Par Perfeito
5 Estranha gentileza
Notas iniciais
“Ela não sabia nada sobre chás. Sobre esse, por exemplo, só sabia que estava gelado, afinal, foi feito de manhã, e que se chamava chá mate (por que com um gosto horroroso desses se torna inesquecível). Mas como foi feito por ele estava bom. Gelado e bom.”
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Se eu tinha achado estranho o playboy ser voluntário? Se fiquei desconfiada com essa gentileza? Não, afinal, ele se comoveu pela situação de Ino (Não é?). Ninguém podia ser tão ruim.
Tirei a cabeça de Ino do meu colo, me levantei, coloquei uma de minhas mãos no ombro de Sasuke e perguntei: — Você tá doente?
Ele bufou. – Se quiser deixo você levar ela de ônibus.
– Não, vamos no seu carro. – Disse com um grande sorriso no rosto. Acho que ele está ouvindo tanto minhas retardatices que sua cara vai ficar como um ponto de interrogação permanentemente. É, Sasuke, essa é minha vingança da sua vingança. Conviva com isso.
Bem, a notícia boa é que teria uma carona, a ruim é que Ino é muito mais pesada do que parece. Aquela mentirosa tinha me dito que pesava cinquenta quilos, mas se Sasuke e Naruto tiveram que levar ela suando litros e parando depois de alguns passos, então devia ser mais. Jogaram ela de qualquer jeito no banco de trás. Ela roncava lindamente.
Adicionei uma nota mental: gravar aquela cena para posteridade.
Todos foram embora, Sasuke trancou a modesta casa dele e entramos no seu modesto carro.
Fiquei um pouco desconfortável, aquelas trufas que eu tinha comido me deram gases. Eu bem que desconfiava dessa comida de graça.
– Pra onde vamos?
– Oi? – Perguntei distraída. De repente me veio a mente o problema-padrasto que me esperava em casa e pus minha mão na testa (que à propósito é bem grande) na esperança de surgir uma solução mágica.
– Haruno? – Ele acenava na minha frente – Você tá aí?
– Érh... Vamos pra minha casa. – Pronto. Resolvi dois problemas com uma só caixa d’água. Os pais de Ino não sabem da filha bebum e eu não fico sozinha com aquele predador à solta na minha casa. Perfeito!
– Tá... Mas onde fica?
– O ônibus que eu peguei veio por ali. – Apontei para uma rua lateral. – E depois dobrou algumas vezes, mas não me lembro em que parte. Uma das paradas é perto da minha casa. Quando estiver perto eu falo.
Seu olhar incrédulo me assustou. Ele revirou os olhos tão profundamente que não duvido nada que tenha visto todo o seu estômago.
– Talvez fosse melhor você ir de ônibus mesmo – Ligou o carro, passou a primeira marcha e continuou – ou você poderia só me dizer o nome da sua rua.
*****
Chegamos lá depois de uma viagem nada animada e muito silenciosa. O ronco de Ino predominava. Acho que o único momento em que conversamos foi quando um fedor se espalhou pelo carro e eu comentei “esgoto a céu aberto”, dando de ombros enquanto tentava controlar o resto dos gases que queriam sair pra passear. Ele deu uma olhada discreta para Ino, que continuava dormindo sem saber que era suspeita de ser o tal “esgoto”.
Sasuke e eu saímos do carro e respiramos um pouco sentados no capô.
– Não quero carregar ela de novo. – Juro que vi uma gota de suor escorrer pela testa dele.
– Eu te ajudo. – Falei confiante. – Sou muito forte.
– É. Eu sei, mas – Apontou pra minha mão deformada, inchada, roxa, rosa, azul, enfim, um arco-íris de possibilidades doloridas.
– Eu ainda tenho o outro braço.
Nós dois olhamos para o corpo de Ino ao mesmo tempo, sem muita coragem de tirá-la de lá. Pensei até em deixá-la dormindo no banco do carro. Parecia tão confortável e feliz, murmurando coisas como “morra, Sai, seu imbecil”.
Suspirei. – Vamos lá.
Abri a porta de casa e peguei Ino com meu braço esquerdo, enquanto Sasuke a segurava do outro lado. Os meninos não tinham exagerado, ela devia ter um sério problema de sobrepeso por trás daquela cinturinha fina. Depois eu tinha que passar algumas das receitas dietéticas da minha mãe pra ela.
Finalmente entramos na casa e ele relaxou. – Seu quarto.
– Lá em cima.
–Arg!
Depois de tentarmos de várias maneiras, decidimos que era mais eficaz ele puxar Ino pelos braços e eu levantar suas pernas. “Ela tá dormindo mesmo, nunca vai saber”. Jogamos aquele ser na minha cama e respiramos aliviados. Obrigada, Kami-sama, por me deixar sobreviver a esta fase da minha vida. Ia me ajoelhar e beijar o carpete do chão, mas lembrei do homem no andar de baixo e não fiz isso. É, Kami-sama, beijo no carpete é do nível tire-esse-homem-da-minha-casa, não é?
Descemos as escadas devagar. Acompanhei Sasuke até o carro.
– Obrigada pela comida. – Depois lembrei – E pela carona. – E lembrei de novo – E pelo saco de gelo e por carregar a Ino duas vezes.- pensei melhor e falei — Nossa, você tá bem prestativo hoje, né?
– Não agradeça. São três da madrugada, sabe o que significa? – Ele olhou para o relógio sorrindo.
Virei minha cabeça de lado sem entender. Será que estava na hora do seu remédio anti-psicopatia?
– Já posso me vingar de você.
– Então... – Fui andando para trás – Foi bom falar com você. Até. Fui. – Corri para casa. Ouvi ele rindo, mas não sabia se era minha imaginação ou não.
Antes de me deitar, mandei uma mensagem para a mãe da Ino pelo celular dela. “Oi, mãe. Vou dormir na casa da Sakura hoje. Não se preocupe.”, examinei a mensagem. Muito educado, pontuado, certinho. Reescrevi: “t0 aki n4 testuda blz?”.
Apaguei.
Sonhei com aquele riso, com aquele rosto, com ele todo. Do nada tudo mudou, seus cabelos ficaram brancos, o olhar cruel. O plano de fundo era a cozinha da minha casa, em frente à geladeira. A cena se repetindo, dessa vez, avançando mais do que antes. Eu resistia, gritava, chorava. Ino me sacudiu e eu acordei pouco tempo após pegar no sono.
– Você... pode gritar mais baixo? Eu não consigo dormir. – A voz ainda estava embargada por causa dos quatrocentrilhões de drinks de vodka.
– Tá... Tudo bem... – Quando olhei para o lado ela já tinha caído no sono outra vez.
Tranquei a porta do meu quarto, liguei a luz e fui ler.
*****
Tentei convencer Ino a ficar na minha casa até a segunda-feira chegar, fracassei miseravelmente. Ela tinha uma aula de ioga que “não podia perder”, deve ser a aula do professor que ela anda secando ultimamente. Passei meus sábado e domingo no quarto, pensando sobre o que fazer naquela delicada situação. Bolei alguns planos, mas quase todos envolviam morte e um corpo sendo escondido. Os que não envolviam isso estavam na sensível esfera do conte-a-sua-mãe-porra, então acabei desconsiderando.
Hoje, já segunda-feira, enquanto me arrumava para as aulas, continuava pensando sobre isso.
Como uma quase adulta faria, procurei algum conselho mágico no livro de Kakashi. Como tinha lido até a página 54, fiz uma espécie de sorteio. Eu abri o livro aleatoriamente entre essas páginas e li a primeira frase que vi. Foi algo como “Mate”, com “chá” na frente. A mensagem foi bem clara. De “chá” pra “já” é um pulo, a frase lógica seria “mate já”. Queria reforçar o argumento e folheei novamente o livro e veio “correr” com “até a parada de ônibus” na linha de baixo.
Eu só tinha duas escolhas: matar ou correr.
Decidi contar tudo ao Kakashi ao sair da escola, ele saberia o que fazer.
Olhei para o horário no celular, quatro e quarenta, o que era perfeito para o meu plano maligno de sair de casa sem ser vista. Repassei o plano mentalmente. Descer escada, correr até a geladeira, pegar alguma coisa comestível (o que talvez seja impossível) e correr loucamente em direção ao ponto. Simples. O que podia dar errado?
A primeira etapa foi concluída com meio sucesso. Tropecei no fim da escada e fiz alguns barulhos, algo como “pá”, “pow” ou “scabulsh” (onomatopeias, oi). Tudo bem, tudo bem, calma. Ninguém ouviu. Acho.
Andei rápido até a geladeira e achei um Danone regulador intestinal totalmente light. Tudo bem, dá pra viver com isso. Peguei uma colher e zarpei porta afora, um pouco contente por ter conseguido realizar algo tão engenhoso.
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