Paraíso secreto
2 02. Primeiros segredos
Notas iniciais
Acordei com o celular tocando, era o despertador. Tomei um banho e desci. O café já estava na mesa.
– Bom dia, minha querida. – Tia Emma falou.
– Bom dia. – Sentei-me e sorri.
– Hoje eu vou chegar um pouco mais tarde, sinta-se á vontade. Certo? – Balancei a cabeça afirmando e ela sorriu.
Vinte minutos depois, o ônibus estava do lado de fora. Despedi-me de todos, peguei minha bolsa e saí. Pouco tempo depois, estávamos no colégio. Ao entrar, procurei meu armário e não demorei muito para acha-lo. O problema foi encontrar a minha sala. Eram tantos corredores que eu acabei me perdendo, quando o sinal tocou o corredor ficou vazio em segundos! Finalmente, encontrei a sala. Quando entrei percebi que só havia um lugar vago, ao lado do garoto, o tal garoto que conversava com Érica no dia anterior. Fechei os olhos e respirei fundo antes de ir me sentar. Não olhei para ele, evitei contato visual, mas ele falou comigo e eu não pude deixar de olhar.
– Você é prima do James, não é?
– Sim, eu sou. – Seus olhos brilhavam, ele sorriu e eu senti meu corpo arrepiar. Aquela beleza era incrível, aquele garoto era incrivelmente perfeito. – Meu nome é Leah, Leah Holmes – não resisti e estiquei a mão na sua direção para nos cumprimentarmos.
– Sou o Sam, Sam Frohman. – Ele sorriu e eu não pude deixar de sorrir também.
***
O sinal tocou e todos saíram da sala, o corredor estava cheio novamente! Fui até o meu armário, pequei minhas coisas e fui em direção á saída. Queria chegar em casa e ligar para Melanie para contar sobre o meu primeiro dia de aula na nova escola. Alguém segurou meu braço e quando me virei pude ver que era Sam.
– Deixou isso cair. – Ele estendeu a mão e mostrou uma pulseira prateada. Olhei para o meu pulso no mesmo instante. Era a minha pulseira.
– Como sabia que era minha?
– Vi você usando na primeira aula. – Ele sorriu e encolheu os ombros.
– Obrigada. – Sorri de volta.
– Não precisa agradecer. – Ele ainda olhava para mim, o encarei por alguns segundos.
– O que você é da Érica? – Não pude resistir, eu era uma pessoa curiosa.
– Nada – Ele levou a mão até a nuca – Somos apenas... Amigos.
– Amigos? – Mantive o olhar fixo nele.
– É, nós nos conhecemos há muito tempo.
– Você tem uma queda por ela? – Falei abrindo a boca, surpresa.
– Não! – Ele começou a rir. – Ela é como uma irmã mais velha, ela cuida de mim. Entendeu?
– Ah! – Comecei a rir – Me desculpe.
– Não se preocupe, não contarei a ninguém. – Ele piscou e riu.
***
Entrei em casa e subi para o meu quarto, me joguei na cama e peguei o celular. Liguei para Melanie e contei sobre o meu primeiro dia e ela me contou como estava animada para a sua viagem. Fiz minhas atividades, tomei um banho e entrei no Twitter para ver o que estava acontecendo no mundo. Nada de interessante. Peguei meu caderno e comecei a rabiscar vários desenhos idiotas. Eu gostava de desenhar. Fazia isso quando não tinha nada para fazer. Muitas vezes queria colocar para fora, porém o fato de não ter amigos para isso me fazia transformar tudo em desenhos ou textos. Em meio ás folhas daquele caderno, encontrei uma foto minha quando pequena. Eu e meus pais. Não fazia ideia de como havia ido parar ali. Senti então toda aquela tristeza e saudade invadir meu peito. Não demorou muito e eu já estava chorando. Fechei os olhos com força e repeti para mim mesma que eu tinha que ser forte. Que chorar, não iria adiantar muita coisa. Coloquei aquela foto dentro de uma caixa com várias outras e voltei a me deitar, em meio aos soluços eu repetia “podia ser apenas um sonho ruim”. Eu não podia negar que eu ainda estava inconformada com aquilo tudo. Nunca tive explicações certas sobre o que aconteceu. “Foi apenas um acidente”, foi o que me disseram. Nada mais. Não demorou muito e eu peguei no sono.
***
Já se passara duas semanas, Melanie embarcava hoje para Paris. Fiquei imaginando como seria viajar o mundo, conhecer pessoas novas, esquecer um pouco todas as mágoas do passado... Sam e eu havíamos nos tornados ‘amigos’, conversávamos várias vezes e eu o considerava um bom amigo. Eu realmente gostava de ficar perto dele, não sei se era o seu jeito bonitão que me fazia sentir assim, mas eu não me importava muito. Eu estava me tornando uma pessoa sociável, isso era o que importava. Estava tão distraída que mal escutava a voz do professor, até que Sam me cutucou, o que me tirou do devaneio.
– Acho bom prestar atenção, depois fica feito uma maluca com todo o assunto atrasado. – Ele tentou ficar sério, mas acabou rindo. Ele não fazia o tipo sério que se importava muito com os estudos. Estava mais para um bobão mesmo, que só queria terminar a escola e viver sua vida em paz, em algum lugar tranquilo.
– Foi mal. – Fiz uma careta.
– Eu quero que me entreguem um resumo sobre este assunto na semana que vem, até mais alunos. – O sinal tocou e durante a aula essa foi a única frase que eu consegui entender. O restante do tempo estive em meio aos pensamentos sobre minha vida.
– Que assunto? – Virei para Sam – Por favor, me diz que você prestou atenção na aula – Ele riu com a minha cara apavorada.
– Sim, eu prestei. – Ele falou, parando de rir e arrumando suas coisas.
– Precisa me ajudar, por favor... – Fiz uma carinha de cachorro sem dono e ele voltou a rir.
Quando as aulas acabaram, pedi que ele fosse até minha casa e me ajudasse com esse maldito resumo. Minha tia ainda não tinha chegado, então subimos para o meu quarto. Entrei, joguei a bolsa na cama e liguei o computador, pedi que ele me explicasse todo o assunto, já que eu não havia escutado nada graças aos meus devaneios.
– Não é nada demais, ele só quer que a gente leia os capítulos sete, oito e nove e faça um resumo. História é um saco mesmo. – Ele bufou e deixou seu corpo tombar para trás, ficando deitado na minha cama.
– Só isso? Mas... Eu não sei nada sobre isso. – Falei enquanto abria o livro e lia os títulos das páginas.
– Eu disse que história é um saco. – Ele deu de ombros, e eu ri. Era incrível o modo como ele não ligava para as coisas.
– Então, é só o resumo? — Joguei o livro em cima da escrivaninha.
– É. Simples, não? — Ele sentou-se e ficou me encarando. Odiava quando ele fazia isso, eu simplesmente corava e não sabia para onde olhar.
– Sabe que não gosto disso. – Falei enquanto desviava o olhar para o chão.
– Desculpe. – Ele riu e passou a fitar o chão também. O seu telefone tocou e ele tirou do bolso, e vi seu rosto assumir uma expressão séria ao ver quem ligava. – Preciso ir.
– Tudo bem. – Ignorei aquilo e o acompanhei até a porta. Ele virou-se e me abraçou, seu abraço era bom, confortável... Tocou a ponta do meu nariz, me beijou na bochecha e foi embora. Senti uma sensação boa, felicidade. Fiquei o observando até ele sumir em meio á escuridão. Senti algo estranho, uma vontade de sair e vasculhar... Era a minha curiosidade falando alto outa vez. Peguei um casaco, calcei os tênis e saí. Andei na direção que o garoto havia ido, e tive tempo de vê-lo entrando na floresta. Hesitei por alguns segundos, porém também entrei. Tudo estava escuro, usei o meu celular como lanterna já que não havia outra opção. Não demorou muito e eu me encontrei perdida ali. Não sabia por onde havia entrado muito menos onde era a saída. Estava cada vez mais frio. Fiquei me perguntando o que Sam iria fazer num lugar como esse, até que escutei um barulho. Ótimo, agora eu estava apavorada. Guardei o celular no bolso e me encolhi perto de uma árvore enorme que havia ali. Fechei os olhos e tentei me concentrar, não ouvi mais nada. Senti uma mão tocar o meu ombro e abri a boca na tentativa de gritar, mas ela foi tapada por uma mão.
– Fique calma. – Era uma voz feminina. Tirou a mão da minha boca e ficou na minha frente.
– Érica? – Ainda estava tremendo por causa do susto.
– O que você faz aqui? Deveria estar em casa Leah. – Seus cabelos loiros estavam um pouco bagunçados, seu sapato sujo de terra.
– Eu fiquei curiosa, vim ver o que tinha aqui e acabei me perdendo. – Ela me encarou por alguns segundos.
– Não tem nada para ver aqui, a não ser coisas que você não gostaria de cruzar o caminho – Ela falou séria, queria me fazer medo. – Você precisa ir, eu te levo.
– Obrigada. – Ela sorriu, tentando parecer mais gentil e foi andando pela floresta, fazendo sinal com a mão para que eu a seguisse.
– Tome mais cuidado da próxima vez, pode não ter a sorte de me encontrar. – Ela não se virou, continuou andando.
– Obrigada pelo aviso – Ficamos alguns segundos em silêncio, até que ouvimos um barulho – O que foi isso? – Eu tremia mais uma vez.
– Nada – Ela fitava a escuridão, sabia que não era nada. Ela sabia o que era – Mas precisamos ir, agora.
– Certo. – Comecei a andar rápido, estava ficando com medo. Érica acelerou os seus passos, me obrigando a correr para acompanha-la. Chegamos á estrada, ela me olhou e olhou para a floresta.
– Sabe ir para casa daqui, não sabe? – Apontou para a estrada – Siga em frente, não tem erro.
– Não se preocupe. – Ela ignorou e virou-se para a floresta – Você vai voltar?
– Eu preciso ver uma coisa. – A garota não desviou o olhar, ainda encarava a floresta a sua frente.
– Érica, — Agora ela me encarava – você vai mesmo entrar aí, sozinha? – Ela percebeu que eu estava preocupada.
– Apenas vá, não precisa se preocupar Leah. – Eu já estava preocupada. Virei-me para ir embora quando ela me fez outra pergunta. – Você conhece o Sam, estou certa? – Não entendi o motivo pelo qual ela perguntou aquilo, mas respondi do mesmo jeito.
– Sim. Por quê? – Ela abaixou a cabeça e me respondeu.
– Apenas... Tome cuidado. Sam pode magoar as pessoas facilmente.
E foi tudo o que ela disse antes de dar um último sorriso gentil e entrar na floresta.
***
Ao chegar em casa, poucos minutos depois Emma chegou. Sentamo-nos para jantar e ela me chamou para ir até o centro da cidade fazer compras. Aceitei o convite, gostava de ficar perto de tia Emma. Quando fui me deitar, fiquei pensando naquela floresta, em Érica e no tal barulho que escutamos. Minha curiosidade falou mais alto outra vez... Desta vez, peguei uma lanterna e procurei um agasalho melhor. Dei uma última olhada para ter certeza de que não havia ninguém acordado, ou alguém que percebera minha fuga noturna. Respirei fundo e saí. Senti o vento frio tocar meu rosto e bagunçar meus cabelos, me causando um arrepio. Olhei para os lados e percebi que não havia ninguém na rua, apenas a neblina que dificultava minha visão. Era só impressão minha ou aquela cidade era estranha demais? Andei na direção da parte da floresta que eu havia encontrado com Érica. A neblina ficava cada vez mais intensa, e as ruas estavam claras por causa da lua cheia. Escutei um barulho, me virei e observei por alguns segundos.
– Foi apenas o vento... – Sussurrei.
Continuei minha caminhada e logo estava ali, em frente aquela tal floresta. Olhei para os lados, me certificando de que ninguém estava por perto e entrei. Parecia estar mais frio, o chão estava úmido e tinha algumas poças. Andava e olhava para todos os lados temendo que alguém aparecesse ali. Um vento forte fez com que eu fechasse meus olhos e apertasse o casaco contra o meu corpo me protegendo de toda a poeira. Abri os meus olhos e olhei para a escuridão, vi uma imagem se formar. Não era uma árvore, nem um animal... Era um homem.
– Ora, ora... – A figura se aproximou, eu me virei para correr. Ele foi mais rápido e segurou meu braço – Leah! – O quê? Sabia o meu nome?
– Quem é você? – Não conseguia enxergar seu rosto, eu estava apavorada, queria gritar e sair correndo por ajuda. Tentei me livrar da sua mão segurando meu braço, mas ele era rápido, e me segurou com mais força.
– Precisamos sair daqui. – Ele me puxou pelo braço para fora da floresta, mas eu me soltei e corri. Achei uma árvore enorme, me encolhi perto dela e peguei meu celular, precisava de ajuda. Ouvi alguém se aproximar. — Leah? Leah, cadê você? – Me virei para olhar e pude ver que era Sam.
– Sam! Oh, Deus! Você não sabe o quando eu estou feliz por te ver – Me joguei em seus braços o abraçando bem forte – Quase me matou de susto!
– Você precisa sair daqui, agora. – Ele estava sério.
– Precisamos, esse lugar é estranho. – Falei o soltando e olhando para ele.
– Vem, precisamos ir. – Ele me puxou e saímos correndo. Ouvimos um barulho. – Droga – ele sussurrou.
– O que foi? – Não pude nem terminar minha pergunta, ele me puxou e em alguns segundos estávamos correndo. Ele corria tão rápido quanto Érica, e tive dificuldade para acompanha-lo também. Paramos quando estávamos na porta de casa. Ele apontou para a porta e peguei as chaves para abri-la. Ele olhava preocupado para a floresta. Assim que eu abri a porta, ele me empurrou para dentro e fechou a porta.
– Bem melhor – Ele soltou um suspiro.
– Pode me explicar o que está acontecendo? – Me segurei para não gritar.
– Nada, é melhor você não saber de nada. – Ele se aproximou da janela, olhando para o lado de fora.
– O que foi aquilo na floresta? – Falei puxando o seu braço.
– Por favor...
– Não! Você me segura e sai correndo como se não tivesse alguém, algum assassino atrás de você. Explique o que está acontecendo, agora! – Falei um pouco mais alto. Olhei para a escada, com medo de que tivesse acordado alguém.
– Você vai acabar acordando alguém. – Ele riu. Ele estava fazendo de novo. Ele não se importava com o fato de ter me assustado e me ter feito corrido tudo aquilo. Era como se aquilo não fosse nada demais.
– Vem, você vai me explicar toda essa história. – Puxei-o até o meu quarto, tranquei a porta e fechei as cortinas. Sentei na cama e ele puxou uma cadeira – Pode começar.
– Não posso. – Ele falou sério.
– Claro que pode. Anda, me conta. O que foi aquilo? – Insisti.
– Não é tão simples. – Ele encostou-se na cadeira e ficou olhando para o teto.
– Acho bom você me explicar tudo isso. Logo! – Eu já estava impaciente.
– Outro dia, agora está tarde. – Ele levantou-se e foi em direção a porta, mas eu me pus na sua frente.
– São onze e quarenta e seis! Não está tão tarde... – Cruzei os braços.
– Leah... – Ele abaixou a cabeça e riu – Apenas não vá mais naquela floresta, é lua cheia e...
– E o quê? Vai ter monstros soltos por aí pegando garotinhas? – Soltei uma risada, e ele apenas sorriu e abaixou a cabeça. Ele sussurrou alguma coisa, porém eu não entendi. – O quê? – Perguntei na esperança de que ele repetisse, não entendi o que ele havia dito.
– Eu preciso ir. Boa noite, Holmes.
Ele riu e se aproximou de mim, acho que para me abraçar. Ele ficou parado na minha frente, me olhando nos olhos... Não resisti e o abracei, seu cheiro era tão bom e eu me sentia bem o abraçando. Quando nos afastamos ele acariciou meu rosto e voltou a se aproximar, fechei os olhos e deixei ele se aproximar. Senti seus lábios próximos aos meus, porém não nos beijamos. Ele se afastou, me deixando confusa. Respirei fundo e sorri fraco, ele fez o mesmo e saiu. Talvez ele não queira... Ou talvez ele não tenha certeza. Aquele garoto sabia demais e não queria me contar. Corri até a janela e não o vi. Ele era estranho. Aquela cidade era estranha! Tirei o casaco e o tênis, soltei o cabelo, tomei uma ducha, coloquei o pijama e me joguei na cama. Não demorou muito e eu dormi. O que havia acontecido não saía da minha cabeça. Eu sabia que aquilo iria render muitos sonhos, ou talvez pesadelos...
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