POV.: Violetta

Hoje era o dia. Ensaiei a coreografia toda ontem à noite no meu quarto para tudo sair perfeito, além das aberturas. Mas o que mais me preocupava eram os saltos. Isso eu não podia ensaiar sozinha e espero que os dias na quadra sejam mais que satisfatórios para que tudo saia perfeito.

– Bom dia, pai. — desci as escadas, já pronta para a escola.

– Ah, só um minuto, filha. Uhum, está bem, a gente pode marcar às 15:30, ok, eu preciso desligar, tchau. — meu pai encerrou a ligação, tentando esconder a vergonha. Inutilmente, pois eu sabia muito bem quando meu pai tentava esconder algo de mim.

– Quem era? — perguntei.

– Um cliente. — ele sorriu para mim.

– Ah...sei. — olhei para ele brevemente, indo tomar café em seguida.

Ele saiu rapidamente. Assim que fechou a porta, fui correndo pra janela observar ele saindo com o carro. Ele pegou o celular e fez outra ligação. Clientes...

Voltei para a mesa. Terminei de tomar café e minha mãe desceu as escadas.

– Bom dia, Violetta. Seu pai já foi?

– Sim, acabou de sair. — falei, pegando minha bolsa.

– Nossa, ele está com raiva de mim até hoje por causa daquela briga, acredita? Todo dia ele chega quando já estou dormindo e sai antes de eu levantar. Só o vejo deitado dormindo do meu lado quando eu acordo de madrugada. Isso tem que acabar.

– Tem razão. Digamos que vocês dois já deixaram de ser um casal de verdade faz tempos, né mãe.

– Como assim?

– Mãe, vocês se tratam friamente o tempo todo. Nunca vejo um carinho, ou um "eu te amo", ou pelo menos algum elogio. Vocês só se atacam com palavras, um tentando magoar o outro.

– Querida, casamento não é um conto de fadas como você imagina. Passamos por momentos desagradáveis e temos que ter um tempo só para nós.

– Mas isso não justifica todo o tempo que vocês andam se tratando mal. Mãe, há quanto tempo vocês não se beijam, ou...transam?

– Violetta! Não vou te contar minha vida sexual com seu pai.

– E nem quero saber, de verdade. Mas pense nisso. Vocês brigam e deixam por isso mesmo. Precisam conversar e talvez assim voltem a ser um casal que se ama.

Minha mãe ficou calada. Talvez eu tenha falado demais e foi um milagre ela não ter brigado feio comigo. Aproveitei a pausa para sair, pois se ficasse ali mais alguns minutos iria me atrasar.

Fui dirigindo para a escola tentando esquecer os conflitos familiares e focar mais no jogo de hoje e na apresentação que faria. Enquanto ia dirigindo para escola, decidi passar por um caminho diferente. Algo simplesmente me dizia que eu devia passar por lá. Ao invés de seguir a avenida principal para a escola, decidi fazer um caminho mais longo, dando a volta no quarteirão, de modo que eu sairia pelas costas do estacionamento. Quando virei a última esquina, algo me chamou atenção. Uma voz familiar.

– Mãe! Que droga! Eu não vou pra escola à pé. Me empresta o carro aí!

– Não! Problema seu. Ninguém mandou ficar enrolando pra levar o seu pra oficina. O meu trabalho é mais longe do que a sua escola. São apenas alguns minutos, não vai doer nada.

– Mas está frio!

A discussão continuou e eu fui desacelerando o carro. Parei bem em frente à casa onde os dois estavam. Eles estranharam e pararam de brigar, observando meu carro. Abaixei o vidro e coloquei a cabeça para fora da janela.

– Ei, frescura, entra aí.

Ele veio correndo, abriu a porta do carona e entrou.

– Ei, você salvou minha vida! Obrigado Vi.

– Tudo bem, Austin Mahone! Da próxima vez, leve seu carro pra oficina logo.

– Claro, claro. Por quê está passando por aqui?

– Não sei, mas algo me dizia que eu devia vir por este caminho. Bem, acho que já descobri para quê.

– É...- ele riu. — Está ansiosa, minha flor?

Parei o carro.

– Minha flor? — ri.

– Seu nome é Violetta! Quer apelido mais adequado que este?

– Tudo bem. — voltei a dirigir.

– Mas você não respondeu minha pergunta.

– Até esqueci o que você disse. — olhei pra ele, rapidamente, voltando a me concentrar no cruzamento.

– Se você está ansiosa.- ele riu.

– Muito! Olha só como estou rígida.

Ele deu uma olhada bem demorada em mim, me deixando um pouco envergonhada.

– Tem razão. Vou te fazer uma massagem quando tudo acabar.

– Acho que quem vai precisar de massagem é você. O time que vocês vão enfrentar não é fraco. — falei.

– Fiquei sabendo. Ok. Vamos bater uma aposta. Se ganharmos, eu ganho uma massagem sua. Se perdermos, você ganha.

– Ah! Desse jeito não posso torcer para ganharmos hoje! É injusto. — fiz beicinho.

Ele riu.

– É pegar ou largar.

– Tá bom...Acho que vou pedir outra pessoa para fazer uma massagem em mim.

– Também acho, hahaha.

Minutos depois chegamos na escola. Estacionei o carro e fomos juntos para o corredor dos armários. Peguei minhas coisas e fiquei esperando Allan pegar o capacete. O jogo seria a partir do segundo horário. No primeiro, ficaríamos terminando os últimos preparativos.

– Vamos? — seguimos para o campo.

– Quer que eu leve sua bolsa, Vi? — ele perguntou, já pegando minha bolsa do ombro.

– Que cavalheiro, obrigada! — sorri.

– Você tem um sorriso lindo, sabia? Sou capaz de sonhar com ele todos os dias.

– E eu amo seu cabelo! Você tem que cantar pra mim um dia, Austin Mahone.

– É sério isso? Você acabou com minha cantada. — ele cruzou os braços.

– Awn, que lindeza, gente. — apertei suas bochechas.

– Não tem graça. — ele fez bico.

– Para com isso, até parece que você está falando sério.

– Mas eu estou!

Olhei em seus olhos. :- Não, não está.

– Por que você acha isso?

– Quando as pessoas mentem suas pupilas dilatam. E a suas estão dilatadas.

– É porque estou sem meus óculos, e tenho que comprar as lentes.

– Jura?

– Juro, eu sou míope.

– Ah, que gracinha! Se você comprasse aqueles óculos enooooormes, ia ficar parecendo um nerd estiloso.

– Nerd estiloso? De onde você tirou isso? Além disso, ser míope não é uma gracinha.

– Desculpe. — falei.

– Ah, tudo bem! — Ele me abraçou. — me dá um beijinho e tudo fica bem.

Dei um beijinho no rosto dele.

– Está satisfeito?

– Na verdade, não.

– Sinto muito, é o que posso oferecer.

– Ok, eu espero. — ele sorriu, esperançoso.

Desde quando ele estava a fim de mim? Esse garoto é estranho. Olhei para frente e Noah estava parado olhando pra gente. Por que Noah sempre estava por perto quando eu estava com o Allan?

– Ah, vamos ali comigo, Allan. — puxei-o pela mão.

Não devia ter feito isso, pois ele não largou minha mão, segurou-a e continuou andando ao meu lado presunçoso. Apenas revirei os olhos. Notei que Noah deu uma rápida olhada em nossas mãos. Soltei a mão de Allan e cumprimentei Noah.

– Ei, Noah.

– Oi Vi, como você está? — disse com uma voz muito fofa, me abraçando forte.

OKAY, NÉ. Os dois estão se comportando muito diferente um com o outro na minha presença. Como se quisessem se provocar através de mim.

– Oi, Noah. — Allan disse, puxando meu braço para ficar ao lado dele.

– Ei, Allan. Preparado para hoje?

– Já nasci preparado. — ele sorriu.

– Que bom, porque para um novato vai ser bem puxado.

– Sou novato apenas no seu time. Já joguei em outros, você escutou o treinador ontem.

– Então, vocês dois vão se sair super bem! Vamos ganhar, pessoal! — cortei o clima.

Eles olharam para mim e sorriram.

– Vai ser difícil me concentrar no jogo com você animando. — Allan disse para mim.

– Então é bom você manter o foco. Ou a escola vai cair matando em cima de você depois, offensive tackle.

– Vou tentar. — ele olhou pra mim.

Ah, aquilo já estava indo longe demais. Cadê o Allan imparcial que conheci anteontem e que não ficava derretendo em cima de mim? Quero ele de volta. Além disso, ele e o Noah mal se conheciam e parecia que já se odiavam. Coisa ridícula.

– Ok, galera. Noah, cadê a Angelline?

– Ah, ela já está lá na quadra.

– Vou atrás dela, me aquecer.

– Vou com você. — Noah disse.

Infelizmente, por mais que quisesse, não conseguia recusar sua companhia.

– Ele está caidinho por você, hein. O que você deu pra ele? Poção do amor?

– Aff, me poupe, Noah. O que vocês dois têm?

– Nada. É só que ele está dando em cima de você descaradamente. Vocês estão saindo?

– Não! Ele não me chamou pra sair. — falei, envergonhada.

– Se ele chamar você vai?

– Noah, por que está tão preocupado? — perguntei sinceramente.

– Não estou preocupado! De jeito nenhum, só queria saber. Afinal de contas, você é minha amiga.

– Sei. Ele está curtindo com a minha cara. Não vai me chamar para sair. Mas se chamar, talvez eu aceite. Ele é bonitinho, por que não? — provoquei-o, para ver sua reação.

Ele assentiu.:- Tome cuidado com ele.

– Por que eu deveria?

– Não sei, acho ele falso.

Eu ri:- Ok, já me convenceu de que não gosta dele. Sei me cuidar, ok? Obrigada pelo conselho.

– Tudo bem. — continuamos andando até alcançar a porta da quadra onde eu geralmente ensaiava. — Até mais, Violetta.

Noah ficou com raiva. Eu não o entendia. E não estava entendendo o que estava acontecendo.

Entrei na quadra confusa, fui direito para o vestiário trocar de roupa e me dirigi ao encontro de Angelline.

– Oi. Você já começou com o ensaio final? — perguntei.

– Ainda não. Você chegou bem na hora. Viu o Noah?

– Não. — respondi e saí andando.

Ela deu de ombros. Estava de bom humor hoje, o que significa que todo o time faria o melhor possível para não chateá-la.

Minutos depois que todo o time chegou, começamos o ensaio. Estávamos todo em perfeita sintonia, não erramos um passo. Estávamos prontos para o show. Angelline não poderia estar mais feliz.

– Ok, pessoal! Se continuarmos assim durante o jogo, vai sair tudo perfeito! Lembrem que vamos iniciar o jogo com a nova coreografia. E quando o time de casa fizer ponto, vamos fazer a comemoração especial. Não errem! Se errarem, continuem, assim é mais difícil alguém perceber nossa falha, já que a maioria da plateia estará focada nos nossos jogadores.

Todos assentiram, gritando e aplaudindo a capitã. Fiquei me imaginando no lugar dela. Deve ser bem complicado dirigir um time de animadores. Pois eram muito agitados e gostavam de gritar muito e pular, o que dificultava os discursos.

Quando saí da quadra, ouvi os gritos e vaias dos alunos enquanto o time adversário chegava em quatro ônibus enormes. Um com o time, o diretor da escola, alguns professores e com os animadores e os outros três apenas de pura e agitada torcida. O uniforme deles era verde com branco.

– SONSERINA CONTRA GRIFINÓRIA! — Alguém gritou atrás de mim.

O time adversário se chamava Dallas High School, uma imitação pobre do Dallas Cowboys, um time realmente famoso dos EUA. Apesar disso, em comparação ao nosso Huntsville Panthers, era relativamente forte. Em todos os cantos, eu ouvia os alunos apostando dinheiro no jogo e isso me fez lembrar a aposta que fiz com Allan. O jogo começaria em meia hora. As torcidas já estavam encaminhando-se para as arquibancadas e o som era ensurdecedor.

Fui para o vestiário do campo, junto com o time de animadores e com o time de jogadores. Vi Noah e Angelline abraçados em um canto e Allan conversando animadamente em outro canto.

– Boa sorte, Austin. — falei, atrás de Allan.

Ele se virou abruptamente.

– Oi, minha flor! Obrigado! — ele me abraçou e me rodou.

– Ei, calma aí! Guarda sua energia. Você está suando já! — eu ri.

– Estou a todo vapor, meu bem. Se a gente ganhar você me deve um beijo na boca! — ele disse, pulando pra se aquecer.

– Haha, nem pensar. — recusei.

– Então, saia comigo. — ele olhou pra mim, em seguida se jogando no chão fazendo flexões.

– Allan, levanta daí!

– Só se você disser "sim". — ele falou, arfando.

– Se o nosso time ganhar. — falei, finalmente.

– Amanhã, às 20:00hs. Meu carro vai estar pronto. — ele se levantou.

– Você está cantando vitória. Saiba que isso não é bom.

– Minha flor, nós vamos ganhar. — ele beijou meu rosto.

Era o que eu esperava. Não porque queria sair com Allan, mas porque nosso time devia ganhar tanto pelo orgulho, tanto pela tempestade que Angelline causaria se perdêssemos.