Paraíso Negro
2 Olhares
Notas iniciais

“E não há remédios para memórias, seu rosto é uma melodia, nunca sairá da minha cabeça.”
Minha garganta estava seca, caminhei com uma falsa calma até o portão, sendo olhado de forma estranha por Glenn e Carl.
— Deixem-a entrar. — falei firme.
— Pai, quem é ela? De onde vocês se conhecem?
Eu a encarei por alguns segundos, observando cada linha de seu rosto. Não havia mudado muita coisa, mas agora estava mais madura, se posso falar assim.
— Pai??? — Carl perguntou com um enorme ponto de interrogação estampado no rosto.
Valerie parecia estar confusa como eu, e ao mesmo tempo brava, eu lhe devia explicações.
A garota ao meu lado – que a propósito tem um cheiro maravilhoso – estava me olhando, seus lindos olhos esverdeados eram realmente lindíssimos.
Shane estava do meu lado, me cutucando, me mandando conversar com ela, mas eu era tímido demais para isso. Uma garota, eu havia ficado com apenas uma garota na faculdade até agora, coisa que meu melhor amigo não poderia se queixar. Mesmo sendo um dos calouros, Shane já havia se envolvido com duas professoras e dezessete alunas, em menos de três meses.
A garota sorriu, os lábios avermelhados se curvando e mostrando os dentes brancos.
— Olá! – ela me estendeu a mão e eu aceitei o cumprimento. – Sou Valerie. Valerie Perrine. Os seus olhos são lindos.
A minha cara foi a mais confusa possível. As únicas pessoas que já haviam elogiado meus olhos foram a minha mãe e a minha ex-namorada (vadia).
— Obrigado. Os seus olhos também são... — a primeira palavra que me veio na cabeça, obviamente, foi “lindos”. Os olhos dela eram lindos. — Adoráveis. — ela sorriu e, naquele momento, eu vi que era idiota, ou talvez apenas tinha um problema sério com garotas. Os dois, provavelmente. Eu podia sentir Shane revirando os olhos atrás de mim, e ouvi a risada fina de sua ficante atual, Lori. Ela também era bonita, com seus longos cabelos negros e olhos que eram, confusamente, o resultado da mistura de verde e castanho.
Mas Valerie, a garota que estava parada ao meu lado, ela era linda. Os cabelos castanhos estavam presos em um rabo de cavalo frouxo, e os olhos com cílios enormes olhavam para todos os lugares, inquietos.
— Você é da minha turma de física. O que pretende cursar? — me perguntou. Sua voz era rouca e suave, de um jeito sedutor.
— Eu ainda não tenho a mínima ideia. Mas eu gostaria de trabalhar com a lei.
— Sério? – a empolgação dela era visível. — Eu também! — Valerie prendeu uma mecha solta de seu cabelo atrás da orelha. — Nós... devíamos sair algum dia desses. — eu sorri para a linda mulher.
— Eu adoraria.
Fechei meus olhos por alguns segundos, enquanto caminhava para dentro da prisão, um pouco atrás de Glenn, Carl e Valerie, tentando raciocinar. Nada estava fazendo sentido, meus pensamentos só se embaralhavam mais a cada respiração.
Eu estava sendo confortado de alguma maneira, mesmo a culpa sendo a única coisa que eu conseguia sentir além de ódio.
Estava tremendamente embaraçado, Carl não parava de fazer perguntas que não eram respondidas, Glenn me olhava pelo canto dos olhos e eu simplesmente caminhava.
— Faculdade. — Valerie respondeu a pergunta do jovem, sem mudar a postura ou se incomodar, que ficou boquiaberto.
Eu não tinha o que pensar. Eu havia – tentado – esquecer Valerie – sem sucesso – quando me casei com Lori. A cada vez que eu a via na rua, meu olhar se direcionava para os olhos grandes e verdes, a boca cheia, os seios grandes e perfeitos – não seria algo que eu esqueceria, afinal – e o mesmo colar de prata que ela usava desde a faculdade.
E que usava agora.
Eu tinha tantas perguntas para fazer! Ela havia se formado? Se casado? Tido filhos? Ela havia mantido contato com Shane, ou com sua melhor amiga de faculdade, Louisa?
Em um gesto involuntário, levei minha mão até o rosto e esfreguei os olhos.
— Você sempre faz isso quando está preocupado — riu Valerie, me fazendo sorrir, mesmo que discretamente. O olhar de Glenn era questionador, o de Carl era gelado, e os olhos de Maggie demostravam uma alegria que ela tentava esconder, sem sucesso.
Eu estava feliz e confuso pelo fato de que Valerie estava ali. Eu tinha certeza que ainda amava Lori, mas e a certeza oculta que sempre tive sobre Valerie? Ela foi a mulher que mudou minha vida de todas as maneiras possíveis.
Paramos em frente à uma cela vazia. Eu a acomodei, enquanto os outros se dispersavam, e eu ainda podia sentir o olhar de Carl pesando sobre mim.
— Bem...
— Bem... — ela me imitou. Não parecia sem graça, esse não era o jeito dela. Era uma mulher crescida e relaxada, sem preocupações. Pelo ou menos, antes do fim dos tempos. — Você sabe se Shane continua vivo?
Eu pisquei talvez uma, talvez duas, talvez cinco vezes, chocado com o que ela havia perguntado. Eu não poderia falar para ela que havia matado meu melhor amigo.
— Shane? Shane está morto, infelizmente. Os errantes o devoraram. — não foi uma mentira completa. Provavelmente, ele havia sido devorado ao sairmos dali.
— E quem é o menino de olhos azuis?
— Ele é Carl. — respirei fundo. — Carl Grimes.
— Ah. — a iluminação chegou ao rosto dela, que estava contorcido de uma maneira estranha. — Seu filho. Seu filho e filho de Lori, suponho?
Afirmei com a cabeça.
— E onde Lori está? — ela completou o questionamento.
Abaixei a cabeça. Uma mulher com um vestido branco e cabelos escuros estava parada atrás de Valerie. O rosto desta mulher me lançava uma expressão sem significado.
— Ela está morta.
O espírito de Lori me lançou um sorriso sarcástico e desapareceu.
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