As coisas pareciam rodar em câmera lenta. Steve. Carro. Acidente.

Eu corria feito louca pelo aeroporto com meus familiares atrás de mim. Charles e Stuart...eu não sei o que foi feito deles, só conseguia pensar em Steve e em estar no hospital. Me joguei no banco de trás do carro porque sabia que não teria a capacidade de dirigir, então meu avô estava no comando.

— Calma, Julie. – Era só o que eu escutava, porque depois, pareceu que eu apaguei de vez. Eu podia escutar a minha própria respiração, e era só isso o que eu de fato escutava. A culpa era totalmente minha. Minha. Só minha. Se eu não tivesse ido lá...se...

Eu não conseguia chorar, eu estava em choque. Minhas mãos tremiam e eu prestava atenção somente nas luzes dos carros parados no trânsito.

— Acelera.

— Não posso correr, Julie.

— Acelera.

Senti uma mão apertando a minha, provavelmente a da minha mãe. Revisei tudo em minha mente. Nossos momentos juntos, as brigas...o fim. Eu realmente só tinha conseguido fugir de problemas até agora, ele estava completamente certo.

Meu avô mal tinha chego no hospital quando eu abri a porta do carro e corri para dentro. Tinha muita gente, tudo estava quieto – menos eu. – Chamei uma enfermeira e perguntei sobre Steve Cahill, e então ela me deu uma ficha, mas eu não conseguia parar de tremer. Ela me ajudou a escrever e então, quando eu já estava com um crachá, fui direcionada a uma porta de emergência.

Emergência.

Abri a porta como se eu tivesse esperando um Steve sentado, me olhando, pronto para vir me abraçar, mas só encontrei sua mãe, seu pai e Samanta.

— Julie – a mãe dele veio até mim e me deu um abraço.

— Eu vim o mais rápido que pude – eu estava ofegante.

— Sim, querida.

— E...como...como ele está?

— Não sei, ainda não disseram.

Me sentei no sofá de espera e coloquei a mão no rosto, repetindo várias vezes “a culpa é minha.” Samanta se sentou ao meu lado e pude sentir que ela estava me olhando.

— Você é a menina da foto. – Ela disse. Tirei a mão do rosto para encara-la. – Eu estava em dúvida se era ou não mas... Ele nunca tirou a foto de lá. Perguntei várias vezes o motivo e ele disse que você era alguém muito especial, que já estava enterrada mas que ele gostaria de ter sempre na memória. Nunca soube de fato se isso era amor, se você estava morta.

Suspirei, controlando o choro.

— Eu sou a culpada por esse acidente.

— Como?

— Samanta, e-eu não sei se é a hora para te contar isso.

— Que você e Steve tiveram um caso porque ele a ama mais do que tudo no mundo?

Ah, então ela já sabia?

— Antes de bater o carro ele me ligou contando a verdade. Parecia que ele estava muito bêbado.

— Tinhamos brigado antes disso. Eu descobri que vocês estavam noivos e decidi que não poderia mais pensar em ficar com ele. Acabei com tudo e estava indo embora...de novo.

— Não vou mentir para você, estou muito chocada.

— Eu sei que isso é errado, mas eu não sabia que eu iria encontra-lo novamente. Deus do céu, se ele precisar de um transplante, sei lá, de um olho... dou o meu olho, eu dou o meu coração se for preciso. Ele não pode morrer. Não pode.

— Eu o amo, Julie.

— Eu o amo, Samanta.

— Sei disso, e sei que ele a ama também. Não posso continuar com ele sabendo que há e sempre vai haver outra mulher.

— Sinto muito, Samanta. – Foi tudo, depois me isolei novamente.

Uma hora depois, um médico apareceu na sala de espera e meu coração desparou.

— São os pais de Steve Cahill? – ele perguntou.

— Sim, sim! Como ele está?

— Steve sofreu um grave acidente, bateu a cabeça e levou vários pontos. Não corre risco de morte mas – dito isso, eu senti um alivio imenso percorrer meu corpo. – Ele ainda esta desacordado, não podemos afirmar mais nada.

Me joguei no sofá e a mãe de Steve veio me abraçar.

— Graças a Deus ele está vivo – ela disse, e então eu concordei.

***

Não sai do hospital até o médico voltar dizendo que Steve estava acordando. Foram autorizados apenas duas pessoas, então entraram os pais dele, obviamente. Fiquei parada, sem dizer nada. Eu já não aguentava mais chorar, não tinha mais nada para colocar para fora. Samanta também estava ali, talvez para mostrar que também amava Steve. Os pais demoraram anos para voltar. O que me deixou terrivelmente assustada, foi a reação deles.

Os dois se abraçavam e choravam muito. A mãe de Steve mal se aguentava em pé. Os soluços estrangulados me assustavam a cada segundo. Olhei para Samanta e parece que tivemos o mesmo pensamento, fomos direto para a sala onde Steve estava e entramos.

Ele estava deitado, os olhos percorrendo todo o lugar. Estava com algumas partes da cabeça sem os cabelos – por conta dos pontos – e tinha outros na testa e perto da sobrancelha. Me deu um mal estar só de olhar.

Eu mal tinha reparado que o médico estava ali também.

— Como eu já disse para os pais...Steve teve um apagão de memória.

Dito isso eu já congelei.

— Alguns anos de sua vida foram totalmente apagados. Não sei a partir de onde ele se lembra, e também não da para saber se é temporário ou não, mas... vamos ver. – Ele aproximou Samanta da cama e Steve olhou para ela. – Conhece essa moça?

— Não. – Ele disse com certa dificuldade.

— E... – ele me deu um leve empurrão para perto da cama. – Conhece essa moça?

Ele olhou para mim, os olhos cheios de dor.

— Não.

Soltei todo o ar que eu tinha, e não aguentei mais ficar no quarto. Saí correndo mas fui impedida de continuar quando uma mão forte me puxou. Era o pai de Steve. Os dois me abraçaram com muita força e eu me senti na liberdade de chorar ainda mais. Doia muito, mais do que qualquer coisa. Ele não...se lembra de mim!

— Ele apagou os últimos cinco anos – a mãe dele disse. – É o que tudo indica.

Não respondi, continuei a chorar.

— Julie, vá para casa. Volte amanhã, você precisa se recuperar.

— Eu não posso ir. Não posso deixa-lo de novo.

— Ele não...vai notar. – As palavras do Sr. Cahill foram duras, mas eram verdadeiras. Steve não iria ficar triste ou notar que fui embora. Ele não sabia quem eu era.