Paraíso
2 Adália
“Ga-ga-ooh-la-la! Want your bad romance (…)”
Tirei o fio de cabelo loiro do meu olho, tentei abri-lo, mas o sol vinha da janela direto para minha cama dificultando minha visão. Me espreguicei um pouco, olhei para meu relógio da cabeceira. 6:40 da manhã.
Tem alguém ouvindo música no último volume a essa hora. Não pode ser. Levantei da cama já nervosa e fui direto pra janela do meu quarto, aproveitei e fechei a cortina dando um fim naquele sol. Deixei um espaço entre a cortina e a janela pra eu poder descobrir da onde vinha o barulho. Pra minha infelicidade, o som vinha bem de frente da minha casa, necessariamente, do outro lado da rua. Cocei meu olho e forcei a vista. Não pude acreditar no que via. Na casa bem de frente, na janela, mais ou menos a mesma altura que a minha, tinha uma pessoa dançando sem camisa, cantando e segurando uma escova, que pelo que pude ver, de oncinha. Tudo bem, normal, as pessoas fazem isso quando escutam músicas que gostam. Mas, a pessoa era um menino e a música infernal era Bad Romance da Lady Gaga. Resumindo, eu tinha um novo vizinho viado. Eu fiquei perplexa, ele ia sujar a imagem da vizinhaça. Fechei imediatamente a cortina, me voltei indo direto para os pés da cama e orei. Na oração, pedi para que Deus tirasse aquela viado de perto de mim e do mundo, gente como ele não merece viver, é pecado.
Quando terminei, peguei meu celular e mandei uma mensagem pro Lincon “Vem pra minha casa agora, é urgente!”. Joguei meu celular na cama, e ouvi minha mãe chamar durante seu banho (ela sempre acorda cedo pra conseguir ir na missa das 7:30) “Adália, pegue o jornal!”.
Coloquei meu roupão e desci as escadas toda descabelada mesmo, não ligo muito pra aparência, antes que eu pudesse abrir a porta, alguém bateu e eu atendi.
– Ah, oi! É.. por acaso jogaram dois jornais na minha casa hoje, imaginei que devia ser daqui. – Era o viadinho Little Monster. Ele tinha colocado uma blusa pelo menos, tudo bem que era uma regata super colada que deixava os músculos à mostra. Inapropriado. Ele usava um moletom, parecia confortável. Era loiro, bronzeado, seu olho era verde esmeralda, seu cabelo era liso arrepiado e tinha uma barba rala. G-A-Y.
– Não quero saber, não to interessada, mê de o jornal. – Determinei.
– É.. sou seu novo vizinho, me mudei ontem a noite, meu nome é…
– Eu já disse que não quero saber!! Não me interessa nada que tenha você no meio. – Disparei antes que ele pudesse terminar de falar, arranquei o jornal da mão dele, entrei dentro de casa e bati a porta.
Joguei o jornal no lixo da cozinha e lavei minhas mãos. Vai saber o que gente desse tipo carrega. Subi as escadas pro meu quarto, tentei me acalmar um pouco, estava super revoltada. Como gente daquele tipo ainda pode existir?! Arrumei minha cama, e bateram na porta de novo. Desci já nervosa, não é possível que aquele bixa veio aqui de novo. Abri a porta, era Lincon. Estava mais lindo hoje. O sol agora batia bem no olho cinza dele, parecia um anjo.
– Oi! – Falei já o puxando pra dentro.
– Fala Ad! O que era de tão urgente assim afinal? Sai da casa da Mary rapidão. Ignorei a parte da Mary como sempre, não precisava saber que ele tinha dormido de novo lá. Levei ele em direção a sala, já que minha mãe não permite amigos no meu quarto, muito menos meninos.
– Você não vai acreditar!! Tem um viadinho morando bem na minha frente!!
– Espera… Você me chamou aqui pra isso? Eu pensei que alguém tinha morrido, sei lá.
– Fala sério Lincon! Acho que você não entendeu a gravidade da situação. Deixa eu explicar, hoje eu acordei com uma música da Lady Gaga, que já não é Deus, com um viado, bixa, gay, homossexual dançando ela! Ele é um pecado, vai trazer desgraça pra cá!
– Nossa Ad, falando assim até que parece que nunca viu um gay. Na nossa ex-escola tinha um monte.
– Mas nenhum deles morava perto de mim e vinha aqui entregar o jornal.
– O cara ainda fez isso? Nossa, você devia é agradecer.
– Argh Lincon! Expliquei pra ele pela milésima vez o que gente do tipo que nem meu vizinho faz, disse algumas coisas relacionadas a Bíblia e a Deus, insisti que aquilo tudo era pecado. Lincon parecia ouvir e concordar, apesar de estar deitado no sofá olhando pro teto, meio avoado. Ouvi minha mãe descer as escadas e na mesma hora puxei Lincon pra saída, dei um beijo suave em seu rosto e empurrei-o pra fora. Lincon não sem incomodava mais com isso, já estava acostumado e já sabia que minha mãe não gostava dele, não que minha mãe não goste de todos os meus amigos, mas Lincon era número um na lista negra dela. Pude ouvir ele tropeçando e sussurrando alguma coisa do tipo “Ops, oi!”. Não dei muita bola, tomei meu banho correndo, já estava atrasada pra igreja.
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