Paraíso
4 Adália
Cada dia que passa tendo aquele vizinho da casa de frente como playlist, se torna uma tortura. Como senão bastasse as músicas, tenho que aturar o latido infernal daqueles seus “cachorrinhos”.
Hoje é um dia bastante especial, é aniversário do meu pai. Seria mais especial ainda se ele estivesse aqui.
Hoje também começa meu primeiro emprego. Não é lá grande coisa, vou ser caixa de uma locadora de vídeo, vou ganhar um salário mínimo e como minha mãe diz como ditado dela “cada um precisa de seu próprio dinheiro pra pagar o dizímo”. Acordei um pouco mais cedo que o normal, queria ter uma boa impressão garantindo que eu chegue na hora no trabalho. Sobre meu vizinho: Não tem como esquecer. Toda manhã ele faz questão de dizer um “Oi Adália” em forma de, dessa vez, Beyonce. Ignorei a melodia como sempre. Coloquei o uniforme do serviço, apesar de ser uma locadora, tínhamos que usar uma blusa meio verde escura, escrito o nome, não era tão feio assim. Era bastante simples. Minha mãe havia preparado o café e agora estava na mesa tomando seu chá, acompanhado de alguns biscoitos, ela não percebeu eu me juntando a ela na mesa, sequer olhou pra mim.
O clima sempre ficava tenso entre a gente nesse dia do ano, a presença do meu pai ser tornava quase real na casa.
– Bom dia mãe, espero que a senhora tenha dormindo bem – Ia acrescentar algo do tipo “Eu podia fazer o café mãe, não precisava se dar ao trabalho”, mas percebi que qualquer tentantiva de aproximação hoje, seria falha. Ela não ouviu o que eu disse, eu acho. Resolvi ficar quieta. Queria receber um “Boa sorte no primeiro dia filha” dela, mas isso só em sonho. Minha mãe era completamente contra o meu novo trabalho, ela acha que eu deveria trabalhar na igreja, não que eu não concorde mas, a igreja só tinha trabalho voluntário. Terminei meu café, ia saindo, mas antes dei bença a ela, e pra minha sorte ela correspondeu.
Pensei em mandar uma mensagem falando sobre minha animação pro primeiro dia pra Lincoln, mas não tava afim de receber de novo um “To com a Mary, depois a gente conversa direito Ad” como resposta.
Fui andando até a locadora, não era tão longe, uns 2 ou 3 quarteirões no máximo. A locadora era pequena mais bem arrumada, tinha vários filmes, desde animes até pornográficos, espero que nunca tenha que pegar em algum deles. Eu era como se fosse o caixa, como se fosse, porque a maioria das pessoas que ia lá era pra alugar e não comprar totalmente. Meu colega de trabalho era um menino que parecia ter minha idade, não prestei atenção nele, porque os seus fones estavam mais interessantes do que conhecer sua nova colega de trabalho. O dia foi bem tranquilo, até demais, raramente alguma pessoa entrava lá, agora entendi porque me contrataram. Ninguém dava a mínima pra locadora, afinal pra que alugar filmes sendo que existe a internet pra baixar-lós? Quando alguém aparecia, eu chegava a agradecer a Deus, meu colegava não fala nada além de ouvir músicas e ler, ficava um silêncio infernal ali. Meu chefe nem apareceu pra me ensinar ou me supervisionar, isso me fez pensar se ele lembrava que tinha me contratado.
– É…agora é meio-dia, meu turno acabou, enfim, adorei o primeiro dia, foi um prazer conhecer você.
– É, tchau. – Ele me respondeu se nem tirar o olho do gibi, eu ia perguntar qual era seu nome mas deixei pra lá. Arrumei minhas coisas e recebi uma mensagem da Sam “Me espera no ponto ad”. Acho que não esperei nem 5 minutos e ela apareceu de moto. Nuna entendi como uma garota de 18 anos podia ter uma sua própria moto, mas levando em consideração que o pai dela é dono de uma das multi-empresas mais ricas do país, tudo vindo dela é aceitável.
– Sobe aí Ad – Ela parou a moto e me deu um capacete. Ela tem um cabelo tão vermelho e sua pele é tão branca, parece refletir todas as cores, fica um pouco difícil olhar pra ela nesse sol.
Quando ela parou a moto, eu tive um pouco de dificuldade pra descer, a moto além de toda enfeitada com adesivos de bandas, era muito rebaixada. Logo quando tirei o capacete Sam tampo meus olhos e foi me guiando. Eu podia sentir que conhecia aquele lugar, de repente me veio a sensação de estar em casa. Era um parque um pouco afastado da cidade, eu e meu pai costumavámos vir aqui para conversar, brincar ou “pescar o vazio” como ele costumava dizer, porque o único lago que tinha na praça era artificial. Sam tinha me trazido pro lugar mais precioso da minha infância, pro lugar onde eu tenho minhas lembranças mais felizes com meu pai. Todo ano nessa data ela faz isso, tentando me fazer bem de alguma forma, mas dessa vez ela se superou.
Caminhamos um pouco, conversando sobre meu trabalho e quanto o meu colega é amistoso, contei a ela sobre minhas histórias com meu pai naquele parque, ela provavelmente já tinha se cansado de ouvir, mas mesmo assim, fingia ser a primeira vez. Meu pai era uma das pessoas mais engraçadas e felizes que eu podia ter conhecido. Ele sempre estava sorrindo. Um dia, eu e meus pais estavamos voltando do supermercado, minha mãe dirigia, meu pai não era muito bom em direções. Eu sempre sentava atrás da minha mãe e meu pai ao seu lado, no banco do passageiro, mas naquele dia, eu quis trocar de lugar com ele, como sempre pra realizar meu desejo, ele fez isso. Não lembro de muita coisa, só de um clarão e um forte impacto. Eu sofri alguns arranhões, minha mãe quebrou o braço, mas o caminhão tinha ido direto no meu pai, ele morreu na hora. Aquele era meu lugar, era pra eu estar ali não ele, era pra eu ter morrido não ele. O pior sentimento que alguém pode sentir é culpa e querendo ou não, estou presa a este fardo. E minha mãe não colabora muito em tentar tirar isso de mim. Apartir dai eu e minha mãe começamos a frequentar a igreja, a procurar e resgatar nossas forças em Deus. Sentamos na grama perto do lago, fazia tanto sol que a grama se tornara uma das coisas mais refrescantes do mundo.
– No fundo você sabe que tu não tem culpa nenhuma né? – Sam perguntou, mas fiquei em silêncio, acho que a resposta que eu ia dar não era aquela que ela esperava. Ficamos um pouco em silêncio.
– Olha, eu tô ligada que o que eu vou falar não tem nada a vê com hoje, mas eu preciso contar pra alguém, faz tanto tempo que eu guardo isso e digamos que Fred não é bom em guardar segredos. Rimos um pouco, realmente Fred já tinha deixado Sam em encrenca diversas vezes.
– Pode falar. Sam se virou completamente pra mim e sussurrou como se estivesse escolhendo as palavras. Acho que ela ficou indecisa, porque não disse nada.
– Esquece.
– Mas, voc… – Ia terminar a frase mas senti que não ia ganhar nada insistindo, ela era teimosa.
– Eu preciso de um cigarro. Ela pegou o isqueiro e se deitou na grama eu fiz o mesmo, sem o cigarro é claro, fiquei olhando as nuvens e pensando que eu sou uma das piores pessoas do mundo por ter tirado a vida da pessoa que eu mais amava, mesmo de que um modo indireto.
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