Pangeia
2 Capítulo Um: Robôs
Notas iniciais
O lugar era completamente perfeito, prédios gigantescos e azuis, todos eram iguais. Telões de propagandas colados nos prédios, carros modernos e rápidos, alguns podiam voar e andar sobre os mares. Aviões tão rápidos que quase chegam à velocidade da luz, pontos de teletransportes, portas digitais, hologramas fazendo propagandas nas esquinas, e é claro, não podiam faltar os robôs que nos serviam, eram tratados como fiéis servos dos humanos — e muito caros também... Tudo era tão bonito, o mundo estava sendo controlado pela tecnologia.
E não foi só isto que melhorou, não havia mais guerras, tudo era pacifico, podíamos fazer nossas escolhas e ninguém nos julgaria. Não havia conflitos, todos éramos amigos uns dos outros, não fazíamos coisas ruins, não roubávamos, não matávamos. Sem lugar para o ódio neste mundo, ele está perfeito. As nações se uniram, já que as placas tectônicas chegaram a se chocar, e então unindo todos os continentes, como a Terra original, a conhecida Pangeia. O mundo se dividiu em cinco cidades governantes: São Paulo; onde fica a cede do governo, Tóquio; destinada a criar as tecnologias, Manchester; vestimentas e a cede da moda, Atenas; onde se encontra o maior conhecimento do mundo e finalmente, Joanesburgo; o centro de cultivo. Todas essas cidades têm sua devida importância, e se houver algum erro nelas seria o fim, todas iriam cair, como um efeito dominó.
Os humanos conseguiram chegar ao seu auge, podiam agora controlar completamente tudo! Em uma das ruas de São Paulo corria uma garota, com patins voadores completamente, desesperada. A garota tinha cabelos dourados e olhos verdes, estava no meio de uma multidão, e ela precisava chegar aos teletransporte a tempo! Eles logo iriam se fechar e aparecer em outro lugar! E eles são caros! Economizou sua mesada por uma semana para se poupar de chegar atrasada na escola! Não, não iria chegar atrasada desta vez.
Apertou o botão vermelho de seus patins, e o mesmo começou a brilhar, a loura se assustou a principio. Era a primeira vez que fazia isto, sempre foi alertada de nunca fazer por ser perigoso, e blá, blá... E realmente foi, sentiu como se estivesse sendo levada para um buraco negro, não conseguia controlá-los, e todos os humanos daquele lugar estavam sendo atropelados pela garota.
Já estava rezando para o ser supremo do mundo, quando a energia de seus patins finalmente acabou, e ela acabou tropeçando no meio da multidão. Se não fosse por seu fiel amigo, Thiago, ela ainda teria rolado pela escada da Estação de Teletransportes de São Paulo. Ele a segurou pelos ombros, fazendo que ela finalmente parasse.
— Winnie! Mas que merda você estava fazendo?! — Gritou, enquanto puxava a garota e corria para entrar na cabine de teletransporte.
— Tentando não chegar atrasada na escola hoje, como você.
— Não precisava tentar se matar. — Suspirou — Mas... Você me empresta esses patins, Winnie?
— Claro, estou louca para ver o que você está planejando hoje!
— Você não faz ideia do que seja...
A cabine não tinha nada de especial, uma grande tela negra, que mostrava os lugares que poderiam chegar com o teletransporte, e um leitor biométrico ao lado. Winnie se aproximou do leitor, colocando sua mão sobre ele. Rapidamente suas informações foram ditas pela voz robótica dentro da sala:
— Winnie Stewar, sexo: feminino, idade: 17 anos, nascida em 15 de dezembro do ano 4.800 DPM, descendente dos antigos irlandeses, altura: 1,67, peso: 47 kg, sem modificações corporais. Teletransporte aprovado, por favor, selecione seu local de destino. A viagem custará 70 matrizes que já foram tiradas de sua conta bancária. Caminhe até o circulo de teletransporte, e tenha um bom dia.
A garota caminhou ate o circulo, acenando para o amigo. E então o circulo que ficava no chão brilhou, e o corpo de Winnie foi desaparecendo aos poucos, ate não sobrar nada que provasse que a garota uma vez esteve na cabine.
O outro que sobrou na cabine fez o mesmo procedimento que todos teriam que fazer quando se tele transportam.
— Thiago Santos, sexo: masculino, idade: 17 anos, nascido em 13 de dezembro do ano 4.800 DPM, descendente dos antigos brasileiros, altura: 1,80, peso: 61 kg, sem modificações corporais. Teletransporte aprovado, por favor, selecione seu local de destino. A viagem custará 70 matizes que já foram tiradas de sua conta bancária. Caminhe até o circulo de teletransporte, e tenha um bom dia.
~~//~~
Chegando à principal e única escola de São Paulo, Escola União da Pangeia, que ocupava 30% da cidade, com um campus enorme que se dividia em cinco áreas, primário, ensino médio, colegial, faculdade e área de lazer. As áreas eram enormes que pareciam bairros, tanto que se você andasse por lá sem um guia poderia se perder e nunca ser encontrado. A entrada da escola era de um portão gigante com vários robôs guardando o lugar, sem o chip de identificação escolar e o identificador de vozes você nunca poderia entrar. Para chegar até a Área Colegial, teria que caminhar por uma fileira de árvores e atravessar o primário, o que levaria bons 50 minutos. Claro, que se você fosse do jeito normal. E Winnie e Thiago não eram normais, nem um pouco.
— Velocidade máxima, piloto Santos? — Perguntou Winnie com um sorriso sacana.
— Claro, você acha que está falando com quem? — Devolveu o sorriso.
Estavam em um carrinho do campus, o qual havia sido produzido completamente pelos dois, Winnie tinha prendido seus patins na parte traseira do carrinho e Thiago estava dirigindo, o que não era uma boa combinação. A loira apitou o botão vermelho, aquele que havia trazido problemas esta manhã, e parece que não foi o bastante para os dois. No momento que os patins começaram a surtirem efeito, Thiago pisou forte no acelerador, e então não demorou 5 minutos para atropelarem todas as pessoas da área escolar, e o freio não pegava de jeito nenhum.
E o que Stewar fez? Riu, riu como se não houvesse amanhã, e quando o moreno ouviu suas risadas começou a rir também, mesmo que seus corações estivessem disparados pela velocidade e o freio não pegasse.
— Winnie! Se eu sobreviver e não for expulso, lembre-se de nunca ouvir minhas idéias!
E com essa frase chegaram ao seu destino, literalmente. O carrinho do campus invadiu a sala do 3º ano Z, e finalmente as baterias dos patins e do carro acabaram, e o casal estava completamente tonto. Todos os alunos estavam surpresos, bem. Não é todo dia que sua sala é invadida por dois pirados dirigindo um carro na velocidade máxima. E o surpreendente era que ninguém se machucou.
Os dois envergonhados suspiraram e saíram do carro como se nada tivesse acontecido.
— Bom dia, gente! — Thiago com sua típica face cínica cumprimentou todas as pessoas da sala que estavam mais mudas que qualquer ser terrestre naquela cidade.
— E ae, gente? — Winnie disse simplesmente disse se sentando em seu lugar.
Todos que estavam assustados olharam para a cara dos dois garotos e começaram a rir. Toda manhã era assim, uma entrada surpreendente na sala, ninguém se importava, sabiam que a intenção dos dois não era machucar, porque não existe uma pessoa no mundo que quer fazer isso. O ódio já havia sumido do planeta há muito tempo. Além disso, não havia o porquê se preocupar, já que os robôs escolares de limpeza já estavam concertando todo o problema que Winnie e Thiago haviam causado.
A professora, que também é um robô, entrou na sala. A aparência da robô não era muito diferente das outras, na verdade não era nem um pouco diferente das que ensinavam a mesma matéria. Cabelos curtos e escuros, os típicos olhos escarlates que estão em todos os robôs, e o rosto sem expressão, seu nome é Jesmine 22, e a única forma de diferenciar esta das outras, era o número em sua identificação.
Jesmine observou com atenção a sala de aula, seus orbes correram por todo o lugar, com sua inteligência artificial perfeita, não demorou muito tempo para que decifrasse o enigma. Parou no meio do palquinho que tinha na frente das carteiras dos alunos e começou a falar:
— Bom dia, alunos do 3º ano Z — Cumprimentou. — Antes de começarmos os ensinamentos, solicito que o indivíduo que causou toda essa confusão se apresente.
Não demorou muito que Winnie e Thiago se levantassem, não tinham que se esconderem, já que sabiam que terem destruído a sala foi errado, e precisavam se desculpar.
— Sinto muito, Jesmine — Thiago começou a falar. — O que fizemos foi errado, prometo que vou tentar não fazer nada parecido.
— Também sinto muito, — Winnie disse envergonhada por estar chamando muita atenção — não deveria ter emprestado meu patins.
— Aceito suas desculpas, mas foi retirado de suas contas bancárias o dinheiro para pagar o concerto.
— Tudo bem. — Disseram juntos.
A aula continuou normalmente, e nada de especial ocorreu. Parecia que às 10 horas escolares passaram em um segundo. Winnie tinha aulas adicionais e participava de um clube, por isso só saiu da escola depois de 12 horas, era cansativo, mas ela sentia que tinha que fazer isso como uma aluna exemplar, era como se fosse programada para isso. Já era a última aula do dia, e Winnie já estava louca para dormir, estava quase babando na carteira. Richard não era um robô agradável.
O holograma de Elise Dixon invadiu a sala de aula do curso de Thiago, ela sorria tanto que seu sorriso parecia que iria rasgar seu rosto. Acenava com mão, enquanto seus cabelos enrolados balançavam com o vento, era impossível não notá-la do lado do professor Richard 00, um dos robôs mais antigos da Área Colegial, apesar de que ele próprio não notava Dixon. Os alunos, com pena de Richard, avisaram o pobre professor de geografia, bem, não era culpa do robô, eles não foram feitos para perceberem hologramas que aparecem atrás dele, ainda mais os mais antigos como 00.
— Elise Dixon, — Falou com sua habitual voz robótica — poderia me falar o motivo de invadir minha aula?
— Claro, Richard — A voz de Dixon era doce, a mesma era uma das garotas mais simpáticas e desejadas da escola — Vim buscar meu namorado, nos temos um encontro hoje.
— De acordo com meus dados, eu deveria parabenizar. Mas gostaria de pedir para não invadir minha aula, poderia, por favor, se retirar? Tenho certeza que vão se encontrar depois.
— Tudo bem! — Disse em tom prolongado e fazendo um sinal de paz com suas mãos — E Thiago, não esqueça do nosso en-con-tro!
A de cabelos encaracolados piscou um de seus olhos e o holograma desligou. Thiago ficou como um tomate olhando para os alunos, todos dirigiam olhares de surpresa para o descendente dos brasileiros. Bem, era meio óbvia a surpresa, não fazia nem um mês que namoravam e já estavam íntimos assim, além disso, Elise, como foi dito, era uma das garotas mais bonitas e era modelo, e Thiago, bem... Ele era só Thiago. Não faziam ideia de como o garoto tinha conseguido aquela beldade.
Talvez a causadora do namoro fosse Stewar, ela era o tipo de garota que fazia de tudo para que seu amigo fosse feliz, e para isso tinha alguns truques. E mesmo sem ela, Thiago era bem bonito, não que sua beleza fosse de um astro de cinema, mas ele tinha sua beleza natural, ou talvez, o que atraía nele, era sua personalidade brincalhona e divertida.
Winnie olhou para se colega com seu típico olhar sacana, rindo da expressão que Thiago fez, seus dedos indicadores se encostavam e ela fazia biquinho, quando o brasileiro viu, pegou o caderno digital e escreveu algo como: "Me deixe ser feliz, sua chata". A loura riu com a resposta dele, sabendo que não era isso que ele realmente queria dizer, mas Richard podia ler tudo que era escrito nos cadernos digitais, e Thiago já tinha muitos problemas.
~~//~~
O dia escolar de Winnie terminou bem, já eram quase sete da noite e ela já estava quase chegando em casa, ela tivera que ir a pé, ou seja, estava quase morta e longe de casa. Sua mãe, Elizabeth, descobriu que ela tinha feito mais uma de suas aventuras para chegar na hora certa na aula, e retirou o dinheiro de sua conta bancária por uma semana. O que quer dizer que ela teria que ir e voltar a pé todos os dias, isso não era nada agradável.
Os amigos de Winnie riram da cara dela quando souberam da notícia, afinal, quem não riria? Não era nada mais merecida, ela já causara vários problemas essa semana, não era surpresa que logo receberia um castigo. No entanto, o que mais deixou Stewar irritada, foi o fato de seu querido melhor amigo nunca ser punido, não era justo! E todo mundo dizia que a vida estava completamente justa pra todos, já que quase não havia tristeza no mundo! Então porque ela tinha que ser punida? Oras, não iria ficar assim.
Suspirou, e percebeu que havia alguém chamando por seu nome, olhou para trás e não viu nada. Continuou patinando, e ouviu de novo. Estava prestes a virar seu rosto para olhar com mais atenção.
Foi naquele momento que uma voz e junto ela uma escrita se formou: "Não faça" em sua mente.
Fale com o autor