Pantera Negra
1 1- Quando as panteras dormem
Notas iniciais
Capitulo I
Fogo. Fogo por toda parte, triturando roupas, equipamento, pele, pessoas... Crianças órfãs que eu deveria ter salvo. Se o calor não evaporasse as lágrimas tão rápido, todo o meu rosto estaria molhado. Remorso. Não era justo falhar em minha maior e melhor missão, mas me parecia bastante justo morrer manchada pelas cinzas que representariam a morte de dezenas de crianças em meus ombros. De melhor espiã, treinada para esse tipo de vida desde a infância, ao maior erro dos Panteras Negras.
Enquanto agonizo, com a pele queimando e os pulmões entupidos de óxido de carbono, decido que talvez seja melhor morrer. Carregar essas lembranças por longos anos significaria uma tortura constante e densa. Peso demais, até mesmo para alguém como eu, treinada desde a infância para ser fria e calculista.
Repasso mentalmente minha vida. A morte da mamãe, a chegada ao IPN, a primeira vez que papai me ensinou a atirar, minha primeira missão... Papai. Quanto tempo fazia desde a última vez que eu havia o chamado assim? Derick, Johnny, Alicia... Com um suspiro final, decido deixar o fogo me engolir.
Então, aceito minha falha e choro meu último adeus.
– Merda – xingo, sentando na cama com um pulo ao constatar que havia, mais uma vez, acordado suada e sem ar.
Agarro com prontidão a toalha — estrategicamente — deixada por mim na escrivaninha, logo ao lado da cama. Aquele pesadelo, assim como a cicatriz em minhas costelas, era um companheiro constante desde o acidente no Orfanato de Santa Maria.
– Acidente – resmungo baixinho enquanto enxugo o meu corpo.
Tenho um vislumbre das cicatrizes em meus punhos, feitas algum tempo após minha recuperação. As marcas da minha covardia, de uma época em que pensei que viver com o peso da culpa seria demais para mim.
“Eu não criei você para ser covarde, Katarina”, foram as palavras de consolo do meu pai. “Qualquer coisa, menos covarde! Como você acha que eu me sinto desde a morte da sua mãe? Eu por acaso pareço estar tentando me matar?!”, dizia, elevando o tom de voz de uma maneira descontrolada. Nunca antes, desde a morte da minha mãe, havia o visto fazê-lo. “Você vai continuar a viver. A falha é sua e não há nada mais justo do que a presença dela em você. Aquelas vítimas merecem ser lembradas, e não somente por um bando de seres humanos nojentos e sanguinários!”.
Apesar de extremamente duras, as palavras do presidente dos Panteras Negras faziam sentido. Também era minha missão lembrar das pessoas vitimadas por minhas falhas. Como espiã, resolvi seguir seu conselho. Como filha, senti vontade de refazer os cortes e simplesmente morrer.
O lado que realmente importava venceu e, assim, logo voltei ao Instituto, ocupando novamente meu antigo quarto, como se nada houvesse acontecido. Os outros agentes e funcionários não se atreveriam a dirigir qualquer palavra a mim, boa ou não. Eu tinha construído minha própria fama de má por ali, algo que, naquele momento, muito me vinha a calhar.
Com outro salto – esse para fora da cama – troquei a camisola por um jeans desbotado, camiseta do Metallica e um tênis qualquer. Havia chegado a hora de fazer uma visitinha à sala do presidente.
O Instituto e sua rotina eram as mesmas. O grande prédio negro e subterrâneo de sete andares, onde quanto mais perto do subsolo, mais valioso o assunto, expandia-se em diversos corredores e passagens secretas, parecendo engolir, como um buraco negro, todos os segredos mais sombrios e perversos da humanidade. De certa forma, eu me sentia acolhida ali.
Mesmo tendo as senhas de todos os andares – conquistadas durante meus tempos áureos de espiã -, optei por copiar clandestinamente o cartão de outro agente e burlar os alarmes. Charlie Brooks não podia sequer sonhar que sua filha estava prestes a invadir sua sala ou tentaria, mais uma vez, adiar nossa conversa.
Eu odiava reuniões, principalmente as que envolviam meu pai, mas não me restava outra opção. Ele era o presidente do Instituto e, por isso, cabia a ele decidir quando eu deveria voltar à ativa ou não. Respeitei seu espaço por bons quatro meses – nove e meio, se você contabilizar o tempo de recuperação pós-acidente – e não conseguiria ir muito além disso. As missões eram tudo que havia me restado, portanto, ficar afastada delas por mais tempo seria quase pior que morrer.
Encaixei o cartão do outro agente no elevador principal, para não levantar suspeitas e desci até o Subsolo Um, onde as coisas mais preciosas do instituto ficavam. Dentre elas, a sala do presidente.
De qualquer forma, não era tão fácil assim chegar ao Subsolo Um. Durante a descida, passei por cerca de cinco vistorias que abrangiam verificação de documentos, íris, digitais e voz. Não me orgulhava da forma como havia conseguido os dados do agente Clarck, mas ele era mesmo muito bobinho se achava que eu finalmente havia decidido aceitar suas investidas sem graça. O homem era um dos melhores hackers do Instituto, mas quando se tratava de sua vida pessoal... Lástima.
Ah, certo, a minha tecnicamente mal existia, mas eu pelo menos transava com certa frequência. Clarck, no máximo, conseguia um sexting.
Tendo chegado ao Subsolo Um, precisei usar o pó anti-infravermelho para localizar as linhas do alarme. Eu sempre acabava decorando os padrões das senhas, mas era preferível não arriscar tanto após nove meses longe dali. Soprei o pó pelo corredor e comecei a desviar dos sensores. Minha forma, felizmente, havia sido rapidamente resgatada, incluindo a agilidade e os passos de veludo, que sempre me foram característicos desde o início da carreira. Não era à toa que eu havia sido apelidada de gata negra pelos mais velhos do Instituto. Os novatos sequer ousavam lançar-me olhares.
Após mais alguns sensores, verificações, cuidado com câmeras e microfones, atingi a porta da sala do presidente. Normalmente existiriam diversas pessoas em meu caminho, mas Charlie sempre as dispensava quando precisava fazer reuniões secretas. Havia gastado metade dos meus nervos tentando juntar as evidências que me trariam no dia certo e, com um suspiro, conclui que acertei.
Então, eu simplesmente estava lá, após todo o esforço, parada em frente à sala do presidente dos Panteras Negras, louca para angariar qualquer missão e em dúvida quanto ao tipo de abordagem que deveria ser feito ao abrir a porta gigantesca de madeira.
Optei por improvisar. No fim das contas, não adiantaria muito utilizar joguinhos com o rei de todos eles.
Eu só não esperava o quão improvável seria a cena que me aguardava do outro lado. As paredes, obras-de-arte refinadas e tapetes de veludo vermelho eram os mesmos, os móveis de couro, estantes de madeira e a lareira acesa também, mas encontrar Alicia, Elizabeth Halpkins e Desirée Laboreth sentadas em frente ao meu pai, extremamente chocadas com minha entrada, chegou a estampar clara surpresa em minha face. Levei alguns segundos para me recuperar.
– O que faz aqui, agente Brooks? – Charlie entoou secamente, arqueando a sobrancelha. – Não me lembro de tê-la convocado para essa reunião.
Até os treze anos de idade aquela frase teria me feito chorar.
– E não convocou – sorri sarcasticamente. – Para nenhuma, na verdade.
Charlie fechou as mãos lentamente, encarando-me com seus olhos castanhos, cabelos grisalhos e feição firme. Aquela era sua mania de abafar a raiva.
– A senhorita ainda está em período de supervisão – rebateu.
Ri secamente.
– E quem seria meu supervisor? Algum cover do Ray Charles? – Ironizei. – Porque eu me sinto ótima há bastante tempo...
– Eu sou o seu supervisor – pontuou, elevando o tom de voz. – E, diferentemente da cegueira que a agente supôs, consigo enxergar os fatos tão claramente a ponto de contabilizar sua presente atitude como um dos motivos para não colocá-la em qualquer missão até que se recupere de forma plena. Física – fez uma pausa, lançando-me um olhar presunçoso. – E mentalmente.
Senti vontade de socá-lo até perder o ar. Meu pai ou não, aquele homem era um babaca. Completo babaca.
Encurralada, vasculhei rapidamente a sala enquanto arquitetava uma resposta que pudesse atingi-lo e me colocar de volta na única coisa que realmente importava. Por sorte, encontrei o olhar preocupado de Alicia, minha melhor amiga e instantaneamente soube como agir.
– Ter você como meu supervisor fere a cláusula do julgamento empírico – retorqui, devolvendo o olhar presunçoso. – Temos parentesco. E ó, minha nossa, será que presenciaremos aqui o presidente dos Panteras Negras ferir uma das regras do instituto? Que péssimo exemplo...
– Chega! – Charlie levantou de supetão, batendo as mãos na mesa de madeira que se estendia longamente à frente de sua poltrona. A raiva, dessa vez, também estava presente em sua voz: eu conseguira o atingir. – Ninguém, absolutamente ninguém nesse instituto ousaria duvidar da minha transparência!
A melhor coisa sobre ser filha de Charlie Brooks é ter convivido com o mesmo por tempo suficiente para saber cada um de seus pontos fracos. Duvidar de sua índole era um deles.
– Será? – Lancei no ar.
Quando Brooks me fuzilou com o olhar, eu sabia que havia entrado – novamente — de mala e cuia em sua lista negra. Durante um bom tempo.
– E o que você, do alto de sua busca inabalável pela ética, sugeriria para remediar o fato, agente Brooks? – Perguntou azedamente.
Xeque-mate.
– Quero participar dessa reunião para entender a missão e, por fim, iniciar uma votação que decidirá se substituirei uma das outras agentes aqui presentes – finalizei, sentindo-me vitoriosa.
Eu não queria roubar o lugar de Alicia e Halpkins sempre fora boa espiã, mas Desirée Laboreth não era, nem de longe, um ser qualificável. Para qualquer tipo de coisa na vida.
Estranhei quando Charlie simplesmente assentiu e voltou a falar sobre a missão. Tinha sido fácil demais.
– Voltando ao ponto em que paramos antes da desagradável intromissão da agente Brooks, a família bilionária do Sr. Wrestler está nos oferecendo um pagamento vantajoso, que substituiria o dinheiro cortado pelo governo durante um tempo – informou.
Dinheiro? Bem, fazia sentido. A bolsa americana estava em crise permanente desde os calotes no setor imobiliário. Não me surpreendia que o governo precisasse cortar repasses para setores caros e desconhecidos, como o nosso. A inteligência militar sempre fora a queridinha da Casa Branca durante os tempos áureos, impulso que proporcionou não somente o crescimento do FBI, mas também a criação de agências privadas de espionagem, como os Panteras Negras, os Anjos Platinados e a OSEA (Organização Secreta dos Espiões Americanos). Uma hora o paraíso iria acabar ou passar por turbulências.
– É algo ilegal? – Indaguei, curiosa sobre quais serviços os Panteras Negras poderiam prestar a uma família bilionária. Nós sempre estivemos envolvidos com a resolução de casos de polícia ou terrorismo, então, servir a propósitos mais individualistas ainda me soava estranho.
– Não – Charlie bufou, mais uma vez indignado com minha acusação silenciosa. – Edgard Wrestler, presidente da Wrestler LTDA, está sendo ameaçado por uma máfia e se recusa a contratar agentes para fazer sua segurança. Sua família está preocupada e nos procurou.
– Mas se ele se recusa...
– Aí entra nossa estratégia. Uma de nossas agentes o seduzirá e o acompanhará pelo tempo que for necessário a sua segurança, sem deixá-lo descobrir nosso verdadeiro objetivo.
Meu segundo xeque-mate do dia. Eu tinha um currículo extremamente vasto no tocante à sedução de homens e mulheres do alto escalão. Os segredos sempre corriam de maneira mais rápida se devidamente estimulados pela luxúria.
– Alicia já está convocada para coordenar a ação aqui do Instituto, mas precisamos decidir agora quem será a agente de campo e por isso convoquei – lançou-me um olhar repreensivo. — A maioria de vocês para essa reunião. Quero saber sobre a disponibilidade das agentes e preferências.
Halpkins prontamente levantou o braço.
– Lamento dizer, presidente, mas ainda estou presa na missão do Caribe. Teria que terminar tudo às pressas e, consequentemente, também me preparar rapidamente para a nova missão. Acho que a preferência, nesse caso, deveria ficar com minhas colegas – disse.
Analisei Elizabeth Halpkins por um tempo. De baixa estatura, cabelos escuros e pele bronzeada pelo sol do Caribe, ela era um poço de discrição e lógica e, por vezes, pegava-me a admirando. Halpkins nunca era incômoda e sempre dava tudo de si para ser eficiente. Um bom exemplo de espiã.
– Estou disponível – Laboreth emendou.
Desirée, por outro lado, era espalhafatosa. Alta, ruiva, com corpo escultural e lábios carnudos, eu podia entender o motivo de ter sido cogitada naquela missão. Mas faltava-lhe toda a lógica e destreza de Halpkins – ou de qualquer agente com um pouco mais de cérebro e tato. Laboreth era pura carne e ação.
Ah, ela estava tão vencida.
– Eu também – entrei no jogo.
Charlie não perdeu tempo.
– Comecemos a votação – anunciou. – Laboreth tem meu voto para agente de campo.
– Bem, eu voto em mim – Desirée deu de ombros, feliz por ter disparado na frente.
“Deixe-a ser feliz por alguns poucos instantes”, pensei presunçosamente.
– Acho que a agente Brooks estaria mais qualificada, se provada sua total recuperação, para esse caso. – Halpkins comentou objetivamente. Charlie a fuzilou com o olhar. – Pensando de maneira lógica, ela, sozinha, concluiu mais missões similares a essa do que todos nós juntos. Não vejo como dar meu voto a outra pessoa.
Eu previa, de certa forma, que o voto de Elizabeth seria meu. Aquela mulher não estava cega pelo ressentimento do meu pai. Mesmo assim, segurei o ímpeto de agradecê-la com fervor.
– Bem, eu voto em mim mesma. Então, Alicia desempata – sorri vitoriosa.
Era mais do que óbvio para mim que Alicia votaria em mim de olhos fechados. Éramos melhores amigas, no fim das contas, e eu merecia o mesmo voto de confiança que havia dado a ela em sua chegada ao instituto. O começo de nossa amizade havia sido difícil, mas eu dei à Alicia o benefício da dúvida quando meu melhor amigo, Johnny, se apaixonou por ela. Logo viramos um trio.
Minha confiança, no entanto, desabou um pouquinho ao notar que a baixinha de cabelos curtos, pretos e repicados sequer me encarava. Sentada em uma das cadeiras de couro do meu pai, Alicia parecia uma criatura frágil, acuada e doente, branca demais até mesmo para seu padrão.
– Eu... – Fez uma pausa, parecendo soluçar. – Eu voto na agente Laboreth.
Levei longos segundos para processar a traição. Tempo suficiente para Alicia levantar o rosto e sussurrar, quase sem forças, um pedido de desculpas.
Não adiantou. O gosto amargo da decepção já inundara meu paladar.
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