Para Sempre
1 Parte Um
Notas iniciais
Ananda Presley estava sorrindo para seu melhor amigo, o cãozinho Salsicha, quando sentiu a trombada forte e caiu desmaiada no chão. Seu pequeno amigo latia e uivava para todos os lados tentando encontrar alguém que o ajudasse, mas ninguém passava pela rua quando o motorista covarde fugiu sem prestar socorro. O cãozinho de rua deitou perto de sua querida amiga e esperou até que alguém percebesse que algo estava errado ali.
— Moça? Moça? — Lucas Davis chamou na escuridão da rua deserta — Ai meu Deus! — ele lamentou assim que viu a quantidade de sangue que saia da mulher — Alô? Por favor, preciso de uma ambulância perto do Parque Estadual, sim, isso mesmo, nesse local. É urgente, a mulher perdeu muito sangue!
Lucas abaixou e constatou que a mulher ainda respirava, ao seu lado Salsicha parecia rezar pela recuperação de Ananda. O homem ficou imerso em diversos pensamentos, entre eles havia um em especial: aquela moça não poderia partir daquela forma.
— O senhor pode acompanha-la? — o socorrista perguntou logo depois de colocar a vítima dentro da ambulância.
— É claro — Lucas respondeu prontamente.
“Eu te amarei até o fim dos tempos” – Lana Del Rey
PARTE I
— Sorria — Vera Presley falou para filha no quarto do hospital, ela estava tirando uma foto de Ananda para mandar aos parentes — Não quero que pensem que está morrendo.
Ananda sorriu. Teoricamente ela estava morrendo, todos morriam mais a cada dia, mas Vera não precisava se preocupar com isso agora, não depois de quase perder a filha em um acidente tão horroroso.
— Pronto! Todos já te viram — a mulher falou satisfeita assim que postou a foto no grupo de mensagens da família — Agora descanse minha princesa, seu pai chegará em breve!
Ananda fechou os olhos e dormiu com facilidade, talvez fosse porque os remédios facilitassem isso. Ela estava tão acostumada com hospitais que nem se importava mais com tudo que estava acontecendo, diferente das outras pessoas ela nunca se sentia mal em um hospital, principalmente depois de passar seis anos quase morando em um. Ela tivera leucemia aos doze anos e ficou até os dezoito lutando contra a doença. Agora, aos vinte e três, ela estava bem o suficiente para se considerar curada. Tudo estaria bem se não fosse o novo problema. O problema nas pernas, a vertebra fraturada havia prejudicado os movimentos, ela estava paraplégica.
♥
— Coma tudo, por favor, Ananda! — Antônio, pai da garota, falou preocupado com a falta de apetite da filha — Você saiu do hospital há dois dias e até agora só tomou um copo de leite.
— Não tenho fome — ela falou sorrindo — Você sabe que eu não sou de negar comida, mas não estou com vontade agora!
Antônio suspirou e voltou com a bandeja para a cozinha. A filha tinha razão, ela não negava comida e mesmo na situação atual não conseguia entender essa falta de apetite. Ananda era uma garota tão forte, não seria um acidente que a tiraria dos eixos. Ele se lembrava dela se forçando a comer nos tempos em que estava se tratando da leucemia, Ananda nunca deixou transparecer sua dor para que seus pais não se lembrassem dela sendo uma menina medrosa e fraca.
♥
— Sou Lucas Davis — o homem de vinte e seis anos falou para Ananda com um sorriso tímido nos lábios.
— Você já me conhece — Ananda o desafiou, sorrindo — Aliás, muito obrigada por tudo que fez!
Lucas sentou na cadeira de estudos de Ananda e ficou admirando o quarto juvenil da moça. Havia tantos pôsteres de artistas e filmes que ele se sentia em um museu, mas aquilo parecia revelar um lado diferente da mulher que o olhava com um ar intelectual.
— Não moro aqui — Ananda parecia ouvir os pensamentos do homem — Quer dizer, agora moro devido à situação, mas eu estudava filosofia e arte na Universidade do Norte.
— Não estuda mais? — ele perguntou intrigado.
— Faltei um mês, não acho que eu vá conseguir acompanhar os meus colegas — ela abaixou o olhar e fitou suas pernas imobilizadas.
— Você não me parece uma mulher que sai por aí desistindo de seus sonhos — Lucas disse, mas logo percebeu que não tinha tanta intimidade para brincar com Ananda.
— Não era um sonho, estava fazendo faculdade só para ter algo a pensar — ela sorriu com sinceridade — Penso demais, às vezes é bom direcionar os pensamentos em uma atividade específica.
— Acho que você seria uma boa filósofa — Lucas colocou seu lado brincalhão em ação — Admiro isso, também penso demais, mas quem não pensa hoje em dia?
E Ananda pensou naquilo. Todos pensavam demais, ela não era a única. Seus pensamentos a colocavam em situações tão ruins que não havia muita solução, ela só precisava pensar numa só coisa, munir seu cérebro de informações e pensar o mínimo possível em sua vida.
♥
— Não posso sair assim — Ananda reclamou com sua mãe — Não estou acostumada com encontros.
— Não é um encontro — Vera falou para acalmar a filha que não parava de falar o quanto as roupas ficavam feias agora que ela tinha um acessório novo, a cadeira de rodas.
— Ele me chamou para jantar! — a moça falou alto — Como isso não é um encontro?
— Ele gosta de conversar com você, certamente não se importará com suas roupas — a mãe disse feliz.
— É claro, homens não se importam com roupas só com o que há por baixo — as duas riram tanto que ficaram vermelhas.
— Não fale bobagem — Vera falou — Lucas é um bom rapaz, não acho que ele pensa que ganhará isso de você.
— É claro — Ananda parou de sorrir.
— Não foi isso que eu quis dizer, querida — a mãe enrubesceu e voltou a ajudar a filha a se arrumar.
♥
—Vinho, senhor? — o garçom perguntou a Lucas assim que estavam em sua mesa.
— Sim, por favor — Lucas disse — Espero que goste Ananda.
— Não sou de beber — ela foi sincera — Sou do tipo que passa os finais de semana vendo seriados no netflix ou lendo algum livro, devo dizer que essa é a primeira vez que saio depois das 22.
— Não pode ser — Lucas riu — Estou te desviando do mundo intelectual?
— Acho que pode conviver com isso — ela riu também.
— Só não entendo porque uma garota tão bonita e inteligente vive de uma forma tão solitária...
— Foi mais por causa da doença mesmo — ela havia contado toda sua adolescência para ele dias antes — Não pude ir à escola e acabei não fazendo amigos.
— Nem na faculdade? — ele sempre parecia interessado no que ela estava prestes a dizer.
— Nem mesmo na faculdade — ela suspirou.
— Desculpe, não quero te chatear. Por que não continuamos nossas conversas filosóficas?
— Paramos em que parte? — ela colocou o dedo na cabeça e fingia se concentrar.
— Na parte em que você me dizia que não conseguia concordar com a forma que vivemos... Algo assim — Lucas era tão observador que sempre sabia o que Ananda estava dizendo, na verdade ele estava fascinado com as opiniões dela. Com a forma que ela via a vida, como se já tivesse vivido milhares de anos.
— É... Não sou muito apta a viver da forma que a sociedade impõe, tenho interesses diferentes, sabe? Não quero enriquecer ou me encaixar nos padrões de estética, só quero sair por aí e fazer o que me faz feliz, como ajudar as pessoas e conhecer o mundo.
— Às vezes me sinto assim, mas somos tão sufocados que acabamos obstinados a voltar a agir como robôs.
— Exatamente, mas eu não tenho muito tempo para me deixar ser sufocada. Preciso nadar contra a corrente, nós precisamos!
— Você é uma perfeita garota de humanas — Lucas falou e eles riram como dois adolescentes.
♥
— Não estou apaixonada — Ananda gritou para a mãe assim que saíram do banho.
— Claro que não, só está fissurada pelo Lucas — Vera falou brincando — Mas eu também estaria, ele é bonito, inteligente e ainda salvou sua vida.
— Pai, mande minha mãe parar — Ananda gritou para Antônio que estava escutando tudo.
— Vera pare com isso, deixe nossa filha descobrir isso por conta própria — o pai ria mais do que tudo.
— Eu o conheço só há dois meses, isso não é nada — Ananda argumentou.
— Para alguns casais isso significa um pedido de casamento — Vera falou enquanto calçava os sapatos na filha — Desde que descobriu nosso endereço ele vem aqui quase todos os dias, e vocês ainda ficam horas nesse quarto conversando...
— Já falei que ele gosta de falar sobre filosofia — a outra contra argumentou.
— Que seja, mas não dou muito tempo para que troquem essa filosofia por uns beijos.
♥
— A morte não me assusta, tenho mais medo da vida — Ananda falou em uma das conversas com Lucas, seria estranho falar isso com algum parente, mas com ele isso era natural — Vi há muito tempo um pensador que dizia que o corpo era a prisão da alma e pensei que ele poderia estar certo.
— Não consigo achar a morte algo tão casual — Lucas comentou — Mas você diz isso com tanta suavidade que não sei dizer algo contra.
— Eu já estive muitas vezes diante da morte — ela falou — E em nenhum momento senti medo, talvez fosse porque eu estivesse esperando.
— Não consigo acreditar que você tenha vinte e três anos — ele sorriu.
— Está me chamando de velha? — Ananda sorriu também. Era comum os dois sorrirem um para o outro.
— Não precisa ser velho para ser sábio — Lucas falou sentando mais próximo dela na cama.
— Parece que você está aprendendo a dar minhas respostas intelectuais.
— O tempo com você pode ser muito inspirador, Ananda — Lucas disse e já estava perto o suficiente para beijá-la.
E foi o que ele fez. Era de ser esperar que ambos estivessem apaixonados, Lucas era a única pessoa que Ananda tinha contato, além de seus pais e parentes, e ele estava encantado com a esperteza dela. Beijaram-se para realizar as expectativas, fazia semanas que ele planejava isso e nunca passaria em sua mente que seria tão bom.
Fale com o autor