Para Sempre - Sombras do Passado

8 A maldição do acampamento


Notas iniciais
Capítulo fresquinho de Sombras do Passado para vocês. Leiam e se surpreendam com: "A MALDIÇÃO DO ACAMPAMENTO". Boa leitura.

Fields of Dreams, Julho de 2013

Adrian não podia deixar de se perguntar onde havia falhado. Tudo parecia perfeito no começo. A ideia de passar uma semana inteira com sua namorada num dos lugares mais procurados pelos amantes de natureza, trekking e aventura, era maravilhosa. Achava que nada no mundo poderia ser mais prazeroso. Até ela estragar tudo.

Ela, enfatizava com desdém. Maldita patricinha, que voltou do quinto dos infernos para atazanar minha vida!

Não conseguia conter sua raiva. Tampouco se via capaz de encará-la por mais de dois segundos. Elaera o motivo para ele estar tão tenso nos últimos tempos. Ela era a razão para o seu relacionamento com Hannah estar caminhando para o fim. Se ela não tivesse reaparecido, tudo estaria bem entre eles. Talvez, agora, estivessem a bordo de um caiaque, navegando pelo grande lago, admirando a beleza daquele pedaço de paraíso e fazendo juras de amor um para o outro.

O destino e suas malditas armadilhas, era no que estava pensando enquanto seguia atrás de seus amigos por uma trilha espessa na floresta de rododendros. Não acredito que caí tão facilmente nessa. Não acredito que cedi aos caprichos dessa patricinha dos diabos e não fiz nada a respeito.

Maldita seja você, Larissa Oliveira.

Ainda era muito cedo. O sol não estava tão quente e a brisa fresca que soprava do leste tornava aquele passeio consideravelmente agradável. Pelo menos para a maioria deles. Adrian não estava curtindo nem um pouco. Não que não gostasse de caminhadas ao ar livre, mas até a atividade mais prazerosa se tornava insuportável com Larissa Oliveira por perto. Queria manter a maior distância possível entre eles, pois até o aroma do perfume dela o estava deixando louco.

Tentava distrair-se da melhor forma possível. Concentrava-se no cantar dos pássaros, no uivo da brisa que lhe sacudia os cabelos, na luz branda do sol que banhava seu corpo, e também nos animais que via pelo caminho. Já havia perdido a conta de quantos formigueiros, casas de joão-de-barro, tocas de ouriços e colmeias vira ao longo da trilha. Gostava disso. Ficava impressionado com a maneira como os animais providenciavam seus “lares-doces-lares” para se refugiarem do frio e do perigo.

Já fazia dois dias. Nem o tempo estava colaborando. As horas pareciam se arrastar só para vê-lo roer as unhas de tanta impaciência. Mal podia esperar para que tudo aquilo acabasse e a hora de ir para casa finalmente chegasse.

— Vejam só que maravilha – dizia Larissa, com um iphone 8 na mão. – Com esta já são 78 fotos batidas. Ganharemos com certeza.

Adrian já não aguentava mais ouvir sua voz. Sua mania de grandeza o irritava. A ele parecia que estar no topo do mundo havia se tornado a meta da vida de Larissa. Queria se dar bem em tudo, destacar-se dos demais. E a atividade proposta pelo líder do acampamento – um simpático aventureiro conhecido por Jack Antonoff – era a oportunidade perfeita para isso.

— Se eu fosse você, minha cara colega, não cantava vitória antes do final da gincana – disse Henrique. – Não sabemos quantas fotos as outras equipes bateram.

— Sinceramente, não estou nem aí. E me faz um favor: pare de ser tão estraga-prazeres.

Henrique suspirou, sabendo que não fazia sentido discutir com Larissa, uma vez que a única coisa que interessava a ela era o que ela achava. Não estava nem um pouco preocupada com a opinião alheia.

— Galera, tenho que confessar uma coisa – disse Miguel, abrindo os braços como se quisesse agarrar o vento. – Nunca, em toda a minha vida, eu me diverti tanto assim. Valeu muito a pena ter vindo nessa viagem.

— Quem vai lhe entender?

— É mesmo. Para quem não queria vir para cá nem morto, está muito entusiasmado.

— Vocês me conhecem, galera. E, se não estou enganado, já expliquei por que não queria vir.

— Sim, você explicou. Mas, se não me falha a memória, amigo, eu disse que aquilo era apenas uma bobagem da sua cabeça.

— Pode ser que sim, mas... Por mais que eu tente, não consigo tirar da cabeça essa sensação de que alguma coisa ruim vai acontecer.

— Como o quê? – perguntou Larissa. – Uma tempestade? Uma inundação? Apocalipse zumbi?

— Muito engraçadinha. Mas não. Eu não sei, acho que... Bem... Olha, quer saber? Deixa para lá. Esquece. Que tal voltarmos para o acampamento agora?

— Ainda falta muito até o final da gincana. São apenas 8h05.

— Sei disso, mas...

— Espere um pouco! – Disse Henrique, de repente preocupado. – Onde está o Adrian?

— Que ótimo – disse Larissa. – Só espero que esse idiota não tenha se perdido.

Henrique olhou em volta. Fazia alguns minutos que Adrian sumira da vista de todos. Estavam tão concentrados na conversa que esqueceram do companheiro.

— Ali está ele. – Apontou Miguel. – Parado na beira do barranco, olhando para Deus sabe o quê.

Adrian estava parado à margem da ribanceira fazia dois minutos. Enquanto andava, avistara um enorme casarão de madeira abandonado ao longe, metido entre uma ampla área de relva rala e uma fileira extensa de árvores centenárias. Nunca ouvira falar que houvesse um casarão abandonado por aquelas bandas. Nem sequer o dono do acampamento, que já havia contado inúmeras histórias sobre o acampamento nas últimas duas noites, falara algo a respeito, o que lhe pareceu um tanto suspeito. Era provável que não soubesse da existência daquela casa, ou que tivesse se esquecido de mencionar.

De qualquer modo, aquilo era bastante atrativo para ele. Fazia-o lembrar daqueles filmes de terror em que pessoas desavisadas se aventuravam em casas antigas e acabavam se dando mal. Claro que eram apenas histórias. Contudo, a ideia de explorar o lugar era atraente. Atraente demais para ignorar.

Ouviu a voz irritante e resmungona de Larissa atrás dele, perguntando-lhe o que fazia ali, parado.

— Olhem para lá – respondeu, sem desviar o olhar.

Os três olharam para frente. Ao longe, talvez não mais que cinquenta metros adiante, o velho casarão de dois andares se erguia como se brotasse do chão. Pelo estado da madeira, aparentava ter uns 80 anos de idade. Camadas de musgo cresciam verdes e espessas por sobre a fronte. A maioria das janelas estava quebrada e cobertas por tábuas, o telhado desabado, as paredes, esburacadas e decoradas por galhos e folhas secas, dando-lhe uma imagem macabra.

Larissa soltou um soluço, fez cara de surpresa e depois ergueu ambas as mãos num gesto amistoso de “caraca”.

Em seguida, falou com ironia:

— Uau! Que incrível, Adrian! Uma casa velha! Super incrível!

Adrian sentiu vontade de voar no pescoço de Larissa quando a viu desfazer o semblante de espanto e olhá-lo com desdém.

— Para sua informação, tem gente que curte esse tipo de coisa.

— Além de você, não conheço mais ninguém.

— Será que dá para você calar essa boca, sua patricinha irritante?

— Chega, gente! – Gritou Miguel. – Dá um tempo nessa briguinha tosca de vocês! Não têm feito outra coisa desde que chegaram. Parecem duas criancinhas.

— Ok! Chega! – Gritou Larissa. – Já entendi.

Henrique continuou olhando fixamente para o casarão, sentindo algo estranho percorrer seu corpo de uma ponta a outra. Algo que nunca sentira antes.

— O que estamos fazendo aqui, afinal de contas? – perguntou ele.

— Perdendo tempo, para variar. Não é mesmo, Adrian?

Ele a ignorou.

— Na boa, acho melhor voltarmos para o acampamento. Alguma coisa aqui não me cheira bem.

— Não será você? – brincou Henrique.

— Estou falando sério, cara. Tenho um mal pressentimento.

— Não me diga? – Disse Larissa.

— Melhor irmos agora.

— Espere – interveio Adrian. – Por que não vamos até lá dar uma olhada? Não custa nada e ainda temos tempo de sobra até o final da gincana.

— Mas é claro. Por que não? – diz Larissa, com um ar cheio de ironia. – Estava demorando para você dar uma de suas brilhantes ideias.

Adrian avançou um passo em direção a Larissa, apontando-lhe o indicador.

— Ouça aqui, sua patricinha metida! Se não quiser junto, tudo bem. Vou sozinho.

Adrian deu meia-volta e começou a descer o barranco.

— Ótimo. Vai mesmo. Não estou nem aí.

— Acho que vou atrás dele – disse Henrique.

— O que?

— Minha mãe sempre diz que nunca devemos deixar um amigo na mão.

Dito isso, começou a seguir Adrian ladeira abaixo.

— E você?

— Eu é que não vou ficar aqui sozinho.

— Puxa! Obrigada!

Miguel deu de ombros e começou a seguir os rapazes. Larissa ficou parada por alguns segundos, de braços cruzados, sentindo uma pontada de curiosidade se formar dentro dela.

— Ei! Esperem por mim!

***

A velha casa parecia ficar cada vez maior a medida que se aproximavam. Fazia jus ao nome “casarão” porque era mesmo enorme. Apesar dos adornos e dos detalhes de um vago estilo colonial, era tão grande que parecia ter sido dilatada em vez de construída.

Ao redor, tudo era áspero, e no jardim, as árvores permaneciam soturnas e desgalhadas. Os canteiros estavam cobertos de ramos secos, mortos, atrofiados, quebrados pelo vento. As paredes assumiam uma tonalidade acinzentada bem escura e acobreada. Algumas vidraças estavam partidas, perfuradas, com fragmentos pelo chão.

Sua aparência envelhecida e sombria lhes causava a impressão de que ela poderia desmoronar a qualquer momento. Mas isso não preocupava a Adrian, que queria a todo custo invadir a propriedade, sem se importar se tinha direito a isso ou não.

Foi até a única janela que não estava quebrada para tentar ver através dela. Mas foi em vão. A vidraça era escura demais, ou, talvez estivesse tão empoeirada que seria impossível visualizar qualquer coisa por meio dela.

Fez um muxoxo.

— Droga. Não consigo ver nada.

— E se quebrarmos o vidro? – Sugeriu Miguel.

— Melhor não. Vai que tem gente dentro.

— Duvido muito. Parece que ninguém põe os pés neste lugar faz uns cinquenta ou sessenta anos.

— Podemos voltar agora? – Perguntou Larissa.

— Mas nem pensar. Não vou embora enquanto não descobrir o que tem aqui.

— Ai, santa paciência...

Henrique olhou ao redor. Não havia mais do que um deserto à perder de vista. Um mar de nada. Um acúmulo de ervas daninhas secas, amontoadas, espalhadas por todo lugar. O arco de pedra calcária que procedia o jardim – onde as pilastras o sustentavam, outrora em tons pastéis, agora encardido – estava coberta por trepadeiras secas e vermes da terra. Lançou seu olhar perscrutador sobre as paredes externas, rachadas e cheias de musgo, desejando não ter dado ouvidos à Adrian e voltar para o camping.

— Larissa! Miguel! – Começou Adrian. – Deem a volta na casa e vejam se dá para entrar pelos fundos, sim?

— E quem disse que você está no comando? – Questionou Larissa.

Adrian estreitou os olhos para ela.

— Garota, quer parar de agir feito criança e fazer o que eu digo, para variar?

Larissa o encarou por alguns segundos, depois deu de ombros e se foi. Miguel a seguiu.

— Vejamos se consigo derrubar esta porta.

— Por que simplesmente não esquecemos essa loucura e damos o fora daqui?

— Por um simples detalhe: não dispenso loucuras.

Adrian virou-se para a porta e começou a estudá-la. Notou um cadeado velho e enferrujado e concluiu que teria que arrombar a porta se quisesse entrar pela frente.

Quando deu o primeiro chute na porta, Miguel e Larissa já estavam do outro lado do casarão, onde o solo era totalmente desprovido de vegetação e percorrido por uma relva murcha que mais parecia um bolor esverdeado sobre um pão imenso. Larissa não era de confessar temores, mas tinha que admitir que, desde o primeiro instante em que pisara naquele solo, foi assaltada por sentimentos ruins. Sentia um frio correr pela espinha e um medo indescritível tomava conta dela.

Tentou ignorar isso e concentrou-se em sua tarefa de encontrar uma entrada para o interior da casa. Ainda achava que era uma perda total de tempo o que estavam fazendo, mas se quisesse voltar para o acampamento antes do prazo final, teria que chegar ao fundo disso querendo ou não.

— Não tem como entrar por aqui – disse Miguel.

Larissa levantou a cabeça e começou a observar as janelas, desejando ter garras afiadas para escalar os vários metros da parede externa e assim entrar por uma das janelas do andar superior. Viu, no minuto seguinte, uma série de trepadeiras retorcidas que subiam em várias colunas pelas paredes arruinadas até o teto.

— A não ser que...

— Que o quê?

— Você é boa em escalar?

— Por que estou com a sensação de que isso não vai acabar bem?

— Muito conveniente, não acha?

— À essa altura, eu não sei mais o que pensar. Vamos entrar de uma vez. Trouxe a lanterna?

Miguel abriu sua mochila e procurou pela lanterna, mas não a encontrou.

— Droga! Deixei minha lanterna na barraca!

— Ótimo! Isso quer dizer que eu devo ir na frente. A menos que você pegue esta lanterna e assuma o comando. Mas pela sua cara você não está nem um pouco a fim disso, certo? Então lá vou eu.

De imediato, agarraram-se firmemente às trepadeiras e começaram a subir. A escalada durou cerca de um minuto, até que finalmente conseguiram entrar no velho imóvel através de uma janela quebrada.

Enfiaram-se no vão da larga janela, pisando sobre um piso de carvalho antigo que rangia sob seus passos lentos e inutilmente cuidadosos. Uma corrente de ar frio penetrava pela abertura. Nas brechas que clareavam pobremente aquele local desprovido de luminosidade, era possível enxergar os fragmentos de poeira que faziam suas narinas comicharem. Um desagradável olor de mofo pairava no ar, fluindo em ondas doentias, e um misto de pavor e nojo completava seus semblantes.

Os primeiros passos levaram eles a um corredor não muito grande, estreito e lúgubre, de paredes brancas descascadas e rachadas. Tinha o pé-direito alto, típico de construções antigas. Podia-se ouvir os guinchos de ratos, o leve arranhar de milhares de patas batendo displicentemente no teto e por baixo do assoalho.

Andaram sem pressa em direção a uma escada no final do corredor. Uma escada íngreme de madeira que dava acesso à sala de estar. Do último degrau, a visão que tinham era de uma sala sombria e imunda. Estava toda coberta de pó e teias de aranha; a tinta das paredes descascando, e havia rachaduras em toda parte. O bolor na ligadura com o teto e as paredes era asqueroso; as marcas de infiltração de água estavam em todos os lugares; a mobília era antiquada e parecia que não era usada há séculos.

Havia de tudo espalhado por todos os lados, desde um brinquedo velho e quebrado até cascas de banana e outras porcarias. Um pequeno foco de luz bruxuleante jorrava do final da escada. Desceram. Os degraus gemiam sob seus calçados. No fim da escada, só havia sombras e um odor insuportável; frio e umidade; ânsia de vômito e ardor nos olhos. O feixe de luz da lanterna varreu a escuridão como uma benção nas trevas. Porém, a claridade não iluminava o bastante. Começaram, então, a dar passos sem rumo dentro do que parecia a antessala do inferno.

Duas silhuetas humanas se moviam sutilmente, e a luz das lanternas dançava desordenadamente na imensidão negra, onde tudo parecia ter desaparecido, até mesmo os próprios ruídos. Os dedos de Larissa se agitavam e o clarão da lanterna passeava em meio às trevas incessantes, revelando uma parede úmida e corroída a poucos passos de distância. Nela, uma janela de vidro fechada. À sua direita, avistou uma estante cheia de livros empoeirados, sujos com mofo, cujos títulos não variavam tanto: Biologia Avançada, Alquimia, Física, Química e Magia Negra.

— Que cheiro horrível.

— Vou ficar toda fedorenta. O Adrian vai me pagar por isso.

Foi quando começaram a ouvir um som alto e assustador. Vinha do lado de fora. Olharam para a porta. Ela tremia.

— Ei! – Gritou Larissa. – O que está havendo?

— O que você acha? – Adrian respondeu. – Tentando entrar!

Adrian desferiu mais um chute, mas a porta não cedeu.

— Você quer parar com isso?

— Não até esta porta estar no chão! E eu sugiro que a senhorita saia da frente!

Larissa afastou-se. Adrian desferiu mais dois chutes, porém sem sucesso.

— Que idiota.

Chutou mais uma vez, desta vez com bastante força, e a porta enfim veio abaixo.

Ao estrondo, somente o eco respondeu. A luz do sol derramou-se na sala e em tudo que havia nela.

— Eu sei. Impressionante, não? Nem precisam agradecer – disse Adrian, entrando.

— Agradecer? – Perguntou Larissa. – Está brincando. Só vou agradecer quando finalmente cair fora deste lugar horrível.

Henrique entrou em seguida, apagando a luz de sua lanterna.

— Odeio ser chato e repetitivo, mas eu insisto que devemos voltar para o acampamento – disse Miguel. – Já viram, não é? A casa está vazia. Não tem ninguém aqui, de modo que não faz sentido ficar aqui. Então, se me derem licença...

— Vazia? – Perguntou Henrique, olhando para o canto da sala. – Tem certeza?

Realmente a sala não estava tão vazia como aparentava estar. Havia, no canto mais afastado da sala, próximo à estante de livros, uma enorme pilha com trinta ou quarenta caixas de papelão, algumas abertas, outras lacradas, escondidas atrás de um denso emaranhado de teias de aranha. Henrique andou até elas, ligando novamente a lanterna.

— Vocês só podem estar de brincadeira comigo – retrucou Larissa. – Vamos embora de uma vez. O Sr. Antonoff já deve estar preocupado conosco.

— Calminha – disse Adrian. – Não é o momento nem o lugar para ficar dando chiliques.

Henrique agachou-se e abriu uma das caixas. Dentro, havia livros antigos, envelopes velhos, folhas de jornal e sacos de couro. Os demais se aproximaram.

— Não estou dando chilique coisa nenhuma. Só estou preocupada. Você também deveria estar.

Concentrou-se nos envelopes. O primeiro datava de janeiro de 2012, e tinha como selo uma bandeira de Ottawa, capital do Canadá.

— Ah, é mesmo? E por que? Só porque você quer? Ah, claro, eu tinha me esquecido. A patricinha não suporta que a ignorem.

A carta era destinada a: Han--- --d--s--

Não dava para ler. A maioria das letras estava borrada, manchada.

O endereço: Largo Senador Raul Cardoso, Nº 193.

— Eu não pedi a sua opinião. E eu agradeceria se parasse de me irritar.

Olhou o verso do envelope. Havia algo escrito:

De sua confidente, Estephanie.

Estephanie. Esse nome não lhe era estranho.

— Vê se para de se meter no que não é da sua conta!

Pegou outro envelope. Desta vez dava para ler claramente o nome do destinatário: Estephanie.

O endereço: Chapel Hill West, Nº 357

No verso do envelope:

Para Estephanie, com carinho.

— Ui! Ficou irritadinha!

— Parem! – Gritou Henrique, irritado. – Falando sério, isso já está ficando irritante.

Adrian e Larissa cabisbaixaram-se.

— Desculpe – disseram quase em uníssono.

O silencio voltou a tomar conta do ar. Henrique não falou nada sobre os envelopes. Apenas guardou-os de volta na caixa e levantou-se.

— O que será que há nas outras caixas? – Perguntou Larissa.

— Bem, gatinha, acho que só há um jeito de descobrir – disse Miguel, inclinando-se para abrir outra caixa.

Esta estava lacrada com fita adesiva, de modo que foi necessário um objeto cortante para abri-la. Dentro dela, havia um par de óculos de sol quebrados, revistas, cartões postais antigos e uma pequena caixa retangular contendo uma arma Colt, calibre 45, balas e uma haste usada para limpar armas antigas.

Miguel pegou o revolver.

— Tirando isso aqui... o resto é só lixo.

— Que saco. Não tem nada para ver aqui.

— Deixe-me ver isto.

Adrian tomou a Colt das mãos de Miguel e a observou como se o objeto lhe fosse familiar.

De fato, era.

— Uma Colt, 45. Meu pai tinha uma dessas. Ele era do Clube de Caça.

— Podemos ir agora ou querem perder mais tempo?

— Espere um instante.

Foi o que Henrique avistou no último segundo que o impediu de dar meia-volta e ir embora.

Um diário, parcialmente escondido embaixo da pilha de revistas.

Henrique o pegou, soprou uma poeira de anos e começou a revirar as páginas depressa. Ele era velho e encadernado em couro marrom, e fora algumas folhas manchadas e alguns furos provocados por insetos, sua condição geral era boa.

— Um diário? Fala sério, quem liga para isso?

— De quem será? – Perguntou Miguel.

— Como você mesmo disse, só há um jeito de descobrir.

Henrique continuou a esfolhear o diário. Para seu desagrado, os textos – um ajuntamento de palavras mal separadas escritas com rapidez – estavam escritos em inglês. Não conseguia entender muita coisa.

Tentou traduzir um pequeno trecho:

“Why is life so unfair to me? What did I do to deserve such punishment?

Não conseguiu. Concentrou-se no parágrafo seguinte:

“Damn you, little sister!”

Desistiu. Mas, logo abaixo da frase, havia o desenho de uma espada manchada de sangue. Aquilo lhe causou arrepios.

— Alguém aqui sabe traduzir isso?

Larissa pegou o diário.

— Muito me admira ouvi-lo falar assim.

— Mal aí. Estou meio enferrujado.

— Percebe-se.

Larissa folheou o diário. Na página seguinte, viram algumas figuras mitológicas desenhadas a mão: o Minotauro, a Medusa e um Cérbero, um monstruoso cão de três cabeças que guardava a entrada do mundo inferior, o reino subterrâneo dos mortos.

No verso da folha, uma frase lhe chamou a atenção. Também estava escrita em inglês, mas não foi isso que a deixou surpresa. Aquela letra não lhe era estranha. Ao contrário, era bastante familiar. Estava quase certa de que sabia a quem aquela caligrafia pertencia.

— O que diz aí? – perguntou Adrian.

Larissa não respondeu. Manteve o olhar fixo e arregalado sobre o texto escrito à pena:

“My nightmare began on the day when our eyes met. You stole from me the most precious thing I had. I hate you, stupid brat! I swear one day I'll make you pay for crossing my path!”

— Meu Deus – foi tudo que lhe ocorreu dizer.

— O que foi? – Insistiu Adrian. – O que está escrito aí?

— É, fala de uma vez.

— Ok. Aqui diz: “Meu pesadelo começou no dia em que nossos olhares se cruzaram. Você roubou de mim a coisa mais preciosa que eu tinha. Te odeio, pirralha estúpida. Juro que um dia farei você pagar por ter atravessado meu caminho”.

Fez-se um silencio sepulcral até que Miguel soltou um suspiro trêmulo.

— Nossa. Bateu um medo.

— O pior de tudo é que...

— É que?

— Eu conheço essa letra. Sei de quem é esse diário.

— Então diz. De quem é?

— Ele é da minha...

Não teve tempo de falar. As palavras ficaram presas na garganta quando, de súbito, o lustre de bronze veio inteiro abaixo. Caiu simplesmente, sem aviso, sem motivo aparente. Caiu e estilhaçou-se em pedacinhos no chão, fragmentos de vidro voando para todos os lados.

— O que foi isso? – Gritou Miguel, apontando o revolver em todas as direções.

— O lustre! Ele...

Mal concluiu a frase, a porta que estava deitada levantou-se e bloqueou a saída com um estrondo ensurdecedor. Todos gritaram. A escuridão voltou a cobrir a sala, e, depois, tudo o que eles ouviam era uma risada descompassada e barulho de peças de metal caindo e sendo arremessadas contra as paredes.

— Eu sabia que tinha alguma coisa errada!

Miguel largou a arma.

— Vamos sair daqui! Depressa!

Tudo o que podiam fazer era correr. Mas correr para onde? As saídas estavam todas fechadas.

A risada havia cessado, mas o pesadelo estava apenas começando. Como se estivessem sendo atraídas por um ímã gigantesco, tudo o que havia na sala – as caixas de papelão, as poltronas, os livros, as cadeiras e até mesmo um piano de cauda – começou a levitar, a girar em torno de si mesmos em uma dança fantasmagórica. As lâmpadas no teto começaram a estourar, uma depois da outra, cada uma estourando com um som de tiro de revólver.

— Vão pagar!

— Ouviram isso? Nós vamos morrer! Nós vamos morrer!

Uma cadeira foi lançada na direção de Adrian, que por um triz não foi atingido em cheio.

— Precisamos sair daqui!

Havia uma entrada atrás deles. Uma passagem que provavelmente dava na cozinha. Larissa começou a correr.

— Me sigam!

Desesperados demais para pensar, eles simplesmente a seguiram. Sua intuição estava correta. Aquela era a entrada para a cozinha. Assim que entraram, avistaram a porta que dava para o quintal.

Mas estava fechada. Aparentemente trancada.

— Vocês não vão sair daqui vivos!

Ignorando a voz maligna, Adrian continuou correndo em direção à porta. Desesperado, jogou seu corpo contra a porta. Pela segunda vez, o barulho aterrador de vidro sendo quebrado pôde ser ouvido.

— Adrian, abra essa porta, pelo o amor de Deus!

Adrian jogou seu corpo contra a porta novamente. Uma, duas, três vezes. Sentiu uma dor lancinante no ombro.

— Não consigo!

Henrique tentou fazer o mesmo, mas, mesmo que a qualidade da madeira não fosse das melhores, a porta não queria ceder.

— Eu sabia! É o nosso fim!

— Não! – Gritou Adrian, sentindo uma estranha raiva apoderar-se dele. – Não vamos, não!

Adrian respirou fundo, recuou alguns passos e, com um grito, correu em direção à porta, lançando-se como uma bola de canhão. Na mesma hora, a porta milagrosamente colapsou. Estavam livres.

— Vamos! Corram! Não parem por nada!

Correram como um raio para a liberdade. Ainda podiam ouvir o som de coisas sendo arremessadas vindo de dentro, mas nada disso importava mais. Só o que importava agora era fugir para o mais longe possível daquela casa.

Mas, ao contrário do que eles pensavam, o pesadelo ainda não acabara completamente. Enquanto os rapazes corriam, não perceberam que Larissa não os estava seguindo, que ela havia tomado uma direção diferente, tamanho o seu desespero. Ela estava correndo na direção oposta, para as árvores. Só se deu conta disso quando já era tarde demais.

Como se tivesse sido empurrada por alguma força incrivelmente potente, uma das árvores começou a despencar em sua direção. Ela só parou de correr quando ouviu o barulho de madeira desabando. Queria correr para o outro lado, mas as pernas já não lhe obedeciam. A árvore iria esmagá-la, se não saísse dali.

— Larissa! – Gritou Adrian, que havia sentido falta da garota e virara a tempo de ver o que estava acontecendo.

Correu até ela, rápido como uma bala. Larissa teria sido brutalmente morta se Adrian não tivesse saltado e evitado que a árvore a esmagasse como um inseto.

A mesma continuou sua jornada de encontro ao chão, parte dela atingindo o casarão, levando consigo um bom pedaço do teto. Ergueu-se, então, uma grande nuvem de poeira.

— Você está bem? – Perguntou Adrian.

— Sim. – Larissa tossiu. – Obrigada.

— Vem, vamos! – Ajudou-a a levantar. – Vamos embora daqui!

— Vamos.

Puseram-se a correr, deixando a casa e tudo o que havia nela para trás.

Notas finais
Eletrizante, não? Se vc concorda, comente aí e favorite. Não perca, nesta sexta-feira, os capítulos 8 e 9. Até lá e obrigado por lerem! Fui!