Panlice
1 mamilo no Corcovado
Notas iniciais
Lê logo isso. Se vira.
(quando um mamilo alado visita o Corcovado)
Ela se sentou no meio do chão, fechando os olhos, absorvendo todo o calor do sol da manhã, atrapalhando a circulação de um grupo de turistas japoneses e brilhando. Brilhando mesmo. Apesar do aparente mau-humor de todos, o costumeiro bico dela havia sumido.- Levanta daí, porra!Alice não costumava xingar. Nem chutar pessoas sentadas no chão. Nem ir a passeios da escola. Ela também não sabia dizer como tudo no Rio influenciava e atuava positivamente nas células pandorianas — e era tão bonito o que acontecia com ela que chagava a ser assustador. Era só uma calcinha, meias, um short, os ralados habituas quase sarados na coxa e no joelho, a camisa do Santa Helena, um casaco levíssimo, uma mochila, um par de tênis e o cabelo escuro enorme descendo seu tórax que separavam a pele de Pandora do resto do mundo. E de ser linchada por quem não conseguia descer as escadas para observar o Rio do parapeito da sacada que adorna o Cristo Redentor.De repente Panda se levantou num salto. Nem chegou a olhar pra Alice por que não conseguia tirar os olhos da cidade acordando lá embaixo — o que só a irritava mais. Sorriu as seguintes palavras:- É tão feliz sentar em cima de um Pão de Açúcar com um monte de pessoinhas rosas. — (Ela se referia aos turistas europeus e até norte-americanos sorridentes e gordinhos de roupas bregas.)- Não estamos no Pão de Açúcar. — Alice resmungou, tirando ela da frente de um grupo de senhoras alemãs indo para a frente da sacada, onde dava para se tirar uma foto pegando pelo menos os braços do Cristo. Alice desejou secretamente que a velha de cabelos vermelhos que manejava a câmera de costas para o parapeito caísse de lá e fosse se arrebentando até perder de vista. O que era fisicamente improvável.- Onde estamos? — É vero que Pandora não ligava. Ela estava feliz ali e pronto. Como se estivesse plantadinha ali e o ar a alimentasse e o concreto do chão também. Ao contrário de Alice. Que já era branca e estava pálida, com cara de oi-não-dormi, duas sombras cinzentas embaixo dos olhos castanhos e nenhum esboço de sorriso. Ao menos o cabelo cor de cobre estava penteado, mas não reluzente como sempre. Os braços trancados ao redor do corpo, morrendo de frio, achando tudo um saco, querendo voltar pra casa, ou só um rolo de fita que mantivesse a boca de Pandora (e talvez os braços e as pernas) selados. O que houve com a fofura de Alice?- O Cristo Redentor fica sobre o Corcovado — ela disse lentamente, mas muito baixo pra que Pandora entendesse direito.- Que seja. Eu gostei desse Corvorado o suficiente pra morar aqui.- Cala a boca.Pandora ignorou e começou a cantarolar Raul Seixas, depois emendou A Day To Remember, pulando a longos passos a escada que dava para a sacada, rumo ao peitoral cheio de fotógrafos, como se fosse voar. Alice se empurrou para ir atrás dela, se questionando por que tinha vindo, porque ainda estava sempre com ela, dando as costas para um grupo de professores do Santa Helena que tinham liberado o 2º ano A para dar uma volta ali em cima e um Cristo que lhe abria os braços.- Toma isso daqui — Panda foi enfiando uns óculos de sol na fuça de Alice, que realmente estava precisando, quando sentiu ela se aproximar, o que só fez o vulcão ruivo se aquecer mais e dar um empurrão em Pandora, que só fazia rir. — Ei! Qual foi, Alicinha? — ALICINHA? Pandora, a Pandora falando no diminutivo? Quase que demonstrando afeto? E foi exatamente isso que Alice pensou, mas ela estava intransponível hoje.- Foi porra nenhuma. — Ela olhou pro chão, o majestoso bico reinando em sua face.- Deve ser isso mesmo.- Isso o que? — (aqui Alice mais irritada)- Porra nenhuma. Tá com cara de nunca-dei-nem-darei-umazinha.- Precisa ser tão baixa? — Alice se sacudiu raivosamente, quase rindo com nojo, desdenhando.- Dane-se. Ninguém aqui fala português. Pelo menos não esse português. Dá pra ser bem direta.- Cala a boca — Alice cansou de argumentar.- Porra, Alice... o que você quer? — disse Pandora, faiscando os olhos pra ela. — Eu te dou. Só dizer. — (aqui a estratégia de deixar Alice em dúvida; haveria uma segunda intenção em te dou ou seria só mais um jeito de fazê-la se acusar de pervertida por maldar isso? Enfim, independente da alternativa, havia funcionado.)- Eu quero ir pra casa, Panda — ela disse lentamente, desarmada, enquanto se apoiava de costas no parapeito, dando uma olhada para o lado da cidade oposto à sua dupla.- Ótimo, a gente vai — Pandora não sabe nem se esforçar pra fingir gostar de algo, então a frase foi largada no ar de forma muito estranha. — mas antes vamos dar uma respirada aqui. — Ela fechou os olhos. — Qual é. Você veio, mesmo. — Ela os abriu e se colocou mais perto de Alice do que é confortável, como sempre faz para convencer as pessoas; ela as intimida. E pegou uma mecha ruiva pra olhá-la nos olhos — Depois eu arrumo alguém pra te dar uns orgasmos de graça. — Ela ergueu uma sobrancelha enquanto colocava uma mão no parapeito atrás da ruiva, imprensando-a, as bocas a menos de um centímetro, e Alice fechou os olhos, e Pandora a beijou...- Caralho, olha aquele guaxinim! Ou foi isso que Alice esperou por uma longa fração de segundo.
Pandora havia desviado o rosto pelo ombro de Alice, sem que suas bocas se tocassem, como se nunca tivesse pretendido isso, e estava contornando o parapeito saltitantemente, atrás do tal guaxinim, que ia fugindo pelos galhos das plantas. Mudança de personalidade em menos de um segundo. Típico.De repente, como se soubesse que o guaxinim ia sumir de vista, parou, e se virou: — Booora, Alice! — e foi em direção a uma escada rolante lateral que levava a uma lanchonete para turistas com preços astronômicos. Alice deu uma olhada no Rio lá embaixo, que pareceu sorrir de volta pra ela. E se empurrou para seguí-la.---- Me vê um Toddynho, por favor? Quer, Alice?- Pra vocês duas é R$ 10.- Pand...- Ok, agora qual é o preço pra quem sabe qual é o preço?(Risada de 1 segundo.) — R$ 9 é tudo que eu posso fazer por vocês. — (Piscadela de porco chovinista.)- Beleza, Alice, você não quer nada. O italiano, no caso o salgado, não o homem nascido na Itália, veja bem, está quanto?- Com o seu Toddynho sai por R$18 a promoção.- Pandor...- Um Toddynho só.- R$ 6.- Pandora!- Mas que porra? Sh, Alice! Relaxa.Assalto consumado, Pandora pegou o Toddynho e saltitou até um pequeno pátio vazio próximo aos banheiros, se deitou no chão para beber do sol e olhar a imensa estátua e deu dois tapinhas no chão ao seu lado para sua dupla deitar. Alice jogou sua mochila em cima dela. - Corolh.. Calmaí, que que é is... Ah! — Panda abriu uma bocarra e estapeou Alice enquanto ela se sentava. Eram pelo menos uns 10 Toddynhos dentro da mochila. — Vaca.- Fica parada.- O que?- Tem um bicho no seu peito.Pandora olhou calmamente e fechou os olhos de novo para tomar sol. — Não tem.- Que isso?- São asas.- Que nojo!- É um piercing, sua tapada, só que marca na blusa e essa é a intenção.Abriu os olhos para olhar para o enorme monumento que se estendia acima. Alice a olhava curiosamente. Panda suspirou, seu ânimo se esvaindo (como que voltando para seu lugar correto: Alice), pegou seu Toddynho e prometeu: — No mamilo, Alice. Nunca viu? Quando você quiser mijar eu te mostro.- Sabe o que eu quero mais que mijar? Ir embora.- E sabe o que eu quero mais que uma ruiva velha resmungona? Aquilo ali.Ela fez menção a um gringo excepcional. Ou, sei lá, parecia Brasileiro, talvez americano, talvez africano. Negão enorme descendo as escadas para a lanchonete com um amigo.- Pipipipipipipipi.- O que?- Pica-alerta.- Estúpida! — Alice riu. Riu? — Achei que você jogasse no outro time.- Eu não jogo. Eu me deito no sofá com um pote de sorvete e assisto e é isso. Ás vezes com alguns escravos — piscou.- E Dara? — Alice perguntou, sem entender nada. 1. 2. 3. 4. 5 segundos.- Não experimente me regular. — Pandora disse muito lentamente cada palavra, olhos fechados, o tom de voz como se pedisse um favor, mas havia um para o seu próprio bem muito ameaçador implícito na frase.Alice olhou procurando por pessoas e conferiu que não havia nenhuma à vista. Colocou uma mão no chão do outro lado, como se fosse fazer flexões, se colocando sobre Pandora, que abriu os olhos quando os cabelos de Alice caíram sobre ela.- Experimento perguntar por curiosidade. — Levantou uma sobrancelha. Estava invadindo o território da fera.- Não te devo merda nenhuma. — Cuspiu lentamente em réplica, se aproximando, olhando diretamente nos olhos, obrigando-a a recuar.- Não. Por isso estou roubando de você.Agora Pandora estava quase no primeiro nível do seu estágio de caos que todos evitavam.- Você quer saber se eu pego meninas, é isso? Se eu calço 44, colo velcro, ignoro o curso da natureza, rejeito a lei de Deus e mimimi? — ela se levantava enquanto Alice recuava, virando o jogo. — A sua resposta é que eu beijo a boca que eu quiser beijar. Eu gosto de meninos e gosto sim de meninas, mas não preciso gostar de uma menina como você. — ela cuspiu cada palavra como uma agulha. Eu sei, não se cospem agulhas. Enfim. Pandora era um furacão em estágios caóticos como esses, um circo, e em circos é possível cuspir agulhas. Em chamas, até.1. 2. 3 segundos. - É?Alice não desmoronou como esperado. Pandora deixou uma leve expressão de confusão emergir em suas sombrancelhas duras.Alice empurrou Pandora para o chão e foi isso. Alice, pandoriando, a beijou. Uns 20 segundos antes de chegarem um grupo de japoneses e ficarem felizinhos com a cena.A verdade é que Alice não beijou Pandora porque queria que ela gostasse dela — porque Pandora já gostava, do jeito todo errado de se gostar, do jeito menos convencional, talvez até egoísta de certo ponto de vista. E Alice já sabia. A verdade é que Alice a beijou porque era a última coisa que ela faria, porque as energias das duas eram totalmente reversas e tão parecidas e porque ela tinha que fazer isso antes de morrer. Não podia ser, e tinha que ser. Pois é. Drama demais. Por isso precisava ser feito antes que fosse pensado.- Sua lésbica. — Pandora murmurou, aliceando, enquanto Alice a arrastava na direção dos professores que recolhiam o 2º ano A do Santa Helena.Alice gargalhou. — Sabe o que eu quero mais que mulher?- Hm?- Mijar.
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