Pandemônio
5 Capítulo 5
Notas iniciais
Cris.
Não demorou nem um minuto para Raul, Alan, Luan e Dressa subirem, a lanterna de Ket não tinha sinalizado para mim desde então. A noite fora silenciosa e pacifica, mas agora um ronco potente vinha do norte, do bairro vizinho.
— Isso é um... Carro? – Dressa perguntou em voz baixa
Não ouve tempo de responder, um carro grande surgiu na ladeira acima do condomínio, faróis brilhando na escuridão da madrugada, atropelando todos os zumbis a sua frente, mas arrastando uma horda deles em seu caminho. Senti meu coração acelerar e o tempo passar em câmera lenta, o carro atropelou um zumbi e começou a ziguezaguear como se o motorista tivesse perdido o controle do veiculo.
Quatro...
O carro seguiu em rota de colisão com a caixa d’água.
Três...
O rosto de Ket e Del apareceram na entrada, mochilas nas costas e mãos juntas.
Dois...
O impacto espalhou rachaduras e a caída d’água desmoronou.
Um...
Uma mão cobriu minha boca e o grito dos zumbis ajudou a acobertar o meu próprio grito.
Raul.
O corpo de Cris vacilou e eu me lancei em sua direção a tempo de abafar seu grito e impedir sua queda. Luan segurou Dressa e Alan ficou petrificado olhando a cena, mas meu foco era Cris que agora tinha os olhos abertos em terror e culpa, ela se agarrou a mim.
— Elas deviam estar aqui, eu... Eu devia ter ido busca-las – ela estava recaindo no pânico, e por mais que eu quisesse me juntar, não poderia fazer isso com ela.
— Não foi culpa sua – a apertei o mais firme possível em meu peito – se você estivesse lá eu estaria sozinho.
— elas deviam ter vindo conosco, se eu não tivesse me distraído o zumbi nunca teria nos visto...
Cris não falou mais, os olhos escurecendo aos poucos enquanto o fogo que sempre queimava em seu olhar se apagava. Soluços altos preenchiam o ar e eu não podia dizer se eram dela, meus ou dos outros.
— Cris, fica comigo. Não foi sua culpa, mas você não pode me deixar depois de tudo o que passamos. – ela não respondeu, os olhos fecharam firmemente e suas mãos apertadas na minha camisa – Eu preciso de você.
Outra voz, a voz de Alan, respondeu.
— O carro pegou fogo e alguém saiu da porta de trás e correu, partes dos zumbis foram na perseguição, mas esses caras atraíram a maior horda que eu já vi desde o dia que isso começou. Temos que sair daqui, eles vão quebrar as portas do hall sem nenhum esforço.
Ergui a cabeça para vê-lo.
— Precisamos pegar o máximo de suprimentos que conseguirmos carregar – respondi – eu posso ficar com as duas enquanto vocês pegam tudo.
Luan arrastou Dressa ate o meu lado e Alan não questionou o porquê de eu ficar, Cris ainda não se movera um centímetro e ainda agarrava com firmeza minha camisa.
— Não esqueçam lençóis, podem parecer um luxo e uma perda de espaço, mas é muito útil.
Dressa se enrolou como uma bola e manteve a cabeça apoiada em mim, envolvi a menina com um braço e mantive o outro segurando Cris.
— Você foi forte por mim antes, eu vou ser forte por você agora.
Alan
Uma das vantagens de ser da marinha e viver embarcando entre uma missão e outra é a facilidade que você aprende a fazer as malas, e o número de malas e bolsas de viagem que você tem a sua disposição.
Pulei pelo alçapão com Luan logo atrás de mim, ele, assim como eu, sabia exatamente onde pegar as bolsas e o que encaixar primeiro. Separamos cinco mochilas, as nossas e a de Cris e Raul, e todas as quatro bolsas de viagem.
— Malas não vão ajudar a andar com rapidez – Luan comentou deixando as duas malas no guarda roupa.
— As rodas fazem barulho, embora fosse ótimo se pudéssemos leva-las – respondi – Mais armazenamento.
A Ideia de Cris de trazer tudo para perto foi inteligente e nos pouparia tempo, não pude não pensar no quão inteligente minha menina era, a competente jogadora de xadrez que sempre pensa nos movimentos à frente.
Lençóis mais grossos no fundo amorteceriam o impacto e protegeriam a comida; tudo o que não fosse perecível, mas poderia ser cozinhado foi numa bolsa: arroz, feijão, açúcar, trigo e farinha. Tudo o que tínhamos dividido igualmente entre as bolsas e mochilas, em cima disso colocamos três pequenas panelas, e então as porções de comida pronta, uma para cada um de nos.
Luan franziu a testa quando eu deixei o resto da comida pronta de lado.
— fora da geladeira vão estragar em 12 horas, seria peso desnecessário.
Ele assentiu e coletou roupas que Dressa tinha separado para cada um, cada mochila recebeu as roupas do seu respectivo dono e nas bolsas de viagem os suprimentos médicos e lençóis finos fecharam resto de seu espaço útil.
Quanto tempo tinha demorado? Eu não podia dizer já que a adrenalina ainda corria em grandes quantidades no meu sangue.
— Está meio pesado isso Alan – Luan apontou – as meninas podem ter dificuldade em carregar.
— Então nos teremos que levar – respondi – podemos não achar esses suprimentos de novo com a mesma facilidade e abundancia.
Ele não discutiu pegou duas bolsas, duas mochilas e seguiu para fora do apartamento, eu olhei em volta, ainda haviam lençóis jogados e travesseiros, se alguém entrasse saberia com certeza que alguém esteve ali.
— Alan, Raul desceu com as meninas.
O tom não era alto, mas o sobressaltou do mesmo jeito.
— Até mais ver – pus meu relógio no bolso e peguei as coisas restantes.
Dressa tinha os olhos vermelhos e o rosto inchado, ela aceitou a mochila sem dizer uma palavra e começou a descer as escadas. Cris tinha os olhos vazios e estava perigosamente distraída, nem mesmo percebendo a mochila que Luan tinha posto aos seus pés.
— Ela vai aguentar sair agora? – Luan perguntou a Raul, que ainda tinha o olhar focado em Cris.
— Ela tem que conseguir – ele respondeu pegando a mochila dele, a dela e uma bolsa – Melhor irmos logo ou os zumbis vão voltar a andar nessa direção.
A descida foi silenciosa e Dressa já aguardava do lado das portas do hall, olhando atentamente para fora. Não havia nenhum sinal de zumbis, os grunhidos estavam vindo da mesma direção, a entrada do condomínio.
— Para onde vamos? – sussurrou minha irmã – Precisamos de uma direção.
Olhei para os outros, ninguém pensou em uma direção e só ir para longe não seria uma boa ideia.
— A delegacia – a voz rouca de Cris interrompeu o silencio – fica a um quilometro e meio e pode nos abrigar por um tempo. Temos que sair da cidade e lá tem os mais fortificados carros e armas.
Na penumbra eu podia ver os olhos dela, tristes e nublados, ela olhou em direção a Dressa e segurou a mão de minha irmã. Ela passou um pedaço de papel para Raul, que começou a mexer na pochete junto ao quadril em seguida.
— Ket ficaria muito feliz de ver você, mas agora nos devemos ficar feliz que ela não vai mais sofrer com a situação que vivemos.
Cris abriu a porta do Hall e pediu que Luan nos guiassem em direção à falha no muro que nos permitiu entrar no condomínio. Deixei-o ir à frente, levando Dressa e Cris e lancei um olhar questionando Raul.
— Como ela se recuperou tão rápido?
— Ela não se recuperou – ele respondeu com o rosto fechado – Ela esta sendo forte, pela Ket e Del, pela Dressa. Quando estivermos em segurança ela vai quebrar e sentir a dor e luto, mas agora ela não se permite sentir.
Ele saiu e deixou um molho de chaves e um bilhete do lado de um vaso de margaridas, depois seguiu o grupo, não precisei perguntar para quem era o bilhete ou as chaves, se houvesse alguma chance das meninas estarem vivas elas saberiam onde estávamos indo e teriam as chaves para se abrigar.
Aproveitando as ultimas horas de escuridão caminhamos rente ao muro para pular ate a área de mata ao lado dos condomínios e começar a correr ate nosso destino. E enquanto eu empurrava Dressa pela cerca e lhe lançava a primeira mochila não pude parar de pensar que mesmo numa realidade onde hordas de zumbis era uma ameaça constante, eles nunca seriam piores que os seres humanos.
Fale com o autor