Paraíso Proibido
11 Capítulo 11. Piquenique
Notas iniciais
Ísis PDV {Ísis: Ponto de Vista}
Até dormir aquela noite foi difícil, de tanto que meus pensamentos me atormentavam. Eu estava ansiosa por aquele domingo, eu não sabia o que esperar, mas queria que fosse algo decisivo. Era duas e meia da manhã e eu ainda estava com os olhos bem abertos, sem sono. Em um impulso louco, peguei meu celular e disquei o número de Fernanda. Ela devia estar dormindo já... Desliguei antes do primeiro toque. Travei a tela do celular e soltei o ar com força, encarando o teto do quarto. Fiquei uns cinco segundos assim, então destravei a tela e disquei o número dela de novo. No primeiro toque, eu desliguei e voltei a travar a tela. Meu Deus, eu estava em conflito! Eu queria tanto ouvir a voz dela... Me xinguei e voltei a colocar o celular sobre a mesinha de cabeceira ao meu lado. Eu estava parecendo uma adolescente, que ridículo. Quando eu menos esperava, meu celular vibrou sobre a madeira e eu dei um pulo, então começou a tocar, fazendo meu coração quase voar do meu peito. Eu o peguei e vi a foto e o nome da Fê na tela, e gelei por dentro. Respirando fundo, atendi.
– Oi, Fê — falei o mais calma que consegui. Eu estava me sentindo muito, mas muito ridícula mesmo naquele momento.
– Izie? - ela parecia preocupada. O som de sua voz me acalmou. — Está tudo bem?
– Está sim. Por que?
– É que entrou uma ligação sua aqui, mas depois caiu... Fiquei preocupada. Você me ligou? Tem certeza que está tudo bem? Onde você está?
– Ah, desculpa por isso — falei envergonhada. — Está tudo bem, de verdade. Eu estou em casa, deitada, é só que... Eu não estava conseguindo dormir, aí eu pensei em te ligar, até disquei seu número, mas não quis te acordar... Desculpa...
– Ah ta, que susto Izie, achei que tivesse acontecido algo. Mas tudo bem, não me acordou. Também não estava conseguindo dormir...
– Sério? — ela murmurou um "Uhum" do outro lado da linha. — Mas você está bem?
– Estou sim, só com a cabeça meio cheia, não consigo dormir assim.
Eu queria muito saber o que ela estava pensando, mas não achei que seria legal ficar perguntando, poderia deixá-la desconfortável.
– Entendi, Fê... — murmurei. Falar com ela estava me acalmando, meu corpo relaxava, eu já podia sentir a sonolência. — Eu... Eu já estou com saudade, sabia? Acho que você me deixou mal acostumada — disse num tom divertido. Eu estava sentindo muito a falta dela ali, meu coração se apertava em meu peito.
Pude escutar ela sorrir.
– É sério, é? – Quando murmurei que sim, ela disse: — Eu também estou com saudade, Izie. Mas saiba que você pode vir aqui a hora que quiser, hein?
Eu sorri de um jeito bobo. Ela também estava com saudade, que linda.
– Sim senhora capitã, e eu vou mesmo, não pense que não.
Ela soltou uma risada leve.
– Vou ficar esperando - respondeu.
– Ahn, Fê, deixa eu perguntar... Você... Você quer sair comigo amanhã? Quer dizer, hoje né, daqui a pouco, já é quase três da manhã... — falei meio envergonhada.
– Sair com você, Izie? Ahn... Claro, mas... Para onde, exatamente?
– Sim, sair comigo, tipo, só nós duas mesmo... Mas o lugar é segredo! Você não pode saber — falei de um jeito divertido, que fez ela rir do outro lado.
– Mas se você não me disser para onde vamos, como vou saber o que vestir?!
– Não precisa de nada sofisticado, ok? Coloque roupas leves, que te façam sentir confortável, apenas.
– Está bem... Mas ainda acho que você deveria me dizer aonde vamos, é justo.
– Justo nada, xiu senhorita. Se eu disser, estraga a surpresa, então é segredo.
– Ta ok, Izie! – ela "reclamou", mas não estava aborrecida realmente, eu sabia que estava sorrindo naquele momento.
– Você está deitada aí?
– Estou sim. Começando a ficar com sono... E você? Nada de sono ainda, zumbi?
– Somos duas zumbis, não é? — perguntei com um sorriso e ela concordou. — E eu estou com sono sim, também. Quer ir dormir?
– Se você for também... Eu vou - ela disse meio baixinho. Ela ficava tão linda com aquela vozinha de sono. Meu Deus, eu estava parecendo uma boba apaixonada! Mas não é exatamente o que eu sou? Sacudi a cabeça.
– Então vamos, pequena. Dorme bem aí, ta bom? E eu passo aí para te buscar depois do almoço, antes das três, mas eu te aviso quando estiver saindo daqui, nós vamos durante o dia.
– Ta bem, Izie. Dorme bem você também. Boa noite...
– Boa noite, Fê. Vê se descansa direitinho, não quero a senhorita com cara de zumbi quando eu for te buscar, viu?
– Eu dormiria melhor se você estivesse aqui... Mas faço o que posso, ta bem? - ela sorria.
Confesso que não esperava ouvi-la dizer aquilo. Meu sorriso bobo só aumentou.
– Eu queria muito estar estar aí, e poder ter você em meus braços agora... Mas a gente faz o que pode, não é? — sorri de leve. – Descansa bem, pequena. Até mais tarde. Beijo, Fê.
– Até mais tarde, Izie. Beijo.
Com uma dorzinha no coração, eu desliguei a ligação. Eu poderia ficar a noite inteira ali ouvindo a voz dela. É, eu estava ficando maluca mesmo, não tinha mais dúvidas. Eu estava me sentindo um tanto boba porque nunca havia sentido nada assim antes, nada que me deixasse tão abobalhada — nenhuma garota até hoje fora capaz de despertar em mim um sentimento assim. Isso me assustava, ainda mais se tratando de Fernanda, mas eu não podia mais lutar contra. Ela sentia alguma coisa, eu sabia que sim, e agora era a hora de descobrir exatamente a intensidade desse sentimento dela — eu queria muito que fosse igual ao que eu sentia, pois eu não conseguia pensar em outra coisa que não fosse tê-la para mim.
Alguns minutos depois, finalmente o cansaço me venceu e eu dormi muito bem — só não tanto quanto a noite passada. Acordei já era quase onze e meia da manhã, e levantei da cama num pulo. Ainda tinha que preparar as coisas para levar ao parque, caramba! Tinha dormido mais do que deveria. Quando abri a cortina do quarto, todo o meu ânimo foi embora — o tempo estava fechado, não havia mais aquele sol do dia anterior. As árvores balançavam e as folhas secas voavam com o vento, algumas batendo em minha janela. Fiquei extremamente aborrecida com isso. Olhei para o céu, e algumas nuvens pouco mais escuras já se formavam por ali, zombando de mim. Suspirei, apoiando as mãos no parapeito baixo da minha janela. Abri os vidros, e o vento fez minha pele quente arrepiar. Não era um vento forte, mas era o suficiente para me fazer querer desistir da ideia que tinha tido para aquele domingo. Mas, então, ergui a cabeça e olhei para o céu.
– Você não vai estragar meu dia, ok? — murmurei para as nuvens no alto. Eu não ia cancelar nada, eu não podia mais esperar e não ficaria sem ver Fernanda por causa daquelas nuvens escuras e aquele vento.
Fechei a janela novamente, arrumei minha cama e me troquei. Fui até uma venda que tinha na esquina do meu prédio e comprei algumas coisas para levar, comidas (optei por coisas leves, como pão de grãos para fazer uns lanchinhos pequenos; e alguns petiscos) e bebidas (suco natural de laranja e maracujá que eu sabia ser o preferido de Fernanda), comprei uma cestinha e um paninho xadrez — muito clichê, eu sei. Mas tinha que ser perfeito. Comprei também uns guardanapos de pano e uma champanhe. Apesar do tempo lá fora não estar dos melhores, eu estava confiante. Tudo precisava sair conforme o planejado, eu não ia desistir agora. Fui para a cozinha, preparei os lanches, coloquei os petiscos em potes de vidros separados e ajeitei tudo bonitinho dentro do cesto. Olhei no relógio e era mais de meio-dia e meio. Ok, eu ainda tinha tempo, até porque eu havia dito à Fernanda que estaria lá antes das três.
Era hora de eu me arrumar. Fui para o banheiro tomar um bom, mas não tão longo, banho. Ao sair, enrolei meu cabelo na toalha enquanto escolhia uma roupa. Não demorei muito — peguei uma jeans skinny escura, um scarpin vermelho e uma blusa de botões azul clara; para fechar o look, coloquei uma jaqueta de couro preta (n/a: look Ísis). Meu cabelo deixei como gostava, meio bagunçado meio arrumado, dava um ar mais natural. No pulso esquerdo coloquei meu relógio e umas pulseiras que eu gostava de usar; e no rosto passei uma maquiagem leve: pó de arroz, blush bem suave, lápis e rímel; um perfume e nada mais. Olhando no espelho, tentei me convencer de que estava bom daquele jeito, tinha que estar — eu não podia me dar ao luxo de perder uma hora me arrumando sendo que o tempo lá fora não estava confiável e poderia chover a qualquer momento, o que estragaria mesmo todos os meus planos.
Coloquei meus pertences dentro da bolsa e peguei as coisas para o piquenique com cuidado, descendo até a garagem. Deixei o cesto no banco traseiro e então me ajeitei, saindo em seguida da garagem do prédio. Dirigi até o parque, apreensiva. Estava ficando nervosa, minhas mãos tremiam e eu suava frio. Será que Fernanda ia gostar daquilo? Eu estava ficando com medo, sinceramente... Era medo de que aquilo não saísse como eu queria, medo de que Fernanda achasse tudo muito exagerado e clichê, medo de tudo dar errado. Mas eu não podia e não ia voltar atrás, eu precisava fazer aquilo, eu precisava saber o que Fernanda sentia por mim. Ao chegar no parque, passei pela guarita na entrada e o guarda me deu um ticket com uma senha. Eu estacionei o carro em uma vaga livre no estacionamento deles e entrei na recepção. O nome do lugar era Parque-pousada Riverwood. Esse parque era como um grande "condomínio", uma pousada como o próprio nome já sugeria, vamos dizer assim, eram vários hectares de área verde preservada, e haviam chalés dispostos a alguma distância uns dos outros — funcionava assim: você alugava um chalé, podia ser para temporada, diária ou algumas horas, e toda a área estava disponível. Como havia certa distância entre os chalés, então acontecia muito de haver festas ali, piqueniques também, acampamentos e coisas do gênero. Eu decidi que alugaria uma diária. O atendimento era por senha, e quando chegou minha vez, fiz minha reserva e peguei as chaves, paguei com meu cartão de crédito e então voltei para o carro e dirigi pelas estradinhas de pedra cercada de árvores altas que me levariam até o chalé que eu havia reservado.
Quando cheguei lá e desci do carro, eu senti uma paz incrível me inundar. O lugar era perfeito, o chalé era todo de madeira, com dois andares e um telhado em forma de V (para baixo), com telhas mais claras. Era lindo. As árvores altas que rodeavam o lugar davam um quê a mais na paisagem, algumas delas com flores vermelhas e rosas, outras roxas e amarelas. Eu fiquei sem reação por um instante, enquanto admirava o lugar. Agora eu tinha certeza de que Fernanda ia adorar aquilo. Eu estacionei meu carro embaixo da vaga coberta que havia logo ao lado e então tirei as coisas do carro. Dei uma olhada no meu relógio de pulso e era quase duas horas da tarde já. Tinha que ser rápida. Logo ao lado do chalé, eu estendi o pano xadrez e arrumei as coisas sobre ele. Arrumei os guardanapos com os lanches embrulhados e os petiscos colocados em potes pequenos de vidro, as duas taças e a champanhe ficou dentro do balde com gelo; coloquei duas cadeiras dobráveis próximas também, para que pudéssemos nos sentar depois. Ao lado direito do pano, coloquei uma caixa e uma lamparina sobre ela. (n/a: imagem ex. piquenique ; imaginem algo próximo a isso ^-^ mas com os detalhes descritos na história).
Antes de sair dali, eu entrei no chalé para dar uma olhada por dentro. E não podia ser menos bonito do que eu esperava. A sala era ampla, com um sofá branco e acabamento em madeira, a cortina branca fina cobrindo a janela; havia um hack com um aparelho de som e logo acima um painel de madeira escura com uma grande televisão LED embutida. Mas o que era mais bonito: no canto esquerdo da sala havia uma grande lareira de tijolos escuros. A cozinha era grande, decorada em branco e amadeirado claro, no melhor estilo americano, com um balcão no centro e bancos altos. O segundo andar eu olharia depois. Ainda dentro da casa, peguei meu celular e liguei para Fernanda. Ela atendeu no terceiro toque.
– Oi, Izie.
– Oi, Fê. Está tudo bem?
– Está sim, eu só... Ai, droga - ela reclamou e escutei um barulho do outro lado da linha.
– Fernanda? O que houve?!
– Desculpa, Is! É que eu derrubei meu celular - ela disse com uma risada. — Me atrapalhei aqui, estava terminando de me ajeitar. Você já está vindo?
Ri de leve. Podia imaginar a carinha que ela estava fazendo naquele momento.
– Sem problemas, Fê. Cuidado aí. Sim, já estou indo, acho que em uns dez minutos estou chegando... Pode ser?
– Claro, pode sim, já estou praticamente pronta, só vou pegar minha bolsa. Posso te esperar na entrada do prédio mesmo? Assim já vou descendo.
– Pode sim, tranquilo. Então daqui a pouco estou aí. Até já, Fê. Beijos. — Ela se despediu também e eu desliguei o celular.
Antes de sair, respirei fundo e tentei acalmar meu coração — e fiz isso durante o caminho todo até o prédio onde ela morava. Eu deixei as chaves do chalé na recepção e avisei que sairia por uns vinte minutos para buscar alguém. Não era muito longe do parque, umas três quadras, mas eu fui devagar para dar mais tempo à ela. Quando cheguei, estacionei na frente e desci do carro. Assim que fechei a porta, Fernanda passou pelo portão do prédio e meu coração falhou uma batida. Ela estava linda, como sempre. Usava uma legging preta, uma blusa branca de botões e por cima um blazer azul marinho, que contrastava seus cabelos em vários tons de loiros meio jogados como ela costumava usar, e que caía perfeitamente nela; nos pés ela usava uma botinha preta de cano baixo, para fechar o look (n/a: look Fernanda). Linda. Enquanto vinha em minha em minha direção, ela abriu aquele sorriso que eu tanto gostava. Me abraçou, e eu a envolvi em meus braços, sentindo seu perfume gostoso. Minha vontade era de agarrá-la ali mesmo, não ia negar. Mas não, eu ia fazer tudo como eu estava planejando.
– E aí, pronta para o nosso passeio? — perguntei com um sorriso, quando ela desfez o abraço.
– Prontíssima. Embora eu não faça a menor ideia de para onde você vai me levar... Só espero que essa roupa esteja adequada — ela encolheu os ombros.
– Está perfeito, Fê. Você está linda, de verdade.
– Mas você está mais. Sempre está — disse com um sorriso.
Ri de leve.
– Nunca. Nunca mesmo! — Fui até o lado do passageiro e abri a porta do carro para ela. — Venha, mademoiselle. Suba no carango.
Com um sorriso divertido, ela entrou no carro e eu dei a volta, me acomodando no meu banco. Abri o porta-luvas do carro e tirei de lá uma venda preta — ou ela achava mesmo que ia ver o caminho e estragar toda a surpresa? Ah tá!
– O que é isso, Izie? — questionou, as sobrancelhas unidas.
– Isso, senhorita, é a venda que você vai usar — disse, ajeitando o pano para poder colocar nela. — Venha.
– Venda?! Mas.. Izie! Por que isso tudo?
– Porque é surpresa, lembra? Você não vai ver nadinha até termos chegado lá. Agora vira para eu poder colocar isso em você, vamos vamos — eu ergui o pano.
Ela estalou a língua.
– Mas que mistério hein! — meio reclamando, ela virou e deixou que eu cobrisse seus olhos. Eu amarrei firme o suficiente, sem apertar demais.
– Não reclame! Surpresa é surpresa — argumentei. Ela só reclamou "Ta né!" e se ajeitou no banco.
Dei um sorrisinho secreto. Meu coração estava aos pulos em meu peito. Agora era a hora.
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Fernanda PDV {Fernanda: Ponto de Vista}
Eu não estava entendendo todo aquele mistério. O que será que Izie estava aprontando? Meu estomago se revirava só de imaginar. Quando ela me ligou noite passada, eu realmente fiquei sem reação. Tudo o que eu conseguia fazer era ficar pensando nela, pensando em quando dormi em seus braços; eu não conseguia pregar os olhos, minha cabeça estava cheia de Ísis por todo o lado, eu não conseguia evitar. Estava olhando algumas fotos nossa em meu celular, quando a ligação dela entrou e logo em seguida caiu. Confesso que de início eu fiquei preocupada, mas quando ela me disse que estava me ligando porque estava com saudade, meu coração nunca esteve tão feliz. Ela sentia saudade de mim, queria que eu estivesse dormindo em seus braços naquele momento... Izie estava me deixando um tanto confusa com esse novo comportamento dela. Eu queria tanto acreditar que ela sentia por mim o mesmo que eu sentia por ela, mas eu precisava de uma prova maior, precisava de algo mais concreto. Ela podia estar sim me olhando de outra forma, mas seria seu sentimento algo tão intenso quanto o meu? Era o que eu precisava saber, era como se minha vida dependesse dessa resposta.
Então, ela me chamou para sair, e quando ela disse "só nós duas", meu coração bandido ficou agitado. Eu sentia que alguma coisa ia acontecer, eu tinha para mim que ela estava aprontando alguma coisa. Mas o que seria? Eu pensava em tudo isso e considerava possibilidades enquanto ela dirigia pelas ruas da cidade que eu não estava permitida a ver, porque meus olhos estavam cobertos pela venda que ela colocou em mim — e que ideia mais maluca essa. Isso só me deixava ainda mais ansiosa, mas é claro que eu não ia exteriorizar a explosão de sentimentos dentro de mim. Fiquei quieta no banco, só escutando os sons, tentando imaginar para onde ela estava indo. Até que ela parou o carro e abriu o vidro.
– Obrigada — ela disse logo após falar algo que não compreendi. Ela falava com alguém.
Eu já não estava mais aguentando aquele suspense, sério!
– Izie, onde é que nós estamos? — quis saber.
– Quietinha. Sem perguntas — foi só o que ela falou.
Cruzei os braços. Ela andou um pouco com o carro e logo parou outra vez.
– Mas...
– Fique aí e não tire a venda, está bem? É uma ordem. Eu volto em um minuto — e desceu do carro, fechando a porta.
Eu queria muito espiar onde estávamos, mas sabia que Izie ficaria muito aborrecida com com isso. Então preferi eu ficar emburrada, enquanto ela não voltava. O que não demorou nem um minuto direito, logo ela estava de volta e ligando o carro outra vez. Eu não falei nada, mas podia sentir que ela me olhava. Permaneci em silêncio, até que algo me chamou a atenção.
– Izie, o que é isso? Esse cheiro de mato, cheiro de árvores e flores, está tudo misturado... É bom, mas... Para onde você está me levando?!
Ela deu uma risada.
– Fique calma. Eu não vou te levar pro meio do mato e te esquartejar, eu sou inocente, ok? Nós já estamos chegando, se aquiete nesse banco e não espie!
Eu estalei a língua, inquieta. Não demorou muito para que ela desligasse o carro novamente. Sem dizer uma palavra, ela desceu e logo abriu a minha porta, segurando a minha mão. Logo eu senti aquela nova atmosfera — era como estar no meio de uma floresta; os sons, os cheiros, o vento, tudo era diferente ali. Eu estava muito curiosa mesmo, e aquele mistério todo estava me matando. Ela me disse para acompanhá-la, enquanto ela segurava minha mão e me guiava às cegas até algum lugar. Quando achou que era o suficiente, me pediu para parar. Ela desamarrou a venda sobre meus olhos e ficou ao meu lado quando a retirou.
Por um momento, a claridade me cegou depois de todos aqueles longos minutos às escuras. Conforme a minha visão ia voltando, meu coração começava a desacompassar em meu peito... O lugar, a paisagem, era linda. A primeira coisa que enxerguei nitidamente foi o chalé à minha frente, a construção era linda e toda em madeira; e depois eu comecei a notar o ambiente ao redor. As árvores altas, as flores coloridas em contraste com o verde das folhas... Era realmente muito lindo, eu estava sem reação diante de tudo aquilo. Mas, então, meus olhos se voltaram na direção de Ísis e foi aí que meu coração perdeu completamente o ritmo e parecia que ia voar do meu peito. Ela me olhava o com aquele sorriso lindo que eu tanto amava, e estava parada logo ao lado de um pano xadrez que estava sobre o gramado, onde havia algumas comidas e bebidas, duas cadeiras e uma caixa ao lado, onde havia uma lamparina. Eu me aproximei em passos lentos, admirada com todos os detalhes, com todo o cuidado.
– Surpresa — Izie falou, encolhendo um pouco os ombros, com a carinha mais linda que ela poderia fazer naquele momento.
Eu não sabia se conseguiria falar direito diante de tudo aquilo.
– Você... Você fez tudo isso? — perguntei meio abobalhada.
– Fiz... Pra você — ela respondeu, me observando, sem deixar o sorriso morrer.
Senti que meus olhos transbordariam a qualquer momento. Eu sorri, emocionada, sentindo meu coração explodir em meu peito. Antes que eu começasse a me debulhar em lágrimas ali, eu a abracei, abracei apertado, sentindo que o mundo naquele momento poderia se acabar ao nosso redor e eu não me importaria. Então, eu soube: aquela era a prova que eu precisava, aquela "prova maior" da qual eu tinha falado, a prova que acabaria com todas as minhas dúvidas. Eu estava tão feliz que não seria capaz de falar qualquer coisa coerente. Enquanto a abraçava, meu mundo parecia parar de girar por um instante, era como se só existíssemos nós duas naquele lugar, como se o universo fosse apenas nosso, inteiramente nosso. Eu me afastei um pouco de seu abraço, sem realmente me soltar, meus braços ainda estavam em seu pescoço. Com as sobrancelhas unidas em um misto de dúvida e felicidade, ela limpou uma lágrima teimosa que desceu pelo meu rosto.
– Eu amei, Izie... Sério, está tudo muito, muito, muito lindo — falei meio baixo, a emoção dentro de mim era tão grande que eu tinha medo de minha voz falhar.
– Não sabe o quanto eu fico feliz em saber que gostou, minha pequena. — O carinho em suas palavras fez eu me derreter ainda mais. Minha pequena. Ela não sabia, mas eu já era dela há muito tempo.
– Gostei mesmo, muito. Obrigada, Izie — sorri e ela retribuiu o sorriso, depositando um beijo tenro em meu rosto. Eu queria com todas as forças envolvê-la em meus braços naquele momento e beijá-la, nunca mais deixá-la ir.
Mas não foi o que eu fiz, não ainda. Eu me afastei um pouco, agora tirando os braços de seu pescoço, e ela segurou a minha mão, me convidando à ir para o lugar que ela havia preparado para nós. E eu fui.
Eu não poderia descrever de outra forma que não fosse: perfeita. Aquela tarde ao lado dela tinha sido perfeita, em todos os sentidos e mínimos detalhes. Nós comemos, os lanches e os petiscos que ela havia comprado estavam ótimos, o suco que ela havia tido todo o cuidado de comprar do sabor que eu mais gostava... Tudo aquilo só me fazia amar cada vez mais aquele nosso momento. Nós conversamos sobre vários assuntos, brincadeiras e bobeiras nossa, aquelas brincadeiras e bobeiras que eu tanto gostava e que eram típicas do jeito dela. Conforme o dia ia embora, dando lugar ao anoitecer, Ísis deixou a lamparina acesa, e aquilo só deixava o ambiente ainda mais bonito e agradável, somado à presença dela ali. Eu nunca conseguiria explicar o quão bem eu me sentia naquele lugar, com ela, era algo que ia além da lógica, dispensava explicações.
Quando já era quase noite e nós estávamos conversando sobre banalidades, a tão anunciada chuva começou a cair. A princípio nós ficamos paradas, até entender que a chuva estava aumentando, então foi uma correria para tirar todas as coisas do gramado e levar para dentro do chalé, coisa que acabou se tornando engraçado enquanto nós fazíamos tudo às pressas. Quando finalmente terminamos e entramos, estávamos molhadas, e a chuva lá fora caía forte. Acabamos rindo de toda essa situação.
– Eu definitivamente não tinha planejado isso! — Izie comentou, enquanto tirava sua jaqueta ensopada.
– Confesso que até tinha me esquecido que ia chover. A gente devia ter entrado mais cedo, Izie. — Tirei meu blazer também, mas não adiantava muita coisa, minha blusa também estava molhada. Nós estávamos inteiras molhadas, sorte que não tanto, já que não tínhamos uma troca de roupa ali.
– É verdade — ela apertou os lábios. Esticou a mão para o meu blazer. — Dê aqui, eu vou deixá-lo lá na cadeira da cozinha, junto com a minha jaqueta, para ir secando um pouco.
Eu entreguei a peça de roupa para ela e ela foi em direção a cozinha. Enquanto ela não voltava, eu parei para admirar o chalé por dentro. Era tão bonito quanto sua fachada sugeria. Eu me sentei no sofá branco da sala, observando a decoração, a lareira... Era tudo muito bonito mesmo. Quando Izie voltou, ela apareceu em meu campo de visão, bem diante de mim, e apoiou as mãos no encosto do sofá, uma de cada lado da minha cabeça, o rosto próximo. Eu prendi a respiração por um momento, mas me acalmei. Ela sorria.
– E aí, o que quer fazer agora, Fê? Tem a TV, nós podemos acender a lareira... Ou você quer fazer alguma outra coisa? Ah, tem a champanhe também que ainda não abrimos... Você quer? — perguntou.
As ideias na minha cabeça não se voltavam para nada disso.
– Hum — murmurei pensativa. — Não sei, Izie...
– O que você quer, então? Me fala — ela sorria aquele sorriso lindo que só ela tinha.
Eu não ia mais conter meus pensamentos.
– Você está disponível para escolha? — perguntei estreitando os olhos, sorrindo.
O sorriso dela aumentou, se intensificou.
– Para você, é claro que sim.
– Então é você que eu quero — respondi.
Ela pareceu um pouco surpresa, mas não deixava de sorrir. Se aproximou e seus lábios tocaram os meus, gentilmente. Mas não durou o quanto eu queria que durasse; ela se afastou.
– Eu já estou aqui — Izie disse, me olhando com uma admiração, um olhar tão intenso que me deixava perdida.
– Mas ainda está muito longe. — Influenciada por tudo o que eu sentia, por toda aquela áurea que nos rodeava, eu não pude mais suportar tê-la ali e ao mesmo tempo não tê-la como eu realmente queria, então eu segurei seu rosto entre minhas mãos e a beijei, como por todos aqueles longos e torturantes anos de segredo eu desejei fazer.
Ela não resistiu. Sentou ao meu lado no sofá, e quando eu senti seus lábios se moverem nos meus, foi como se uma bomba de calor explodisse dentro do meu corpo, todos os meus músculos se retesaram e senti algo que eu nunca havia sentido antes, algo que eu nunca achei que um simples beijo fosse capaz de causar. Num impulso louco, eu me virei e fiquei sobre ela, sentada em suas pernas, e aprofundei o beijo como se minha vida dependesse daquele contato — e dependia, pode acreditar que dependia. Quando Izie envolveu os braços ao meu redor, me fazendo ficar ainda mais presa à ela, e correspondeu ao meu beijo na mesma intensidade, eu perdi completamente o controle de todos os meus atos. Eu a segurava firme, meus dedos se enroscavam nos fios macios de seu cabelo um pouco úmidos, enquanto suas mãos passavam pelas minhas costas e pousavam em minha cintura, me prendendo mais e mais à ela... Eu sentia como se pudesse simplesmente desfalecer em seus braços, enquanto seus lábios acariciavam os meus e sua língua explorava a minha, causando sensações dentro de mim que até então eu desconhecia.
Eu a beijei pelo máximo de tempo que meus pulmões me permitiram, e me afastei bem pouco quando eles começaram a reclamar por ar. Ela tocou meus lábios de leve, e sorria, o que me fez sorrir também, em uma explosão de felicidade que já não cabia dentro de mim.
– Agora está perfeito — ela falou baixinho. Eu concordei, sem conseguir conter meu enorme sorriso.
– Agora sim. — Eu a beijei novamente. Mas, então, algo me veio à cabeça, e eu me afastei um pouco. — Mas, Izie... Já é noite, e está chovendo muito lá fora. Que horas teremos que ir embora?
Ela sorria.
– Quem falou de ir embora, pequena? Temos uma diária aqui, ou seja, podemos ir amanhã. Não precisa se preocupar com isso, está bem?
A ideia de poder passar aquela noite com ela, ali naquele lugar maravilhoso, me deixou ainda mais feliz, se fosse possível. Então, já que teríamos a noite inteira pela frente, decidi que não ia perder mais tempo falando sobre aquilo. Ela pareceu concordar, pois logo em seguida já me beijava outra vez.
Meu mundo estava completo agora.
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