Panlice

2 Álcoolice, cafedora


Notas iniciais
De volta, vagabundas. Segundo texto que eu terminei já tem um tempo e aconselho você a ler ouvindo Give Me Love (https://www.youtube.com/watch?v=FOjdXSrtUxA) que me deu a ideia de embebedar a Alice e acabou sendo a trilha do resto da história, enfim. Leia sá porra. Espero que goste. Não se apaixone.

(álcoolice)

–Deita, Alice, deita logo.

–Alisssse? — gargalhada cheirando a álcool — Que nome esshtúpido! Quem chamaria a própria filha de Alicia? Alisssiar é coisa de político, não é? — Ela ia caindo em direção ao divã, chiando, contudo, não importando o quanto ela cambaleasse (e com ela o líquido avermelhado em seu copo), nem uma gota da sua bebida caía.

– Onde você conseguiu essa garrafa?

– Eu pedi algo bem forte pra tomar. Ele me olhou com uma carinha assim — ela fez uma cara maldosa e riu. — e eu olhei pra ele bem assim — Agora fechou a cara e armou um bico colossal — e mostrei umas notas de 50. Aí eu fiquei com issso. E ele ficou com metade do meu salário. Eu gostei dela. Ela beija bem. Eu vou chamar ela de Beth. Casa comigo, Beth? — e Alice começou a enfiar a língua na garrafa com os olhos fechados.

Ele respirou e buscou na memória a Alice que ele conhecia — e conhecia muito bem — bêbada. E obteve resultados incompatíveis. Ele olhou para o desenho do piso, ignorou as risadas e perguntou, muito lenta e pacientemente:

– E porque você queria algo forte para beber, Alice? — 16 não era a idade ideal para ser pai de adolescente. Ainda mais um compreensivo pai de adolescente. Alice estava em seus 8 anos mentais e Júlio achara ela deitada em cima de um fusca na sua esquina tomando um banho de lua e por pouco pagava calcinha. Demandava uma puta paciência não mandá-la pra casa (onde Dona Nathália arrancaria cada um de seus fios ruivos ao vê-la nesse estado), pra fora, pra sarjeta, pra puta que pariu.

– Shhhhhh, não posso falar... estou quase conseguindo — ela sussurrou, olhando-o como uma criança, de repente muito entusiasmada, fechou os olhos e abriu a boca — Inha íngoa tá uito dorrr-mente — e riu mais. E mais. E mais.

– Lice, Lice, me escuta, caralho — ele pegou seu rosto perpetuamente sorridente (e levemente rosado devido ao sangue no seu álcool) entre as mãos e tentou monopolizar sua atenção enquanto ela abria e fechava os olhos, como se não quisesse acordar de um sonho lindo... — Olha só, se você me ouvir eu prometo que toco pra você! Beleza?

– Hahahaha, tá... — mesmo o jeito de rir estava pandoresco. Mas disso Júlio ainda não sabia.

– Ok, solta a garrafa... — ele tirou Beth da sua mão rápido demais pra que ela percebesse, enquanto ela entornava o último gole do seu copo disputando-o com Júlio, antes que ele a vencesse e o pegasse. Enquanto ela se jogava na cama, os olhos fechados, o rosto lhe sorrindo inteiro, guardando uma tristeza imensa aos poucos esquecida pelo álcool, o vestido voando, Mica tomou um gole forte da garrafa, acabando com o penúltimo oitavo da bebida.

– E o que eu vou ganhar com isso? — Alice disse, tropeçando nas palavras todas.

– A música que você quiser. — Ele se levantou para: limpar a boca, procurar o ukulele, arrumar um banquinho, colocá-lo ao lado da cama, olhar Alice, buscar a sua calma, fazê-la olhar para ele. Talvez os dois últimos não dessem muito certo.

– Você vai cantar pra mim? — ela falava tal qual criança, e ria, ria, ria, sorria, ria...

Sentou-se:

– O que eu vou cantar pra você?

– Toca Gil.

As sobrancelhas de Júlio estranharam.

– Você odeia Gil. — Ela tirou o arco da cabeça e boa parte do cabelo migrou para seu rosto, e ela se pôs a rir;

– Toca um reggae.

– Da última vez que eu toquei reggae perto de você eu ganhei isso. — Júlio mostrou uma cicatriz familiar para Alice no braço esquerdo.

Alice estava bêbada demais para entender o que ele tanto falava. Espremeu os olhos, fez cara feia e se revirou na cama: — Cala boca... Só toca... Mica, hahaha... Toca.- E Júlio, sem pensar, tocou. Era uma noite quente. Um dos alargadores alícios estava perdido no chão — mas não seria muito difícil de achar um 12 milímetros. Os pés dela se amontoavam perto de várias peças de roupa jogadas no canto da cama personalizadas com o cheiro dele. Da janela aberta corria uma brisa quase imperceptível que tocava muito levemente o suor no abdômen e no rosto de Júlio.

De repente Alice abriu os olhos sorridentes. Por alguns minutos ela estava anestesiada de todo o drama que a fez gastar tudo o que tinha no bolso. — Tem certeza de que eu não sou sua namorada?

Júlio riu, mas continuou cantando: — Num indo e vindo infinito... Tudo o que se vê não é igual ao que... — E isso bastou para desafiá-la. Alice puxou-o pela nuca de forma que ele se debruçasse sobre ela e restassem poucos centímetros de oxigênio entre eles. Júlio não pode escapar do seu forte hálito embriagado...

– Tem certeza que eu não sou sua namorada? — ela ria, e, como ele era imenso, e ela não calculava os movimentos alcoolizados, Júlio Mica desabou sobre ela.

–--

outro lado da rua, precisamente à mesma noite, hora e (enlouquecedora) temperatura.

(cafedora)

– CRIA DUMA MERETRIZ!

A madeira da janela branca emoldurava a tal cena. Mica cantando com seu ukulele, dois braços branquelos e sardentos puxando-o, ele se esborrachando na cama, seus dreads caindo sobre os dois acusados, e um monte de cabelos laranjas voando e envolvendo a cena toda. Pandora meteu-se numa blusa velha bem cavada nas laterais, fervendo, pilhada, falando sem parar, chamando-a de todos os nomes, mas, sobre tudo, chamando-a.

É. Ela sabia. Ela sentia muita falta.

– Gnoma-desgraçada-despeitada-descabelada-enferrejuda– Panda praguejava tais elogios intercalando-os com mais um pouco de café de um pouco mais de uma xícara que era a primeira, segunda, terceira, décima-quinta. — ou enferrujada... pra puta que pariu com a gramática, essa cor-de-abóbora não merece!

Jogava os itens do seu covil para o ar procurando uma bolsa, um livro, uma calcinha, um dinheiro, um B.U, e quando conseguiu reunir alguns dos tais objetos jogou o cabelo pro lado e, não tendo paciência de esperar o elevador, desceu apressadamente as escadas, trocou duas palavras com o porteiro e correu 5 quadras. E virou 2 esquinas. E tocou 1 campainha.

– Você veio — falou Dara, arrastando-a pra dentro.

– Você não sabe quais as possibilidades de eu não ter vindo.

– Nenhuma — respondeu Dara um pouco desesperadamente, trancando o portão, pegando sua mão, subindo a varanda.

– Desculpa, desculpa, desculpa.

– Shhhh. — Sala da frente, corredor, porta da cozinha, sala de tv — Oi-pai-tamos-subindo — janelas, banheiro, escadas.

– Acho bom que você saiba que eu to com muita raiva. — quarto de hóspedes, quarto de casal.

– Aham, ótimo — Dara sorriu com malícia. Banheiro, quarto do Davi e quarto da Dara.

Pandora foi empurrada pra dentro do quarto. Dara tirou a blusa. O ar estava ligado, a janela de vidro estava fechada porém a cortina, aberta. Via-se um pedaço da praça — algumas árvores, alguma grama, algumas garrafas e algum morador de rua dormindo — e um beco deserto e o restante da cidade, cintilando ao longe, e as estrelas...

– Trouxe aquela sua calcinha zebrada — Panda falou, distraída, olhando pro céu.

– Show, mas não vou precisar dela — e Dara a agarrou e a jogou na parede e a beijou e tentou fazê-la desejá-la de novo.

– Tu não tem noção do que aconteceu. — Ela falou entre vários beijos;

Cala a boca. — Me conta — Dara levantou os braços de Panda, depois levou suas mãos até a cintura dela, tirando a blusa pandoriana vagarosamente.

– Não sei se você vai gostar de ouvir mas foda-se, se eu falar é capaz de eu te quebrar de tanta raiva que eu to e nossa, como você tá magra — Dara quase a estuprava. Panda foi jogada na cama entrando em erupção, e Dara a beijou, censurando Panda por um minuto (o qual ela aproveitou para apertar algumas partes erógenas darianas– Dara derreteu — e constatar:) — você anda precisando de lasanha, lembra, aquela bem monstra? Aquela monstra vadia do cabelo laranja-

– É a Alice, não é? — Dara interrompeu rapidamente, tentando mostrar interesse, mas esse realmente não era seu forte, principalmente enquanto tentava despir/monopolizar-a-atenção-de Pandora.

– EU NÃO QUERO FALAR DELA! — Pandora gritou e se sacudiu embaixo de Dara, totalmente alheia ao peso sexual que inundava o quarto, e um silêncio a seguiu, por que Dara foi obrigada a parar e selar sua boca com a mão.

Os olhos de Pandora mostravam tudo. A mil por hora. Seu cheiro era puro café. Ela só queria uns orgasmos mesmo, pra tirar Alice da sua cabeça, mas não dava, não dava, não, nem Dara...

Ela tirou a mão de sua boca lentamente quanto a fera se acalmou: — Desculpa... — ela sussurrou.

– Se desculpe se resistir a isso — e a outra mão de Dara escorreu por sua barriga e se infiltrou no short pandoresco e dois de seus dedos pressionaram... bem, a Pandinha.

Pandora gemeu, os olhos fecharam. Tava funcionando. — Continua...

Então os dedos darianos estavam em Pandora, mas tudo estava misturado, e seus olhos fechados, e de repente era Alice que estava montada sobre suas coxas, e ela voltou a pilhar...

– Pára! — Pandora tentando atrasar um orgasmo seu? Oi???

Mas Dara entendeu.

Dara entendeu? Oi???

E pôs suas mãos nos ombros de Pandora, apertando-a contra a cama.

– Ok. Agora pensa comigo. — Ela disse, a voz mais macia e sensual do que nunca. Dara era irresistível quando queria. Mas Pandora era inabalável. — Fecha os olhos. Você tá com raiva, certo? — Pandora espremeu os olhos fechados e sacudiu a cabeça pra cima e pra baixo, tentando não se descontrolar. — Bom, bom. — E ela disse muito lentamente, aproximando-se, sussurrando, a voz rouca, macia, como um sereia: — Olha... desconta em mim.

E isso despertou algum mecanismo lá dentro de Pandora (tá, nem tão dentro assim) adormecido há algum tempo (pouco mais de 48 horas), e o despertar do mesmo bastou para que a fera atacasse.

Os olhos abriram e se estreitaram ferozmente e em poucos segundos Panda estava como veio ao mundo, tirando tudo que Dara podia lhe dar.

E era dessa Pandora que Dara gostava de provar.

–--

1 hora e meia depois, 2 esquinas atrás, 5 quadras e 5 graus célcios a baixo.

(micalactose)

Mica acordou suando feito um frango giratório de padaria. Apertou os olhos até que o embaçado em sua visão sumisse. Foi quando quase jogou Alice adormecida da cama. Ele se levantou, tropeçando na ruiva suada na sua cama — de conchinha, Júlio? -, ligou o ventilador e tentou não cair nem quebrar nada a caminho do outro extremo do apartamento.

A luz da geladeira brilhou no seu abdômen negro. Ele coçou os dreads e pegou uma caixa gelada de leite, segurando a bermuda. Depois se jogou numa poltrona da sala, no escuro mesmo, fios de luz vindos do seu quarto, e tentou assimilar o que ele tinha feito antes de dormir.

Ele tomara um remédio pra dormir a caminho de casa, antes de encontrá-la enroscada com Beth sobre um fusca, e provavelmente Alice aplacava qualquer efeito da medicação, por que ele lembrava. Lembrava de ter sido paciente com seu porre, lembrava de ter cheirado seu hálito puro álcool, de ter tocado pra ela, de ter rejeitado ela — "cê tá bêbada"- e, depois de duas ou três vezes, não ter conseguido escapar dos laços dos seus cabelos. Sorte que ela havia dormido.

– Que que eu fiz?... — Ele estava, de fato, muito gay hoje. — Eu peguei minha irmã? — balbuciou, bem baixo, deu outros vários goles no leite e ouviu algum barulho no quarto. E correu pra lá.

– Ai, ai, ai, ai, ai, ai, ai...

– Shhh, shh, sh, shhhhhhh... — Ele se deitou virado pra ela, a qual a cabeça parecia que ia explodir a qualquer segundo. — Fica quietinha que melhora.

Ela abriu os olhos em duas pequenas fendas.

– Cê devia me dizer... — ela pegou um dread pra brincar.

– O que?

– Tem certeza que eu não sou sua namorada? — ela riu e espremeu os olhos, sentindo dor. — Isso dói.

Ele sorriu, fechando os olhos: — Shhhhhh, shhhh, deixa pra amanhã, deixa pra amanhã, deixa pra amanhã... — ele sussurrava enquanto ela tentava repetir sua pergunta idiota sem sucesso.

– ... que hoje eu vou te fazer mulherrrrr...– ela cantarolou, por fim, dormindo. Ele a beijou, grogue, e se levantou para apagar a luz.

Acabou olhando a janela do outro lado da rua. A luz apagada, um copo com um líquido bem escuro do lado de uma forma metálica... luneta. A luneta antiga de Pandora.

– E foda-se — murmurou ele, deitando com Alice. Ela estava em sua cama, ué.

–--

2 horas depois.

Naquele dia, horas antes, Mica se lembrara do quanto sentia falta de Alice, e ela sempre escapando de maneira estranha, de maneira não-Alice, e a odiara. Alice havia sentido tanta, tanta, tanta falta de Pandora, e a odiara. Pandora não conseguia segurar Alice em suas mãos, não conseguia entendê-la nem tê-la, e a odiara. E claro, Mica, também cansado de tentar conhecer Pandora, a odiara. E, novamente, Alice, após achar ter deixado Mica no passado, foi parar no amparo dele, como sempre, e o odiara.

Ou assim eles pensavam.

E agora todos dormiam. Talvez até nos braços das pessoas certas. Mas haviam chegado ali das maneiras mais erradas. E nem mesmo odiar eles conseguiram. Fracassaram. Será que os fins justificam mesmo os meios?

No meio da noite, Júlio teve de escorregar no alargador para colocá-lo na orelha de Alice e Dara teve de perder uma de suas blusas finas para perceber o mamilo alado de Pandora (a droga de um fio prendendo de novo em seu piercing de asas).

Eles todos se davam muito bem consigo e com o mundo quando dormiam. E seria muito melhor se a manhã nunca chegasse. Mas ela sempre chega. Junto com a segunda, a ressaca — e suas outras irmãs, as consequências.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.