Papel e tinta
2 Pessoas novas me assustam.
Notas iniciais
Meus olhos se abrem e noto que o barulho parou. O carro não esta se movendo. Olho através da janela e vejo mamãe discutindo com o cara que dirigia o caminhão, na certa ele deixou que algo se quebrasse durante a viagem.
Andrew esta na frente da casa, a observando e vendo se a estrutura esta alinhada como as dos seus projetos. Ele é formado em arquitetura, mais ignorou o talento para se tornar vice-presidente de uma imobiliária. As vezes, em ocasiões extremamente raras, me levanto para beber água e o vejo sentado rabiscando, projetando alguma coisa que nunca vai se tornar realidade.
Me pergunto se dinheiro é mais importante, e chego a conclusão que pra ele, o dinheiro é melhor companhia que a própria família.
_ É uma bela casa!_ digo tentando parecer animada.
_ Não é exatamente o que eu queria mas deve servir. O segundo andar não me parece perfeitamente alinhado, com certeza é obra de alguém que não intende a importância de...
_ Volte aqui Battercurp! _ grito ao ver aquele fanfarrão correndo rua a baixo.
Ele me ignora completamente e continua o percurso. Talvez, Batt esteja cansado por passar horas e horas dentro de uma lata de sardinha, digo, dentro do carro. Desde de pequeno, Battercurp esta acostumado a ser livre, e a ideia de que agora não poderia dormir comigo no quarto deve tê-lo deixado triste. Não o culpo de estar fugindo, eu também faria o mesmo se pudesse.
Quando em fim a ficha cai, respiro e corro atrás dele.
As coisas a minha volta parecem girar, as cores estão se distorcendo e quase não enxergo um palmo a frente. Meus pulmões estão falhando e o ar esta me escapando. Procuro pela bombinha no bolso da calça, mas não a acho. Tenho asma.
Não sei bem como descrever a sensação de ter um ataque de asma, mais com certeza é uma das piores coisas que tenho que enfrentar. Lutei a vida toda com o fato de não ser normal, mais ao fim sempre acabava chorando no canto do quarto, sendo amparada por Nona.
Nesse exato momento, tenho a pior crise de asma que já tive. Nunca senti a cabeça tão pesada, nunca perdi por completo o equilíbrio, e muito menos dei com a testa no chão.
Ali estava eu, em um quarto maior que o sótão de Nona. A tintura das paredes estavam descascando, e a porta ao lado do armário estava fechada. A cabeça de Battercurp estava sobre uma das minhas pernas, o olhas caído dele queria dizer: Me desculpe. Afago a cabeça dele e vejo o seu rabo balançando, balançando da mesma maneira quando íamos ao campo brincar com os patos nervosos do laguinho. Certa vez ele mordeu o bumbum de um deles, e em troca recebeu uma bela bicada na pata.
A bombinha esta ao meu lado agora. Levanto e olho pela janela. Tudo lá fora me parece tão sombrio e estranho, tão sem vida. As casas se repetem em um padrão irregular por toda a rua. São casas parecidas com a nossa, acho que a única diferença é a cor, e talvez o quintal. Ao contrário da minha antiga cidade, esta, possuía estruturas de luz, não me lembro o nome daquelas coisas.
_ Será que temos vizinhos tão legais quanto os Whotinks?_ pergunto a Battercurp que se espreguiça sobre a colcha amarela.
Noto que metade da minha “tralha” esta jogada no canto do quarto, ao lado de uma escrivaninha de madeira, presente do meu tio Sam.
Ouço a companhia tocar no andar de baixo, e arrasto-me para fora do quarto, permanecendo agachada na escada de modo que possa ver quem esta na porta.
_ Oh Susan! _ disse a estranha entregando algo a mamãe_ Como vai Sophie?
A mulher que pergunta por mim tem a pele bronzeada, cabelos curtos e tão pretos quanto os da minha mãe.
_ Dormindo no quarto novo. Gostariam de entrar e tomar café conosco?
_ Claro! Evan e eu adoraríamos!
Não havia ninguém ali além das duas. Com um gesto educado mamãe conduz a estranha para o local onde deve ser a cozinha. O latido do meu labrador soa alto demais no meu ouvido, Batt esta ao meu lado, latindo para o estranho na porta.
_ Hey garoto!_ diz o estranho.
Battercurp desceu as escadas correndo em direção ao menino de cabelos cacheados. Como meu cão pode fazer isso comigo? . Confesso que sou um pouco arisca quando o assunto é meu labrador lambendo o rosto de um estranho quando na verdade devia estar lambendo o meu. Batt é meu único amigo, então o que digo para o estranho na porta soa meio grosseiro.
_ Largue meu cão ou chamo a policia.
Noto seus olhos verdes se erguerem e me olharem de modo confuso, não sou boa em falar com pessoas, este não é meu forte.
_ Não tem de que!_ ele diz batendo de leve na cabeça de Batt, depois de fechar a porta, ele se dirige para cozinha.
_ Espere! Por que deveria te agradecer?
_ Talvez por não deixar que seu cão fosse atropelado?
A ideia de perder Battercurp me atinge como um soco do Anderson Silva . Já perdi muita coisa em muito pouco tempo, e meu doce labrador e a coisa da qual nunca abriria mão.
_ Desculpe_ digo timidamente_ e obrigado!
_ Meu nome é Evan!_ cumprimenta ele, estendendo a mão.
Eu o encaro. Estou nervosa, não estou acostumada com esse tipo coisa, sei o que é e o que devo fazer, mais não me sinto preparada para tocar uma pata, quero dizer, uma mão.
_ Você fala?_ ele pergunta erguendo a sobrancelha.
_ M-meu, nome, meu nome é Sop...
_ Prazer em lhe conhecer, Sop... Sopa?
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