Pandêmico
2 #2 - Crochê
Notas iniciais
Ela achou que seria divertido. Eles nunca tiveram a oportunidade de ficar juntos assim, de verdade, 24 horas por dia, desde que haviam se casado e o trabalho consumira todo o tempo de seu marido.
Agora, no entanto, tinham essa chance.
Com a quarentena obrigatória, a empresa permitiu que seus funcionários trabalhassem em casa. Com a possibilidade de uma vacina bem distante, era o único jeito.
Ele odiou, é claro. Como ficaria sem seus colegas de escritório? O happy hour nas sextas-feiras? Os papos camaradas e as piadas esdrúxulas entre os gabinetes?
Ela ficou ansiosa, é claro.
No primeiro dia, preparou um café da manhã bem especial para os dois.
Ele curtiu, elogiou, trocaram carinhos enquanto mastigavam croissants e torradas, numa clima bem comercial de manteiga. Muito amor, atenção, falaram sobre o clima, a vizinha surtando devido ao novo vírus, o primo comunista que lavava os produtos do mercado, a máscara fixa na cara. Quanto exagero...
— Não seria perfeito? — ela dizia o tempo inteiro.
Sem filhos, parentes, somente os dois, dentro de casa, com o tempo só pra si. Ele precisava trabalhar, é claro, mas estaria ali, numa mesa a alguns passos de distância do seu amor. Quem sabe até não podiam viver assim pra sempre?
— Que exagero! — ele respondia. — A vida precisava voltar ao normal! Trânsito, comércio, correria... O mundo não pode parar! Que neura de mulher...
Ela ria, achando graça. Tacava-lhe um beijo e corria para a cozinha para preparar um almoço caprichado.
À noite, eles viam um filminho, de mãos dadas, comendo besteira. Então, transavam e dormiam... Ele sempre roncava assim? Não lembrava... Quando ele chegava do trabalho, exausto e tarde da noite, ela já estava deitada.
Logo, ele se instalou sem reservas na sala e de lá não saía mais.
Quer dizer, sair saía, para ir ao banheiro e tomar banho após às 22.
Com o laptop no colo, o sofá virou seu escritório, um depósito acolchoado de embalagens de salgadinho, barras de chocolate, suco de caixinha, copos de água, refrigerante, e latinhas de cerveja que ele constantemente a pedia para trazer.
— Nossa, nunca pensei que fosse tão bom trabalhar em casa, afinal! — urrou uma vez.
Claro, podia alternar entre as planilhas e um futebolzinho na tv, entre uma videoconferência e um pulo na geladeira para mordiscar o bolo confeitado.
— Quarentena vem de quarenta dias, não? Já estamos aqui há três meses... Alguma previsão de retorno, querido? — ela perguntou uma vez enquanto fazia seu crochê.
— Ih, mozão, acho que a empresa vai acabar adotando esse método, sabe. Não precisa mais pagar por locação, vale-transporte... E como estamos em casa, o horário de trabalho fica mais flexível. Agora mesmo que não temos hora!
— Mas isso é um absurdo!
— Que exagero! A economia não pode parar.
Ao final do primeiro mês, ela já não ria tanto.
Desde quando ele tinha aquele bafo azedo? Desde quando não aparava os pelos das axilas? Ele sempre mastigou feio daquele jeito?
De repente, tudo nele a incomodava.
Começou a dormir mal e acordar cedo, pois, quando ele levantava, era barulhento e espalhafatoso, e não raro quebrava xícaras e queimava as coisas no fogão.
A sala estava sempre imunda e o sofá parecia com frequência feder a peido, ao peido dele, que constantemente ela ouvia, entre um arroto e outro, entre uma piada grotesca durante uma videochamada com os amigos, entre um pulo que ele dava ao banheiro, antes de deixar a tampa do vaso levantada e o chão repleto de respingos de urina.
"Como eu pude me apaixonar por alguém assim?"
Ela sentia que estava prestes a surtar.
Desde quando ele soltava aquele cheirinho ocre? Como conseguia trabalhar com uma mão enquanto a outra ficava enfiada dentro da cueca? Qual fora a última vez em que vira o marido cheiroso e arrumado?
— Querido, nenhuma chance disso acabar?
— Disso o quê, meu bem? O mundo? O mundo já acabou, querida, e a culpa é dos chineses...
Até que um dia, um abençoado dia, chegou.
Ela dormiu até não poder mais, e as juntas doerem de tanto ficar deitada.
Só então a mulher se levantou, preparou um café da manhã bem gostoso para si e inspirou, criando coragem para arrumar a casa, em especial a sala degradada por aquele porco fedorento que devorara seu marido.
Pôs uma música no mais alto volume, e, só quando sua sala voltou a cheirar a lavanda, ela tomou um banho, se masturbou demoradamente, passou seus cremes de pele e, com fome, fez o melhor almoço que pôde para se satisfazer.
Comeu sozinha, deliciando-se com a própria companhia, o silêncio e a paz e bons aromas.
Já eram cinco da tarde quando, enfim, retornou ao quarto e encarou o marido.
Agora, o que ela faria com aquele corpo inchado, horroroso e nojento em sua cama? Começou removendo a agulha de crochê, de aço inoxidável, 1,75mm, que enfiara em seu pescoço mal barbeado.
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