Paraíso
6 Spin off: Como eu conheci você - Mary
Notas iniciais
Eu estava jogada no sofá assistindo TV, sabe-se lá que programa eu estava vendo pois nem prestava atenção. Olhava atentamente pro meu celular esperando uma ligação ou ao menos um SMS dele, afinal, já faziam quatro horas de que não dava notícias.
Ai Lincoln...ele era tão perfeito, eu tinha muita sorte por tê-lo comigo depois de dois anos, Deus sabe como é difícil, ele é muito lindo, tão bonito como nem um anjo poderia ser, e bem, as garotas sabiam disso. Pareciam baratas saídas de um bueiro, não acabavam mais e eu adorava deixar claro pra elas que ele era só meu. E assim será pra sempre, daqui a alguns anos vamos nos casar e ser felizes para sempre. É, contos de fadas podem não existir, mas o meu caso é uma exceção.
Me levantei e fui até a cozinha (levando o celular, claro, não podia perder nem um segundo caso meu pipoquinha ligasse). Sim, pipoquinha, eu o chamava assim desde a primeira vez que nos vimos, mais de dois anos atrás.
FLASHBACK ON
Acordei muito animada, hoje era o dia do meu teste. Levantei rapidamente quase correndo de tanta ansiedade. Como eu tinha bastante tempo, decidi relaxar na banheira. Eu estava tão agitada que os exatos cinco minutos necessários para enchê-la pareceram demorar horas, quando finalmente acabou eu entrei e tentei relaxar.
Repassava na minha cabeça tudo o que tinha ensaiado: como sorrir, como e quando falar, como andar, como cumprimentar e derivados. Hoje nada podia dar errado, era o meu primeiro teste como modelo, eu tinha que passar. Eu já tinha 14 anos e nunca havia feito nem ao menos uma campanha de pomada pra assaduras quando eu era bebê, será que dá pra acreditar? Era a minha chance, era o meu sonho.
Fui até o quarto e descobri do cabide meu vestido. Eu havia passado horas escolhendo ele, tinha que ser perfeito. ERA perfeito, então o vesti enquanto aguardava a manicure e o cabeleireiro que minha mãe tinha contratado para me ajudar hoje.
***
Depois de pronta peguei um táxi com destino ao hotel Mondromell, onde seria realizado o teste. Não percebi que estava tão nervosa até entrar no saguão de entrada, minhas mãos já tremiam, minhas pernas já bambeavam e eu começava a soar, mesmo fazendo 15°C. Enfim, eu estava muito nervosa.
Depois de conferirem meu nome na lista eu devia me dirigir ao quinto andar, onde seria realizada a audição, resolvi ir de elevador porque não estava a fim de soar mais subindo as escadas e chegar lá cheirando a gambá molhado com bafo de ovo podre, ah de jeito nenhum!
Apertei o botão para chamar o elevador e esperei pacientemente enquanto minha mãe saía, se dirigindo à sala de espera. Não, pacientemente não, eu olhava a todo momento pro relógio. Faltavam 15 minutos pra começar.
13 minutos, o elevador estava demorando.
11,” MAS QUE RAIOS DE DEMORA É ESSA?”
Quando estava quase decidindo ir de escada o elevador apitou e abriu. De lá saíram três senhoras e ficaram dois adolescentes. Me apressei pra entrar e apertei o botão 5.
O elevador começou a subir.
1° andar
2° andar
3°... ouvi um barulho e tudo começou a tremer, tentei me segurar mas me desequilibrei e caí em cima do garoto de capuz. Então o elevador parou abruptamente nos jogando mais uma vez pro lado como panquecas. A garota que estava com ele havia conseguido se segurar nem sei onde, mas continuava em pé. Antes ele estava segurando um saco de pipocas, que agora estavam espalhadas pelo chão.
– O elevador quebrou, vocês terão que aguardar um pouco até podermos dar um jeito nisso! – gritou uma voz masculina vindo de fora do elevador, de onde exatamente eu não sabia, já que estávamos parados no meio do terceiro andar.
Olhei no relógio: 6 minutos. Ai meu Deus, não ia dar tempo! O que eu faria?
– Não, eu não posso ficar presa aqui! Eu tenho um compromisso, me tire daqui seu incompetente! – gritei e não houve resposta.
Não tinha jeito, só por um milagre eu chegaria a tempo. Escorreguei minhas costas pela parede até me sentar no chão abraçando os joelhos. O garoto com o capuz e a menina com saia até o joelho (nossa, que brega!) estavam em um canto conversando baixinho. Olhei o relógio: 1 minuto.
Abaixei a cabeça e senti o sabor das lágrimas rolarem pelo meu rosto, silenciosas de início, mas logo eu já estava soluçando. Foram semanas e semanas de preparativos, eu tinha certeza. Eu seria a escolhida, eu iria fazer aquela campanha e participar daquele desfile na capital e depois disso poderia trilhar minha carreira como modelo. Agora estava tudo acabado. Por que eu não tinha ido de escada? POR QUÊ? É, meu sonho tinha ido por água a baixo em menos de 10 minutos. Eu queria minha casa, minha cama, queria deitar a cabeça no colo da minha mãe e chorar até acabarem as lágrimas enquanto ela passava as mãos em meus cabelos.
Senti algo cutucando meu braço e me assustei, era o tal garoto.
– O quê você quer? – perguntei grossa e chorosa.
Ele ficou quieto por alguns instantes meio que ponderando sobre o que deveria dizer. Achei que ele diria algo como “você está bem?” ou “o que houve?”, ou até mesmo me dar um tapa e dizer pra eu parar de frescura que logo logo sairíamos dali, mas em vez disso ele disse:
– Quer uma pipoquinha? – enquanto pegava uma do chão e me oferecia. Não sei o porque mas aquilo me fez rir. Ele conseguiu a façanha de me fazer sentir ao menos um milésimo melhor com apenas uma frase. Como não se apaixonar por esse cara?
FLASHBACK OFF
No dia parecia o fim do mundo, mas hoje agradeço por ter perdido a audição, pois ganhei algo muito melhor naquele dia: meu príncipe encantado.
É, felizmente ele pediu meu telefone naquele dia e olha pra nós agora: totalmente apaixonados. Ele é o amor da minha vida, tudo aquilo que eu quero e sempre vou querer. Ele tem tudo aquilo que eu procurei em mil outros sorrisos e não consegui encontrar. Por ele eu iria até o fim do mundo, melhor, eu enfrentava o mundo todo só pra ver aquele olhar. Eu subiria no seu cavalo branco na nossa Terra de Contos de fadas e ele me levaria até o seu castelo. Ele faz eu me sentir uma verdadeira princesa.
Ele é meu e eu sou dele. Pra sempre minha eterna pipoquinha.
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