Pandora's Box
5 Primeiro contato
Notas iniciais
Não posso negar que tremi muito naquele momento.
"Não há dúvidas." — falou Haru — "Ela é o Desespero."
"O-O que nós precisamos fazer agora...?" — perguntou Pandora também tremendo.
"Nós precisamos pegar o colar e quebrá-lo." — disse Haru com naturalidade.
Como ele podia estar tão calmo assim? Haviam pessoas ao redor gritando e chorando. E o desespero em pessoa estava praticamente na nossa frente, literalmente.
"Como vamos fazer isso?" — perguntei.
"Simplesmente pegue o colar e quebre, ué." — disse ele rindo.
"Ela vai reagir se fizermos isso, não é?" — disse Pandora assustada.
"Acho que não temos escolha." — disse ele tirando a máscara — "Deixem comigo dessa vez. Mas da próxima, você vão ajudar também.
Assim, ele sorriu e me entregou a máscara dele.
"Cuide para mim, por favor." — falou ele.
"Uh... okay." — eu disse encarando a máscara.
Haru cutucou o ombro da menina.
Por incrível que pareça, apesar dela ser a personificação de algo como o Desespero, ela era realmente linda, cheguei a invejar um pouco a sua aparência. Enquanto ela virava para olhar a pessoa que tinha a chamado, pude ver o sorriso sádico que ela tinha no rosto.
Ela pareceu estranhar que sua presença não afetava Haru, e ele continuava calmo.
"Olá moça, pode me entregar o seu colar?" — ele disse sorrindo com o canto da boca.
"Você é...?" — disse ela.
"Sim. Meu nome é Haru. Muito prazer. Me entregue o colar que tudo ficará bem." — disse ele.
Parecia que ele estava se divertindo, ele não pode levar tudo na brincadeira assim...
"Eu não conheço você. — disse ela inquieta — "Saia do meu caminho."
"Desespero, por que tanta insistência?" — falou ele zombando da reação da menina.
Naquele momento, a menina sacou um punhal que escondia em seus sapatos e em um movimento brusco, atingiu o braço esquerdo de Haru. Pude ver o tom de sua camiseta azul clara se transformar em vermelho lentamente.
Eu não conseguia pensar direito, eu não sabia o que fazer, toda a minha atenção que antes estava dividida entre os dois e a multidão correndo em volta, se focou apenas neles. Apenas no braço de Haru sendo perfurado.
Ele estava fazendo isso para nos ajudar, e acabou se ferindo, agora eu preciso ajudar ele também... comecei a chorar, pude ouvir que Pandora fazia o mesmo. Apenas vi Haru olhando disfarçadamente para onde estávamos e dando um sorriso bobo, que na verdade, estava repleto de dor.
Aquilo simplesmente me fez sentir o real desespero.
Larguei a mão de Pandora e entreguei a máscara de Haru a ela. Num impulso, peguei as adagas que estavam dentro de minha mochila.
Enquanto corria em direção dos dois, eu... travei.
O que eu estava pensando? Iria machucar aquela menina? Iria... matá-la? Mas mesmo assim, não podia deixar Haru sofrendo.
Andei em passos lentos e pesados até chegar atrás da menina. Levantei o braço e segurei a adaga firmemente.
Eu não conseguia sentir mais nada, só tinha desespero tomando meu corpo. Acho que estava chorando mais uma vez. Tudo parecia quieto. O barulho de todos os gritos em volta de mim, Pandora chamando meu nome, tudo... pareceu desaparecer durante aqueles instantes, exceto uma frase, dita com uma voz feminina realmente doce: "Ela não é humana. Ela não é real, Yoshino." — a frase ecoou na minha cabeça.
Olhei para o lado e vi que Haru ajoelhava-se e tocava no ferimento de seu braço esquerdo, com a tentativa de parar o sangramento.
Então, simplesmente abaixei meu braço. Abaixei com força e senti o impacto.
A menina se debateu e imediatamente, largou seu punhal no chão, o que permitiu que Haru arrancasse o colar dela, mesmo com dificudade. E assim, ouvi o barulho de algo pequeno se quebrando.
Enxerguei uma luz novamente, igual a de quando Pandora tinha aberto a caixa, mas passou rapidamente, e logo, pude ver o que estava em minha frente de novo.
Era a mesma menina, só que agora, com os cabelos e roupas completamente de cores claras e suaves. Ela sorriu gentilmente.
"Bom trabalho." — ela sussurou.
E assim, desapareceu.
Olhei em volta, e vi as pessoas se acalmando, elas não gritavam mais. Estavam agindo como se nada tivesse acontecido minutos atrás, conversavam e riam como antes faziam.
Olhei para Haru e vi ele ainda se encolhendo no chão.
O menino de cabelos castanhos apenas me olhou de volta sorrindo e fez um sinal de positivo com a mão.
"Meu deus... você está bem?" — eu disse preocupada.
"Não foi muito profundo, mas dói bastante." — ele falou com a voz falhando — "Eu vou ficar bem."
"Não, não vai. Precisamos fazer um curativo agora, se não, pode agravar o ferimento." — eu disse tristemente.
"Não, não. Não precisa se preocupar." — ele falou fazendo um sinal de paz com os dedos.
"Me deixe ajudar, por favor... é o mínimo que posso fazer." — falei com os olhos úmidos.
Pude notar o rosto de Haru ficar levemente vermelho.
"Se você insiste." — falou ele colocando a mão no rosto.
"Okay! Espere aqui só por um instante." — falei com um tom um pouco mais alegre.
Levantei e andei até onde Pandora estava. Ela parecia ter parado de chorar, e me olhou com os olhos brilhando.
"Eu fiquei com tanto medo. Mas você foi incrível, Yoshino!" — ela disse animada.
"Você acha mesmo? Eu só agi por impulso... acho que a presença dela, do Desespero, me fez reagir." — falei um pouco incomodada.
"Ah, entendi. Mas isso não desmente o fato de que você foi incrível." — ela disse.
"Obrigada..." — falei enquanto ajeitava a touca que ela estava usando — "Pandora, pode me ajudar a fazer os curativos no braço do Haru?"
"Ah, claro que posso." — ela disse.
Assim, pegamos os esparadrapos que eu havia guardado na minha mochila e cobrimos a ferida de seu braço.
"Wow, obrigado, me sinto bem melhor agora." — falou ele — "Podemos ir agora!"
"Ir para onde...?" — falei.
"Já está escurecendo, vamos em algum lugar para podermos descansar." — disse ele.
"Mas a nossa casa fica muito longe daqui, seriam aproximadamente meia hora de caminhada novamente." — falou Pandora desanimada.
"Minha casa fica aqui por perto, vamos para lá." — ele falou.
"Certo... não iremos incomodar?" — falei.
"Não tem problema algum, eu moro sozinho e tem bastante espaço lá." — ele disse já sem a expressão de dor que antes estava estampada em seu rosto.
"Então vamos!" — falou Pandora — "Apesar de eu não ter ajudado vocês, eu fiquei cansada."
"Okay! Ah, Pandora, está com a minha máscara, não é? — perguntou ele.
"Sim!" — Pandora tirou a máscara de um dos bolsos de sua mochila e entregou a ele — "Aqui."
"Obrigado por tomar conta." — falou ele sorrindo gentilmente enquanto colocava a máscara.
Então, todos nos levantamos e andamos até a área residencial da cidade. Não demorou muito para avistarmos uma casa muito bonita, pintada inteiramente de beje.
"Chegamos." — falou o menino, já abrindo o enorme portão.
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