Papel e tinta
1 Capítulo 1- A mudança indesejada
Notas iniciais
O som do carro do meu pai ainda me incomoda, mesmo depois de tanto tempo, ainda não suporto longas viagens. O barulho vindo do radio de última geração provoca desconforto em Battercurp, meu inseparável labrador cor caramelo. Ele se meche no meu colo como se quisesse dizer: “ Me deixem dormir! Vocês já tiraram meu soninho e agora colocam esse Rock ultrapassado para acabar de vez com meus ouvidos sensíveis”. Coço sua cabeça e sussurro em sua orelha:
_ Eu juro que pulo com você se ele apertar o replay.
Daria metade do dinheiro no meu bolso para quem me levasse para casa. Sim, a casa que estou deixando para trás neste exato momento. Nona deve estar chorando até agora, minha querida Nona.
Eu me lembro como se fosse ontem de como ela gostava de trançar meus cabelos, bem, pode se dizer que foi ontem mesmo. Nona era doce como o orvalho e cozinhava divinamente. Ah! Quanta falta vai me fazer seus abraços de urso.
Ainda estou brava com meu pai por nos obrigar a mudar por causa do trabalho estupido dele. “Ora, mais é esse trabalho estupido que coloca comida na nossa mesa!” Ele falou com os dentes serrados. Bati o pé e lhe disse que conseguiríamos algo para ele, ele era bom no que fazia e conseguiria fácil fácil um emprego perto de casa, expliquei a ele que eu não queria ficar longe da minha Nona, falei que Nona precisava de mim, que ela precisava de nós. Ele por sua vez, frio como de costume, apenas disse que tia Hellen cuidaria dela na nossa ausência. “Ora, que tal deixarmos Nona com um serial Killer? Tenho certeza que ele a trataria bem melhor”
Olho para trás e vejo o caminhão de mudanças. MUDANÇA, a palavra que assola meus pesadelos. Para mim, mudança é como o agouro de um pássaro que perdeu a voz. Simplesmente não gosto de deixar o lugar no qual criei raízes, no qual a minha família inteira esta!
De todos, na certa a única que não sentirei falta será Hellen, por causa da tia Hellen, ou cruela, como gosto de chama-la desde criança, tenho uma cicatriz nas costas, mas não gosto muito de falar sobre a experiência traumática da minha primeira surra.
O caminhão balança muito, e de repente noto o olhar de preocupação da minha mãe, ela deve estar pensando na porcelana que tem desde que se casou com meu pai. Ela tem um sorriso gentil nos lábios, o qual disfarça a tristeza de estar indo pra longe de onde nasceu, cresceu e casou.
_ Só sei que se, quebrarem alguma coisa_ ela diz_ vão ter que encarar a mamãe aqui.
Rio. Com certeza ela é a mulher mais inteligente que conheço. Foi ela que me ensinou tudo o que sei, desde arte a matemática. Acho que a minha timidez, se de por eu não ter frequentado a mesma escola das crianças da minha idade. Cresci olhando pela janela e estudando com minha mãe e seu irmão, Sam. Entre uma aula e outra, quando percebiam que minha mente de criança vagava para fora da sala, tentavam me animar dizendo que eu estava muito a frente das crianças da primeira serie. Mamãe ousava dizer de vez enquanto, que eu até mesmo podia me formar hoje, se quisesse. “Eu quero ter amigos” dizia a eles, então, no meu aniversario de 6 anos me presentearam com Battercup.
Com ele ao meu lado, desisti de fazer amigos da mesma espécie que eu. Adquiri naquela época uma leve gagueira, e isso se tornou chacota entre os filhos dos vizinhos. Talvez por isso, depois de crescida e de muitas visitas ao fonoaudiólogo, me limitei a falar apenas com a minha família.
Com o decorrer do tempo, os livros também se tornaram grandes amigos meus. Porque ainda sentia falta de poder falar com alguém que não fosse Battercup, alguém para sair e para desvendar o mundo. Então os livros se tornaram as portas do mundo para esta garota solitária.
_ Hambúrguer com fritas? _ perguntou novamente papai. Eu não tinha percebido mais estávamos em uma lanchonete.
_ Pode ser_ respondo enquanto checo se Battercup esta dormindo ou se é apenas mais um de seus truques para roubar meu lanche.
Papai gira o carro e se dirige a próxima janela, na qual pegaremos nosso almoço.
_ Meu bumbum vai acabar ficando quadrado Quanto tempo falta para chegarmos a essa tal cidade?_ pergunto enquanto afasto a cabeça do meu cachorro_ Sai Battercup, essas batatas são minhas, MINHAS OUVIU?
Ele começa a choramingar e novamente sedo a sua pirraça. “Mais uma batalha perdida, Batter 15x 2 Eu”
_ Você vai gostar de lá_ diz papai enquanto o carro entra em uma longa curva_ não é tão calma quanto a antiga, mas tem mais opções para nos divertimos.
“Eu me divertia lendo no sótão da Nona” penso em dizer.
_ Você nunca tem tempo_ digo.
Não ouso sua resposta, ele mais do que eu sabe que é verdade. Desde de pequena, me habituei a não ter meu pai por perto, a sempre chorar escondida nos braços da minha mãe. Talvez por isso eu ainda me pergunte “Hey, quem é esse homem que esta sentado na nossa mesa do café?” ai me lembro que é meu pai. Pai, a primeira palavra que saiu da minha boca, a primeira e última vez. Acho que isso explica porque me sinto mais segura com ela do que com ele.
Já tentei por diversas vezes entender por que não o via durante o dia, e nem antes de dormir. Formulei hipóteses, mas nenhuma delas me convenceu a perdoa-lo pela ausência em minha vida. Eu apenas sabia que era ele o responsável pela comida sobre a mesa, pela mesa, pela casa, e eu era grata a ele por isso, mas por alguns instantes do dia, se não fosse pedir demais, eu queria que ele deixasse de ser Andrew Scoot, o famoso negociante, e fosse apenas o meu pai.
_ Bem, dessa vez vai ser diferente,_ ele continua, parece ter achado as palavras que eu queria escutar_ por isso aceitei esse emprego de meio período, eu o aceitei por vocês, para que pudéssemos ser uma família.
_ Metade de uma, você quis dizer_ é inevitável esquecer das oito pessoas que estamos abandonado ( Nona, a irmã de Nona, quatro tios e dois primos)
_ Sophie! _ adverte mamãe.
_ Eu só estou cansada! Cansada de promessas que não se tornam realidade.
Novamente o silêncio reina entre nós. O único zumbido vem do radio que mamãe aumenta ao ouvir sua musica preferida: I belive I can fly do R. Kelly.
_ I belive I can touch the sky( eu acredito que eu posso tocar os céus)_ repito com ele.
De repente esqueço da nossa discussão e deixo-me vencer pelo sono, recostando minha cabeça sobre Battercup. Saímos muito cedo de casa para evitar o transito do feriado. E tenho certeza que minha mãe não vai me deixar dormir até ajeitar toda a tralha que eu havia trago.
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