Pandora's Box
4 Desespero
Notas iniciais
Passaram-se mais ou menos trinta minutos e eu e Pandora continuamos apenas seguindo aquele menino que dizia chamar-se Haru, até que, por fim, chegamos no centro da vila em que morávamos.
Nós já fomos lá alguma vezes, era um lugar feliz, tinha pessoas cantarolando e sorrindo pelas ruas, trazia uma sensação agradável e acolhedora, mas... tudo estava diferente dessa vez... as pessoas que antes estavam sorrindo, estavam agora chorando. Eram lágrimas de desespero, disso não tenho dúvidas. Pessoas correndo de um lado para o outro, se arrastando pelo chão, enquanto mais e mais lágrimas escorriam pelos seus rostos.
"Realmente, está acontecendo de novo." — disse Haru parecendo assustado, mas sua voz parecia a mesma de antes, com o tom calmo de sempre.
"De novo...?" — eu disse um pouco nervosa — "você já viu algo assim antes?" — falei ainda mais assustada.
"Não é algo que eu queira falar sobre neste momento, mas algum dia você entenderá." — ele disse enquanto sorria com o canto da boca.
Por que aquele menino precisava ocultar coisas de nós? Agir de uma forma tão "misteriosa" faz parecer que ele não confia em nós duas.
"Ei, Har-" — imediatamente, Haru colocou o seu dedo indicador na frente da minha boca para fazer-me ficar em silêncio.
"Venham por aqui." — sussurou ele enquanto colocava sua máscara de volta.
Pandora e eu apenas continuamos seguindo Haru até chegarmos em uma espécie de beco.
"Acho que aqui já está seguro..." — disse ele com a voz um pouco abafada pela máscara que cobria sua boca — "abrir a caixa resultou em tudo isso que vocês acabaram de ver lá fora.".
Senti Pandora apertando minha mão mais forte. Quando virei para ela, pude pereber algumas lágrimas que ela estava tentando manter em seus olhos, acho que Haru percebeu isso também. Ele se ajoelhou na frente de Pandora e acariciou sua cabeça.
"Você não sabia disso, não é culpa sua." — disse ele em um tom gentil, enquanto Pandora pareceu realmente se acalmar.
"C-Certo..." — disse ela com uma expressão triste.
"Haru, quem exatamente é você?" — eu disse com um tom mais sério, para ele não ignorar novamente.
"Eu sou uma pessoa que veio ajudar vocês. Simplesmente isso." — ele disse com aquele mesmo olhar e provavelmente, o mesmo sorriso de sempre, só que agora, escondido pela máscara mais uma vez.
"Francamente... você não nos conta nada. Eu não estou segura em confiar em você." — eu disse enquanto tremia um pouco.
"Eu sei que deve ser difícil confiar em alguém que mal conhece mas, eu prometo que nunca faria nada de ruim para vocês. Eu somente quero ajudar... eu sou o unico que pode ajudar, aliás. Por favor, acreditem em mim." — disse ele muito sério.
Eu não sabia muito bem como reagir, eu fiquei surpresa por ele ter falado algo sem ter aberto aquele sorriso no canto da boca.
"Eh... okay. Iremos confiar em você... mas por favor, não nos abandone." — eu disse.
Parando para pensar agora, eu parecia uma criancinha falando isso.
"Não irei fazer isso." — ele disse com um tom calmo e gentil. — "Agora, eu preciso explicar o restante para vocês."
"Restante de que?" — perguntou Pandora.
"O que não coube naquela carta." — ele disse — "A tempos atrás, a caixa ter sido aberta resultou no nosso mundo de dias atrás, aquilo foi um grande impacto, mas conseguimos estabelecer a paz mesmo assim. Porém, dessa vez vai ser diferente. Agora tudo o que resta de "bom" nesse mundo é a esperança. O motivo de eu estar aqui." — explicou ele.
"Como assim...?" — eu disse ainda confusa.
"É algo muito difícil de se explicar... muito difícil mesmo... podemos dizer que, se nós demorarmos tempo demais, o mundo pode entrar em colapso e simplesmente, acabar. Sem as coisas boas, as coisas ruins tomarão conta de todas as pessoas, objetos, animais... simplesmente de tudo."
"Mas, vá direto ao ponto, como podemos recuperar tudo que perdemos?" — eu perguntei.
"Destruindo." — ele disse de uma maneira firme.
"Destruir? Isso não geraria mais coisas ruins?" — disse Pandora.
"Tudo depende do que vamos destruir." — ele respondeu.
"Você só está deixando isso cada vez mais confuso, apenas nos fale o que devemos fazer." — falei.
"Bem, todas as coisas ruins foram personificadas, ganharam uma forma humana para poderem passar despercebidas por nós." — afirmou ele.
"C-Como assim? Você só pode estar de brincadeira... isso não é possível, não é real!" — eu disse — "isso é algum tipo de brincadeira de mau gosto? Se for, por favor pare." — falei já com o tom da voz alto, a ponto de quase falar gritando.
"Yoshino, se acalme." — ele falou fazendo uma expressão triste.
"Eu não sei como vou conseguir acreditar em tudo isso..." — falei abaixando a voz.
"O que exatamente precisamos fazer com essas "pessoas"? Nós vamos... matá-las...?" — perguntou Pandora com receio da resposta que teria.
"Não. Nós não vamos matá-las. Vamos simplesmente trazê-las de volta ao normal." — respondeu Haru.
"O que quer dizer com isso?" — ele perguntou.
"As coisas boas estão por dentro das más, portanto, apenas precisamos trazê-las de volta." — disse Haru.
"Eu não consegui entender direito." — disse Pandora meio sem graça.
"Não tem problema, eu mesmo não sei explicar direito." — Haru falou enquanto ria um pouquinho.
"Tem alguma personificação neste lugar?" — perguntei.
"Sim. Aqui temos a personificação do desespero. Só precisamos encontrá-lo. Todas as personificações tem um símbolo semelhante ao formato de um coelho em algum lugar de suas roupas. Podem ser homens ou mulheres, e de idades variadas." — disse ele.
"Certo. Vamos ter que andar por aqui e procurar?" — perguntei.
"Exatamente. Vamos." — ele disse já tomando a frente para começarmos a seguí-lo mais uma vez.
Passar por toda aquela multidão foi desconfortável, pessoas gritando e implorando por ajuda sem nem mesmo ter algum motivo aparente, só estavam lá, se debatendo e sofrendo...
Enquanto andávamos, passamos por uma menina aproximadamente de minha idade que usava um colar com o pingente em formato de coelho.
"Haru, poderia ser ela... o Desespero?" — falei enquanto apertava a mão de Pandora mais forte.
Fale com o autor