Pandemônio
4 Capítulo 4
Notas iniciais
Cris
— Raul e eu já tivemos a conversa ‘o-que-houve-antes-da-epidemia-não-importa’ e eu realmente não acredito que eu tenho que falar isso de novo.
— Eu realmente preciso pedir desculpas- Alan começou, mas eu o interrompi logo em seguida.
— Pelo que exatamente? Por me fazer achar que você era diferente? Por ser um completo covarde e omisso quando eu precisei de você? Por falar pelas minhas costas? Ou por ser o pior projeto de ‘namorado’? Você quer escolher?
Raul não moveu nenhum músculo, ouviu em silêncio apenas movendo os olhos entre mim e Alan. Já o outro parecia ter levado um tapa de cada acusação minha, exatamente o que eu queria.
– Eu disse pra deixar isso no passado, é exatamente o tipo de memória que eu não preciso me preocupar num momento como esse.
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Raul
Cris saiu irritada e o silêncio prevaleceu por vários minutos. Desconfortável e pesado, eu não seria o primeiro a quebrar, Alan por outro lado limpou a garganta e tentou mudar um pouco do assunto anterior.
— Então, esse.. Negocio de sobrevivência é tudo ou vocês são mais que amigos?
— Eu perguntaria o porquê do seu interesse, mas acho que não mudou muito desde o nono ano não é?
O silencio desconfortável se tornou um clima tenso, onde nos encaramos e mantemos os braços fechados junto ao corpo. Ele não vai conseguir me intimidar depois de eu viver de dois meses nesse apocalipse do mesmo modo que eu não vou intimidá-lo.
— Seja honesto e eu serei honesto – Alan diz abrindo os braços – Um acordo de cavalheiros.
— Não somos nada mais que amigos, ela deixou bem claro há muitos anos que ela pode tomar decisões como essa na vida dela – meus braços voltam a se cruzar
— Você quer ser mais, não quer? – Ele insistiu.
— Se eu quiser ou tiver deixado de querer não é da sua conta, eu fui um péssimo amigo e tenho minha segunda chance agora, não vou estragar tudo de novo e é melhor você não insistir nisso.
Ele pareceu considerar o que eu falei por um momento antes de responder.
— Você não estava errado sabe, eu ainda gosto dela desde aquele tempo e não penso em desistir agora que descobri ela viva e perto.
Meu sangue queria ferver com o ciúme, mas o sorriso de escárnio que tomou meu rosto foi mais forte. Ele podia tentar, mas duvido que consiga.
— Eu desejaria boa sorte, mas isso é para quem tem alguma chance mínima.
Eu caminhei até o alçapão e desci, tinha problemas reais que eu tinha que cuidar e a hora de falar não tinha prioridade agora.
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Cris
Lidar com memorias era a ultima coisa que eu queria fazer, pensar no passado sempre foi difícil pra mim com toda ansiedade e autocritica que envolvia lembrar-me de coisas que eu queria mudar, mas na situação como a de hoje em dia com zumbis estalando as mandíbulas a centímetros da minha pele, pensar no passado só me levaria a um abismo que eu luto para me afastar todos os dias. Quão fácil não seria eu me deixar morrer? Seria um anestésico para a dor das lembranças e das perdas, sem mais ter que lidar com isso só porque alguém precisa que você seja forte.
“você esta bem perto de uma oportunidade dessas, há zumbis suficientes cercando o prédio, pule e os leve para longe morra como uma heroína e se livre desse peso”.
Inconscientemente ando ate a janela mais próxima e abro uma fresta.
“Não mais dor, apenas um fim”.
Meus punhos travam no fecho da janela e eu sacudo a cabeça, a voz recua dos meus ouvidos tomando seu lugar entre os meus pensamentos onde ela residia há anos.
— Há uma razão pra viver, sempre há uma razão pra viver. – minha voz não passa de um misero sussurro, mas me da à força necessária para empurrar a depressão e as lembranças de lado no momento.
Mel morreu e as irmãs dela precisam de mim.
Raul perdeu a mãe e precisa do meu apoio.
Eu tenho uma lista de pessoas que preciso procurar antes de sair daqui, e eu não vou desistir delas.
Sinto a teimosia pura empurrar o que sobrava da tentação de pular a janela e volto ao apartamento de Alan onde Luan e Dressa tiveram a iniciativa de preparar camas para dormir, eu dormiria com Dressa e os outros três meninos se viravam entre as outras camas.
A menina mais nova quase cambaleava de cansaço e a hora de dormir não demorou uma vez que tínhamos de levantar antes do nascer do sol, Raul anunciou que o primeiro seria dele e eu não protestei. Deixei Dressa se enrolar em mim, buscar o conforto de um rosto amigo e calor humano e a segurei perto enquanto deixava o sono vir.
Pareceram apenas dois minutos de sono, mas o relógio digital indicava que tinham passado 6 horas desde a ultima vez que eu estive acordada. O turno de Raul tinha acabado e ele estava deitado bem próximo a mim, como nos dias que tínhamos que dormir em algum esconderijo avulso por uma noite.
— Bom dia – Alan não parecia feliz ao me cumprimentar, havia uma sombra embaixo de seus olhos indicando falta de sono.
— Dia- murmurei de volta piscando o sono pra longe – que horas você pegou o turno?
— cerca de duas horas atrás, eu já ia te acordar de qualquer maneira já que são três da manhã — ele apontou para o relógio – Melhor se arrumar e sair antes do sol sair.
Tomando as palavras como incentivo eu me desvencilhou de Dressa e cutucou Raul. O rapaz abriu os olhos de imediato e não precisou de incentivo para levantar, apenas olhou o relógio e esticou a mão para puxar a mochila.
— Hora de buscar Del e Ket? – ele perguntou com a voz meio rouca
— Sim, vou lavar o rosto e libero o banheiro logo- respondi passando a mão pelo meu cabelo revolto – Talvez ainda faça uma trança ou um coque, melhor que prender o cabelo por ai.
Raul acenou e acrescentou um ‘coque é melhor’ antes que eu saísse da sala.
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Alan
Alan só observava mudo a interação, desgostando do entendimento deles, mas sabendo que ouviria duras palavras se implicasse. “Companheirismo demais” pensou ciumento.
— Você devia ter algum cuidado para não dar bandeira sabe- comentou baixo para Raul que o olhou confuso – bem, acordar assim tão animado pode ser desconcertante para algumas meninas.
Alan ficou feliz em ver o rosto irritado do ‘amigo’ e deixou um sorriso de escarnio em seu rosto.
— Sonhando com Cris?
— E se eu estiver?- desafiou Raul – não é como se fosse proibido achar minha amiga linda e atraente.
O som de passos silenciou qualquer resposta que pudesse vir de qualquer um dos meninos, Cris reapareceu mais desperta e com o cabelo preso num coque semelhante ao que ela usava no colégio, usando calça jeans pretas e justas e uma camisa de mangas curtas escura. Por um momento os meninos apenas avaliaram sua roupa e desviaram o olhar para o lado oposto.
— Raul sua vez e Alan se quiser sair um pouco do posto eu posso chamar Dressa – ofereceu ela enquanto ia direto a sua mochila pegar a lanterna – preciso sinalizar para Ket que estamos voltando.
— Vou ficar no posto então Dressa pode dormir um pouco mais – anunciei– precisa de ajuda para subir ao terraço?
Ela me avaliou como se pensasse se eu era confiável.
— Sem querer ofender, mas você é magro Alan, acho que sou um pouco pesada pra você – embora o tom usado tenha sido sutil, não pude desfazer minha expressão de raiva.
— Já carreguei coisas maiores que você na Marinha – disse meio ácido, Raul prendia o riso no fundo e Cris apenas apertou os lábios.
— Vou confiar essa vez, mas se você me derrubar vai levar um murro – ela virou com a lanterna na mão esquerda e uma pochete na direita.
Raul já não sorria, olhava irritado para mim e eu fiz questão de ficar o suficiente para dar um sorriso vitorioso e, infelizmente, ouvir o aviso do outro.
— Melhor não escorregar sua mão idiota, ela sempre teve um murro muito bom.
A moça já o esperava no hall do quarto andar, tinha prendido a pochete em seu quadril e a lanterna guardada em segurança. Alan estendeu uma mão para apoiar seus pés e lhe dar o impulso para subir, sentindo os músculos do braço contraindo e o sangue correndo mais rápido quando ela tomou o impulso e subiu em seus ombros. O perfume que ela usou era muito suave, mas era o mesmo que ele se lembrava.
— Vou só abrir o alçapão agora, me mantenha firme – a voz dela era baixa e cortou o momento.
Quando ele ergueu as mãos para segurar o pé dela ouviu o alçapão abrir a viu se impulsionar para cima. Ele esperou ainda olhando para cima, seus pensamentos vagando alto.
“Ela realmente tem trabalhado nos músculos, quer dizer olha só o movimento da...” Ele se interrompeu quando o rosto preocupado e tenso de Cris apareceu.
— Chame Raul agora, Ket respondeu com um sinal de alerta.
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