Para Sempre
2 Sms
Eu estava parecendo um verdadeiro travesseiro quando acordei pela manhã. Minha mãe já tinha saído para trabalhar e pelo que eu notei, nem tinha tomado banho antes de dormir – e minha mãe não havia sentido a minha falta, já que nem veio reclamar sobre o horário em que eu havia chegado.
Dezessete anos, terceiro ano do ensino médio, notas médias, um chifre na minha cabeça ruiva e um belo bafo matinal. Eu estava perfeita.Fui tomar um banho, escovei meus dentes, e tentei superar mais uma vez o que Rafael fez para mim. Era sábado, isso significava que eu tinha dois dias para me recompor até ver a cara desse babaca na escola.Nunca namorem pessoas da escola, sério. Já estava imaginando que ele contaria para todo mundo o que aconteceu, e minha reputação de “Julie, a garota qualquer que caminha nos corredores da escola” vai sumir, dando lugar para “Julie, a ex-namorada corna e louca do Rafael”. Vamos lá, não é por que eu quebrei um copo na cabeça do menino que eu era louca. Eu só estava com raiva, e todo mundo sabe que amor e raiva são coisas que não combinam. Eu mesma podia garantir. Pensei em fazer um blog contando sobre a minha decepção amorosa e ficar dando dicas para as garotas que sofreram a mesma coisa não se desesperarem.Mas não, eu não iria fazer um blog.Respirei fundo e senti uma dor vindo das minhas costelas, o que me fez lembrar que eu fui atropelada ontem. Atropelada por um cara muito bonito que tinha me dado o número dele. Por que paquerar é tão fácil hoje em dia? Deveria ser como antigamente, que as pessoas se olhavam uma vez por semana e já ficavam sem graças, mas no final, trocavam alguns arranjos de flores e bilhetinhos perfumados – pelo menos foi assim que a minha avó conheceu meu avô.Peguei meu celular e vi o contato dele. Eu tinha escrito “Srece” porque estava com pressa e vamos combinar que eu nem queria o número dele.Poxa vida, será que ligo? Não. Ligar para falar o que? Meu dedo estava coçando para que eu fizesse algo.Mandei um SMS.“ Steve! É...bom, aqui é a Julie, a garota que você atropelou ontem. Só para você salvar o meu número, já que eu não te passei o meu. Beijos.”É sempre bom mater contato com alguém que tem bicicleta, não é mesmo? Vai que ele tem uma moto.Joguei meu celular no sofá e fui fazer alguma coisa para comer. Um lanche com tomate e alface, porque essa combinação era a melhor de todas. Preparei tudo rápido, me sentei na mesa e enfiei um pedaço de pão na boca. Enquanto mastigava, notei que ficava muito sozinha aos sábados. Minha mãe não estava e eu não tinha nenhum gato para poder brincar – porque o maior sonho da minha vida era ter um gato, mas minha mãe sempre dizia que até eu sair da casa dela eu nunca teria um. Bobagem, sempre levava uns gatinhos de rua escondido mas sempre ficava com medo dela joga-los na rua, então eu os entregava para a adoção.Eu não tinha muitos amigos, só a Jessy e o Mathew. Mas os dois não eram muito de sair nos fins de semana.Minutos depois, o meu celular vibrou. Fui ver o que era – como se já não soubesse, mas podia ser mensagem de alguma operadora.“Julie, que bom que mandou essa mensagem para eu salvar o seu número. Não esperava que fosse querer falar comigo de novo.”Eu não entendia porque eu estava tão ansiosa por esse SMS. E nem por que eu queria mandar um imediatamente.“ Eu só vou manter contato se você tiver uma moto.” E apertei o botão de ENVIAR.Demorou uns vinte segundos para que ele me respondesse:“ Eu não tenho uma moto. Ainda não.”Que pena, pensei.“ Então é melhor cortarmos o papo desde já.” Brinquei.Passou exatos dez minutos com a minha pessoa ligando e desligando o celular para ver se chegou alguma mensagem dele, mas nada.“ Por que parou de falar?” perguntei.Logo ele me respondeu:“Disse para cortamos o papo.”“Eu estava brincando.”“Não da para medir o humor de uma pessoa por um SMS, querida.”“ Vou mandar várias carinhas quando eu estiver brincando, está bem?”“ Como quiser. O que está fazendo agora?”“ Coçando meu braço, e você?”“ Estou jogado no meu sofá.”“Divertido.”“ Qual sua idade?”“17, e a sua?”“ 21.”“Hum.”Resolvi que não ia ficar o dia inteiro batendo papo com ele via SMS. Peguei meu celular e coloquei na bolsa, pasei um rímel e um batom para não sair com cara de abóbora. Fui dar uma volta em um shopping perto do condomínio em que eu morava. Tinha bastante gente no shopping, olhei muitas lojas, até que cansei. Não iria comprar nada mesmo – gastei minha mesada logo em que recebi.Peguei meu celular para ver as mensagens.“ Hum, o que?” “Julie?” “Parou de falar. Maldita”“ Desculpa, estou no shopping.”Ele demorou um tempo para responder.“ Qual shopping?”E eu disse qual shopping era.“ Vai ficar muito tempo?”“ Talvez um pouco mais.”“ Então está certo.”Depois disso ele não falou mais nada. Dei mais algumas voltas, experimentei algumas roupas, tomei um suco e resolvi ir embora. Estava descendo as escadas rolantes quando meu celular começou a tocar. Era Steve – ou Srece, como diz o contato. Apertei o botão de atender com rapidez.– Alô?– Você ainda está no shopping?– Hã...sim.– Ótimo, vai para a entrada principal – e desligou.Eu não acreditava que ele estava aqui. Desci mais dois lances de escada e fui ao destino em que ele me recomendou. Andei o mais rápido que pude. Lá estava ele, apoiado em uma planta de decoração, com uma jaqueta de couro preta e uma calça jeans. O cabelo todo bagunçado mostrava que ele não tinha se arrumado para vir para cá. Me aproximei por trás.
– O que você veio fazer aqui? — Eu perguntei.Steve se virou assustado, mas depois deu risada.– Me assustou.– Era a minha intenção.– Eu vim porque eu estava sem nada para fazer – Ele disse. – Então pensei em fazer amizades aqui no shopping, começando por você.– Estava indo embora.– Cheguei na hora certa, então – ele ficava sorrindo toda hora e eu não consegui disfarçar que estava sem graça.– Imagino que você deve ter andado por todos os cantos desse lugar. Vamos para algum outro?– Acha mesmo que eu vou sair com você?– Calma, Julie. Só estou aproveitando essa chance que o destino me deu.– E você acredita em destino? – Balancei a cabeça. – Interessante. E o destino fez o que?– Te colocou na frente da minha bicicleta quando eu perguntei o que eu deveria fazer com a minha vida. Vou encarar isso como uma resposta.– Isso é sério? Você acha mesmo que eu não estava ali por acaso?– Eu não sei de nada, mas não vejo problema em querer ser seu amigo.E de fato, não havia problema algum.Fiquei sem falar nada por uns segundos, até que ele se pronunciou:– Eu não estou flertando com você, está certo? – E depois gargalhou. – Não pense isso.– Não estava pensando – sorri de volta.– Vamos, eu estou de carro.– Um carro é melhor que uma moto – disse.– O carro é do meu pai, mas ele está viajando.– E você pretende ir para onde?– Não sei. Qualquer lugar.Eu estava com um pouco de...medo – não sabia se essa era a palavra certa. – Mas eu mal o conhecia e já estava indo direto para dentro do carro dele. Ah, vamos com tudo. Ele não tinha cara de que ia me sequestrar.– Seus olhos são encantadores, Julie – ele disse, antes de entrar no carro preto. – Azuis cristalinos...- ele deu risada. – Parece com os de minha mãe.– E imagino que seus olhos verdes sejam iguais aos dos seus pais?– Sim, somos parecidos.Ele ligou o rádio e estava tocando uma música legal, então eu fui prestando atenção na melodia para não ficar muito nervosa. Mas era besteira, no fundo eu sabia que ele só estava paquerando comigo.Sim, ele estava.
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