Paraíso
5 Lincoln
Notas iniciais
"Querido caderno que 90% das pessoas chamam de diário, dias se passaram depois do meu último encontro com Adália e o garoto do nome estranho, Lipe, se algo de importante aconteceu nesse tempo? Não". Fechei — o.
Um vento soprou entre a fresta da janela e trouxe o ar quente para dentro de minha casa, finalmente o clima estava começando a esquentar, não que eu goste de temperaturas altas, mas já estava na hora. Levantei da cadeira onde estava escrevendo, coloquei meus chinelos verdes e me encaminhei até a cozinha, "Como a casa estava vazia" -pensei — acho que nunca vou me acostumar ao fato de ter que morar sozinho em São Paulo e deixar meus pais em Santo André, claro que tinha seus pontos bons, mas era horrível ficar sozinho naquela casa.
Já estava estranhando Adália não ter me ligado nesse meio tempo, não passava um dia sem falar comigo, quanto mais seis, provavelmente a mãe dela havia a colocado de castigo, mas escolhi ligar. O celular chamou mas não ninguém atendeu, bem, irei esperar.
Ouvi um barulho na porta provavelmente devia ser Mary. Caminhei até ela e abri.
–Felipe? O que está fazendo aqui? — Cara de pau, pensei.
–Primeiro que é Lipe e segundo, eu vim me desculpar — Ele sorriu.
–E o que leva você a pensar que vou te desculpar? — Indaguei.
–Ue, eu não fiz nada demais — Pior que não, pensei, acho que exagerei demais.
–Tudo bem, você quer entrar então?
–Agora eu tô atrasado pro meu curso de inglês, mas 19:00 passo aqui pra te pegar.
–A gente vai sair?
–Sim, vai, por favor, vou te fazer uma surpresa.
–Tá okay, eu tenho cinco horas pra isso.
–Sim, agora tenho que ir.
Lipe tentou beijar meu rosto, mas ofereci minha mão para um aperto antes que ele conseguisse me alcançar.
As cinco horas passaram, eu já estava pronto, vestia uma colegial azul, calça jeans preta e um vans azul, o relógio mal deu sete horas e ouvi a porta bater novamente.
–Lincoln? — Disse Lipe do outro do lado da porta.
–Só um minuto — Terminei de passar meu perfume e a abri a porta.
Lipe vestia uma camiseta cinza de manga longa com um detalhe de couro atrás, uma calça vermelha e um adidas branco e preto, ele cheirava a Ferrari Black.
– O senhor está lindo — Ele disse e corou.
– Obrigado — Tentei parecer serio mas um sorriso escapou de meus lábios.
– Vamos?
– Vou pegar o cartão do ônibus, só um momento.
– Não deixaria uma princesa como você sair de ônibus, nós vamos de carro.
– Não me chame de princesa — Babaca, pensei.
– Okay okay, agora vamos Lincoln — Lipe disse tentando imitar meu tom de voz, que era mais agudo que o dele.
Fechei a porta e me encaminhei até seu carro, era uma audi prata, mesmo não conhecendo muito sobre carros, não demorou muito para que eu concluísse que era super caro. Lipe abriu a porta do carro e pediu que eu me sentasse, ele entrou pelo lado do motorista e escolheu a playlist "Arrazoh" que por sinal comecava com Manicure da Lady Gaga.
– Pronto? — Lipe sorriu com os cantos da boca, como ele sempre faz.
Coloquei o cinto e deixei que a música embalasse aquele momento.
Quando chegamos ao restaurante (Sim, Lipe me levou em um restaurante, pelo menos era o que parecia), já estava tocando Hello do Martin Solveig, Lipe desceu saltitando do carro e abriu a porta pra eu descer.
– Vou te mostrar os prazeres da vida agora — Ele disse.
Lipe me guiou até a entrada, lá dento estava escuro, e quando as luzes se acenderam, percebi que era uma boate, uma boate cheia de travestis.
– Você me trouxe a isso? — Indaguei Lipe, mas a música estava extremamente alta e ele não ouviu, apenas continuou me puxando pelo braço.
Quando ele finalmente parou, eu estava cercado por travestis, elas(ou eles) vestiam camisetas com as iniciais "P", "E", "N","I","S", era embaraçoso.
–Finalmente arrumou um namorado — Disse a travesti que usava a camiseta com a letra "S".
–Já estava na hora — Afirmou "N".
–Ele não é meu namorado garotas — Lipe sorriu — Pelo menos não por enquanto, e ele se diz hetero.
–Eu sou hetero — Afirmei.
– Não importa, vamos nos divertir hoje — Disse Lipe que novamente me puxou, fomos até o bar.
Ele chamou a barman e pediu " a de sempre", imagino quantas vezes ele já havia vindo aqui.
–Toma isso, não tem drogas — Lipe sorriu.
– Se eu morrer aqui, a culpa é sua — Virei a bebida, ela tinha sabor de melão.
– O que achou? — Ótima — Tentei me conter, mas era ótima mesmo.
–Vem, vamos dançar um pouco — Lipe pegou em minha mão e me guiou até a pista de dança.
Foi incrível como o ritmo da música mudou, em um piscar de olhos todos os gays, lésbicas, heteros e travestis da boate estavam com um par e dançando, Lipe me ofereceu a mão e eu a agarrei.
"Eu me perco pra poder te encontrar, eu procuro algum jeito de alcançar e a distância que que eu tenho a percorrer me traduz que eu preciso de você"
Seus movimentos suaves me guiavam, era perfeito como ele sabia onde colocar seus pés, tuas mãos estavam firmes sobre meu corpo, e a cada batida da música ficávamos mais perto, até que me dei conta que estávamos frente a frente, seus labios estavam a cinco centímetros dos meus e eu podia sentir sua respiração.
Lipe continuou se aproximando, o cheiro de menta que havia em sua boca estava cada vez mais explícito. Lipe rompeu o silêncio:
– Eu sei que pode ser complicado, e talvez sem noção, mas deis da primeira vez que te vi eu senti algo, algo diferente, seus olhos cinzas me pediram para que eu não desistisse e meu corpo pedia você, eu quero construir algo contigo, mais do que uma vida, um paraíso.
"E por mais que o mundo venha a desabar, não desisto eu preciso te avistar, essa é minha inspiração que me conduz, meu lugar, o meu mundo, minha ilha"
Ele me beijou.
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