. E, veja, esta também poderia ser a explicação para os meus pesadelos.
— Desculpe, querida, mas eu ainda não entendi absolutamente nada.
— Tudo bem. Eu entendo e isso basta. Mas vou precisar da sua ajuda. Não quero encarar isso sozinha. Não quero e nem posso. – Paro para recuperar o fôlego. – Estive pensando e acho que sei o que podemos fazer para pôr um fim nessa situação de uma vez por todas. Temos que voltar ao Campo dos Sonhos.
Adrian recua um passo. Exatamente como eu pensei que ele reagiria.
— Você só pode estar brincando comigo, Larissa.
— Não, Adrian. Não estou brincando. Estou falando muito sério. Este é o único jeito de desvendar este mistério e acabar de uma vez para sempre com este problema.
Adrian respira fundo, claramente tenso.
— Escuta, meu amor... – diz ele, com as mãos pousadas em meus ombros, fitando-me a escassos centímetros do meu rosto. – Você deve se lembrar do que aconteceu naquela casa na última vez em que pusemos os pés lá. Foi um erro terrível. E esse erro quase custou a nossa vida. Não queria ter que passar por tudo aquilo outra vez. Veja bem, eu não temo por mim, mas por você. Eu te amo demais e jamais me perdoaria se alguma coisa ruim lhe acontecesse. Entende? Não acho que seja necessário chegar à tanto. Deve haver uma maneira menos radical de resolvermos isso. É só uma questão de...
— Não, Adrian – digo com firmeza. – Entendo que esteja preocupado comigo e não sabe o quão fico grata por isso. Mas desta vez não temos escolha. É tudo ou nada. Sinto que lá encontrarei as respostas para todas as minhas perguntas. Se não for assim, nunca mais terei paz.
— Por que acha isso? O que acha que encontraremos lá?
— Uma coisa que já vimos antes. E que pode ser muito útil.
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