Para Sempre
2 Parte Dois
PARTE II
— Não estou me sentido bem hoje — Ananda falou para o pai assim que acordou.
— O que você tem? — Antônio ficou alarmado.
— Não quero te assustar, mas me sinto com doze anos de novo — ela respondeu e isso foi o suficiente para que o homem saísse correndo do quarto e chamasse a mulher.
Ananda se sentia fraca, da mesma forma quando descobriu a leucemia. A doença não possuía sintomas específicos, mas na mente da garota ela não estava com uma indisposição qualquer.
Já estava no hospital quando o médico chegou com o resultado do exame, ele estava sério.
— Bom Ananda — ele começou e ela já sabia o que viria; o mesmo tom que todos os médicos usam quando a coisa não está boa — Seu hemograma está alterado, há muitos glóbulos brancos na sua circulação sanguínea. E como você vem de um caso recente de leucemia...
— A leucemia voltou? — ela perguntou segurando as lágrimas.
— Você conhece os procedimentos, se segui-los poderemos curá-la — o médico falou com calma.
— Vai dar tudo certo, filha — Vera falou para tranquilizar Ananda, mas por dentro ela estava devastada. Não era fácil ver uma filha passar por tanto sofrimento. Foram seis anos de luta contra uma doença horrível, e depois um acidente que colocara Ananda em uma cadeira de rodas e agora, tudo voltara ao começo.
— Eu sei mãe — Ananda falou e se agarrou a mão da mãe.
♥
—Posso entrar? — Lucas perguntou. Ananda já estava em casa e ele aproveitara para vê-la — Como está?
—Não muito bem — ela sorriu fraca — O tratamento é um tanto agressivo.
— Você ficará bem — ele ficou perto e segurou-a a mão.
— Senti sua falta — ela murmurou — Detestei não poder receber visitas naquele hospital.
— Eu teria entrado escondido se isso não lhe causasse mal, mas sua mãe foi clara quanto aos riscos — Lucas deitou-se junto a ela.
— Temo que não tenhamos mais tempo para conversar —Ananda lamentou — Já é difícil ter leucemia e com minhas limitações... Lucas, eu acho que está na hora de se afastar.
— Tá... Eu sento na cadeira — ele falou brincalhão, mas no fundo sabia o que ela queria dizer.
— Você sabe, não é? Não vou durar — ela falou sem nem mesmo pensar em chorar — Minha família já está acostumada com esse fato, mas você não. Não quero que sofra por minha causa.
— Por que os doentes sempre querem afastar as pessoas que amam? — Lucas falou — Eu não vou embora, Ananda. O destino me colocou no seu caminho e eu quero ir até onde ele achar que devo.
— Não posso te obrigar a ir, infelizmente — ela abaixou o olhar — Mas você me faz ter medo de morrer.
E isso foi o suficiente para que ela chorasse. Naquela simples frase ela dissera que o amava.
♥
— Não quero vê-lo, mãe — Ananda falou assim que saiu do banheiro do hospital — Preciso evitar que ele sofra me vendo assim!
— Você não pode evitar o sofrimento das pessoas, Nanda — Vera falou docemente — Ele escolheu ficar com você.
— Não é justo com ele — a garota falou.
— Não é justo com ninguém, mas é isso que a vida nos dá — a mãe falou — como diz o ditado: quando a vida nos dá um limão devemos fazer uma limonada.
— Ou uma caipirinha — Ananda falou e as duas riram.
— Eu te amo tanto, filha — Vera disse emocionada — Você vai melhorar.
♥
Não era fácil para Lucas vê-la doente. Ele olhava para ela deitada na cama do hospital e via como seu rosto estava pálido e em como ela emagrecera. Os cabelos, antes médios, estavam curtos. Mas uma única coisa não mudara em Ananda, o seu sorriso.
— Não me olhe assim — ela falou acordando.
— Você é linda, deve ser admirada — ele falou e ela sorriu.
— Você foi o único que me tratou assim — Ananda disse perdendo o sorriso.
— Não gosto quando você fala assim — ele advertiu —Você não está morta!
— O tratamento não está dando resultado — a garota falou devagar — Não aguento mais... Eu vou voltar para casa, quero que aconteça lá.
— Não — Lucas falou alto — Você não vai desistir!
— Não vai adiantar... Não quero perder tempo em um hospital — ela falou baixo, contrapondo o tom de Lucas.
— Mas... — ele estava sem palavras, como poderia argumentar com ela, no fundo ela estava certa.
— Vou ficar melhor desta forma — ela continuou.
Lucas a beijou assim que estava perto da cama, ele precisava ficar perto dela, o tempo que fosse.
♥
— Abra os olhos — Ananda abriu e se surpreendeu com a quantidade de rosas que havia no jardim.
— Sua mãe disse que você adora rosas — Lucas falou empurrando a cadeira de rodas entre os corredores do jardim.
— Elas são tão lindas e perfumadas.
Passaram a tarde rodando pelo jardim e tendo as velhas conversas filosóficas, tudo parecia bem novamente. Até mesmo as dores de Ananda estavam mais fracas.
— Tenho uma proposta para te fazer — a garota disse alegre.
— Sim, eu caso com você — Lucas falou sorrindo.
— Não é isso, seu bobo — Ananda riu mesmo sentindo um pouco de dor — Pensei em fazermos uma tatuagem.
— Tatuagem? Sério?
— Bom, eu sempre quis uma... Você não precisa...
— É claro que quero, faço tudo por sua felicidade — ele falou virando a cadeira para a saída do jardim — Próxima parada: estúdio de tatuagem!
♥
— Ananda era a garota mais doce que conheci, ela me fazia sorrir mesmo quando só havia tristeza ao nosso redor — Lucas chorava o bastante para não conseguir continuar — Desculpem... Eu não posso!
Todos saíram do velório arrasados. Ananda morrera enquanto dormia, encontraram-na serena, como se nada houvesse acontecido. Não havia sinais de sofrimento.
Lucas não conseguia parar de pensar nela e em seus últimos momentos juntos, aquela mulher o transformara, ele nunca mais seria o mesmo.
♥
— Eu te amo, Lucas!
— Eu te amo, Ananda!
— Isso será para sempre?
— Sim, para sempre!
FIM
Fale com o autor