Primeiro, eu nunca entendi essa obsessão da Adália com homossexuais, segundo, eu já tive amigos virtuais gays e terceiro…

– Ops, desculpa – Antes que eu pudesse concluir meu pensamento tropecei em um garoto – Não estou com sorte hoje – Ele forçou um sorriso.

– Ah não, ta tudo bem – Ao me recompor percebi que o garoto era muito bonito, tinha olhos verdes lindos, seu cabelo loiro era perfeitamente ajustado com o formato de seu rosto, ele vestia uma camisa e sobre ela havia um suéter verde amarrado.

– Qual o seu nome? – Ele disparou enquanto eu parecia um idiota o encarando.

– Lincoln, e o seu?

– Lipe.

– Lipe de Felipe?

– Lipe, só Lipe.

– Lipe? Sozinho?

– Isso, só Lipe.

– Lipe, sem o fe?

– Sim cara, só Lipe – Ele me olhou com uma cara de “você é burro ou o que?”.

Sorrimos juntos.

– Ta tudo bem contigo? – Perguntei, ele parecia mais distraído do que eu.

– Sim, acho que sim – Ele sorriu novamente – Digamos que hoje aconteceu algo meio inesperado.

– Tipo?

– Esquece – Lipe disfarçou – Você quer tomar um suco?

– Eu preciso ir pra igreja, infelizmente, minha amiga me obrigou – Virei os olhos.

– Um dia não fará falta e pelo visto você nem quer ir – Lipe pegou em minha mão e me puxou, eu queria ir com ele, algo me dizia que eu devia deixa-lo me guiar.

Lipe não parava de cantarolar e fazer perguntas, finalmente chegamos em sua casa, que por sua vez era na frente de Adalia, mas que pareceu uma eternidade, ela era relativamente grande, não como a de Mary, mas era muito bonita, de cor laranja vibrante e com janelas brancas, ela era definitivamente a mais diferente, e chamativa, da vizinhança.

Lipe abriu a porta e pediu para que eu entrasse na frente, dei de cara com dois cachorros, um que provavelmente era um Golden Retriver e a outra uma chow-chow, eles pularam em cima de mim e começaram a me lamber, supreendentemente o hálito era melhor do que de algumas pessoas da minha ex escola.

– Eles gostaram de você – Lipe, sem Fe, falou – Diga oi a Briel e Rya.

– Pera, você realmente deve ter problemas com nomes certos, não é? Isso é de família ou o que?

– Há uma teoria, nomes normais são clichês, não gosto de ser clichê – Lipe respondeu calmamente enquanto eu ainda estava no chão com os cachorros.

–Mas não custava colocar nomes de cachorro em um cachorro? Briel e Rya? Sério? – Indaguei.

– Eles gostam do nome – Ele debochou.

– Como você sabe? Talvez eles sofram bullying com os outros cachorros, talvez os outros cachorros digam “Olha lá, la vem o estranho do nome cortado” – Falei aumentando o tom de voz.

– Você tem uma imaginação fértil – Lipe sorriu e me ajudou a levantar – Gosto disso.

Percebi que estava novamente o olhando com aquela cara de “você é um babaca, mas tem algo que me acha atenção” quando ele estralou os dedos em frente ao meu rosto.

– Você ta bem filho? – Disse Lipe.

– Aham- Sorri.

– Ah, e aqui não tem suco de laranja – Ele disse mudando de assunto.

– Como assim? – Frazi a testa.

– Eu te chamei aqui pra tomar suco, esqueceu?

– Ah, é mesmo – Pensei por um momento – Você tava me enrolando? Posso ir pra casa então? – Torci para que a resposta fosse negativa, não entendia o porquê.

– Não – Ufa, pensei – A gente vai no cinema.

–Oi? Cinema?

– É, escuro – Lipe sorriu sarcasticamente.

– Eu namoro seu idiota – Que garoto abusado, pensei.

Ele suspirou e disse:

– Af, qual o nome do garoto?

– Eu não sou gay – Afirmei.

– Veio aqui por que então? Não me diga que foi por causa do suco.

– Não sei – Fixei meu olhar em Briel que estava cheirando o bumbum de Rya.

– Já ouvi desculpas melhores – Lipe bufou.

– Não é desculpa.

– Garoto nervosinho viu – Ele disse com um tom “filhodaputastico” – Nervosinho – Repetiu.

– Cala boca babaca – Me direcionei a porta – Essa é a última vez que a gente se vê – Acrescentei.

– Tenho certeza que não – Disse Lipe enquanto bati a porta, eu queria mata-lo por ter agido como um idiota, mas o pior era que algo me dizia que ele estava certo.