Para Sempre - A Escolha

28 Apimentando as coisas


Quinta-feira, 10 de outubro

Roberta

Faltam dois dias para o noivado. Todo o internato não fala de outra coisa. Alguns dizem que será uma grande perda de tempo e de dinheiro, pois, segundo eles, a maioria dos casais que se apressam demais para se comprometer acabam se separando e não cumprindo nada do que prometeram. Outros falam que será o acontecimento do ano, um evento inesquecível, e que mal podem esperar para que o dia da grande festança chegue. Bem, para mim isso só significa uma coisa: Larissa está prestes a cometer o pior erro da vida dela.

São quase oito e quarenta e cinco da manhã quando a aula do Sr. King termina e ele sai para dar lugar a professora Tânia, uma mulher alta, esguia, de cabelos encaracolados, formada em Literatura Contemporânea pela universidade de Coimbra. Com a ajuda de Pablo, ela está trazendo uma caixa cheia de livros dos mais diversos gêneros, retirados da biblioteca. Ela põe a caixa sobre a mesa e enxuga a testa com as costas da mão.

— Obrigada, Pablo.

— Disponha, professora. Precisando...

Pablo vai para o seu lugar. Tânia se adianta e não poupa tempo para começar a falar.

— Como havíamos combinado, hoje teremos nosso momento de leitura. Aqui temos alguns livros que, como vocês sabem, estão disponíveis em nossa biblioteca. Dentre eles, obras literárias famosas, grandes clássicos da literatura que fizeram e ainda fazem sucesso entre o público jovem. Bom, o objetivo desta atividade é despertar o interesse de vocês pela leitura e propor uma reflexão sobre a importância da leitura na vida do ser humano. Certo?

Alguns assentem vagamente, enquanto outros enfiam a cabeça entre os braços, como se quisessem aproveitar os poucos minutos que lhes restam dentro da classe para fazerem uma sesta. Claro, eles sabem que a meiga e simpática professora Tânia irá preferir nos levar para ler ao ar livre, como ela sempre faz nas aulas práticas de Literatura. Ela diz que não há nada melhor e mais prazeroso do que ler ao ar livre, aproveitando os benefícios do contato com a natureza.

— Pessoal — recomeça Tânia —, agora vou chamá-los um por um, e aquele que for chamado vem pegar um livro de sua preferência e assinar o nome e o título da obra nesta folha aqui. Ok? Vamos começar. Número 1?

Uma garota de pele escura e cabelos encaracolados se levanta e vai até o birô. De repente, um arrepio cruza a minha coluna. Estou pensando no último plano que Miguel e eu bolamos para abalar as estruturas do relacionamento de Victor e Larissa, algo que apimentará completamente meu estado de espirito nesta quinta-feira aparentemente promissora.

Sinto uma mão tocar levemente o meu ombro. Penso em Adrian, mas, claro, não é ele. Solto um breve suspiro, em seguida me viro.

— O que foi? — pergunta Miguel.

— Nada.

— E então? Está pronta para colocar nosso plano em ação?

Ah, é. O plano. Me sinto extremamente nervosa, pois estou prestes a me envolver em algo que para mim é seriamente perigoso, um verdadeiro teste de sanidade.

Ouço a professora chamar o segundo da lista. Uma garota chamada Beth se levanta e vai até o birô.

— Roberta, você me escutou?

— Hein?

— Em que mundo você está?

— O que você perguntou?

— Se você está pronta para colocar nosso plano em prática.

Penso em mentir, mas resolvo deixar tudo às claras.

— Não sei, Miguel. Para dizer a verdade, estou um pouquinho nervosa.

— O que? Por quê?

— Porque o plano envolve eu sair com o Adrian.

Algo me diz que Miguel não entenderá meu lado.

— Ah, por favor, Roberta. Não vai ser tão ruim, né?

— Não é isso que me preocupa.

— Números 3! — grita a professora. A balbúrdia de vozes dentro da sala está quase insuportável.

— Vai me dizer por que está tão nervosa sim ou não?

— Não é nada. Esquece!

Enquanto Miguel me encara, volto a pensar no possível encontro que terei com Adrian esta noite. Para mim é um sonho que se tornou realidade. Mas não posso esquecer que isso faz parte do plano de Miguel para provocar ciúmes em Larissa. Meu maior medo é esquecer desse detalhe. Temo sonhar demais.

— Roberta!

— O que foi?

— Qual é o seu problema?

— Já disse que não tem problema nenhum, Miguel. Minha única dúvida é se isso vai funcionar ou não.

— Tem que funcionar. Você e eu sabemos o que está em jogo.

— Sim, claro.

— Escuta... — Miguel se aproxima mais, diminuindo o tom de voz. — Provavelmente a professora vai levar a gente para a praça, pra ler ao ar livre. É perfeito.

— Ok. E depois?

— Primeiro, trate de conversar com a Larissa. Convença ela de que você precisa de ajuda para sair com alguém que você está muito a fim. Você e eu sabemos de quem se trata. Deixa que depois eu falo com o Adrian sobre o encontro. Esta tarde mesmo eu falo com ele.

— Tudo bem.

— Não se preocupa, linda. O plano vai funcionar. Ou eu não me chamo Miguel.

***

Quando o último da lista pega o livro e assina no Diário de Frequência, a professora se levanta e pede para que todos a sigam, em ordem e com calma.

— Chegou a hora — sussurra Miguel em meu ouvido.

A praça principal é separada da escola por uma rua larga e bem movimentada, com carros que passam zunindo por nós e pessoas usando roupas coloridas andando apressadas pelas calçadas em direção às partes mais altas da cidade. Cruzamos a rua seguindo a professora, e quando chegamos à praça, nos dispersamos, alguns em grupo, outros sozinhos. Nos sentamos à sombra das árvores centenárias, cujos galhos cobertos por folhas coloridas bailam ao sabor da leve brisa, que transporta também o cantar dos pássaros que voam em círculos acima de nós.

Miguel se senta num banco que fica bem debaixo de um ipê-amarelo. Me sento com ele, olhando discretamente ao redor. Nos bancos mais próximos do playground — onde crianças de 9 e 10 anos brincam, desfrutando do dia agradavelmente quente e ensolarado -, sentam-se a professora Tânia — que em vez de um livro tem uma revista de moda em mãos —, Adrian, Henrique e seu irmão. Nos bancos mais distantes, encontram-se Larissa, Bianca e suas aliadas. Olho outra vez para o banco em que Adrian está. À primeira vista, parece concentrado em sua leitura, mas bastam dois segundos para que seus olhos se ergam na direção da sua adorada Larissa, que não demora muito para retribuir o olhar. Ranjo os dentes sem querer, sentindo uma súbita sensação de raiva subir à cabeça.

Controle-se, Roberta! Controle-se!

Olho para a professora Tânia, que passa as páginas da revista distraidamente. Miguel também está olhando para ela, esperando a ocasião perfeita para executar o plano. E pelo sorriso que surge no canto da boca dele, concluo que o tão esperado momento enfim chegou.

— A hora é agora — diz Miguel. — É tudo ou nada.

— Ok. Lá vou eu.

Deixando o livro em cima do banco, vou até Larissa. Ela está sozinha, o que facilitará a conversa entre nós duas. Para evitar trocar olhares com o amado, está virada de costas para ele. Mas, enquanto me aproximo, flagro-a dando uma espiadela por cima do ombro.

Mais um ponto para mim e minha intuição. A quem você quer enganar, Larissa?

Chego de mansinho por trás dela e cutuco sua cintura, fazendo-a pular.

— Olá!

— Cruz credo, Roberta! Que susto você me deu!

— Me perdoa, querida. Não quis assustá-la. Bom... eu...

— Você?

— Er... — Fecho os olhos com força. Foco, amor! Não estrague tudo agora! — Será que a gente pode trocar uma palavrinha?

— Claro.

Me sento ao lado dela, ainda formulando o que vou dizer.

— Não quero tomar muito seu tempo, por isso vou direito ao ponto. Queria muito compartilhar algo com você. Afinal, somos amigas e confio plenamente em você. Então lá vai: estou muito a fim de um cara. Muito, mas muito a fim mesmo.

Larissa sorri imediatamente.

— É sério? Será que eu o conheço?

— Claro que conhece. Ele é da nossa turma.

— Ok. Era só isso que você queria me dizer?

— Não. Eu estava pensando se... Bom, na verdade, eu queria saber se você poderia me dar uma mãozinha. Isto é, queria que você me desse uma opinião.

— Sobre?

— Estou pensando em chamá-lo para sair. Só que...

— Só que...?

— Sabe como é, eu estava esperando que ele mesmo tomasse essa iniciativa, mas... tenho medo que ele não queira sair comigo. Ou que eu esteja sendo afobada demais. Na verdade, eu queria saber se é legal uma moça convidar um cara para sair, se não tem nenhum problema...

— Claro que não tem problema. Imagina. Hoje em dia, os homens adoram a iniciativa feminina. Pode arriscar e petiscar. Não espera mais. Convida ele. Se ele gostar de você, com certeza vai aceitar e... Bom, quem sabe o que pode acontecer depois.

Fico um tanto surpresa com as palavras de Larissa. Parece inacreditável que, há pouco mais de um ano, Larissa não era nem sequer a sombra do que se tornou. Quando a vi entrando no internato, oito meses depois do seu misterioso sumiço, tive vontade de perguntar quem ou o que foi a causa dessa incrível transformação. Quem ou o que foi o responsável por esse "milagre".

— Tem razão. Obrigada, Larissa. Fico muito agradecida.

— Não há de quê. Você disse que eu o conheço. Qual é o nome dele?

Enfim, chegamos à parte que interessa a mim e a Miguel. Como previsto, Larissa quer saber o nome do tal cara com quem pretendo sair, sem desconfiar, obviamente, que o tal cara é nada menos que seu adorado Adrian. Será uma surpresa. Sua expressão facial evidenciará seus sentimentos escondidos, e isso não somente confirmará minhas suspeitas, como também será uma prova contundente do amor dela por Adrian, a razão pela qual ela não pode seguir adiante com essa farsa.

— Bom, amiga... É o Adrian.

Exatamente como queria, o semblante de Larissa se modifica num piscar de olhos. Uma mescla de espanto e descrença a toma por inteiro.

— O Adrian?

— É. O Adrian. Por quê? Você, por acaso...?

— Não! — responde depressa. — É claro que não. Nada a ver. Você sabe que eu namoro o Victor.

— É, eu sei. Bom, de qualquer maneira, agradeço a atenção. Você é uma ótima amiga. Te adoro.

Larissa assente, abrindo um sorriso e falando em um tom obviamente forçado.

— Também te adoro. E, precisando, estou aqui.

— Obrigada, amiga. Você é dez.

Beijo ela na bochecha e me levanto.

— Valeu pelas palavras e por me ouvir. Deus lhe pague.

Volto para o meu lugar, abrindo um sorriso de orelha a orelha. Parte do plano funcionou. Comprovei mais uma vez que Larissa ainda ama Adrian. Agora, cabe a mim dar o último passo. Se Miguel conseguir convencer Adrian a sair comigo, o encontrarei ao cair da noite, e com um pouquinho de sorte, teremos Larissa e seu namorado como testemunhas oculares.

Notas finais
Fazendo jus ao título do capítulo, a coisa realmente tá ficando quente! Roberta irá conseguir o que tanto quer? Larissa enfim abrirá seus olhos? Acompanhe os capítulos finais de A Escolha, o 1º livro da série Para Sempre.