Pandêmico
1 #1 - Corte final
Notas iniciais
As ruas andavam quase sempre vazias naqueles tempos, somente reservadas aos insensatos e trabalhadores.
A morte fora normalizada. A cura parecia um sonho longínquo, uma névoa indistinguível à distância, vaga e confusa, numa escuridão profunda.
Alguns poucos ainda eram obrigados a sair, é claro. Eu podia ver a fenda de seus olhos entre a máscara e o capuz, pois fazia frio naquela época, para piorar.
Eu era um deles. Descendo a rua, as mãos nos bolsos, em direção ao ponto de ônibus mais próximo.
— Ei, cadê sua autorização? — gritou um guarda ao passar por mim. Eu mal o vi se aproximar. Era obrigatório andar com alguma comprovação de que você estava trabalhando ou precisava sair de casa, a menos que quisesse dormir numa cela, cercado por outros desafortunados, correndo um risco maior de contaminação.
Puxei depressa a carteira do bolso de trás e exibi um papel. O guarda assentiu.
Conforme ele se afastava, alguns rostos corajosos surgiram por entre as frestas de suas janelas ou pelo vãos de suas portas e começaram a chamar:
— Ei, não quer dar uma olhada nos dentes?
— Posso fazer sua barba! Por um preço bem camarada!
— Tá precisando de roupas novas? Tenho ótimas de frio aqui dentro. Vem ver!
Então, percebo que estou numa antiga rua transversal, outrora popular por suas lojinhas. Impedidos de abrir, os donos por trás se arriscavam agora a atender na surdina. Afinal, os aluguéis continuavam a ser cobrados, bem como todos os outros boletos. Donos de imóveis eram um dos poucos assegurados de seus ganhos.
Aceno com simpatia e recuso os convites.
Próximo do final da rua, porém, passo por um antigo salão de beleza e vejo duas senhoras sorrindo do outro do lado das portas de vidro. Uma delas faz um gesto com a mão, chamando.
— Está precisando de um corte? — ouço. — Vem cortar com a gente!
Meu coração se aperta. Duas senhoras de idade. Receosas por detrás da entrada, encolhidas. Uma delas lembra minha avó. Hesito. Meu cabelo realmente precisa de mãos profissionais. Durante aqueles meses, comprei uma máquina pela internet e me virei sozinho, o que significa que minha cabeleira está um cocô.
— Vai ser rapidinho! Somos profissionais!
— Quanto? — pergunto, me aproximando.
— 25.
"Barato demais". Elas devem realmente estar precisando.
Olho duas vezes em direção à rua e concordo.
Elas abrem a porta rapidamente e entro, batendo os pés.
— Olá, como se chama? Está bem?
— Só com um pouco de frio.
— Aquele guarda estúpido já foi?
Deixo um riso amarelo escapar e digo que sim.
— E o que você faz na rua a essa hora? — uma delas mede imediatamente minha temperatura, nervosa.
— Eu trabalho num mercado — aproveito e esfrego álcool em gel nas mãos.
— Ah — elas dizem com um suspiro.
Mercados, farmácias, polícia e telemarketing. Um dos poucos ramos obrigados a continuar a rotina normal de trabalho.
— Bem, vamos descer. Tenho uma sala lá embaixo. Não podemos correr o risco de alguém passar e nos ver cortando seu cabelo aqui na frente. Tudo bem, querido?
— Claro! Entendo perfeitamente.
— Como você gosta? — pergunta a senhorinha de cabelos tingidos.
— Ah, bem, eu andei aparando sozinho, então nem queira imaginar como minha cabeça está! Se puder corrigir as falhas, já agradeço.
Elas riem.
— Ah, fofinho! E de pensar que não somos serviço essencial, hein? Venha...
Elas me conduzem a uma escada no canto do salão principal.
— Sueli, aguarde aqui! Temos um cliente agendado para daqui a pouco. Não custa torcer para que ele não cancele!
— Sim, amada. Qualquer coisa, eu aviso.
— Venha, menino. É por aqui. Pode ir na frente.
— Então, como vocês estão se mantendo? — tento puxar conversa.
— Ah, sobrevivendo, né. Alguns clientes que já eram fiéis ainda nos visitam escondido, marcando por telefone. E assim vamos levando. Mas difícil saber se o aluguel do próximo mês será pago ou não.
— Imagino — comento, constrangido.
A escada em espiral é comprida. Ao final, me deparo com um sala recém montada.
— Agora, precisamos fazer tudo na surdina, como bandidas — ri a mulher. — A cadeira está lá do outro lado.
Súbito, ouço a porta no andar de cima abrir e a outra velhinha atender.
— Ah, graças, ele veio! — minha acompanhante ergue as mãos aos céus.
Sorrio, compreensivo.
— Deve ser complicado mesmo — digo, em direção à ponta do salão improvisado.
— Você nem imagina, criança.
Então, uma sombra enorme aparece à minha frente, antes que eu alcance a cadeira. Dou um passo para trás por instinto, vejo um brilho prateado cortar o ar diante de meus olhos num relâmpago, e, em seguida, uma pontada de dor, porém, a lâmina apenas arranha meu pescoço. Me viro para fugir, mas a senhora bloqueia meu caminho, o rosto amargurado. Por que ela precisava lembrar tanto minha falecida avó? Eu poderia lhe empurrar, chutar, mas hesito, vacilo feio...
— Desculpe, criança, mas cortar cabelo rende menos que cortar um rim.
As mãos grossas do intruso oculto cobrem meu nariz com um pano fedido.
Antes de desfalecer, escuto um berro no andar de cima, do infeliz que compartilha neste instante o mesmo futuro que eu. A diferença é que ele agendou.
Notas finais
me ajudem. Alguém ainda anda por aqui? haha
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