Para Sempre - Parte II
15 Verdades
Eu voltaria para Paris as nove da noite. Ainda eram onze da manhã e eu estava derrotada. A maneira como Steve me expulsou...o jeito que ele estava me olhando. Tudo isso ficava dançando na minha mente e eu já não aguentava mais. Fiquei um tempo atrás de sua porta e pude ouvir o quanto ele chorou. Chorei muito também, mas eu tinha que ser forte – como sempre fui.
Quando sai do apartamento de Steve, não voltei para casa. Passei pela minha antiga escola, me lembrei vagamente de Rafael e tudo o que tinha acontecido – mas essas lembranças me traziam sensações estranhas e ruins. – Dei uma última volta pela cidade, eu sabia que se entrasse naquele avião, eu nunca mais voltaria. Nem por minha mãe, nem por ninguém.
O telefone tocou e era meu irmão, Charles.
— Onde você está?
— Estou dando uma última volta na cidade – eu disse, e parei o carro.
— Que voz é essa?
— Não é nada.
— Julie, aconteceu alguma coisa?
— Sim, aconteceu.
— É relacionado com o homem que você ama? Olha, Julie, Stuart é meu amigo mas se você é feliz ao lado de Steve, você deveria ficar.
— Não tem como, ele vai se casar, Charles.
Ele suspirou.
— Então volte para casa, Stuart está te esperando.
— Estarei aí lá pelas quatro.
E desliguei.
Passei pelo shopping, pela Paulista, por vários lugares que eu gostava. Quando deu umas quatro horas, voltei para casa e Charles logo veio me dar um abraço apertado.
— Sinto muito, sei que você gostaria de ficar.
— Charles, está tudo bem – menti. – Stuart me ama e pensando bem, eu fiz muita merda pra ele.
— Você não vai contar, vai?
— É claro que sim, não engana-lo. Tenho que fazer isso antes de embarcar.
— Ele está na cozinha.
Deixei Charles na sala e fui direto para a cozinha. Stuart estava mexendo no celular, sentado em um dos banquinhos. Todas as malas estavam na sala, mas ele estava com sua mochila ao seu lado.
— Stuart?
Ele pareceu surpreso e desligou o celular na hora.
— Julie, onde estava? – E veio me abraçar. Abracei ele de volta mas ele percebeu que tinha algo diferente. – O que foi? Desde o Ano Novo você está muito estranha.
— Stuart é melhor você sentar, preciso te contar uma coisa.
Ele ficou me olhando. Suspirei, tomando coragem para dizer.
— Eu quero que saiba que gosto muito de você, e sei que o que fiz foi errado mas...Stuart, eu traí você.
Ele não disse nada, pude sentir que sua respiração vacilou mas ele se manteve forte, olhando diretamente para mim.
— Traiu?
Balancei a cabeça.
— Sim.
— C-com quem? Por que, Julie?
— Antes de ir para Paris, eu tinha um namorado aqui, você sabe. Eu e Steve acabamos nos envolvendo nesse tempo, foi...um impulso – eu disse. Certo que eu não iria contar que eu estava pronta para acabar com tudo para ficar com Steve. – Foi algo de momento. Você não merecia isso, eu sei que não. Vou entender se você me odiar para sempre...
— Eu amo você, Julie...como você pode fazer isso comigo? Achei que me amasse!
— Foi algo sem pensar...e-eu...Stuart, eu sinto muito.
Ele me segurou pelo ombro e me apertou contra seu peito, segurando minha cabeça.
— Você se arrepende disso?
Não respondi.
— Julie, você o ama?
Também não respondi, comecei a chorar loucamente.
— Ah, meu Deus. Eu lembro o quanto você estava mal quando chegou em Paris. Tudo isso por conta dele...
— E então eu conheci você! Stuart, você me ajudou tanto.
— Eu não posso ser um objeto, Julie.
— Você não é um objeto, você foi incrível.
— E quando você chegar vai ser como...como se um pedaço de você tivesse ficado. Foi isso o que você disse há um tempo atrás, antes de começarmos a namorar.
— Ele foi meu primeiro amor, é certo que eu ainda fique mexida com ele mas, Stuart, as coisas mudam.
— Não mudaram, Julie. Você se envolveu com ele. – E então ficamos em silêncio. – Você se envolveu com alguma intenção?
— Como assim?
— Você se envolveu só por envolver, ou pretendia ficar com ele?
Parei e não consegui olhar mais para Stuart.
— Eu estava confusa, não posso te responder isso.
— Julie, acredito que você me ame. Mas...sei que você o ama mais.
— Stuart...
— Não precisa dizer mais nada. Eu sei o meu lugar.
Então ele saiu da cozinha e eu fiquei lá parada por alguns minutos. Quando deu seis e meia da noite, fomos para o aeroporto. Minha avó, Augusto e minha mãe nos acompanharam. Stuart não estava falando comigo, com razão, e Charles estava tentando evitar qualquer um de nós dois. O clima estava bem tenso, mas ao menos nós teríamos um pouco de tempo até chegar em Paris.
— Filha, espero que fique bem.
— Vou ficar, mãe – e lhe dei um abraço.
Ficamos esperando até a nossa chamada, sentados nos bancos – com Stuart bem afastado. Minha mãe veio me perguntar o que aconteceu e eu disse brevemente. Ela não me culpou, mas disse que ao menos eu tinha feito o certo em ter contado. Eu não poderia viver com ele sabendo que...que eu tinha um segredo e que ele estava sendo um trouxa. Ao menos ele poderia escolher, mas nem mesmo eu sabia se queria continuar com ele.
Charles, que estava sentado ao lado de Stuart, se levantou e veio conversar comigo.
— Stuart me disse o que aconteceu. Irmã, que bom que contou.
— Era o certo.
— Vou te defender porque você é minha irmã, mas sabe que está errada, não é?
— É claro que sei, Charles! –Eu disse isso um pouco alto demais.
— Dê um tempo para si e então converse novamente com Stuart, ou talvez não converse, mas...pense um pouco.
Então anunciaram o nosso avião.
— Vamos, precisamos ir.
Abracei minha avó e Augusto, que disseram que iriam me visitar nas próximas férias, e depois abracei minha mãe. Charles e Stuart, depois de se despedirem de todos, logo entraram mas eu fiquei abraçada com minha mãe por mais tempo.
— Vou sentir sua falta. Quando der, vou visitar você.
— Amo você mãe.
— Eu também te amo.
Meu telefone tocou e não reconheci o número. Não atendi.
— Vá, antes que você perca o avião.
— Ainda faltam muitas chamadas.
O telefone tocou de novo. Era o mesmo número.
— Atende – minha mãe disse.
Atendi o telefone e era uma mulher:
— Julie? – A voz estava tremula.
— Sim?
— Aqui é a mãe do Steve. Você...você já embarcou?
— Olha, eu sei que a senhora deve estar muit...
— Steve sofreu um acidente de carro.
Então meu coração parou.
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