"É o que sempre dizem por aí. É preciso que haja um imbecil à solta para que a dama reconheça o verdadeiro cavalheiro e entenda que ele, na maioria das vezes, não usa uma armadura brilhante e prateada ou tem modos ilustres. Tem muitos tipos de cavalheiros no mundo e poucos tipos de imbecis. Com o tempo fica fácil reconhecer."

Nem tudo na vida é tão fácil quanto parece. O Danone, além de ser light e ter lactobacilos para regular o intestino, era de aveia. Um gosto parecido com areia e lama. O mendigo de antes já esperava por mim de braço estendido, esperando o lanchinho de hoje. Ele olhou decepcionado para a embalagem meio aberta.

– É isso? – perguntou boquiaberto e sem dentes.

– Sim. – Sorri até a orelha – E bom dia. – Continuei meu trajeto (mesmo tendo escutado um palavrão sair da boca do meu amigo morador de rua) até a escola, tendo a certeza de que aquele delicioso lanche seria dado para algum cachorro de rua. É, pelo menos ele conseguiu uma colher totalmente grátis.

Cheguei ao colégio quando o guardinha ainda abria o portão. Quase me arrependi de ter saído tão cedo, a escola estava deserta, exceto por cinco ou seis gatos que dormiam ali durante a noite. O quase arrependimento passou quando a tia da cantina me viu e ofereceu um lanche nada saudável e muito gorduroso. Kami-sama, abençoe a tiazinha da escola, sim? Pela coxinha nossa de cada dia escolar.

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– Como estão as coisas com o Sai? — perguntei distraída durante o intervalo, enquanto olhava para o meu não tão apetitoso salgado. Comê-lo seria o mesmo que repetir o café da manhã. Provavelmente tinham vermes nos meus vermes, e os vermes dos meus outros vermes já deviam estar morrendo de úlcera, gastrite ou qualquer doença associada à acidez estomacal.

– Eu já estou bem. Obrigada por se preocupar, cérebro de ouro. — ela disse afagando meu cabelo com uma de suas mãos, depois continuou: — O que mais me preocupa agora — deu uma pausa dramática — é me increver em um clube em que eu possa aprender mesmo. — Nossa, se tinha futuro para a Ino, eu não deveria desistir da paz mundial. — Além do mais, entraram uns garotos tão bonitos esse ano.

– Claro que sim. — murmurei revirando os olhos — Você vai aprender bastante sobre a arte da fornicação.

– O que você disse?

– Siga sempre seu coração.

Direcionei meu olhar para a minha frente e vi, quase que em câmera lenta, Naruto e Sasuke se aproximando de nós duas. “Não”, eu pensei. “Não venham até aqui”, “Não puxem a cadeira”,”Não se sentem”, “nãaaaaa-“

– Sakura?

– Érh…? — Naruto olhava para mim preocupado, esperando uma resposta. Então produzi o mesmo som do início de nossa conversa em tom afirmativo: — Érh.

Ele pareceu não se importar com o bug no meu cérebro e começou a falar animadamente: — Vamos pro basquete?

Ino engasgou com um pedaço de comida imaginária.

– Eu tenho talento demais pra desperdiçar torcendo pra vocês. – Fingiu ter um calafrio – Aquela saia de pregas é horrível e a cor dos pompons, então!

– Sim, é a mesma da saia. Mas quem se importa, não é? – Falei encarando minha coxinha com tanto nojo quanto jamais imaginei que fosse possível. – Naruto? – Ele olhou no fundo dos meus olhos como se estivéssemos em uma novela mexicana. Quase pude ouvir os mariates tocando quando seus dentes atacaram meu salgado e o tiraram de minhas mãos em um grotesco movimento. Arriba! Bati com a minha mão na sua cabeça algumas vezes – Bom garoto.

Sasuke ficava lá, parado, com um sorriso debochado de canto de boca, pensando provavelmente em como fugir caso virássemos zumbis espalhadores de retardo mental. Já imagino até a cena. Ele atira na minha cabeça e eu continuo andando. Sasuke corre pelos corredores do colégio puxando os cabelos e gritando: ELES NÃO TÊM CÉREBRO! ELES NÃO TÊM- RAWR! RAWR!

O filhote de raposa molhado, Naruto, me tirou de meus devaneios zumbinióticos com a seguinte pergunta: — Que clube você escolheu, Sasuke-chan? – Naruto encosta um indicador no outro e olha para baixo, bem tímido e aviadado.

– O que você escolher, Naru-kun.

– Sasuke, — comecei a falar séria. Levantei da mesa para que minha mão alcançasse seu ombro do outro lado da mesa. – Você é gay?

Ouvi as risadas de Ino e Naruto. Entendi, era uma brincadeira. Logo, até eu e Sasuke estávamos rindo.

– Não vou pro clube do Dobe. – Sasuke começou. – Vou pro seu.

– Okay... Sinistro. – Limpei minha garganta com um grande “Caham” antes de começar a falar de novo. – Mas e se você não souber pra qual clube eu vou?

– Não se preocupe, eu vou descobrir. – E abriu um sorriso genuíno e macabro, como os psicopatas canibais dos filmes de se-perca-nessa-floresta.

Para minha sorte, ou não, o sinal tocou e nos levantamos da mesa. No caminho para a sala de aula vi Sai vindo no mesmo corredor, mas na direção contrária. Quando me avistou – ou quando avistou meus cabelos brilhosos e magnanimamente rosados – sorriu de orelha a orelha. Seu nariz estava com um grande curativo que chegava até quase a sua testa. As beiradas do adesivo revelavam a pele em tons de roxo, quase preto.

Não sei quanto tempo nos olhamos, mas antes de entrarmos na sala, um parado na frente do outro, ele disse aquelas palavras ainda sorrindo:

– Puta desgraçada. Você vai me pagar.

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– Como vocês devem ter percebido, isso é uma reta – Língua nos lábios – e ela... Hmmm, encosta bem no meio desse lado do triângulo. É claro que essa reta saiu de algum lugar, foi desse pontinho chamado vértice. Agora... – Piscada de olho – Olhando para esse encontro de retas, Sasuke-kun, como você chama isso?

– Bi-Bissetriz.

– Hmmm. Correto. – Alisando cabelos sedosos e longos. – Agora, aquela criaturinha de cabelo de fogo. – Falou apontando para Karin. – Se o lado do triângulo equilátero é 36, qual o valor da bissetriz?

– E-eu... Não sei...

– Como vocês esperam se formar desse jeito, queridos? Sigam o modelo do Sasuke-kun. Diga qual é a resposta, meu jovem?

– Não sei.

– Tudo bem. – ele caminhou até o lado de Sasuke e encostou em uma mecha de cabelo dele. – É compreensível. Me procure sempre que puder. Hmmm?

Tive um vislumbre de Sasuke sendo estuprado e dando depoimento na TV. “Eu era tão inocente...” – A bissetriz é 18. – Respondi, salvando a pobre criança das garras desse monstro pedófilo.

Orochimaru atirou balas em mim pelos olhos de cobra louca e voltou a frente da sala.

– Como a intrometidazinha de cabelo falso falou...

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Educação física. Não sei se consigo suportar uma rodada de exercícios exaustivos hoje. Como toda a escola sabe, Gai-sensei é responsável pelas aulas de educação física e, toda aula, sem exceção, faz um pequeno discurso sobre a força da juventude e a importância da autopunição para o sucesso. É sempre algo como isso:

– Se você fez algo idiota, se dê cinquenta chicotadas. Se foi muito idiota, mil. Se você nunca vai esquecer isso, o suicídio é sempre uma opção.

Pelo menos é o que eu escuto. Confesso que seu colan verde cobrindo toda a superfície corporal não ajuda nem um pouco a me manter concentrada.

Enfim, depois do discurso, nos organizamos em grupos distribuídos pela quadra e ficamos fazendo aquecimento. A roupa da educação física, ao contrário da do ano passado, era bem vestida. Blusa de manga vermelha e short preto até antes do joelho. É claro que algumas piranhas sempre dão um toque especial. Diminuem o short até quase a beirinha da bunda e cortam um decote no lugar da fechada gola V, falta só gritarem “olha como eles balançam! E sem silicone! Quer pegar?”.

O jogo então começou. Volei. Menos pra mim. Fiquei com o grupo de meninas sedentárias, que só ficam em circulo jogando a bola uma pra outra sem segurar ela na mão. Em outras palavras, Volei, mas sem rede ou regras complicadas. A única regra era: quem deixar cair, sai da brincadeira.

Errei de propósito e Ino também, logo em seguida.

– Somos boas demais. – Ela ironizou. Depois suspirou. – E a gente tenta tanto...

– É. – continue achando que eu tentei mesmo jogar, amiga.

– Sapato desamarrado.

– É. – Falei distraída enquanto observava os meninos jogarem empolgadamente na nossa frente. Estávamos perto o bastante para ver alguns abdômens quando eles saltavam perto da rede e a blusa subia inesperadamente. Inesperado pra eles, por que eu esperava aquele momento a semana toda.

Hmmmm. Abdômen de chocolate à vista.

– Sapato. Sa-pa-to.

– Ah! O meu! – Falei feliz quando finalmente entendi a referência. Ino me encarava séria. – Ah, Ceeerto.

Abaixei e comecei a amarrar os cadarços olhando atentamente para os jogadores. Naruto, Sasuke e Rock Lee do lado de cá. Sai, Neji e Shikamaru no lado de lá (como se o Shikamaru contasse como jogador). Em algum momento, enquanto eu passava uma cordinha na outra pra fazer o laço, Sai me encarou sorrindo, já próximo da rede. Meu sentido aranha apitou, mas quando eu ainda estava me levantando, a bola já tinha chegado até ele e vinha com toda força na minha direção. Meu primeiro instinto foi colocar o antebraço na frente do meu rosto, para tentar me proteger.

– AAAH! AAH! – Merda! Merda! Merda!

Eu já estava no chão com um braço segurando o outro, fazendo uns rugidos e grunhidos estranhos. Antes de desmaiar de dor, vi quatro rostos familiares. Naruto, Ino e Sasuke, que pareciam realmente preocupados; e o imbecil do Sai, o último dos elementos com uma merda de sorriso filhadaputano.

“Você vai me pagar”.