Pantera Negra

2 2- Quando as panteras acordam


Notas iniciais
Como houveram dois comentários, resolvi postar mais um capítulo ainda hoje. Postarei o próximo quando tivermos quatro, então não esquece de deixar o seu! ^_^ Beijooo

Capítulo II

Não fiquei para assistir Charlie e Desirée saborearem sua vitória. Eu ainda estaria fula da vida se Halpkins fosse o motivo dela, mas vindo de Alicia constituía uma facada nas costas brutal. Passeei automaticamente pelas linhas do sensor infravermelho, já tendo decorado a sequência e segui automaticamente para o elevador. Minha cabeça explodia.

Eu precisava de um banho e qualquer medicação que me colocasse para hibernar por dois séculos. Ainda assim, não sei se seria tempo suficiente para perdoar Alicia. Isso se ela realmente se importasse com perdão, afinal, eu podia mesmo continuar fingindo que a conhecia bem?

Enquanto o elevador subia, levando-me de volta para o Subsolo 5, onde estavam os dormitórios dos agentes veteranos, torturei-me por longos minutos lembrando de como havia a conhecido.

Passei a morar no Instituto dos Panteras Negras muito nova, exatamente aos onze anos, após a morte da minha mãe. Meu pai gastou seu tempo comigo fazendo o que sabia: treinando-me para ser uma espiã. Aprendi cedo que agentes secretos nunca seriam bons nessa coisa de família e, por me identificar, quis mais do que nunca ser um deles. Eu não tinha nada a perder, afinal.

Johnny ficou órfão aos doze, perdendo ambos os pais – não que isso fosse fazer grande diferença no meu caso. Lembro relativamente bem da primeira vez que vi o garoto loiro, branco demais, desajeitado e magricela trazer suas malas — tropeçando a cada cinco segundos — para o quarto ao lado do meu. Éramos os aspirantes a agentes mais novos dali. Por conta disso, fazíamos todas as atividades juntos e, por carência ou não, acabei me afeiçoando ao garoto e estreitando laços de irmandade com ele. Tornamo-nos inseparáveis.

Até a chegada de Alicia.

Os panteras negras, em geral, começam a ser treinados a partir dos dezesseis anos, mas Alicia chegou aos dezoito. Assim, destoando do padrão de sua classe, gerou desconfiança e não conseguiu se misturar nos primeiros meses. John, que nessa época já estava alto, menos destrambelhado e mais musculoso, foi designado para acompanhá-la no processo de adaptação, uma vez que, por ser um dos veteranos mais experientes, tinha o respeito de todos e eu não era uma opção. Sempre fui a intratável da questão.

Bem, voltando aos atributos físicos do meu quase irmão, ele tinha se transformado em um cara bonito. Alicia, por outro lado, era igualmente linda, extremamente parecida com as bonecas de porcelana que mamãe costumava enfiar no meu quarto: pequena, cabelos curtos, repicados e bochechas rosadas. Talvez por isso eu não tenha sido tão rude com ela de primeira. Talvez não.

O fato é, como sempre acontece, eu não dava a mínima para Alicia ou qualquer outro novato – esse padrão, devo acrescentar, não mudou – até John se apaixonar por ela e me pedir ajuda. Johnny Whitlock preferia ser amarrado em trilhos de trem a lidar com a rejeição de seu primeiro amor. Achei patético na época, mas era o John e eu precisava pelo menos fingir estar tentando ajudar para não chateá-lo. Ele era a única família que eu conhecia. Então, depois de me aproximar de Alicia, passei a enxergar nela mais do que uma garota baixinha, falante e viciada em compras. Eu pensei, pelo menos na época, que eu havia encontrado uma espiã extremamente habilidosa e uma mulher de coração gigante. Ninguém mais mereceria Whitlock do que ela.

E eu posso ter me enganado fatalmente. A escolha de confiar cegamente em Alicia e amá-la como uma irmã agora estava me custando as coisas mais preciosas: minha carreira e meu melhor amigo. Como raios eu iria contar para John que havia sido traída por sua noiva, supostamente minha única e melhor amiga?

Bufei, frustrada, quando o elevador atingiu o Subsolo 5 e disparei para o quarto que os dois dividiam. Talvez, com Alicia presa na reunião, esse fosse o momento certo de contar tudo a Johnny. Fiz menção de bater na porta branca — um padrão nesse subsolo — algumas vezes, mas não tive coragem de completar a ação. Seja lá onde estivesse a minha coragem, eu não conseguia senti-la no momento. Alicia havia me traído, mas eu não conseguia delatá-la. Aqueles meses longe de missões deviam ter me transformado em uma trouxa ambulante.

Ainda mais frustrada e exasperada, chutei um cabo de vassoura que se encontrava no meio do corredor e me dirigi ao meu quarto, logo ao lado. Quanto um ser humano podia suportar de tortura? Porque as lembranças de Santa Maria me assombravam, a indiferença de Charlie Brooks me aborrecia e a traição de Alicia havia esmigalhado meu coração frio. Sem mencionar meu passado com Derick. Senti a vontade escorregadia, errada e prazerosa de tentar o suicídio surgir novamente em minha mente, todavia, antes de realmente começar a pensar na mesma, detectei outra presença em meu quarto.

Fechei a porta vagarosamente, sabendo de quem se tratava, graças a meus sentidos exaustivamente treinados durante anos.

– Halpkins – cumprimentei de costas, sabendo que ela estava escondida nas sombras da porta que eu acabara de fechar.

– Cheguei a pensar que você havia perdido o jeito – murmurou divertidamente. – Passei pelo corredor e você sequer piscou diferente. – Explicou. – Mas é compreensível. Eu também estaria abalada após passar por tamanha injustiça.

Respirei fundo. Eu estava exausta e a última coisa que queria, no momento, era uma estranha me consolando por um fato estritamente pessoal. Admirava-a como espiã, mas isso não era sinônimo de querer sua amizade.

– Certo – fechei a cara. – Agora, se me der licença – gesticulei em direção à porta. Sabia que estava sendo rude, mas eu precisava ficar sozinha. Mais do que tudo.

Seria minha ruína chorar na frente de uma estranha.

– Calma aí, Brooks – deu dois passos lentos em minha direção. – Eu não pretendo estender minha presença aqui, mas tenho algo para te dar antes de voltar ao Caribe em exatos... – Olhou o relógio de ouro no pulso. — Trinta e três minutos.

Suspirei. Lembrei a mim mesma que aquela era Halpkins, uma agente lógica e objetiva. Ela merecia ser ouvida e não o faria de maneira prolixa, para minha felicidade.

– Você tem minha atenção – a encarei com seriedade.

Elizabeth sorriu maliciosamente, puxando uma folha de papel do decote.

– Seu pai e Alicia podem achar que um par de peitos vai ser suficiente para garantir nossa verba durante a crise, mas eu não – dizendo isso, dobrou o papel e o colocou em minha mão, com cuidado. – Eu havia sido a primeira opção de Charlie e, como estava no Caribe, pedi a ele uma prévia do que me seria oferecido via Deep Web. O documento dele obviamente está perdido para sempre, mas anotei nesse papel tudo o que consegui lembrar. O resto ficará por sua conta, agente Brooks e eu realmente espero que dê tudo certo. – Disse, piscando para mim.

Paralisada, a encarei atônita. Elizabeth Halpkins não estava somente confiando, mas também burlando as regras por mim. Algo inimaginável.

– Tem certeza disso, Halpkins? – Murmurei desconcertada.

– Lógico que sim. Eu trabalho nesse instituto há doze anos, Katarina, portanto, aqui também é minha casa. Não vou nos deixar falir por um capricho do seu pai. Ele vai encontrar outro jeito de puni-la.

Assenti. Elizabeth, então, girou os calcanhares para ir embora e eu não pude evitar:

– Obrigada, Halpkins. De verdade. Te devo uma.

Ela virou metade do rosto em minha direção e sorriu brevemente.

– Só não seja pega, nem morta. Ou nós duas estamos fodidas. – Dizendo isso, saiu, batendo minha porta com força.

Ainda um pouco zonza com o ritmo dos acontecimentos, mas ciente de que minha vida agora se concentrava naquele papel, abri-o com voracidade, degustando e raciocinando cada informação que havia sido colocada a meu dispor. Edgard Wrestler havia herdado a Wrestler LTDA de seu pai, cujo nome não era citado no papel, e, desde então, transformara a grande empresa em um verdadeiro império e a milionária família Wrestler em bilionária. Gostava de futebol, golfe, dançar tango, aprender sobre música e instrumentos musicais, arte de maneira geral e mulheres. Como qualquer outro bilionário, várias mulheres. Vivendo em um mundo capitalista e tendo tudo ao alcance de sua mão, não me era estranho que os podre de ricos enjoassem fácil de pessoas.

Pessoas são problemáticas. Altamente problemáticas.

Era um indivíduo de difícil localização, mais um motivo para a família Wrestler ter recorrido a uma agência de espiões em prol de sua segurança. Assim, a única certeza seria encontrá-lo no lançamento da mais nova boate patrocinada pela Wrestler LTDA: Anaconda.

Ri longamente. Que nome brega!

O lançamento ocorreria em Londres, daqui a cinco dias e eu precisava urgentemente de um motivo convincente para sumir do mapa sem fazer Charlie Brooks colocar metade do Instituto a minha procura. Outro ponto era: como tirar Desirée da jogada sem que ela me delatasse para qualquer outro agente?

A solução para a primeira parte do enigma bateu a minha porta com certa incerteza vinte minutos depois. Enfiei o papel dentro de uma meia no guarda-roupa e finalmente abri a porta, encarando cinicamente minha nova visita: Alicia.

Ela começou a chorar instantaneamente.

– Me desculpe, me desculpe, me desculpe... – Balbuciou copiosamente, estreitando-me em um abraço sem jeito. Não a abracei de volta. A mágoa continuava em carne viva.

– Não precisa vir aqui com esse teatro, agente Fayne. O agente Whitlock não vai saber, através de mim, de sua traição.

Alicia congelou diante das minhas palavras e eu senti, com certo prazer até, que o modo como a nomeei havia a magoado também.

Mas até aí eu podia estar sendo, mais uma vez, enganada por ela.

– Não tem nada a ver com o John, Kat – levantou o olhar cheio de lágrimas. Quase tive pena. Quase. – Eu e seu pai... Nós...

– Tantos anos e não aprende? – Ri azedamente. – Aquele homem não merece, sequer, o título de pai!

Alicia soluçou três vezes antes de voltar a falar.

– Eu e o agente Brooks... Nós... Nós só queremos te proteger. O que aconteceu há nove meses foi muito sério, Kat. Eu fiquei tão desesperada quando pensei que ia te perder...

Resolvi cortar o seu discurso antes que ele me comovesse.

– Medo de me perder? Acha que não conseguiu me perder ao me trair? Acha que eu estou feliz vivendo desse jeito? – Elevei o tom da voz, exasperada. – Eu. Preferia. Estar. Morta! Morta, Alicia, morta a viver assim! – Senti o gosto salgado das lágrimas que eu havia prendido anteriormente escorrendo por meu rosto. – Eu quase morri duas vezes. Na segunda, eu realmente quis morrer. Hoje, naquela sala, eu realmente quis morrer pela segunda vez.

Deixei minhas palavras envolverem o ambiente, respirando pesado e soltando verdades descontroladamente. Alicia agora berrava de tanto chorar.

– Perdão, por favor, perdão – pedia exaustivamente. – Eu não podia... Não podia... Kat, por favor... – Balbuciava escandalosamente.

A ideia que resolveria meus problemas, então, relampejou em minha mente. Usar Alicia e seus sentimentos para algo ilegal seria enormemente maldoso, mas eu estava magoada demais e cansada demais, de forma que optei pelo caminho mais simples – não menos doloroso.

– Vou ficar segura – sorri maldosamente. – Bem longe de você! De todos vocês, que só me apunhalam pelas costas! Quer saber? – Gesticulei exageradamente. – Vou tirar férias disso aqui. E você – apontei para ela. – Se quiser me fazer um último favor, garanta que o presidente não me procure. Eu estarei por aí na América Latina.

(...)

Não havia sido muito fácil sair dos Estados Unidos sem deixar pistas excessivas. Saquei uma boa quantia de dinheiro ainda em Nova York e juntei os dispositivos de espionagem que eu ainda guardava no quarto. Se pegasse algum dos armazéns do Instituto, deixaria suspeitas sobre não estar me metendo em problemas. Eu não precisava de agentes treinados me perseguindo.

Sendo assim, preferi estar munida apenas de um revólver, meus punhais de estimação, material para escalada e pó anti-infravermelho. De resto, só me restavam algumas roupas, sapatos e meu notebook, cautelosamente analisados em busca de rastreadores. Precisaria comprar um novo celular com uma das identidades falsas pertencentes a mim assim que chegasse a Londres.

O embarque e desembarque em aeroportos eram sempre a parte mais chata. Eu precisava hackear o sistema e desativar os sensores durante minha passagem, do contrário, seria pega com todo o equipamento de espionagem. Obviamente não seria presa, mas atrasada e rastreada pela agência, o que, nas minhas condições, poderia ser infinitamente pior. A parte de usar disfarces e identidades falsas era o lado mais fácil e divertido, como improvisar uma peça teatral em plena Broadway. Em uma delas, por exemplo, eu era russa e posso garantir que me diverti à beça fingindo misturar russo com inglês enquanto a atendente do check-in enlouquecia.

Cheguei à Londres após três dias de viagem. Para disfarçar meu paradeiro, fui obrigada a perambular durante dias pela América Latina e um ou outro país da Ásia. De qualquer forma, eu ainda estava dois dias à frente do Sr. Wrestler e da inauguração da Anaconda.

Ri debilmente pela milésima vez diante do nome de completo mal gosto. Resolvi me hospedar no hotel mais luxuoso de Londres, o The Ritz, com a identidade falsa canadense – embora interpretar a russa fosse muito mais engraçado, sabe-se lá o que poderia ocorrer com a diplomacia desses países com um louco como Putin no poder do grande país ex-comunista. Paguei adiantado o mês todo e, ao calcular preços e chances de ser desmascarada, cheguei à conclusão de que também precisaria alugar um carro para emergências. O fiz com uma identidade inglesa, para não me trazer problemas e arranjei um bom estacionamento para deixar a BMW vermelha enquanto não precisasse da mesma.

No último dia antes da inauguração da Anaconda, decidi fazer compras. A ideia me lembrava Alicia, mas eu não podia deixar a dor atrapalhar minha missão. Bem, quase minha. Prometi a mim mesma pensar em algo para Laboreth no dia seguinte. Assim, passei o dia dirigindo por toda Londres na BMW vermelha, provando exaustivamente diversas roupas, perucas, perfumes, sapatos e acessórios. No final do dia, lembrei de comprar material para copiar chaves, ato sempre útil, ainda mais quando se vai proteger uma pessoa que não quer ser protegida.

O restante dos materiais necessários seria adquirido com o tempo. Por fim, dei um jeito de agendar para o dia seguinte um tempo no salão de beleza. Eu não era idiota e sabia muito bem que, se precisasse competir com Desirée em termos de beleza, não podia cometer erros. O plano para tirá-la da missão também ficou para o dia da inauguração.

Chegado, finalmente, o dia, gastei horas no salão de beleza e o resto delas arquitetando o que faria com a agente Laboreth. Era óbvio que ela não sairia da missão sem nada em troca e, no momento, eu não tinha nada a oferecer. Para Desirée, a chance de agir, finalmente, sozinha em uma missão de tamanha importância para o Instituto era a glória, seu momento de brilhar. Ela não seria facilmente silenciada.

Conclui que a fraqueza de Laboreth seria exatamente seu despreparo para uma missão assim. Se tudo se resumisse a uma ou algumas noites para garantir senhas ou desvendar segredos seria extremamente fácil. Mas passar tempo suficiente para proteger alguém sem incomodá-lo ou intimidá-lo... Era outro âmbito, um tipo de sedução mais sucinta e com necessidade lógica. Eu analisaria seus erros de perto e depois os corrigiria, como uma boa professora. Se ela própria se ferrasse, estar fora da missão seria algo dependente dela e não de mim.

Aquilo até me fez sentir melhor. Afinal, não era ilegal ou antiético salvar uma missão, não é?

Fiquei pronta cedo, pois ainda precisava dar um jeito de entrar no local sem convite. Eu tinha o endereço graças à Halpkins, mas isso não agilizaria muita coisa, já que toda a cidade parecia fervilhar em torno dessa inauguração e todos os taxistas pareciam saber o caminho para a nova boate.

O meu taxista, em específico, borbulhava de emoção ao falar de Anaconda e do Sr. Wrestler. Decidi prestar atenção. Boatos ou não, as informações me serviriam, pelo menos, para algumas piadas em momentos oportunos.

– Dizem até que o namoro do príncipe Harry acabou por conta do Sr. Wrestler. Harry os pegou fazendo sexo na banheira real, a senhorita pode imaginar essa cena? Saiu no The Sun e tudo! – Argumentava, como se o jornal mais fantasioso de toda a Europa pudesse provar qualquer coisa. Engoli a risada. – Nessa época, Edgard se afastou da família real e só recentemente voltou a aparecer aqui na Inglaterra. Acho que fizeram as pazes – confidenciou.

Ao estacionarmos praticamente em frente à boate, soltei um muxoxo ao avistar paparazzi por toda a parte. Era tudo o que eu menos precisava.

– Então, o Sr. Wrestler é tão famoso assim por aqui? – Indaguei o simpático taxista, para passar o tempo, enquanto desembolsava seu pagamento.

– Na verdade, não. Ele só é rico demais, então sempre surgem boatos. Mas mal se vê o homem! – Resmungou. – Continuo achando que isso é culpa do flagra do príncipe Harry.

– Bom – conclui – muito bom. Bem, muito obrigada pela corrida e até a próxima! – Sorri, entregando-lhe seu pagamento e me despedindo. O homem acenou de volta e, em seguida, deu partida no carro, em busca de outros passageiros.

Tendo o cuidado de sempre circular entre pessoas e desviando de todos os flashes possíveis, comecei a analisar o comportamento de cada um, a fim de descolar um convite para entrar no local. A inauguração seria restrita a convidados. Avistei um casal passando vagarosamente entre a multidão, esgueirando-se e passei a vigiá-los de perto, até notar que escondiam algo entre as mãos. Convites, óbvio.

Atravessei a multidão com cuidado, posicionando-me estrategicamente de maneira a cruzar com o casal em uma questão de segundos. Eles pressionavam tanto as mãos que não sentiriam um dos papéis escapulindo com leveza. Dessensibilização, regra básica em matéria de furtos de rua.

Fiz como o planejado e logo angariei meu convite, chegando à entrada antes do casal — para não levantar suspeitas quando se dessem conta de seu convite roubado -. Passei tranquilamente pelos seguranças e aguardei a tentativa de entrada dos dois, vendo a mulher ser barrada. Intervi junto a uma das moças da organização, fazendo um escândalo e dizendo ser um absurdo que não se pudesse trazer namoradas à inauguração de um evento para o qual foi chamado. O casal rapidamente concordou comigo e embarcou em meus argumentos. Em vinte minutos estávamos os três dentro – e minha consciência, limpíssima.

Comecei a circular pela festa, fingindo dançar e beber despreocupadamente, mas extremamente atenta a qualquer sinal de Edgard ou Desirée. Havia procurado na internet fotos do dono da boate Anaconda, mas, por mais incrível que pareça, não consegui uma única fotografia decente. O homem, realmente, odiava aparecer. Como podia, então, esbanjar tanto seu dinheiro? E por quê?

Não importava. Eu o reconheceria através da atitude das pessoas. Iniciei uma memorização de cada espaço da boate e seus detalhes, pois poderiam me ser úteis mais tarde. Anaconda era enorme e sombria, com um gigantesco bar em frente à pista de dança, onde os barmen não paravam de preparar drinks reluzentes. Quanto à pista, cristais e luzes neon a iluminavam o tempo todo, menos o centro, já naturalmente iluminado com as seguintes palavras: sinta a vibração. Mesas e puffs se distribuíam ao redor da pista e em um segundo andar mais reservado. No acesso a um dos corredores diferente dos banheiros, encontrava-se uma gigantesca centopéia com puffs e meia luz dentro, obviamente a ironia da boate e a escolha perfeita para dar uns amassos com estranhos.

Notei certo ar de excitação e enrijecimentos de coluna ao redor de um sujeito sentado em um dos bancos acoplados ao bar. Alto, usando terno preto bem ajustado a seu corpo esguio e com cabelos tão pretos que se misturavam com o ambiente ao seu redor, aquele só podia ser Edgard Wrestler, não importando se eu cogitava com mais afinco a teoria do bilionário sendo um senhor de, pelo menos, quarenta e cinco anos. O homem bebia uísque russo como se fizesse sexo oral e todas as garotas ao redor pareciam delirar a cada gole. A bebida da exposição, óbvio. Ele precisava marcar o território, efetivar a presença de dono da boate. Percebi que Wrestler ainda demoraria algum tempo para terminar o uísque e me dar qualquer coisa com a qual eu pudesse trabalhar para seduzi-lo da maneira certa e, assim, dirigi-me a um dos banheiros femininos para dar o toque final no visual e dar tempo à Desirée. Eu estava, de certa forma, tentando ser justa com a moça. Não queria uma consciência pesada depois que usurpasse a missão.

Olhei-me no espelho com gosto. Os profissionais do salão tinham feito um bom trabalho, ondulando meu cabelo loiro e delineando bem meus olhos verdes de gato – como diriam John e... Alicia. Respirei, afastando as lembranças dolorosas e focando no presente. Ajeitei o decote do vestido vermelho arrasador um pouco mais para baixo, conferi uma vez mais o salto quinze que calçava e a presença do punhal na barra do vestido. Tudo certo.

Em seguida, voltei calmamente para a área dos puffs, estrategicamente sentada em um ponto onde conseguia enxergar o Wrestler sem que ele me notasse de volta e aguardei. Localizei Laboreth dançando a alguma distância de Edgard e o observando minuciosamente. “Essa é sua chance, garota”, pensei, prometendo a mim mesma deixar o caminho livre para ela em uma primeira vez.

Finalizado o uísque, a Wrestler foi entregue uma taça de vinho tinto francês Boormeu, ano 1920. Fiz questão de perguntar a três garçons se era mesmo o tal vinho antes de concluir que sim. Dessa vez, Wrestler saboreou vagarosamente, fechando os olhos em alguns momentos, alheio ao seu redor, somente sentindo a bebida. Sem mais dúvidas ou delongas, eu soube imediatamente que aquele era o seu favorito. Chamei o garçom mais próximo e ordenei que entregasse outra taça a Wrestler quando a atual acabasse, dizendo ser presente de uma moça que logo o encontraria. A tática do vinho era sempre marcante, sensual e delicada. Para missões com a necessidade de convivência maior com a outra parte. Eu duvidava que Desirée tivesse alguma noção disso.

Infelizmente, para o meu azar, a agente Laboreth lia bem a expressão corporal masculina e soube o exato momento de dar o bote: quando Wrestler, curioso ao receber a nova taça e o recado do garçom, encarava o ambiente ao seu redor incessantemente. Segurei a raiva, ciente de que eu havia prometido a mim mesma deixá-la dar a primeira mordida. Se a presa escapasse, a missão era minha.

Deixando os pensamentos de lado, captei um relance, um mínimo relance, de algo diferente de curiosidade nos olhos de Edgard Wrestler: preocupação. O homem, para minha surpresa, conseguia ocultar emoções como um agente bem treinado. “Não é à toa que tenha multiplicado a fortuna de sua família. Tomamos Edgard como um herdeiro riquinho e sem méritos cedo demais”, conclui. O bilionário tinha malícia e isso quebraria Laboreth, já posicionada a sua frente, com um sorriso sensual nos lábios carnudos.

Desirée precisaria identificar – e com urgência – o fato de estar trabalhando com um lobo e não meros cordeirinhos. Aquele homem era esperto demais e desconfiaria de qualquer deslize. Com um suspiro, aconcheguei-me ao puff e pedi outra taça do Boormeu 1920. Mesmo com a agente Laboreth fora da jogada desde o momento que errou a interpretação sobre seu protegido, suas horas desperdiçadas com o mesmo poderiam me mostrar muito a respeito dele e eu, durante minha vez, poderia chegar com certa vantagem.

Revezando entre a pista de dança e os puffs enquanto tomava meu vinho, assisti Laboreth entreter Edgard com sua conversa barata e, abismada, vi o homem passá-la para trás, conseguindo convencê-la a fazer sexo no segundo andar. Desirée, dessa vez em uma jogada esperta, entendeu que havia entendiado o bilionário e resolveu apostar suas últimas fichas na relação sexual. Aplaudi mentalmente a consciência de suas habilidades. Eu não fazia ideia de que Laboreth havia evoluído tanto nos meses que passei fora e, no fim das contas, a pressão de me substituir em uma série de missões parecia tê-la feito bem, impulsionando-a para frente. Se meus cálculos estivessem certos, Edgard faria sexo e daria o fora em alguns dias, com o alerta vermelho ligado para a situação adversa. Se estivessem errados e Laboreth conquistasse a confiança daquele homem, eu voltaria para Nova York sem resmungar.

O fato é que Laboreth era boa, mas não a mais indicada para aquele tipo de missão. Para a sorte de todos, quando Edgard desceu elegantemente, pós-sexo, do segundo andar, apenas gesticulando amistosamente para Desirée e indicando que tudo estava perdido, agarrei minha nova taça de Boormeu 1920, recém-trazida pelo garçom e caminhei vagarosamente, como se todo o mundo pudesse esperar, em direção ao bilionário. Demorou algum tempo até ele sair do transe pós-sexo e me notar chegando, o que só ocorreu porque a maioria das pessoas ao seu redor já havia virado o rosto em minha direção. Aquele tipo de reação não me deixava orgulhosa ou com o ego nas alturas: era normal. Eu estava interpretando uma personagem atraente e fatal, algo irresistível para qualquer ser humano. A personagem exercia aquele poder sobre as pessoas, não eu. Ser alguém sem precisar ser eu mesma por uma noite, todavia, era incrivelmente libertador. Tão libertador, que consegui ignorar a careta de choque de Laboreth enquanto entregava a taça de vinho a Edgard e dizia:

– Aprecia tanto um Boormeu e não consegue reconhecer seu cheiro em uma mulher? – Indaguei sensualmente, rindo de lado enquanto seus olhos cinzentos me fitavam em transe. – Esse é um 1920, mas as safras também mudam os cheiros, então não vou julgá-lo tão minuciosamente – sorri de lado enquanto o abandonava, surpreso, com a taça de vinho na mão.

Perspicaz e muito esperto, sim. Mas a técnica aliada a uma agente expert em improvisos era fatal. Extremamente fatal para qualquer um. Senti seu olhar em minhas costas até o momento que abandonei a boate. Em seguida, sentei em um beco e aguardei a chegada de uma Desirée furiosa.

Ela demorou apenas alguns minutos, provavelmente se despedindo e tentando dar um jeito de reveter o estrago com Wrestler.

– O que você pensa que tá fazendo?! – Berrou. – Isso é ilegal, sabia? Vou te entregar pro Charlie e sabe-se lá quando você sentirá, sequer, o cheiro de uma nova missão. Afinal, você gosta dos cheiros, não é? – Ameaçou-me, descontrolada pela situação.

– Laboreth – a encarei. – Sinto muito, mas você ia perder aquele homem em três dias, no máximo. O Wrestler é mais esperto que os outros herdeiros parasitas por aí, algo que você mesma pôde notar ao ter que apostar todas as suas fichas no sexo – contra-ataquei.

Ela abriu a boca três vezes, calando-se em seguida, chocada por eu ter lido suas ações corretamente.

Sorri de uma maneira amavelmente falsa.

– Então, você tem basicamente duas opções. Continuar na Inglaterra, fingindo estar cumprindo sua missão e sem me entregar, ou seja, terminando com toda a glória sem trabalho algum ou me delatar e se ferrar junto, por não ter sido capaz de cumprir um simples caso de proteção.

Notas finais
Como houveram dois comentários, resolvi postar mais um capítulo ainda hoje. Postarei o próximo quando tivermos quatro, então não esquece de deixar o seu! ^_^ Beijooo
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.