Palladia
5 Capítulo Cinco.
Notas iniciais
Helena ( P.O.V )
Após uma noite de péssimo sono, sem sonho algum, abrí os olhos. Assim que os abri, percebi dois grandes olhos negros me observando. Dei um grito, e o que me observava soltou um grasnido. Jared e Iorran acordaram na mesma hora. Agora percebia que criatura era aquela, uma ave!
Tinha quase um metro, e um bico fino e longo, como o de uma garça. Suas penas eram do tom salmão mais forte, com nuances vermelho e laranja. Espere, ele tinha quatro asas?
- Que bicho estranho... — Comentou Jared. A ave pareceu não ter gostado, sibilando como um felino faria. Abriu o bico, e em seu interior fileiras de dentes afiados estavam expostas.
- Até que ele é bonitinho. — Eu comentei. Ele não olhava para nenhum de nós, mas emitiu um grasnido leve desta vez. — Parece que ele... nos entende.
- Mas ele é um pássaro. — Comentou Iorran, se aproximando com calma.
- Ei, amiguinho, está nos entendendo? — Perguntei, me achando um tanto louca de conversar com aves. O pássaro grasnou novamente enquanto ajeitava suas penas com o bico.
Fizemos mais algumas tentativas de conversar, mas ele não respondeu. Após não ter sucesso ao conversar com um pássaro de outro planeta, fomos em direção ao topo do farol, subindo nas precárias escadas circulares. A ave, silenciosamente, planou até o corrimão mais alto, nos esperando. Após subir todas as escadas, chegamos ao terraço onde o holofote se posicionava, bem maior do que eu imaginava. O mar se estendia, de um azul ciano intenso, tingido pelo amanhecer, uma aquarela de turquesa e laranja.
- Vejam, tem uma estrada no final da praia. — Jared observou, andando até a outra extremidade, encostando no parapeito de cobre que cercava o holofote.
No final da praia, as gigantescas rochas davam lugar a árvores, e uma estrada de terra batida serpenteava pelo bosque. Ao longe, entre as montanhas, pensei ter visto a silhueta de uma construção, escondida por uma gigantesca nuvem que passava ali.
Finalmente iríamos explorar aquele lugar. Eu estava louca de curiosidade. Descemos as escadarias, e quando o sol marcava quase o meio dia, já estávamos na estrada.
As árvores eram como as da Terra aparentemente, a não ser algumas raras que perfuravam a imensidão verde. Uma delas tinha folhas de tom azul claro, outra da cor vermelha mais intensa, sua sombra alaranjada cobrindo pequenos ninhos nos galhos.
A ave que estava no farol insistiu em nos seguir. Não sei por qual motivo, ela andava por terra com suas longas e finas pernas de garça, nos seguindo com passadas desajeitadas.
- Podemos ficar com ele? — Perguntei, enquanto observava ele andar. Jared e Iorran negaram na mesma hora, mas eu continuei o chamando enquanto caminhava pela sombra. — Vou chamá-lo de... Aleister. — Aleister grasnou , satisfeito.
- Não acredito nisso... — Murmurou Iorran, muito mais adiantado que eu e Jared na estrada.
Passaram-se mais de trinta minutos de caminhada, eu já estava com muita sede e fome, Aleister também parecia insatisfeito, grasnando baixinho a toda passada larga que dava.
Chegamos ao que parecia um penhasco, uma ponte de madeira adornada de barras de cobre ligava até o outro lado, onde montanhas se abriam, continuando a estrada. Nos aproximamos da borda, e abafei um grito.
Não era um penhasco. Abaixo, víamos que a rocha bruta acabava, dando lugar ao céu turquesa. Do outro lado da ponte, uma bica de água caia lentamente na imensidão azul, levada pelo vento.
- Como isso é possível? — Comentei, observando melhor.
- Eu acho que... tudo isso é uma ilha. Uma ilha... flutuante? — Disse Iorran, incrédulo. Mais abaixo das rochas, nuvens passavam lentamente, levadas pela brisa fresca. Ao leste a silhueta de montanhas aparecia em meio ao céu, outra ilha!
Nós três e Aleister atravessamos a ponte de uma só vez. Ela era bem estável, e deveria ser para ligar dois pedaços de terra tão gigantescos.
- Mas... e aquele mar? — Comentei enquanto chegava ao outro lado.
- Deve ser um lago muito, muito grande... por isso tem ondas. — Raciocinou Jared, desviando de Aleister, que apertou o passo pra chegar logo à terra firme.
Assim que atravessamos as montanhas em um estreito caminho, ficamos deslumbrados com a visão que tínhamos. Um gigantesco vale se estendia, da grama mais verde. Lindas flores cobriam metade da terra. Na parte oeste do vale, um lago se estendia, onde uma pequena cachoeira caía para o nada, no céu. Mais adiante, a terra acabava novamente. Uma ponte, o dobro maior do que a anterior, ligava até outra ilha, e mais outra. Muitas outras ilhas menores, sem ligação alguma, flutuavam próximas ao vale, com montanhas, algumas eram muito pequenas, e possuíam uma ou duas árvores, suas raízes atravessando a terra.Bebemos água no lago, e achamos árvores frutíferas em pequenas ilhas que estavam praticamente rentes ao vale. Assim que Iorran pisou em uma delas, ela se moveu perigosamente, mas com algum esforço ele conseguiu pegar alguns frutos e se equilibrar ao mesmo tempo. Ao longe, na ilha onde estávamos antes, um rugido nada amistoso ecoou. Não ficaríamos para descobrir do que foi, então continuamos a caminhada.
Encontramos outras ilhas, mas o único sinal de civilização foi o farol e as pontes que ligavam a maioria dos pedaços de terra. Achamos uma caverna em uma das montanhas próximas, um lugar não muito agradável, mas que servia de abrigo. Sua entrada era estreita, tivemos que nos agachar, mas por dentro duas paredes rochosas subiam alto, dando lugar a estalactites pontiagudas.
Pelo menos assim nada ou ninguém entraria alí. Mas o meu medo não era bem com o que tinha do lado de fora, e sim o de dentro, que depois acabamos descobrindo.
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