Para Recordar
2 Capítulo 02: Para Esquecer
Notas iniciais
Capítulo 02: Para esquecer
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3 meses depois
Chovia fortemente, como naquela noite, em que Rukia havia dado uma das mais felizes notícias da vida de Ichigo. Mesmo com o barulho da chuva, era possível ouvir os gritos e xingamentos que vinham do apartamento dos Kurosaki.
— Rukia, pelo amor de Deus! Pare com isso! — praticamente suplicou em plenos pulmões entre os gritos da mulher.
— Admita, Ichigo! Eu estou vendo essa merda de marca de batom na sua camisa! — gritou puxando o colarinho da camisa de Ichigo e mostrando a leve marca de batom rosa. — Eu não uso batom rosa, seu infeliz! Está me traindo com quem?
— Não estou te traindo, Rukia! Pare com isso! Somos casados há cinco meses e vamos ter dois filhos, por que diabos eu te trairia?
— Me diga com que vagabunda você está me traindo? — ignorou os protestos de Ichigo, enquanto inutilmente tentava segurar as lágrimas que ameaçavam a cair. — Com a tal de Orihime? Ou será que é com aquela tal de Nelliel?
— Rukia! — gritou tentando chamar atenção da esposa que fazia questão de não ouví-lo. — Pare com isso, amor. Você está grávida e não pode se exaltar dessa maneira! Pode fazer mal a você e ao nossos filhos!
— Meus filhos, Ichigo! Meus filhos! — a morena andou até a mesa de canto e pegou as chaves do carro e começou a caminhar na direção da porta. — Enquanto você não me explicar de quem é essa marca de batom, não existe esposa nem filhos para você! Fique com vagabunda que usa esse batom!
— Onde você está indo? — Tentou contê-la sem ser agressivo demais, afinal, ela estava grávida — Você não vai sair nesse estado! Não vou permitir!
— Você vai me impedir? Só tente, Ichigo! Só tente! Agora, me largue! — puxou o braço com força e saiu do apartamento aos prantos.
A porta do elevador já estava aberta e a morena apenas entrou e fechou a porta antes que Ichigo a alcançasse. Vendo que não daria tempo de alcançá-la se esperasse pelo elevador, Ichigo correu pelas escadas e a encontrou correndo na direção do carro totalmente encharcada pela chuva forte.
— Espere, Rukia! — correu o mais rápido que podia na direção da esposa tentando fazê-la escutar seus últimos pedidos para que ficasse — Não vá! — gritou e ela o ignorou entrando no carro e rapidamente dando a partida. — Rukia!
Não houve tempo de dizer mais nada. Só teve tempo de ver o carro em que Rukia estava acelerando e logo em seguida um caminhão em alta velocidade acertando com tudo o carro onde sua mulher, amiga, companheira, sua vida, estava. O carro capotou várias vezes antes de parar a vários metros de onde estava.
Ichigo ficou desesperado.
— Rukia — sussurrou o nome da pessoa que mais amava no mundo e começou a sentir as lágrimas descerem no seu rosto, misturando-se com a chuva incosequente que preenchia a rua, até então, vazia.
Mais uma vez, correu na direção do carro com esperanças que ela ainda estivesse viva. Quando chegou perto do veículo, viu que estava completamente amassado, não conseguia enxergar Rukia, tentou abrir a porta, puxou várias e várias vezes com força, mas ela não abria.
Depois de uma súplica, a porta toda amassada abriu-se fazendo o ruivo cambalear para trás. Não conseguia enxergar direito, as lágrimas não permitiam que fizesse tal ação.
— Rukia? — quando olhou, viu sua mulher toda ensaguentada e com inúmeros machucados por todo o corpo — Rukia... — aproximou-se com cuidado para não machucá-la ainda mais e pôde ouvir que ela ainda respirava, mesmo com dificuldade, ainda respirava — Por favor! Alguém chame uma ambulância! — olhou em volta e viu o motorista do caminhão paralisado que continuava sentado no banco do motorista e não movia um músculo — POR FAVOR! ALGUÉM! — gritou desesperado.
— I...chi...go? — a voz fraca de Rukia soou aos ouvidos de Ichigo fazendo com que ele se virasse imediatamente para ela. — É você... não é, Ichigo?
— Sim, sou eu amor. Ssssshh. Fique calada, por favor, a ajuda vai chegar e tudo vai ficar bem. Ssssh... — falou baixinho, tentando mais convencer a si mesmo do que a ela. Segurou sua mão e murmurou mais uma vez: — Vai ficar tudo bem...Não se preocupe.
— Eu amo você Ichigo — sussurou com os lábios cheios de sangue e sorriu levemente. — Muito.
— Também amo você. Agora, fique quietinha amor. A ajuda já está chegando — disse, ouvindo o barulho das sirenes que já estavam ficando cada vez mais próximo.
— Eu... Não sinto nada.
A ambulância chegou e retirou Rukia do carro rapidamente, a respiração dela ficava cada vez mais fraca, ela lutava para continuar viva. Rukia tinha que viver, por ela, por Ichigo e pelos dois filhos que ainda viriam. No caminho inteiro, Ichigo segurou as mãos pequenas e frias entre as suas e ficou sussurando palavras de amor e conforto, falando que tudo ficaria bem. Ao chegar no hospital, Rukia foi direto para o pronto-socorro, onde Ichigo foi proibido de entrar.
Passou horas e horas e nenhuma notícia de Rukia. Ichigo não sabia mais o que fazer, o que faria se a perdesse? Não sabia... Não conseguia pensar, não conseguia ficar quieto. Nos poucos minutos que sentou-se, chorou como nunca havia chorado antes. Depois de longas horas, o médico saiu da sala de cirúrgias e o chamou:
— Kurosaki Ichigo, certo? — o ruivo assentiu com receio, suas mãos tremiam, as lágrimas voltaram aos seus olhos e os lábios estavam ressecados. — Você é marido dela, certo? — perguntou. O ruivo assentiu novamente.
— Como ela está? — perguntou nervosamente.
— Tentamos retirar os bebês, mas nenhum deles conseguiu sobreviver. Eram muito jovens... — disse. Ichigo colocou as mãos no rosto. — Desculpe, fizemos o possível.
— Rukia... Como ela está?
Pela primeira vez em anos, sentiu medo, muito medo. Observou que o médico hesitou e desviou o olhar.
— O estado dela não é nada bom. Ela perdeu muito sangue, teve muitas fraturas e vários órgãos foram perfurados ou muito danificados. Ela precisa de um transplante, mas é impossível no momento. — O médico parou para respirar e fitou os olhos marejados de Ichigo, que antes, tão vivos, agora, estavam sem vida. — Ela só terá mais algumas horas de vida. Sinto muito. — Colocou o braço no ombro de Ichigo.
— Posso vê-la? — Os olhos suplicavam, pediam por aquilo.
— Sim. Ela está no quarto quinze. — E o médico retirou-se com uma expressão tristonha.
Ichigo praticamente arrastou-se entre os corredores, procurando o quarto onde Rukia estava. Não sabia como reagir, na verdade, não sabia como faria nada a partir daquele momento. Nem viver ele gostaria.
Passou a mão no rosto na tentativa de afastar as lágrimas que já voltavam, respirou com dificuldade, tentando puxar todo o ar disponível para o que viria. Andou mais alguns metros e viu o número quinze em uma das portas. Aproximou-se da porta e segurou a marçaneta hesitando em entrar, mas essa sensação logo sumiu ao lembrar-se das palavras do médico: Ela só terá mais algumas horas de vida.
“Tenho que vê-la. Será os últimos momentos”, pensou angustiado, engoliu em seco e girou a marçaneta.
Sua primeira reação foi o espanto. Viu Rukia toda enfaixada e ainda assim não conseguiram esconder as inúmeras hematomas e machucados que ela possuía, vários aparelhos estavam ligados a ela, a mantendo vida por mais alguns instantes. Sua pele estava mais pálida que o habitual, seus lábios antes tão rosados e vivos, estavam secos e machucados, em volta dos olhos havia algumas marcas roxas e seus cabelos estavam sem brilho...
Ela realmente estava morrendo.
Andou até a cama onde ela estava e sentou-se na cadeira que estava ali do lado. Observou-a por alguns instantes e com cuidado, cobriu uma das mãos — agora frias — de Rukia com as duas mãos.
— Eu amo tanto você — murmurou tentando conter as lágrimas. — Nunca me perdoarei, o que aconteceu foi culpa minha... Se eu tivesse te dito a verdade, nada disso estaria acontecendo com você, com nós... — Engoliu as lágrimas com esforço e continuou: — Na verdade, Renji me chamou para ir com ele a um bar, mas eu disse que apenas iria como compania e que não gostaria de beber, por causa de você... Porque eu tinha você pra cuidar. Fiquei com ele por algumas horas, e ele já tinha bebido bastante, estava tão bêbado que acabou derramando o que ele bebia naquela camisa branca que você adora. — Por um instante, sorriu. Beijou com cuidado a mão de sua amada. — Então... Ele me ofereceu outra camisa, já que a minha ficou bem suja, eu aceitei, mas não reparei que estava suja de batom até chegar em casa e começarmos a brigar. — Não aguentando mais, o ruivo começou a chorar. — Sou tão idiota. Deveria ter te dito logo...
— Ichigo — Rukia sussurou com um fio de voz. O ruivo olhou na direção de Rukia, os olhos dela estavam tão cansados e ainda assim ela se esforçava para mantê-los abertos. — Sou uma idiota, não é? — sussurou com a voz fraca e pesada. — Não é culpa sua... — As lágrimas começaram a fazer trilhas pelo rosto alvo da morena e logo vieram os soluços, tão sofrêgos. — Dói tanto. Mas não é meu corpo, é meu coração...
— Ssshhh... Por favor, não chore. Não chore, amor — pediu baixinho se aproximando ainda mais dela. Sem soltar a mão que segurava, acariciou o rosto delicado e depositou um beijo nos lábios sem cor de Rukia. — Não precisa chorar, estou aqui com você.
— Desculpe... Por te-
— Não, não fale isso. Não me peça desculpas, por favor, não faça isso. — suplicou com a voz cheia de dor. — Não precisamos fazer isso. Eu amo tanto você. Não sei se conseguirei viver sem você...
— Não desista Ichi... Viva, por mim. Por nós — Rukia pediu entre as lágrimas, a voz dela estava ficando cada vez mais fraca, estava ficando cada vez mais difícil ver aquela cena sem poder fazer nada. — Amo você, mais que tudo.
Só você e eu
Toque à primeira vista
— Me recuso a viver em um mundo sem você! Me recuso! — murmurou ajoelhado ao lado da cama, evitando olhar nos olhos dela, estava chorando como um bebê, ou até pior que isso.
— Não faça isso. Você me prometeu, lembra? Que jamais tentaria se matar de novo, jamais — sussurrou com dificuldade e esticou a mão para alcançar o rosto bonito do marido e levantá-lo para si, queria gravar cada detalhe dele, para sempre. — O mundo continuará girando, mesmo sem mim, e você terá que aceitar isso. Mas nada mudará o fato que eu te amo.
E o mundo que nos rodeia
Não vai parar de girar à noite
Eu gosto ... Eu gosto
Eu estou perdendo o controle
— Que patético eu sou... Nossos últimos momentos juntos... Você morrendo, e eu aqui, chorando e você me consolando! — sussurrou.
Ela sorriu, mesmo tão pálida e sem vida, foi um dos sorrisos mais lindos que ela já dera. Ele jamais esqueceria, aquele sorriso, aqueles lábios, aqueles olhos. Jamais esqueceria nada que pertencesse a ela.
— Não quero que você vá. Preciso de você perto de mim. Não há ninguém que possa ocupar meu coração, além de você.
Agora e eu sinto que é certo
Eu gosto, eu gosto
Foram capturados neste momento
Eu não vou deixar você ir
—Eu também não quero ir, amor, mas parece que não tem mais jeito. — Ela sorriu mais uma vez, mas dessa vez, tristemente. — Ainda tínhamos tanto a construir... Nossos filhos... — Parou de falar nesse momento e as lágrimas começaram a cair novamente. — Não se esqueça de mim, Ichigo.
— Jamais — sussurrou, beijando os lábios dela novamente. Estava sentindo que estava chegando... Não queria que ela fosse. — Eu amarei você, para sempre.
E o mundo que nos rodeia
Não vai parar de girar à noite
Eu gosto ... Eu gosto
Eu estou perdendo o controle
Agora e eu sinto que é certo
Eu gosto, eu gosto
Foram capturados neste momento
Eu não vou deixar você ir
— Eu também te amarei, para sempre — sorriu mais uma vez e sentiu os braços dele passarem em sua volta. Mesmo que doesse não reclamou, seria a última vez que ela sentiria aquilo, depois sentiu os lábios dele em sua pele, nos seus lábios. Aproveitou cada segundo, cada momento, afinal, aquele seria os últimos momentos com seu amado, seria o último contato, o último beijo. — Desculpe por não poder cumprir minha promessa.
— Não está quebrando a promessa, amor. Você sempre estará comigo. Aqui — disse colocando a mão dela em seu peito, no seu coração. Fitou-a diretamente nos olhos, queria gravar a imagem daqueles olhos em sua mente, não queria esquecer em nenhum momento deles, em nenhum momento. — Sinto muito.
E as lágrimas, foram inevitáveis. Elas continuaram a cair e não pararam em nenhum momento. Observou os poucos minutos que Rukia conseguiu manter-se acordada, cantarolou uma música zelando por aquele momento tão difícil. O momento que ele jamais iria esquecer, mas que não gostaria de se lembrar.
Porque na vida, era dessa maneira. Havia coisas que poderiam ser facilmente esquecidas e outras que eram dificilmente lembradas, mas para ele, aquele momento em que sua Rukia deixou de viver e soltou seu último suspiro seria uma lembrança inesquecível, porém dolorosa.
— Adeus, Ichigo.
Foi a última coisa que Kurosaki Rukia disse antes de fechar os olhos para sempre.
Estou me apoiando na promessa que eu guardo
Com você eu irei permanecer a cada dia
Colocando meu entendimento à parte
E eu estou confortado
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