Pan, the Devil
8 Cap.7 - A Fada Azul
Notas iniciais
Eu continuava a cair. Senti algo ao meu lado, voltei a forçar meus olhos a se abrirem. – Mandei confiar... – Ouvi um sussurro. Não importava, eu estava assustada.
– Cala a boca! Cala a boca! – Disse morrendo de medo para a pessoa que se aproximara. Pan seu idiota. Não tem como eu confiar nele, não têm! Ainda caiam lágrimas dos meus olhos. Eu estava desesperada. Não queria morrer sem ver meus irmãos ou minha mãe ou minhas amigas pelo menos mais uma vez. Não queria morrer sem entender porque Pan era tão temido por todo mundo. O que está havendo? Não quero!
– Pessoal, agora todos juntos... – Ouvi uma vozinha conhecida, arrisquei abrir os olhos.
– Sininho? – Chamei.
– Oi Lucy! – Ela sorriu. – Desculpe não te buscar mais em cima, sempre que Pan tem problemas ele larga o que é importante para ele aqui. – Ela olhou irritada.
Várias fadas me carregavam, pobrezinhas. Eu era pesada. – Obrigada. – Disse aliviada. — E Pan vai me abandonar então? — Minha voz ecoou esperançosa.
– Duvido um pouco. Você é meio que uma droga para ele. Uma droga boa... — Tentou melhorar a situação, não pude evitar de ficar um tanto triste. — Deveria ouvir Pan. – Sininho continuava a descer comigo devagar. – Ele tem razão, na maioria das vezes... – Suspirou.
– E aonde ele foi? – Perguntei.
– Resolver uns problemas... – Sininho respondeu sem dar maiores detalhes.
Devo perguntar? Mordi o lábio. Eu tinha tantas perguntas, porque ninguém me saciava? Eu não entendo, o que é que falta, o que eu não sei? Muita coisa. Conclui.
– Não se preocupe. Ele vai ficar bem – Sininho reconheceu meu silêncio.
Senti-me vermelha. Não me preocupava com Pan. — Ah! Não. Não.... Não estou preocupada com isso. – Tentei negar.
– Ok... – Sininho disse sem se convencer.
– E aonde nós vamos? – Perguntei. Acho que deveria ter perguntado isso primeiro. Por que me preocupei com Pan antes de mim? Pensei.
– Para minha casa! – Ela sorriu.
– Você não mora com Pan? – Perguntei.
– Não. – Ela negou. – Moro com outras fadas. – Ela sorriu.
Voamos. Ok, ela voou, eu fui carregada. Por um caminho longo, que parecia não acabar.
– Chegamos! – Sininho sorriu. – Agora fique quieta. – Ela pediu enquanto as outras fadas que me carregavam pousaram-me próximo da cidade.
– Obrigada! — Sorri. Via uma pequena cidade, um local que mal podia ver, como eu ficaria lá? – Sininho... – Chamei.
Ela me olhou. – Quieta. – Pediu. Concordei. – Feche os olhos. – O fiz. Ela assoprou um pozinho em mim, eu agora sentia-me mais leve. Estava do tamanho de Sininho. – Pronto. – Ela sorriu. Batendo as mãos para retirar o excesso de pó que restara em suas mãos.
Finalmente via o rosto de Sininho, ela parecia muito jovem, como uma criança, mas, era tão madura.
– Venha! Não podemos encontrar com a Fada Azul! – Chamou puxando-me pelo punho andando mais rápido que o normal.
Ela era mesmo pequenina. Caminhei com ela pelo verde, ainda mancando um pouco. – Desculpe... – Balbuciei. Não conseguia acompanhá-la.
– Não por isso. – Ela respondeu. – Esqueci que você estava machucada... – Ela agora caminhava mais devagar. Pouco tempo depois demos de cara com uma entrada bonita e iluminada, não eram luzes, eram brilhos. Toda a cidade era organizada, cheia de seres pequeninos, mulheres e homens com asas.
– Isso é... Uau... – Suspirei. Lembro que meu pai sempre quis me mostrar um lugar assim. Uma lágrima desceu por meu rosto.
– O que foi? – Sininho perguntou assustada.
– Meu pai queria ter conhecido um lugar assim. – Suspirei.
– Quem disse que não conheceu? – Sininho arqueou as sobrancelhas.
– Como? – Perguntei.
– Nada... – Sininho reteve-se. Meu pai? Isso é loucura, certo?
– Bem-Vinda! – Uma fada sorria para mim, ela era mais alta que eu, trajava uma roupa azul, um vestido longo.
– Olá... – Olhei-a de cabo a rabo. Ela parecia rígida.
– Droga. — Sininho praguejou.
– Sininho, vá se preparar. – Pediu a senhora.
– Preparar? – Perguntei. – Vai embora?
Sininho não negou nem concordou. – Não exatamente... – Ela foi interrompida pela mão da Fada Azul.
– Deixa. Explicarei tudo. – Ela sorriu para mim.
– Ah não... Ela ficará comigo e... — Sininho tentou me tirar de perto da Fada.
– Eu insisto. — Ela teimou.
Sininho pareceu perder a voz, provavelmente a Fada Azul era uma das mestras.
Sininho se retirou. – Sininho! – Chamei-a alto, ela se virou.
– Obrigada. – Corri e a abracei.
– Não se preocupe. Nós vamos nos ver de novo, antes do que pensa. – Ela forçou um sorriso, seus olhos estavam tristes. Mas me deu uma piscadela. O que aquilo queria dizer?
– Promete? – Perguntei.
– Não vai esquecer? – Perguntou.
– Como esqueceria? – Perguntei.
– É que... Você já esqueceu... – Ela se virou, eu não entedia mais nada. Saiu andando e não se virou, mesmo que a chamasse.
O que foi que eu esqueci? Passei a mão por meus cabelos tentando lembrar.
– Venha comigo pequena. – Disse a Fada Azul.
– Não me chame assim. – Ordenei. Ela concordou um tanto relutante. Só meu pai me chama de “pequena” e mesmo assim, nunca gostei. Só porque sou baixa não preciso ser pequena. Ótimo, estou mesmo irritada... Conclui.
Se Sininho não gosta dela, também devo evitá-la, certo?
– Irei lhe explicar parte do que está acontecendo. Irá me ouvir? – A Fada falou colocando-me sentada.
– Talvez. Não sou de confiar nas pessoas. – Respondi.
– Sei disso. – Ela continuou. – Seu pai lhe contava que as estralas eram mundos, não? – Perguntou.
Meu coração ardeu em raiva. – Como sabe? – Gritei.
– Acalme-se. Daqui controlamos os sonhos e desejos das pessoas, eu conheço os seus também. – Ela disse friamente. Concordei. – Seu pai nunca veio para cá, infelizmente. Ele era um bom homem e...
– Escute aqui. – A interrompi novamente, não gostava dela. – Se veio aqui me consolar, não quero ouvir. Obrigada. – Retruquei.
– Caramba. Você é pior que Pan. – Ela perdeu a compostura. Ri de sua cara.
– Fico feliz em ouvir isso. Sou melhor que ele. – Ri novamente, estava agora estonteantemente feliz, de uma forma sínica e cruel.
– Eu ia te explicar, já sabe o que fadas fazem, então entenda, aqui não é um mundo mágico.
– Nunca pensei que fosse. – Respondi arqueando as sobrancelhas. – Nem quero estar aqui. – Disse rispidamente.
– Então como veio para cá? – Perguntou-me, ela pelo visto não sabia de muita coisa.
– Aquele Maldito me trouxe. – Fitei-a, seus olhos azuis como o céu tremularam.
– Por que ele fez isso em um momento como esse? – Quis saber.
– Que momento? – Perguntei.
– Nada. Melhor não saber. – Disse.
– Então eu me vou. – Levantei-me para sair de sua sala, ela impediu fechando a porta contra a minha face.
– Deixe-me ir. – Ordenei.
– Ainda não. Quero saber, por que Pan lhe quer... – Suspirou.
– Não sei. Então me deixe. – Mandei de novo.
– Se ele tem a capacidade de lhe trazer até aqui evitando que eu notasse, ele tem bons motivos, e seus poderes aumentaram. – Respondeu, ela parecia transtornada.
– Tá que seja, mas ele não se importa tanto assim comigo. Jamais viria para cá, me largou longe, acho que assim como eu, não gosta de você. – Chiei.
– Deve ter razão... – Suspirou.
– Estão ambas equivocadas... – Pan adentrou pela porta que a um momento atrás estava fechada.
– Você é imbecil? – Olhou para mim.
– Não. Quer parar de sempre me rebaixar? – Mandei.
– Não. É divertido. – Ele riu.
– Calem-se. – Ordenou a Fada. O clima se tornara cada vez mais pesado.
– Sininho? – Pan chamou, a fada agora ao lado dele.
– Desculpe Pan. – Ela suspirou abaixando a cabeça. Por que ela está pedindo desculpas?
– Sim. Bom... Não tem problema, acho que Lucy vai me escutar mais agora que conheceu essa tragédia de fada... – Suspirou.
– Tragédia de fada? – A Fada Azul agora parecia roxa, segurou-me pelo braço e me jogou no chão.
– Explique-se. – Ordenou.
– Cala a boca. – Pan voou sobre mim socando a Fada com força.
– Não! – Gritei. – Agarrei o punho de Pan antes que ele a batesse de novo.
– Mas ela te bateu. — Meu ferimento doía, não me importava. Não quero que Pan faça isso. Não quero.
– Foda-se. Você é melhor do que ela. – Disse.
Ele concordou, passou a mão de leve por meu rosto. Espera, por que eu me importava? Como estava confusa. Que raiva.
– Tá. – Disse ainda irritado. — Está bem? — Perguntou. Concordei com um sorriso fraco, não ia falar que estava doendo. Logo isso passa.
A Fada riu. – Caramba. Não esperava que você ouvisse o que ela fala.
– Medíocre, cale-se. – Ordenou, a Fada obedeceu. – Sininho. – Chamou ele. – Você sempre será melhor que ela. Eu sei disso. – A fadinha sorriu para ele o abraçando.
Expressões de afeto. São tão fofos, parecem irmãos... Sorri para os dois. Pan me fitou e bateu de leve no ombro da fadinha.- Chega... Só tem uma pessoa que quero que me abrace... – Ele olhou por mais alguns instantes para mim. Estava falando de mim? Tentei entender. — E ela está olhando para nós. — Sininho riu, desviei o olhar.
Pan idiota. Ele abraça quem quer, menos eu, já que não quero! Bati com o pé no chão.
A fada riu. – Sim... – Ela olhou para mim. – Lucy. Boa sorte. – Ela disse. – Eu vou viajar. Mas volto, em menos de um mês. Cuide do Pan. — Ela sorriu de novo.
Corri com alguma dificuldade abraçando-a. – Por quê? – Perguntei.
– Quero sair de perto da Azul... – Suspirei.
– Entendo! – Sorri. – Volte! – Pedi.
– Sim. Só vou ajudar uns amigos... – Ela sorriu. – Terei que voltar, Pan não me deixaria sair tão fácil.
– Isso mesmo. Ainda me deve. – Ele respondeu.
A Fada Azul agora se retirava. – Vejo vocês por aí... Pan... Tome cuidado. — Ela disse antes de sair totalmente da sala.
– Não preciso de concelhos seus. – Ele retrucou, a Fada saiu deixando nós três em sua sala. Via uma comoção de fadas contra as janelas do cômodo.
– Pan. – Sininho o olhou mais uma vez.
– Qualquer coisa eu assobio. – Ele piscou para ela.
– Sei que estará bem... Ela sabe lhe controlar muito melhor do que eu. Ou saberá... – Os olhos de Sininho brilharam por um instante antes de sair da sala voando.
– Aonde ela vai? – Perguntar.
– Ajudar uns amigos.
– Até aí eu entendi. – Retruquei.
– Você é estranha. – Ele sorriu para mim parecendo tranquilo de repente.
– O que foi? – Perguntei arqueando as sobrancelhas, teria ele enlouquecido?
– Só cala a boca. – Ainda naquela sala me puxou para perto dele, tocou no meu machucado de leve, enquanto sua outra mão estrangulava a massa de minha cintura. Ele estava me abraçando? Parecia mais que queria me machucar.
– Aí! – Disse.
– Mandei calar a boca. – Ele se aproximou tanto de meu rosto que me obrigou a fechar os olhos, sentia sua respiração batendo de leve contra meus lábios.
– Sai. – Pedi baixinho.
– Se não ficar quieta, te beijarei mesmo.
– Não. – Pedi.
– Você quem sabe. – Ainda de olhos fechados seus lábios desceram até... minha testa. Não pude deixar de suspirar aliviada.
Ouvi em uníssono um suspiro que rodeava a parte de fora do cômodo, as fadas ainda nos observavam pelas janelas.
– Vamos sair daqui... – Ele me pegou no colo, já estava me acostumando com isso.
– Tá... – Disse baixinho. – Como vamos crescer? — Perguntei, em nossa estatura de fada não iríamos muito longe.
Ele sorriu para mim, tirou do bolso um pequeno frasquinho e assoprou pó de fada. – Vamos rápido ou destruiremos a cidade. Logo nos distanciamos, ele voando, eu em seu colo.
Quando já estávamos alto no céu, soquei-o com força no estômago. Ele me segurou com força.
– Porra! Porra! – Ele gritou alto. – Já disse que é forte. Por que fez isso? – Observava-me com os olhos estalados.
– Queria ter certeza. – Assenti sem olhar seu rosto.
– De quê? – Ele ainda parecia puto.
– Que não me soltaria. – Afirmei irritada.
– Não faria isso se não soubesse que estaria segura.
Dei outro soco com maior intensidade. Idiota. Não deveria falar algo assim, só me irrita mais. Deixa-me mais confusa!
– CACETE! – Mesmo gritando não levantou a mão contra mim ou me soltou, mas me colocou nas suas costas e segurou forte minhas mãos. – PORRA! QUER PARAR!?!
– Para você... — Sussurrei. Senti agora suas costas contra minhas bochechas, e falei baixinho. — Obrigada.
– Por quê? – Disse tentando se acalmar. Enquanto segurava minhas mãos juntas com uma de suas mãos a outra massageava seu estômago. Para de drama... Não foi tão forte. Pensei.
– Suas costas são quentes... São largas. Aconchegante. – Sussurrei fechando os olhos. Sua respiração desacelerou.
– Estranha. – Disse.
– Obrigada. — Assenti ironicamente. — Tenho perguntas... Mas faço depois. Se não responder, apanha. – Assenti. Agora suspirando e com os olhos fechados cochilei.
– Estranha... – Ele disse de novo. Olhei para suas orelhas, estavam mais vermelhas que o normal, desta vez não era impressão. Sorri contra suas costas e fechei os olhos uma segunda vez sentindo sua respiração.
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