Notas iniciais
Mais um capitulo por que eu tive um mini surto criativo, espero que gostem.

Cris

A delegacia ficava a cerca de um quilometro e meio de distancia seguindo pela pista, quase dois quilômetros andando em silencio pela mata preservada que cercava a rua de entrada do bairro. Tempo mais que o suficiente para eu seguir em frente mecanicamente e tentar abafar as vozes que gritavam na minha cabeça. Dressa caminhava ao meu lado, cabeça baixa e olhos no chão para evitar cobras, eu confiava que ela avisaria se alguma aparecesse em nosso caminho.

“Você as deixou para trás sem checar, que tipo de pessoa faz isso?”

Em um bom momento eu poderia responder mordaz ou insensível para a voz, mas num momento como agora, ignorar era o melhor que eu podia fazer. Imaginei a garota que eu fui aos 12, correndo em minhas memorias em busca de uma que pudesse me distrair. Nenhuma das boas memorias apareceu.

— Cobra – Luan avisou segurando meu braço

Pisquei vendo a cobra se movendo vagamente a minha frente, eu teria pisado nela se tivesse dado mais dois passos.

— Valeu.

— Estamos parando por cinco minutos – ele informou – Dressa não esta se sentindo bem.

Ele apontou a irmã que fora sentada em um tronco caído e acenava com a cabeça enquanto ouvia Alan e Raul falarem.

Dressa só olhou para cima quando eu cheguei perto, ignorando os irmãos ela me puxou para um abraço firme, pedindo consolo e oferecendo-o ao mesmo tempo. Uma memoria escureceu meus olhos.

— sério, um dia desses, eu vou pirar nesse internato.

—Vai nada, você gosta dessa loucura que eu sei – minha melhor amiga me olhou como se eu a tivesse ofendido – Nem tente negar.

— Achei que tivéssemos combinado de você me levar pra casa Cris, não para falar o que achamos que a outra gosta, mas se você quer, eu sempre posso ligar para...

— Não essa historia de novo – Olhei para a rua quase vazia, uma viatura policial estava limitando quem passava somente o ‘pessoal essencial’ podia sair – agora é a hora de você parecer sonolenta, como quem acabou de trabalhar 36 horas.

Ela tinha, realmente, trabalhado 36 horas, mas já tinha dormido por quase duas horas dentro do hospital. Sem discutir, Mayla deitou a cabeça no encosto do banco e deixou o cansaço costumeiro expulsar os vestígios de riso do rosto.

O policial olhou brevemente a placa do carro de Mayla enquanto eu me aproximava, depois puxou um tablet, anotou a placa e perguntou quase roboticamente:

— motivo de estar na rua?

— buscar minha amiga no plantão, estamos indo para casa.

— e ela não pode dirigir?

— não com segurança depois de um plantão de 36 horas.

— vocês são vizinhas?

— não, eu estava na casa dela quando o isolamento começou, moro em outra cidade e não posso voltar até reabrirem o aeroporto da cidade. Os pais dela também estão presos no interior sem poder voltar.

Com tudo devidamente anotado ele acenou para o próximo guarda nos deixar passar e foi empurrado quando o corpo de uma pessoa se chocou contra ele. O policial começou a gritar, o barulho fez Mayla sentar ereta no banco e o outro a atirar em quem quer que tenha derrubado o primeiro policial.

Estiquei meu pescoço para ver da janela, o policial agora convulsionava enquanto uma mulher obesa o mordia no pescoço.

O mordia?

— Que merda é essa?

Mayla saiu do carro para olhar antes que eu falasse outra coisa, o segundo policial conseguiu matar a mulher e correu junto de minha amiga para tentar socorrer o homem no chão.

— Chama uma ambulância Cris, ele vai morrer rápido sem apoio.

Minhas mãos buscaram o celular embaixo da minha coxa, mas meus olhos estavam focados no sangue se espalhando do ferimento do policial, vermelho de inicio e depois com algo escuro conforme as convulsões diminuíam.

— O sangue dele May, está ficando preto!

O rosto da minha amiga ficou pálido e amedrontado, ela recuou do corpo agora imóvel.

— Feche a janela – o tom assustado não combinava com ela, eu nunca a tinha visto assim – Policial, se afaste dele. A doença já...

O corpo antes imóvel se lançou sobre o segundo policial e da casa ao lado quatro pessoas gritaram estridentemente enquanto sacudiam os portões. Mayla abriu a porta do passageiro e entrou, mas alguém tentou forçar a entrada junto, uma criança de rosto sujo e boca sangrenta.

Ela esticou o corpo tentando morder Mayla e eu avancei com o carro, passando por cima de alguma coisa.

— O que foi isso?

— Isso foi o motivo de eu ter saído em 36 horas e não em 48. No ultimo estagio da infecção os doentes estão começando a convulsionar e sangrar pelos orifícios, depois eles atacam quem estiver perto. Mandaram todos para casa no Hospital, os pacientes internados estavam todos chegando nessa fase.

— Por que não estão nos dizendo desse estagio? E por que é a primeira vez que você me diz isso? – ela não respondeu – Que vírus faz algo assim? A mulher parecia querer devorar o policial.

Um choro estrangulado me fez desviar os olhos da estrada, Mayla tinha uma gota de sangue saindo de cada um dos olhos e nariz.

— Mayla?

— Não fica perto Cris, eu estou contaminada – ela tentou se espremer na porta se empurrando o máximo possível.

— Como? Temos tomado todos os cuidados, mesmo com você no hospital.

— Eu não sei... Eu não tive contato próximo com nenhum paciente até o policial e o período de incubação é de um mês antes dos sintom... – ela olhou para o braço e encontrou um arranhão com uma mancha preta, exatamente onde aquela criança, aquela coisa, a puxou – É o... O arranhão, a doença contamina por sangue.

Lagrimas de desespero tentaram nublar minha visão, e minha melhor amiga parecia estar lutando com as próprias gotas vermelhas que saiam dos olhos.

— Diz pros meus pais que eu os amo – ela fungou a mão espalhando a gota de sangue na bochecha – você foi uma ótima amiga, escuta o meu conselho e fala com o Leo, ele realmente gosta de você.

Mayla abriu a porta do carro e se jogou na pista. Pisei fundo no freio o mais rápido possível e tentei dar ré, pelo retrovisor eu vi Mayla convulsionar no chão e meu corpo parou de reagir.

Um.

Minha amiga se debatia no chão.

Dois.

Eu continuava recuando com lentidão, dando trancos e mais trancos como se estivesse dirigindo pela primeira vez.

Três.

Uma pequena mancha vermelha se formou no chão quando a cabeça dela atingiu o asfalto com um baque nauseante.

Quatro.

O corpo antes convulsionante ficou imóvel.

Cinco.

Mayla se levantou com os olhos vermelhos de sangue e vazios, seu corpo cheio de arranhões da queda. Ela ganhou equilíbrio e gritou estridentemente antes de avançar contra o carro.

— Sinto muito – o sussurro de Dressa trouxe de volta toda a dor que eu tentei afastar daquele momento em diante nos últimos dois meses. Depois de sessenta e dois dias e quatro horas eu me deixei chorar.

Uma mão masculina se apoiou no meu ombro, a sensação de estar num lugar seguro me segurou até as lagrimas acabarem.

Dressa

Quando Cris desabou em choro meus irmãos olharam ao redor preocupados, o choro podia atrair zumbis, mas eu sabia que ela precisava disso. Depois de ver meu pai morrer em casa e atacar minha mãe e Dennis eu tive que ser arrastada por Luan enquanto Alan empurrava papai e mamãe. O corpinho pequeno de Dennis se debatendo no chão ainda me acorda de noite, meu irmãozinho tinha apenas 4 anos, mas depois de dois meses eu consegui superar a dor paralisante e o terror, principalmente pelo apoio constante dos meus irmãos. Não sei quem Cris viu morrer além de Mel, Del e Ket, mas sei bem o quanto dói se sentir inútil ou ser culpada de uma morte.

Foram cerca de trinta minutos apenas esperando Cris se acalmar enquanto Raul a apoiava, quando ela se levantou com os olhos vermelhos e inchados e pegou as próprias cargas o grupo inteiro a seguiu. Eu sempre a admiraria por isso, mesmo na escola, com todas as pessoas que não gostavam dela, ela se destacava por sua resiliência e força.

Por mais terrível que fosse me perguntei quanto tempo mais ela conseguiria ser forte sem deixar o fim do mundo mudar sua personalidade, era terrível desconfiar de alguém como ela, uma amiga e conhecida, mas quando as próprias vidas estão em risco você descobre que pode confiar em poucas pessoas.

Notas finais
Deixem comentarios e sugestões, ajudam muito!
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.