Para Sempre - A Escolha

29 O encontro - Primeira Parte


Notas iniciais
Miguel tenta convencer Adrian a dar uma oportunidade a Roberta, afirmando que este é o melhor meio de esquecer Larissa. Será que ele vai topar?

— Você tem certeza disso? – É à primeira pergunta que me vem à cabeça enquanto tento processar essa surpresa.

Miguel e eu estamos no dormitório, sem nenhum de nossos amigos por perto. Disse-me através de uma mensagem que tinha algo muito importante para me dizer. Imaginei mil e uma coisas, e até pensei que se tratasse de alguma coisa relacionada a Larissa: "Talvez Miguel tenha ouvido por aí que ela dispensou aquele playboy de uma figa, ou que os dois tiveram uma discussão séria e terminaram o namoro, ou que o pilantra viajou e, por conta disso, tiveram que adiar o noivado..." enfim, qualquer coisa que viesse a colorir, nem que fosse um pouquinho, a semana mais cinzenta da minha vida.

Mas não.

Porém, é tão surpreendente quanto.

— Tenho. Foi ela que me falou. Pediu para eu falar com você.

— E por que ela não veio falar comigo pessoalmente?

— Ah, você conhece a Roberta. Sabe que ela é do tipo que adora um suspense.

— Ela é bem estranha, isso sim.

Eis uma verdade incontestável: mulheres são difíceis de entender. E Roberta Kelly não é a exceção.

— A Roberta é uma garota diferente. E, cá entre nós, muito gata. Ela só tem aquele defeito de meter o nariz onde não é chamada. Mas, tirando isso, ela é uma garota incrível.

Neste ponto eu tenho que concordar com Miguel. Garotas como Roberta Kelly, com sua personalidade forte e seus gestos concretos, podemos encontrar em qualquer parte do mundo. Mas há algo nela que a torna única e especial. Roberta é dona de um sorriso cativante, que poderia iluminar um mundo inteiro, de um jeito incomum, puro e verdadeiro. É transparente, sincera, de uma índole e caráter ímpares. É a mistura mais fora do comum que alguém pode encontrar. A alegria de uma aventureira e o carinho de uma princesa. Coração de cabana, alma de mato, personalidade de fogo. Jeito de menina. Vontade de mulher.

— Do jeito que você fala dela, qualquer um diria que você é amarradão nela.

— Não, Adrian. Não é bem por aí. – Diz Miguel com uma certeza duvidosa. – Eu já disse que entre mim e a Roberta não pode rolar nada. Ela me vê só como um amigo. Entre ela me dar mole e eu sentir que pode rolar alguma coisa entre nós há um grande abismo.

— Às vezes você é muito pessimista, sabia?

— Não sou pessimista. Prefiro dizer que sou realista. Sabe que não gosto de criar expectativas. Gosto de ter os pés no chão.

— Aham... Claro — digo, dando uma piscadela.

— Agora vamos focar no que realmente interessa. Vamos falar de você e da Roberta.

— Perdão, mas acho que não temos nada para falar de mim e da...

— Ela quer se encontrar com você.

— Isso você já disse. Mas quando? Onde?

— Quando? Hoje à noite. Onde? Isso eu já não sei. Ela disse que você poderia sugerir o lugar. Quem sabe uma lanchonete, ou um restaurante. Sei lá. Escolha qualquer lugar.

Isso está ficando estranho demais para o meu gosto. Estranho e ao mesmo tempo interessante. Um encontro com Roberta Kelly, a ruiva – segundo muitos – mais sexy do internato Crossfield. Será mais uma das engenhosas armadilhas do destino? O que mais posso esperar dele?

— Antes, uma pergunta: o que deu naquela garota para querer sair comigo, assim, de repente?

— Não é óbvio? Ela deve estar gostando de você.

— Coitada. Está perdendo tempo.

— As coisas não têm que ser assim. Já viu que, com a Larissa, as coisas não saíram como você queria.

— Olha, em nome da nossa amizade, eu peço, por favor, que não mencione o nome daquela garota na minha frente.

— Adrian, por mais difícil que seja, você precisa encarar a realidade. Tem que admitir que perdeu. Agora a Larissa está refazendo a vida dela com outro cara. E como seu melhor amigo, aconselho você a fazer o mesmo.

— Não sei se vou conseguir refazer minha vida com outra pessoa. O amor que sinto pela Larissa é forte demais para combater.

— Deixe que o tempo se encarregue disso. Além do mais, o mundo não gira em torno da Larissa. Tem outras garotas por aí, esperando que um cara como você as convide para sair. Entre elas, a Roberta. Acho que não custa nada dar uma oportunidade a ela.

Olho para o chão.

— Então, o que me diz?

— Caramba. Sair com a Roberta. Achei que ela seria a última pessoa com quem eu pensaria em marcar um encontro. – Encaro Miguel, que espera ansioso pela minha resposta. – O que você acha?

— Bem... Se eu fosse você, aceitava.

— Isso é óbvio. Você a ama. E não negue. Isso é tão certo quanto dois mais dois são quatro.

— Ok, você me pegou. Mas agora isso não vem ao caso. Me diga. Aceita ou não sair com a Roberta?

Dois caminhos estão se abrindo para mim. Agora é uma questão de escolha: sair com Roberta e dar a mim mesmo uma nova oportunidade de ser feliz, ou seguir com meu martírio, chorando por alguém que talvez nem mereça minhas lágrimas e que estou prestes a perder para sempre.

Talvez esta seja minha única chance de mudar essa situação. Quem sabe Roberta não me conquiste? Quem sabe eu não acabe me apaixonando por ela e em um amanhã não muito distante, depois de muito tempo, eu finalmente acorde sem o peso da solidão sobre os ombros?

— Quer saber? Eu aceito.

***

Um sentimento diferente me invadiu quando a possibilidade de esquecer Larissa surgiu como uma luz diante dos meus olhos. A meu ver, esta é a única maneira de pôr um fim ao meu sofrimento, de viver a felicidade que meu coração tanto deseja, mesmo que isso signifique exterminar da minha vida a garota que eu amo, com quem vivi momentos inesquecíveis, mas que me fez provar o mais amargo dos tormentos: os do amor. Mas em breve tudo isso não passará de memórias amargas, as quais serão lançadas e se perderão para sempre nas profundezas do mar do esquecimento.

É o que eu espero para esta noite. Que eu consiga enxergar em Roberta a pessoa ideal para viver ao meu lado e compartilhar comigo os sabores e os prazeres da melhor fase de nossas vidas. Que, depois do encontro, nos tornemos mais íntimos, e isso, consequentemente, nos leve a ter um relacionamento sério, feliz e duradouro.

Faltando quinze minutos para as seis da tarde, saio de casa rumo ao THE KING OF FLAVORS ("O Rei dos Sabores"), um pequeno, porém charmoso estabelecimento situado no centro da cidade. Escolhi esse lugar justamente porque foi onde Hannah e eu tivemos nosso primeiro encontro. E, entre outras razões, esse é o único restaurante que eu conheço em São Paulo.

THE KING OF FLAVORS.

O nome pisca em letras verdes e grandes, numa placa sobre a entrada. A construção é incrivelmente bela. As paredes são forradas com ripas de madeira escura, papel de parede em padrões clássicos, em tecido semelhante à camurça na cor de tijolo. Duas palmeiras enormes se erguem de um lado e outro da enorme porta de vidro. Há canteiros de flores ladeando os caminhos de cascalho, numa combinação belíssima de tonalidades. Fico admirado, principalmente, com um deles, cuja parte central é de flores roxas, cercadas por flores amarelas. Érica com certeza iria adorar.

Ao entrar, noto que quase todas as mesas estão ocupadas. Quase. Há duas mesas livres, uma no centro, e outra perto da janela. É a que eu escolho. Me sento e, enquanto espero a chegada de Roberta, fico a observar o interior do restaurante. O ambiente é modesto, porém calmo e bastante agradável. Suas paredes são revestidas em painéis de cerâmica com espelhos de cristal e uma estampa floral enfeitando-as; o pé-direito é alto; as janelas, amplas; o teto, também alto, com luminárias de vidro; as mesas, pesadas com tampos lustrosos de tanto uso, guarnecidas por cadeiras forradas de camurça perolada; os tradicionais garçons, vestidos de preto e branco, com seus aventais longos até os pés, andam ligeiros por entre as mesas, servindo bebidas, tira-gostos e entradas para os que chegam à casa. Há música suave no ar. Música clássica dos anos 90, o tipo que poucas pessoas apreciam.

— Vai querer alguma coisa, rapaz? – A voz do garçom me desperta dos meus pensamentos.

— Obrigado, mas agora não – digo, amistosamente. – Estou esperando uma amiga.

— Tudo bem. De qualquer modo, aqui está o cardápio.

— Grato.

O garçom se afasta em direção ao balcão. Pego o cardápio e começo a ler. Há muitas saladas tentadoras, inclusive uma com folhas verdes, queijo de cabra, nozes pecan, uva-passa e fatias de maçã. A salada de atum também parece apetitosa – atum, aipo cortado em cubos, cebola, alcaparras e maionese, servidos sobre uma mistura de folhas. Alcaparras? Eu nunca soube que se põem alcaparras em salada de atum. Parece interessante.

Quando olho de novo para a entrada, me deparo com uma surpresa um tanto desagradável. Larissa está entrando. Meu Deus, não pode ser. Eu esperava tudo, menos encontrá-la aqui. Só pode ser mais uma das brincadeiras de mau gosto do maldito destino. Ou uma grande coincidência. De um jeito ou de outro, isso vai estragar tudo.

Está maravilhosa, graciosa dentro de um lindo vestido de seda branco com detalhes dourados e um pequeno decote em "V", cuja saia desce até um pouco abaixo dos joelhos, deixando suas lindas pernas em evidência, cobertas por sensuais meias na cor de pele e um glamoroso par de scarpins. Usa ainda uma gargantilha preta com pingente, acompanhado de um par de brincos no mesmo tom, com um leve batom cor de carmim que, juntamente com os longos cabelos platinados e o brilho radiante dos seus olhos, realçam maravilhosamente a clareza da pele.

Felizmente, ela não anda sozinha. Está acompanhada de uma mulher alta, bonita, de cabelos loiros e aparentando ter uns quarenta anos. Veste um decotado vestido vermelho. A julgar pela forte semelhança entre ambas, deve ser a mãe de Larissa. E, junto às duas, o playboy do namorado dela: Victor Taylor. Ao contrário das duas damas, o sujeito está usando um look que eu com certeza jamais recomendaria a alguém: um blazer xadrez comprido demais para ele, camisa azul-claro sem gola e calça bege escuro. Estou começando a acreditar no que as pessoas do internato dizem. Esse indivíduo não bate muito bem da cabeça.

Olho para Larissa, que ainda não notou minha presença. Um garçom – alto e magro, de nariz aquilino – se aproxima deles.

— Por aqui, por favor. – diz o garçom. Aparenta ter uns 25 anos, tem cabelos ruivos e compridos e uma barba avermelhada que cobre grande parte do seu rosto encovado.

— Obrigada – diz a mulher, com um sorriso singelo.

O garçom se vira e indica a única mesa vazia da casa. Eles o seguem. Chegando à mesa, o garçom amigável puxa a cadeira para a dama de vermelho sentar.

— Permita-me, madame.

— Muito obrigada. É muito gentil.

O garçom entrega o cardápio para a bela senhora e se afasta. Olho novamente para Larissa, que não parece estar tão contente como seus dois acompanhantes. Até que num determinado momento o olhar dela se ergue na minha direção, e por um instante o mundo parece se mover em câmera lenta. Por um minuto, ficamos nos encarando, em absoluto silêncio, como se todo o som do ambiente tivesse sido sugado.

Até que Victor percebe e questiona a namorada:

— O que está olhando, meu amor?

— O que? O que disse?

Victor olha na minha direção, e teria me visto, se eu não tivesse escondido a cara atrás do cardápio.

— O que foi, Larissa?

— Não foi nada. Achei que tinha visto alguém.

— Quem?

— Uma amiga. A Bianca. Mas acho que me enganei.

Tiro o cardápio da frente do rosto e torno a espiá-los. Larissa dá uma rápida olhadela na minha direção, mas depois olha para o lado. Começo, então, a observar a senhora de vermelho. É uma mulher muito atraente, o tipo de mulher que qualquer homem adoraria ter como esposa. Seus olhos tem cor de mel. Os cabelos são lindos, brilhantes e bastante compridos, dourados como a luz do sol. As maçãs do rosto estão pintadas com um tom mais rosado, a boca de um tom vermelho como morango. O decote é largo e longo, os seios belos e fartos não passam despercebidos, e, exceto por uma pequena marca na têmpora, possui feições perfeitas. A roupa se adapta perfeitamente ao seu corpo, realçando a largura dos ombros, a estreiteza das ancas e a musculatura das coxas grossas e suculentas.

— A noite está maravilhosa, não está? – comenta a mulher.

— Está divina – Victor responde.

— Seu convite veio em boa hora, Víctor. Depois de um dia estressante, nada como aproveitar a noite e jantar em um bom restaurante.

— Concordo plenamente. – Ele olha para Larissa, que mantém a cabeça baixa, o olhar fixo na superfície da mesa. – E você, meu amor, o que está achando da noite?

Larissa leva alguns segundos para processar a perguntar dele.

— Ah... está ótima. Estou adorando.

— Que bom que está gostando, querida – diz a mulher para a filha. – Ultimamente você tem estado um pouco desanimada. Também reparei que não anda comendo direito.

— Não se preocupe, mãe. Estou bem agora.

— É assim que eu gosto – diz Victor, acariciando seu queixo. – Quero te ver bem sempre.

Larissa sorri por um segundo. Isso faz com que meu sangue comece a ferver como se estivesse em um caldeirão borbulhante. Mas isso não dura por muito tempo. Uma vez que desvio o olhar para a entrada, vejo cruzar a porta o motivo para eu estar aqui.

Roberta enfim chegou.