Notas iniciais
Agradeço muito que tem realmente alguém lendo, comentarios nao movem essa estoria, mas ajudam muito a dar inspiração e vontade extra. Espero que gostem.

Cris.

Não demorou nem um minuto para Raul, Alan, Luan e Dressa subirem, a lanterna de Ket não tinha sinalizado para mim desde então. A noite fora silenciosa e pacifica, mas agora um ronco potente vinha do norte, do bairro vizinho.

— Isso é um... Carro? – Dressa perguntou em voz baixa

Não ouve tempo de responder, um carro grande surgiu na ladeira acima do condomínio, faróis brilhando na escuridão da madrugada, atropelando todos os zumbis a sua frente, mas arrastando uma horda deles em seu caminho. Senti meu coração acelerar e o tempo passar em câmera lenta, o carro atropelou um zumbi e começou a ziguezaguear como se o motorista tivesse perdido o controle do veiculo.

Quatro...

O carro seguiu em rota de colisão com a caixa d’água.

Três...

O rosto de Ket e Del apareceram na entrada, mochilas nas costas e mãos juntas.

Dois...

O impacto espalhou rachaduras e a caída d’água desmoronou.

Um...

Uma mão cobriu minha boca e o grito dos zumbis ajudou a acobertar o meu próprio grito.

Raul.

O corpo de Cris vacilou e eu me lancei em sua direção a tempo de abafar seu grito e impedir sua queda. Luan segurou Dressa e Alan ficou petrificado olhando a cena, mas meu foco era Cris que agora tinha os olhos abertos em terror e culpa, ela se agarrou a mim.

— Elas deviam estar aqui, eu... Eu devia ter ido busca-las – ela estava recaindo no pânico, e por mais que eu quisesse me juntar, não poderia fazer isso com ela.

— Não foi culpa sua – a apertei o mais firme possível em meu peito – se você estivesse lá eu estaria sozinho.

— elas deviam ter vindo conosco, se eu não tivesse me distraído o zumbi nunca teria nos visto...

Cris não falou mais, os olhos escurecendo aos poucos enquanto o fogo que sempre queimava em seu olhar se apagava. Soluços altos preenchiam o ar e eu não podia dizer se eram dela, meus ou dos outros.

— Cris, fica comigo. Não foi sua culpa, mas você não pode me deixar depois de tudo o que passamos. – ela não respondeu, os olhos fecharam firmemente e suas mãos apertadas na minha camisa – Eu preciso de você.

Outra voz, a voz de Alan, respondeu.

— O carro pegou fogo e alguém saiu da porta de trás e correu, partes dos zumbis foram na perseguição, mas esses caras atraíram a maior horda que eu já vi desde o dia que isso começou. Temos que sair daqui, eles vão quebrar as portas do hall sem nenhum esforço.

Ergui a cabeça para vê-lo.

— Precisamos pegar o máximo de suprimentos que conseguirmos carregar – respondi – eu posso ficar com as duas enquanto vocês pegam tudo.

Luan arrastou Dressa ate o meu lado e Alan não questionou o porquê de eu ficar, Cris ainda não se movera um centímetro e ainda agarrava com firmeza minha camisa.

— Não esqueçam lençóis, podem parecer um luxo e uma perda de espaço, mas é muito útil.

Dressa se enrolou como uma bola e manteve a cabeça apoiada em mim, envolvi a menina com um braço e mantive o outro segurando Cris.

— Você foi forte por mim antes, eu vou ser forte por você agora.

Alan

Uma das vantagens de ser da marinha e viver embarcando entre uma missão e outra é a facilidade que você aprende a fazer as malas, e o número de malas e bolsas de viagem que você tem a sua disposição.

Pulei pelo alçapão com Luan logo atrás de mim, ele, assim como eu, sabia exatamente onde pegar as bolsas e o que encaixar primeiro. Separamos cinco mochilas, as nossas e a de Cris e Raul, e todas as quatro bolsas de viagem.

— Malas não vão ajudar a andar com rapidez – Luan comentou deixando as duas malas no guarda roupa.

— As rodas fazem barulho, embora fosse ótimo se pudéssemos leva-las – respondi – Mais armazenamento.

A Ideia de Cris de trazer tudo para perto foi inteligente e nos pouparia tempo, não pude não pensar no quão inteligente minha menina era, a competente jogadora de xadrez que sempre pensa nos movimentos à frente.

Lençóis mais grossos no fundo amorteceriam o impacto e protegeriam a comida; tudo o que não fosse perecível, mas poderia ser cozinhado foi numa bolsa: arroz, feijão, açúcar, trigo e farinha. Tudo o que tínhamos dividido igualmente entre as bolsas e mochilas, em cima disso colocamos três pequenas panelas, e então as porções de comida pronta, uma para cada um de nos.

Luan franziu a testa quando eu deixei o resto da comida pronta de lado.

— fora da geladeira vão estragar em 12 horas, seria peso desnecessário.

Ele assentiu e coletou roupas que Dressa tinha separado para cada um, cada mochila recebeu as roupas do seu respectivo dono e nas bolsas de viagem os suprimentos médicos e lençóis finos fecharam resto de seu espaço útil.

Quanto tempo tinha demorado? Eu não podia dizer já que a adrenalina ainda corria em grandes quantidades no meu sangue.

— Está meio pesado isso Alan – Luan apontou – as meninas podem ter dificuldade em carregar.

— Então nos teremos que levar – respondi – podemos não achar esses suprimentos de novo com a mesma facilidade e abundancia.

Ele não discutiu pegou duas bolsas, duas mochilas e seguiu para fora do apartamento, eu olhei em volta, ainda haviam lençóis jogados e travesseiros, se alguém entrasse saberia com certeza que alguém esteve ali.

— Alan, Raul desceu com as meninas.

O tom não era alto, mas o sobressaltou do mesmo jeito.

— Até mais ver – pus meu relógio no bolso e peguei as coisas restantes.

Dressa tinha os olhos vermelhos e o rosto inchado, ela aceitou a mochila sem dizer uma palavra e começou a descer as escadas. Cris tinha os olhos vazios e estava perigosamente distraída, nem mesmo percebendo a mochila que Luan tinha posto aos seus pés.

— Ela vai aguentar sair agora? – Luan perguntou a Raul, que ainda tinha o olhar focado em Cris.

— Ela tem que conseguir – ele respondeu pegando a mochila dele, a dela e uma bolsa – Melhor irmos logo ou os zumbis vão voltar a andar nessa direção.

A descida foi silenciosa e Dressa já aguardava do lado das portas do hall, olhando atentamente para fora. Não havia nenhum sinal de zumbis, os grunhidos estavam vindo da mesma direção, a entrada do condomínio.

— Para onde vamos? – sussurrou minha irmã – Precisamos de uma direção.

Olhei para os outros, ninguém pensou em uma direção e só ir para longe não seria uma boa ideia.

— A delegacia – a voz rouca de Cris interrompeu o silencio – fica a um quilometro e meio e pode nos abrigar por um tempo. Temos que sair da cidade e lá tem os mais fortificados carros e armas.

Na penumbra eu podia ver os olhos dela, tristes e nublados, ela olhou em direção a Dressa e segurou a mão de minha irmã. Ela passou um pedaço de papel para Raul, que começou a mexer na pochete junto ao quadril em seguida.

— Ket ficaria muito feliz de ver você, mas agora nos devemos ficar feliz que ela não vai mais sofrer com a situação que vivemos.

Cris abriu a porta do Hall e pediu que Luan nos guiassem em direção à falha no muro que nos permitiu entrar no condomínio. Deixei-o ir à frente, levando Dressa e Cris e lancei um olhar questionando Raul.

— Como ela se recuperou tão rápido?

— Ela não se recuperou – ele respondeu com o rosto fechado – Ela esta sendo forte, pela Ket e Del, pela Dressa. Quando estivermos em segurança ela vai quebrar e sentir a dor e luto, mas agora ela não se permite sentir.

Ele saiu e deixou um molho de chaves e um bilhete do lado de um vaso de margaridas, depois seguiu o grupo, não precisei perguntar para quem era o bilhete ou as chaves, se houvesse alguma chance das meninas estarem vivas elas saberiam onde estávamos indo e teriam as chaves para se abrigar.

Aproveitando as ultimas horas de escuridão caminhamos rente ao muro para pular ate a área de mata ao lado dos condomínios e começar a correr ate nosso destino. E enquanto eu empurrava Dressa pela cerca e lhe lançava a primeira mochila não pude parar de pensar que mesmo numa realidade onde hordas de zumbis era uma ameaça constante, eles nunca seriam piores que os seres humanos.

Notas finais
Deixem um comentario ou sugestão. Não seja um fantasma nessa estoria.