Para Sempre

1 Atropelada por uma bicicleta


O meu mundo estava desabando.

Eu estava atrás de um poste, vendo meu namorado beijar outra pessoa. Eu estava chateada, me sentindo uma merda por não conseguir segurar o meu namorado. Meu namorado.

O que tinha de errado comigo? Eu não era boa o suficiente para ele? Eu estava prestes a sair dali para acabar com aquela palhaçada toda, quando meu telefone tocou. Desesperada, eu vi quem me ligava – era minha mãe. – Então eu logo desliguei porque eles não podiam saber que eu estava ali.

Segui aqueles dois até que entraram numa casa noturna. Um belo lugar para se levar uma garota, penso com ironia. Ainda bem que ele nunca me levou num lugar desses.

As lágrimas escorriam sem parar, mas eu tinha que ser forte. Era só o Rafael, o menino que eu sempre fui apaixonada desde a sétima série, que eu fiz de tudo, que eu me ajoelhei para pedir em namoro – sim, fui eu quem tomou a atitude. O homem da minha vida.

Respirei fundo e contei até três, tomei coragem para seguir adiante. Entrei naquela boate, ainda tive que pagar vinte reais. Tinha muitos adolescentes e muitos adultos se esfregando em mulheres, prostitutas. Que nojo.

Enquanto eu passava por um corredor apertado, tentei procurar Rafael naquela multidão de gente e entre a luz escura. Ele tinha se sentado em um sofá com as pernas abertas, mas eu não achei a menina. Mas para a minha felicidade, a garota tinha se multiplicado. Ele estava me traindo com duas gêmeas prostitutas? Uma onda de raiva me atingiu como um raio, eu fechei os meus punhos e andei em direção aquela putaria que estava acontecendo.

Antes que eu chegasse lá, um cara me pegou pelo braço e chegou bem perto de mim. Eu conseguia sentir seu hálito quente no meu pescoço.

– Você não acha que está muito vestida, menina?

– É melhor você me soltar, antes que eu quebre os dentes que ainda lhe restam – e tentei puxar meu braço, mas ele era muito forte.

– O que você está fazendo aqui, então?

– Eu vim matar o meu namorado, mas você está me atrapalhando.

Ele me soltou mas eu podia sentir seu olhar sobre mim, e aquilo me incomodou bastante. Me aproximei de Rafael e ele nem tinha notado a minha presença. Peguei um copo de bebida colorida que estava em cima de uma mesinha próxima ao sofá, e joguei tudo nele.

– Que merda é essa?- Ele se levantou, jogando as duas meninas pro lado. Ele me olhou com raiva, mas depois vi que ele ficou preocupado. – J-Julie?

Eu não conseguia falar nada. Juro que eu tinha tudo na minha mente, eu tinha até treinado no espelho cada palavra que eu diria quando o pegasse em flagrante. Eu já vinha suspeitando disso há umas duas semanas mas nunca tinha tomado coragem para realmente ver a verdade.

Suspirei pesadamente, controlando o choro que estava entalado na minha garganta. Dei um tapa bem forte no rosto dele, e me joguei no sofá em que ele estava. Coloquei a mão no rosto para que ninguém me visse chorar. Ah, eu precisava soltar essa emoção, essa raiva que estava tomando conta de mim.

Ele não falou nada, mas senti que era ele quem estava se sentando vagarosamente ao meu lado.

– Olha...como você soube? Quem te contou?

– Ninguém – é só o que eu digo.

– Julie, eu...

– Ah, cala a porra da boca, Rafael. O que você tem a dizer pra mim?

– Não era pra ser assim, eu ia terminar com você mas...

– Ah, então você ia terminar comigo, mas resolveu não me poupar dessa vergonha? Obrigada. Estou muito satisfeita com a sua decisão.

– Eu gosto de você.

P arei de pensar quando ele disse isso. Só me veio uma coisa na cabeça: A cena em que eu pegava uma faca e cortava aquele pescoço lindo.

– Não consegui terminar porque eu gosto de você, mas...não é só isso. Eu precisava de mais, você e eu...não combinamos, entende? Eu tenho carinho por você, Julie, mas...eu não sei te explicar por que eu fiz isso. Não sei mesmo.

– Você é um filho da puta, essa é a verdadeira explicação – me levantei. – Tudo bem. TUDO BEM. Você me traiu e agora eu estou terminando com você. Beleza. Viu como foi fácil? Não precisei beijar nenhum rapaz para terminar com você. – E fui indo embora, mas eu precisava falar mais. Voltei e apontei o dedo indicador na cara dele. – Você é um merda. Como você é capaz de fazer isso com uma pessoa? Por que simplesmente não terminou comigo? Qual o prazer que você teve em fazer isso? – Eu nem tinha notado que eu estava gritando. — Rafael, eu te amava tanto...

– J-julie...

Peguei o copo e quebrei na cabeça dele. Saiu sangue mas era o que eu queria.

– Você é louca?!

– Louca. Você ainda não me viu louca, Rafael. Eu posso quebrar essa boate toda na sua cabeça, mas eu não vou. Eu estarei indo para a minha casa, esquecer que isso aconteceu, fingir que você sofreu um acidente e morreu. Simples como uma batata na água.

– Tem caco de vidro na minha cabeça, Julie – ele olhava frenéticamente para os dedos cheios de sangue.

– Eu quero que você morra – sai em direção ao bar, peguei uma bebida bem forte que desceu queimando pela minha garganta. Sai daquela boate tremendo de raiva, eu deveria ter enfiado meu dedo do olho dele.

Merda.

Me sentei na guia da calçada em frente a boate, e desabei. Chorei tanto que as pessoas olhavam para mim como se eu fosse uma moradora de rua louca. Como eu fui tão idiota? Eu só pensava em nunca mais olhar na cara dele, em me isolar, mudar de escola...qualquer coisa.

Levantei e comecei a andar pela ciclovia. Naquela escuridão, eu estava me sentindo em casa. Nem tinha notado que vinha um ciclista na minha direção. Ele tentou parar mas mesmo assim a bicicleta me acertou e eu cai. Não tinha me machucado, mas a minha costela – que foi onde o guidão bateu – estava dolorida. Na verdade, ela estava queimando.

– Sua louca, como é que você sai andando na ciclofaixa? – Ele jogou a bicicleta no chão e colocou a mão no meu rosto. – Você está bem? Quebrou alguma coisa?

– Não – eu me levantei mas o máximo que consegui foi ficar sentada. – Estou ótima.

Ele me ajudou a levantar, me levando até a calçada e me colocou sentada novamente na guia, depois foi buscar a bicicleta dele. Ele voltou, deixando o automóvel ecológico de lado e se agaixou na minha frente.

– Você está bem mesmo?

Tinha os olhos verdes, cabelo castanho e era muito bonito. A pele branquinha parecia tão macia que eu fiquei com vontade de toca-la.

– Porque depois eu não quero ninguém me processando, por favor.

– Você deveria andar com os faróis da bicicleta ligados.

– Essa bicicleta é emprestada, a minha foi roubada. Sinto muito, mesmo.

– Eu já estou bem, obrigada.

Ele me olhou de maneira engraçada.

– Seu rímel está todo borrado.

– Andei chorando – nem sei porque falei isso para um cara que acabou de me atropelar.

– Por isso estava andando sozinha na escuridão. Bem gótico.

Abri um sorriso de leve.

– Nossa – coloquei uma das mãos na cabeça.

– Isso na sua mão é...sangue? – Ele ficou assustado.

– Ah – fiz cara de pouco caso. – É, por que? Andei matando umas pessoas enquanto dava algumas voltinhas.

– Isso veio de você? Meu Deus, você precisa ir para o hospital. Pode ter quebrado alguma coisa e...

– Calma, isso não veio de mim – mas mesmo assim olhei para onde a bicicleta tinha me atingido para conferir. Nunca se sabe. – É uma longa história que eu não vou contar para você porque é um estranho que acabou de me atropelar com uma bicicleta rosa.

– É da minha amiga.

– Não me deve explicações.

Só então quando eu não estava mais com raiva que eu percebi a besteira que eu tinha feito. Eu quebrei um copo na cabeça de uma pessoa. Tudo tinha acontecido tão rápido que eu nem estava me importando.

– Está tudo bem? Me pareceu preocupada.

– Bom – me levantei – vou indo. Obrigada por me atropelar e depois verificar se eu não morri.

– Não quer que eu te leve até...sei lá, um ponto de táxi? É perigoso uma menina andar sozinha durante a noite. E tem certeza que esse sangue não é seu?

– Não. Você pode ser um molestador, é perigoso. E sim, eu tenho certeza que esse sangue não é meu. Mas pode ser que ele tenha vindo de outro lugar – me censurei depois de ter dito isso. – Nossa, desculpa.

Ele deu risada.

– Eu juro que não sou um. Bom, se quiser dar queixa na polícia depois de sair comigo, aqui está meu nome – ele pegou o RG dele e mostrou. – Steve Cahill.

– Isso é uma informação de ouro – disse com ironia. O que ele estava achando? Que eu ia deixar ele me levar até um ponto de táxi?

– Posso saber seu nome?

– Não – e sai andando. Confesso que eu já estava ficando com medo com tantas perguntas.

– Está bem! – Ele diz. – Até mais garota!

Na hora uma ambulância chegou e parou na frente da boate. Droga. Lá estava Rafael saindo com um ou dois cacos de vidros presos na cabeça. Como eu tive coragem de fazer isso?

Ele me olhou com raiva, mas não disse nada. Fiquei totalmente paralisada.

– Ficou em choque em ver sangue? – Steve me perguntou, se aproximando de mim.

– Fui eu quem fiz aquilo – por que diabos eu disse isso para ele? Agora vão me levar para a delegacia e me denunciar por agressão.

– Você? – Ele pareceu surpreso.

– Ele era meu namorado, me traiu, fiquei com raiva, acertei um copo na cabeça dele e...bom, vim chorar aqui na calçada, andar na escuridão até você me atropelar.

– Noite dificil.

– E ela nem começou – suspirei.

– Não vai mesmo me dizer seu nome?

– Julie – agora que eu já tinha contado para ele que de certa forma eu era uma louca agressiva, falar meu nome não ia ser um problema, afinal, ele tinha falado o dele.

– Vai para casa, Julie. Você precisa se acalmar depois de hoje. Eu te levo até um ponto de táxi, ou você tem carro?

– Eu vou pegar um táxi, mas não precisa me acompanhar.

Ele bufou, impaciente.

– Você quem sabe. Depois vem um louco qualquer na rua e...

Ele insistiu bastante para me levar até um ponto de táxi até que eu acabei deixando, já que realmente andar sozinha com a cara borrada de maquiagem não é muito seguro.

Andamos até o ponto de táxi, conversando, e sim, eu contei para ele sobre o que tinha acontecido. Ah, eu nem sei por que fiz isso, mas quando me vi já estava falando. Ele também acabou contando que tinha terminado com uma namorada fazia pouco tempo, mas que já havia superado. Chegando no ponto de táxi, ele fez o sinal para mim, depois ficou de frente, me olhando.

– Desculpa, de novo.

– Ah, não foi nada.

Abri a porta do táxi e entrei. Falei a rua pro motorista, mas antes que ele pudesse dar a partida, Steve bateu no vidro do carro, e eu o abaixei.

– Anota meu número – ele disse.

– Por que?

– Acho que gostei de você.

Ele passou o número dele – não que fizesse diferença, eu não ia ligar.

– Quem sabe eu não ligo, não é?

– Não precisa ligar. É só pra...caso você, não sei.

– Entendi. Adeus, Steve.

E eu deixei ele ali, olhando para o táxi até virarmos a esquina.